sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

GENIUS


Afua Richardson (mulher afrodescendente também conhecida como Docta Foo e Lakota Sioux) transita em um meio dominado por homens brancos e se destacou de tal modo que recebeu o Nina Simone Award (2011), premiação por ser uma das poucas afrodescendentes/nativas americanas, mulheres ilustradoras que trabalham no mercado mainstream das grandes editoras Marvel, DC e Image Comics. Além disso, no caminho trilhado por Nina Simone, Richardson é ativista política além de flautista, cantora, beatbox e mentora de comunidade de artistas, para a qual contribui ensinando técnicas.
Além desse contato com artistas, cabe citar que Afua se mostra muito disposta a dialogar com
o público através das redes sociais. Na semana de estreia de Genius (agosto, 2014), várias críticas recaíram sobre a capa e ela abriu o canal em sua página do Facebook para que opinássemos. Nela, a protagonista está deitada, quebrando a quarta parede[1], com o corpo nu envolvido por faixas de isolamento usadas pela polícia.
Essa imagem deve ser lida a partir do contexto da editora que publica a história. Em primeiro lugar, cabe relacionar Genius aos títulos do Top Cow [2] (Image Comics) que são protagonizados por mulheres, como LaraCroft, Tomb Raider e Witchblade (os títulos não são traduzidos para o português). Ambas são séries principais da editora cujas protagonistas são sexualizadas e, nas capas, estão em posições em que atributos corporais "femininos" são destacados e postos à mostra. Uma vez que não é fato isolado, essa objetificação pode ser lida como política editorial do selo, portanto, foge do poder de escolha da artista.
 A faixa que envolve Destiny tem escrito "atenção, mantenha a distância" (em inglês) e a jovem está apontando uma arma em nossa direção. Estes elementos evidenciam a inclinação política da artista, pois: o corpo não aparece disponível, não está ali como colônia, e, quem ousar infringir, receberá resposta à altura. Isso reforça o principio de que, embora a cultura de massa prescreva regras específicas para ampliar o público, ela possibilita certa área de autonomia. Nesse sentido, Afua ser mulher e Negra, bem como Destiny, é o fator-chave que separa seu trabalho daqueles que apenas, correspondem às fantasias hegemonicamente relacionadas ao masculino heterossexual (Lara e Witchblade).

Embora o roteiro tenha sido escrito por dois homens, a identidade visual da história certamente está entrelaçada à experiência de invisibilidade, racismo e classismo da artista Afua Richardson. Na entrevista concedida ao site Red-Headed Mule[1], Richardson afirmou que cresceu em Nova Iorque e que viver lá é sentir que habita um organismo mecânico cujo batimento cardíaco é acelerado[2]. Ela faz referencia ao caos urbano gerado pela simultaneidade de várias coisas: o anonimato (que propicia a expressão da rudeza e dos preconceitos), a especulação imobiliária (que gera/alimenta as periferias), a sujeira/poluição, por fim, o desgaste físico e a má alimentação decorrente dos fatores anteriores. Todas essas condições de vida - intensificadas quando vividas por pessoas negras[3] - são o que a protagonista deseja, com grande senso de comunidade, erradicar.
Desse modo, a análise de Genius deve ser entrelaçada a certos aspectos da trajetória de vida da autora. Pontuo os traços evidentes de prática de si:
1) Destiny é uma adolescente Negra que teve a infância marcada pela violência: sua mãe foi assassinada e possivelmente sofreu violência sexual por uma gangue do próprio gueto. Assim, há traços da sua identidade e consciência política que foram forjados arbitrariamente. A diegese gira em torno da relação causa/consequência entre a orfandade/luta por justiça social que é um segredo compartilhado, apenas com a amiga Chavonne. Sua quest, no entanto, não é contra seus iguais, mas contra o aparato de Estado que gera e reforça a violência no gueto.
2) Como uma garota Negra que representa a vivencia predominante desse corpo social, Ajeye está mais próxima do arquétipo de mulher Guerreira e Líder uma vez que não há espaço pra ser  "boa fêmea". Esse padrão, segundo Sarkeesian, associa vários elementos que, na lógica binária, são masculinos: racionalismo (controle de si, frieza, domínio, decisão e autonomia) e agressividade verbal e física.
3) Genius é uma alegoria  urbana  contemporânea cuja verossimilhança não está relacionada apenas às técnicas de estrutura narrativa, mas à própria conexão (mimese) com a realidade do gueto tanto na consciência política quanto de suas manifestações identitárias e artísticas.
4) Alegoria é um sistema narrativo composto por várias metáforas. Nesse caso, a protagonista se chamar "Destino" aponta o caminho para firmar a autonomia das comunidades negras. No Brasil, podemos relacionar a luta armada protagonizada por ela à resistência contra a ocupação militar nas favelas.


Destiny não é uma super-heroína convencional, afinal: ela não tem linhagem nobre, nem valores hegemônicos, nem luta pelos "mais fracos" [4] e sua genialidade não é sobrenatural, ou seja, é uma personagem viável. Por outro lado, essa personalidade possível não é vista em primeira pessoa, o que nos limita entender suas verdades mais profundas. Esse é um traço da escrita masculina sobre mulheres: por mais que mostre uma lógica que não caiba nos esquemas correntes, a proposição dos novos mitos esbarra na experiência de gênero do próprio autor (no caso de Genius, autores). Mesmo nas páginas que recriam a violência sofrida pela mãe de Destiny (não há referencia ao pai), o recordatório traz as reflexões do Detetive Grey, um homem branco de meia idade cujo objetivo de vida é descobrir quem é O Gênio (ele não supõe que pode ser uma garota).
É positiva a representação de Ajeye como personagem inequivocamente Negra, não apenas pela cor da pele como o cabelo (dredlook) e o discurso político afinado com a vivência "das ruas". Em certo ponto, há continuidade, afinal, ela usa roupas justas e, não raro, tem o abdome descoberto. Essa política editorial que destaca tanto as características femininas parece uma estratégia de não eclipsar o que Judith Butler chama de heterossexualidade pressuposta, isto é, na lógica binária, supor que gênero emparelhado com sexo determinam a orientação sexual. Mostrar uma hiperfeminilidade em Genius leva o público a um panorama que torna os aspectos masculinos justificáveis. Diferente da arqueóloga Lara Croft, a sensualidade de Destiny não é usada como arma, além disso, ela é bastante hábil com armamentos pesados. Em vez disso, a sensualidade de Destiny é mais uma forma de mostrar-se perigosa, pois demonstra que sua sexualidade e seu corpo são dela. O mito bíblico de Lilith comprova o quanto essa postura libertária das mulheres amedronta a lógica masculinista.
Destiny, portanto, simboliza razoáveis - e, por isso, críveis - rompimentos enquanto imagem de mulher Negra e é uma representação majoritariamente positiva.
Voltando à proposta de analogia da poetização da realidade, esta se firma como possibilidade comercial à medida que mostra o gueto sob dois prismas e, assim, alarga a forma de reconhecer a interseção com o real:
1) por evidenciar o ethos do gueto como estereotipo. Neste caso, menciona a cultura Hip Hop como mercadoria (englobada), símbolo de consumismo (geralmente associado aos carros modificados, "tunados[5]") e não de resistência. Isso é reconhecível através da tipologia do título da revista e das outras escritas no seu interior que são referencia ao grafite. Os homens, quando não estão vestidos em consonância com rappers famosos, fazem referencia a indivíduos negros (camisa do jogador Ronaldinho) como a outros gêneros musicais menos usurpados, como o reggae. As mulheres, não raro, correspondem ao tropo de serem objetificadas, "prontas para o sexo", mas não femininas[6].
2) O discurso político de Democracia da Abolição, empreendido pela filósofa Angela Davis, trespassa tanto a vivência, quanto a fala de Ajeye. A vivência porque gueto de que faz parte é um "espaço de exceção", uma "pátria freak[7]" (para citar Mary Russo), onde todas as minoras, corporalidades intersticiais, e os sujeitos desajustados são aceitos. A identidade primária se dá pelo não pertencimento à hegemonia, que resulta da exclusão empreendida pelo Estado que cerceia os diretos civis e, como afirma Destiny, faz com que os iguais se destruam para poupar-lhes esforço. Também é uma forma de citar Davis fazer a protagonista da luta armada ser uma adolescente, pois ela se tornou ativista muito jovem. A intelectual, inclusive, afirma que a resistência contemporânea tem que abarcar a diferença, pois não adianta formar comunidade de iguais. Em relação ao conceito de Democracia da Abolição, a obra a cita no discurso de Destiny à comunidade. A partir da consciência de serem individuas/os que são, historicamente, vitimizadas/os pelas políticas e estruturas governamentais, a garota endossa o discurso de, não apenas, combater e resistir ao terrorismo, como pressionar o Estado em luta armada.
É radical o fato do protagonismo dessa personagem não ser compartilhado, por mais que a tentem usurpar. Há uma sequencia em que 'Dre, um homem negro da comunidade, tenta desafiá-la, mas ele acaba levando uma surra na frente de todos. Essa cena sintetiza de forma dramática as relações de gênero nos movimentos negros como os Panteras Negras. Também mostra uma visão inovadora do tradicional problema dos movimentos sociais de esquerda reagirem mal à alteridade e, por isso, serem espaços que reafirmam hostilidades em relação às diferenças e interseções.
O problema dessa força expressa é que ela é demasiada e oblitera a possibilidade de vivências afetivas de Destiny. É evidente que essa dificuldadeé uma experiência coletiva em se tratando de mulheres Negras, como afirma bellhooks, e que, para a personagem, é agravada pela experiência da orfandade. Essa necessidade de mostrar-se emocionalmente independente e forte, sem dúvidas, é o fator de sobrevivência, portanto, estratégia política. Porém, a luta contra a injustiça cerceia a liberdade de expressar-se afetivamente, mesmo com sua amiga Chavonne. Seus diálogos geralmente mostram valores de amizade e preocupação, mas não há demonstração de afeto nas palavras que usam entre si e nem proximidade física. O pingente que ela usa era de sua mãe, e simboliza tanto a eternidade quanto a união de duas pessoas pela vida, na cultura Maori.
 Uma das deixas dessa edição é a possibilidade ou não de Destiny transpor os abusos cotidianos tanto do Estado, quanto dos homens da comunidade, e amar, mesmo que isso se conclua, apenas, depois de sua vingança. É essencial que a personagem não seja movida apenas numa polaridade de ódio, do contrário, sua existência humana será reduzida drasticamente. Embora seja o que predomina, não adianta simplesmente sobreviver, então é importante que a personagem mostre uma nova possibilidade a essa personalidade voltada apenas à reação às hostilidades.


A experiência colonial fez com que a identidade das pessoas negras fosse se conformando, unicamente, às estratégias de luta e sobrevivência - e sim - lutar contra a aniquilação é essencial, porém, é necessário ficcionalizar uma alternativa a isso, para a vivermos um dia.
Genius é uma história radical, pois desconstrói a ideia de que pessoas negras só podem protagonizar uma obra quando se afastam das características de sua raça. Tanto subverte a lógica masculinista e branca que, segundo Marc Bernardin, foi recusada por várias editoras até ser aceita no processo de votação do Top Cow. Quanto à protagonista, Destiny Ajeye, representa uma releitura da trajetória política de Angela Davis adaptada à contemporaneidade; assim, fica evidente que é uma obra cujos valores identitários são positivos, sobretudo, para as garotas e mulheres Negras que raramente se veem representadas adequadamente, nesse tipo de mídia.


Preta, Nerd & Burning Hell


[1] Disponível em: <redheadedmule.com/comics/interview-afua-richardson/1858/>. Acesso em 16 ago. 14.
[2] Ela não expressa abertamente que essa temporalidade tem a ver com o "ser funcional" e adequar-se à lógica capitalista numa megalópole.
[3] No Brasil, se comparadas as rendas de brancos e negros, os primeiros tem um índice de desenvolvimento humano semelhante ao de habitantes de países europeus desenvolvidos, enquanto o dos segundos se assemelha ao de países africanos em situação de guerra.
[4] Esses são alguns dos critérios pontuados em Mulher ao quadrado, a tese da professora Selma Oliveira (2007).
[5] Essa contradição é naturalizada nos videogames: Underground é um dos títulos da uma série de jogos de corrida Need for speed. Nele, há tentativa de mimicar a vida nas ruas, portanto, a trilha sonora inclui Rap e Hip Hop, os carros são usados para manobras exibicionistas e sua estética pode ser modificada a medida que a o/a jogador/a infringe leis e ganha dinheiro. O protagonismo é masculino e branco. Mulheres aparecem sempre desnudas e, apenas, como prêmio na linha de chegada.
[6]  O tropo "chongas" é bastante difundido nos guetos, mas também foi assimilado. São garotas urbanas de origem latina e são conhecidas pela forma de vestir que mistura um visual "gangster" com a hipersexualização feminina. Usam muitos adornos, calças largas, tênis e regatas ajustadas ao corpo. Notamos uma influencia desse estilo em Destiny como marca de classe, portanto, de lugar de enunciação.
[7] Este é um elemento comum na Ficção Científica como solução de existir pacificamente.




[1] Olhando na direção de quem está lendo.
[2] É um selo da editora Image que, desde a sua fundação (em 1992) tem ajudado jovens autores.

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