segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Preta, Nerd entrevista: Roberta Araújo!



Quantas mulheres negras quadrinistas você conhece? Pois é. A maioria das pessoas só parou pra pensar nisso quando a Marvel anunciou a suposta primeira quadrinista negra: Roxane Gay. Quando digo “suposta” quero enfatizar que a própria Marvel já contratou a Nilah Magruder para A Year Of Marvels: September Infinite Comic #1, que, a despeito de não ser uma série contínua nem ter ido às bancas, tem a marca da casa das ideias estampada na capa. Gay, embora seja uma feminista negra influente (veja seu tedx aqui), nunca trabalhou com quadrinhos, o que levou o público blerd a questionar: existe uma lista enorme de quadrinistas negras, negros, negrxs experientes que carecem de visibilidade, sério que a Marvel não contratou nenhuma dessas pessoas?

Bem, sobre a diferença entre quem produz conteúdo e quem é produzido, podemos lançar pensar um pouco no espaço que o mainstream da para personagens negros e o espaço para quadrinistas negros (sim, os homens cis).

Dou uma segunda chance a você, leitora, para pensar na questão: qual a diferença entre quadrinhos negros e negros nos quadrinhos?



Consciência Preta, Nerd

Em comemoração ao dia da Consciência Negra, entrevistamos a roteirista Roberta Araujo para privilegiar sua produção Nerd. Roberta é roteirista da webcomic D.A.D.A (ilustração da Renata Rinaldi), do selo Pagu Comics, que estreou na plataforma digital Social Comics no dia 20/11/2016! Para ter acesso à HQ assine a Social Comics e curta a fanpage da Pagu!

D.A.D.A


“Protagonizada por quatro heroínas negras, “D.A.D.A” tem o roteiro de Roberta Araujo, arte de Renata Rinaldi e cores de Jéssica Lang. Essa história se passa no futuro, depois que um apocalipse enviou a Terra para uma era sem tecnologia. Nesse cenário árido e violento, quatro mulheres negras, com poderes de suas orixás, tentarão proteger o que restou da humanidade” ( Ana Recalde via Pagu comics)



Preta, Nerd Entrevista Roberta Araújo



PN: Roberta, em primeiro lugar, queremos agradecer sua disponibilidade para contribuir conosco! Como foi a concepção deste quadrinho, as primeiras idéias, a construção do roteiro?

Roberta Araújo

Então, quando Ana Recalde  me convidou e falou que a ideia era criar heroínas brasileiras eu tinha certeza de que ia ser negra. Minha ideia é não só me ver representada, mas que todas nós possamos olhar e nos vermos nessas mulheres. E também pensei nelas como salvadoras e, por isso, veio essa ideia de ter a história em um futuro pós apocalíptico tendo mulheres negras como salvadoras. Nesse primeiro número a ideia é não contar muito sobre elas e colocar elas 4 na ação lutando e salvando as pessoas, e como eu gosto muito de ação, sangue e cabeça sendo arrancadas vai dar pra conferir muito disso na D.A.D.A. rsrs


PN: como surgiu a sua parceria com a ilustradora Renata Rinaldi?

A Ana começou a me apresentar as artistas para fazer o quadrinhos, já conhecia o trabalho da Renata e posso dizer que fiquei mais fã ainda dela depois da D.A.D.A.

PN: Você pode falar um pouco sobre como a experiência com produtos de massa lhe conduziu a querer produzir D.A.D.A?

A D.A.D.A. tem muita influência de filmes de terror e zumbis. Toda essa ideia de pós apocalíptico posso dizer que os zumbis me ajudaram bastante rsrs.

PN: Como você define seu perfil de leitora de quadrinhos? Qual a sua relação com a linguagem?

Eu sou apaixonada por quadrinhos  e hoje em dia sou muito mais ligada aos quadrinhos independentes. E como estudante de história da arte, também pesquiso sobre o assunto.
Quadrinho é uma relação de amor

PN: Qual foi a primeira super-heroína negra que te marcou? Por quê? Há traços dessa experiência em D.A.D.A?

Sem dúvidas é a Ororo sou apaixonada por ela. Principalmente pela figura forte que ela passa e com certeza na D.A.D.A tem MUITOOO disso guerreiras fortes e com liderança.  

PN: Como você enxerga o cenário dos quadrinhos alternativos no Brasil? Você acredita que as iniciativas estadunidenses (Marvel, DC, Dark Horse, Image, Valliant) conferem visibilidade à “””diversidade””” e abrem possibilidades reais de crescimento do mercado aqui?

Eu acho que o quadrinho nacional está em seu melhor momento, as pessoas estão dando mais valor e ninguém mais depende de uma editora pra poder ganhar fãs e conseguir produzir. Eu sempre fico com pé atrás com algumas iniciativas que vêm aparecendo rsrs, mas acaba sendo bom tanto pro mercado quanto para a construção desse novos leitores que estão nascendo e até mesmo pra mudar a visão da galera mais antiga que consome quadrinho  

PN: quais as suas referências de quadrinho nacional?

É até difícil é tanta gente, acabamos nos tornando amigos e fãs uns dos outros rsrs

PN: É notável que suas inspirações políticas já marcam sua estreia nos quadrinhos de forma positiva, tanto pelo valor das ideias quanto pela estética refletir a diversidade étnica da população negra. Você pode falar um pouco sobre isso?

Eu estou muito feliz porque essa repercussão positiva foi meio inesperada, só a divulgação já surtiu o efeito que eu tanto queria. Meninas de todos os tipos se identificando com cada personagem só vendo as imagens dela. Isso me deixa muito feliz, é difícil você crescer sem uma referência visual de você olhar as super - heroínas e você pensar “Poxa nunca vou conseguir se uma” justamente porque elas não foram feitas pra você. Não só a D.A.D.A mas a Pagu Comics estão criando referência para várias meninas no Brasil inteiro.     

PN: Um dos temas comuns quando se constrói roteiros sobre personagens negros é enfatizar a descrição da experiência de racismo e produzir um comentário sobre. Como D.A.D.A avança em relação a isso?

Como a história se passa no futuro o racismo meio que não existe, mas vou tentar trazer a lembrança do racismo do passado. Porque é uma tema que não tem como passar batido.

PN: O plot de heróis negros serem Orixás já foi apropriado até mesmo pela Marvel. Como você você conseguiu montar uma que ao mesmo tempo que fugisse do convencional, ainda contribuísse  de uma forma positiva e questionadora?

Acho que com a nossa herança histórica já me faz ter uma visão bem diferente de como trabalhar com os Orixás. E essa relação com os Orixás são colocadas de jeitos sutis, natural e com muito respeito.

PN: como você define D.A.D.A?

Acho que irmandade e luta define bem a  D.A.D.A.

PN: Você se considera uma militante? você acredita que a arte engajada desencadeia reflexões? De que maneira?

Sem dúvidas, sou a chata do facebook que compartilha tudo em relação a racismo e preconceitos, e não tenho vergonha disso rsrs. Eu acho que a arte é a melhor arma para trabalhar com alguns temas. Porque ela sempre vai atingir quem tem quem atingir

PN: mais uma vez, agradeço pela entrevista Roberta. Você pode fazer o merchan! Rs.

GENTEEE leiam a D.A.D.A, leiam as meninas da Pagu e leiam mulheres que fazem quadrinhos <3

PN: você quer acrescentar alguma coisa?

Só agradecer muito, e não esqueça que toda mulher é sua própria super- heroína <3






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