terça-feira, 22 de setembro de 2015

REFLEXÕES SOBRE UMA IDENTIDADE DE MULHER PRETA BADASS, FURIOSA E CHEIA DE SI

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Michonne 
personagem da série The Walking Dead interpretada por Danai Gurira
"Sem dúvida, Michonne, de The Walking Dead, é uma das personagens mais duronas da televisão atualmente. Danai Gurira estreou como a Michonne a espadachim dona de zumbis domesticados ao final da segunda temporada e está poderosamente se destacando na terceira e atual temporada* " (Heloisa C. M. Gonçalves via Walking Dead Brasil)


Existem duas posturas equivocadas professadas por pessoas não-negras, que são confundidas com respeito à (nossa) trajetória de mulheres Negras. A primeira é uma reverência exagerada, artificial, que vive de desculpas e pedidos de licença inconclusivos. A segunda é colocar-se em posição simbolicamente inferior para enaltecer o que, na realidade, é inferiorizado. Ambas as atitudes têm desejo de mudanças paradigmáticas, mas ambas têm um problema sério de exotização. Mulheres Negras são maravilhosas? Sim, mas não somos fortes demais, resistentes demais, rabugentas demais, grosseiras demais. Não somos folclore. Mesmo porque "demais" configura algo que excede e não somos um além-humano. A percepção de que uma mulher Negra é inalcançável, impressionante e sobrenatural, bem como a apreciação vibrante de personagens Negras (apenas) fortes não corresponde à percepção que eu tenho de mim mesma e nem do que desejo ser. Por que em vez de me achar agressiva, mal humorada e difícil de lidar, você não guarda suas boas hipóteses/intenções e me escuta? Vamos - antes - rever a parceria, pois dizem que boas intenções são combustível no inferno em chamas:



Angry Black woman (Legendado) - por Porsha O
"Mulher Negra Raivosa, por quê?"


* * *



QUADRO FORA DO LUGAR

Não é raro vivenciar situações em que pessoas se impressionam com a minha postura, "conquistas" e resistência. Quando digo "impressionam" é porque elas ESTRANHAM, sentem que há algo em mim "meio que fora do lugar", característica essa que descola do ideal de Preta do imaginário delas - ainda sejam negras. Esse desconforto sentido pelxs interlocutorxs, à medida que se somaram como um padrão de experiência pra mim, tomaram uma força potencialmente crítica, pois fatos pessoais não são excepcionalidades. 

Não apenas brancos como negros já disseram pessoalmente que tenho "nariz em pé", que sou "besta", "cheia de mim" ou que tenho certo "ar de superioridade". É um incômodo generalizado porque toda a população partilha dum imaginário fragmentado e com peças faltantes e pior: tem como espinha dorsal um imaginário sobre a posição de cada tipo de sujeito na vida social. Dominantes porque vivem do passado que seus antepassados fizeram conosco; nós porque o fantasma do que nos fizeram ronda, passo a passo, mais certeiro que nossas próprias sombras.Tudo está em nossa cabeça, eles dizem, e o racismo principalmente: têm até amigos negros. Essa negação de tudo (não existe negro, não existe racismo, identidade serve para segregar) somada à violência, nos faz carecer de cuidados com a saúde mental; não por acaso, "hospício" é lugar de abater quem resiste brava e solitariamente ao auto-ódio imposto à nossa subjetividade. E, quando não, essa violência tenta cercar de outras formas. 

Como aluna de pós graduação, o problema central não é lidar com a negação ininterrupta. A habilitação em "Literatura e práticas sociais" determina que seu público e docentes sejam politicamente corretos. Em termos, essa política de civilidade é adequada, mas só em termos. Enquanto há vigilância sobre cada termo que é usado, o individuo que guarda em si ideias distorcidas sobre o Outro não expressará diretamente, mas usará de estratégias de negação que imobilizam o diálogo. No geral, na academia, a minha barreira é invisível: a mesma pessoa que mantém sua discriminação longe do universo das palavras, mas perto do coração, negará a realidade da violência, será negra (e o que mais precisar) quando convier e será guardiã da apropriação e do relativismo cultural. Negará a legitimidade uma vez que não pode expressar completamente seu desacordo.

"A negação é usada para manter e legitimar a estrutura violenta da exclusão racial. Eles querem pegar o que é nosso, eles negam e projetam no OUTRO. Sujeitos negros tornaram-se inimigos intrusos que devem ser controlados, o branco torna-se vítima que é forçada a controlar. O opressor torna-se oprimido e o oprimido tirânico. Cisão de partes da psique são projetadas para fora, sempre criando o OUTRO em antagonismo ao SELF.
Essa cisão evoca o fato que o sujeito branco é dividido e ele desenvolve duas atitudes diante da realidade externa: apenas uma parte do EGO -o bom aceito e benevolente- é experienciado com SELF o resto - o mau, rejeitado malevolente é projetado no OUTRO, é experienciado como externo. O SUJEITO NEGRO TORNA-SE TELA DE PROJEÇÃO para aquilo que os brancos temem reconhecer sobre eles mesmos, nesse caso ladrão violento, indolente- esses aspectos desonrosos, cuja intensidade causa muita culpa ou vergonha são projetados para fora com intenção de escapar deles. Em termos psicanalíticos isso permite que sentimentos positivos direcionandos para alguém mantenham-se “enterrados”. Branquitude como self bom - enquanto as manifestações do self mau são projetadas para fora, vistos como objetos maus.
Negros são identificados com objeto encarnando esses aspectos que a sociedade branca reprimiu e construiu o tabu que é a agressão e sexualidade. Tratados como perigosos, violento, emocionante, excitante sujo, mas desejável, permitindo que a branquitude se veja como ideal de moral, decência, civilizado, generosos com controle, e livre de ansiedade causadas pela história" (KILOMBA [2]) 

À medida que as políticas públicas avançam, a compreensão do racismo como abuso histórico não pode ser negada diretamente. Como consequência, indivíduos brancos comprometidos em perpetuar a desigualdade, atualizam suas estratégias perversas de submissão. Se não podem jogar fora o quadro, tentam, ao menos, consertá-lo com toda a violência possível e com a sutileza que só eles têm. Sabe quando uma folha de papel corta seu dedo e você sente, mas ninguém vê?

Quando eu digo que ser mulher e Negra não é uma questão de reivindicar uma identidade imaginada, mas uma questão de reivindicar direitos (inclusive de viver) a pessoa branca em posição de autoridade não quer ouvir. Não quer ouvir porque identidade pra ela é translúcida, é imaterial, é busca por diferenciar o indiferenciável, pois "sou humanista", "identidade a gente escolhe", "todo mundo é igual", "tudo é tudo", "tudo pode" e "nada é nada". Com isso, a autoridade negou que a maior parte da população no Brasil é negra e que essa maior parte é a que menos tem acessos, condições materiais e representação política. Negou a violência policial e negou um problema que ela mal imagina: mulheres Negras - nós -  somos enxergadas como masculinizadas, castradoras, raivosas e destituídas da identidade "mulher" como reivindicação de direito específico, mas alvo do que nessa identidade é percebida como passiva e passível de abuso. E ela se negou a perguntar o porquê de certa personagem Negra da literatura não querer ser mulher e se sentir um homem [2]. Em nenhum momento ela cogitou a influencia do tratamento racista como fator de identificação; em vez disso, a clássica (e transparente) ideia de que todas temos oportunidades iguais de escolha identitária.

E EU NÃO SOU UMA MULHER [3]?

Embora haja perspectivas de desconstrucionismos (dominante) que consideram as políticas de identidade uma forma de perpetuação da violência e das desigualdades, elas raramente tomam a brutalização dos corpos como questão central. E, quando tomam, é apenas para ilustrar a necessidade de pensar diferente, de mudar o vocabulário. Óbvio que tudo isso é importante, mas isso não faz a violência parar; isso não alimenta o corpo. Óbvio que afirmar que todas as "mulheres" ou pessoas negras compartilham duma essência biológica é ultrapassado, mas, a percepção do que é mulher e a exposição a violências específicas não pode esperar as condições ideais do mundo que não junta sexo biológico, gênero e orientação sexual. De forma alguma, a luta por direitos de determinado grupo social tem como objetivo obliterar outra luta e, sobretudo, é importante que uma luta seja solitária à outra. A reivindicação da categoria mulher - longe de propor a existência de uma característica comum - quer agregar força suficiente para melhorar as condições de vida de uma considerável parcela da sociedade. 

"Ser mulher e preta não é uma questão de reivindicar uma identidade imaginada, mas uma questão de reivindicar direitos (inclusive de viver)"

Assim como identidade racial não tem em vista falar de diferença biológica, mas de uma experiência histórica compartilhada, reivindico a categoria política "mulher Negra". O termo "raça" (no Brasil interpretado como cor), quando usado para descrever as interações sociais, descreve que indivíduos de pele negra são excluídos e violentados sem que as instituições deem importância.Tal descrição, acompanhada de estatísticas, possibilita que esse segmento reivindique condições melhores de vida, pra além de sobrevivência.

Quando o debate sobre identidade considera que reivindicação da identidade do dominador e do dominado partem de uma mesma ficção, inevitavelmente, ela fagocita o potencial revolucionário de declarar-se Negra. Por fagocitar entendo que é a neutralização do enfrentamento, a tentativa de abafar a luta política. Ser negro, negra ou mulher é perceber que a diferença é usada para justificar a marginalização e mais, que essa diferença tem efeitos materiais inaceitáveis. Ser branco, heterossexual ou homem e reivindicar essa identidade é reiterar a diferença e se orgulhar dum histórico de prejuízo a outros. 

Sem dúvidas, "mulher" tem sido um conceito que enclausura dada a sua orientação à raça/cor branca. Já em fins do século XVIII, a abolicionista afro-estadunidense Sojourner Truth [3]  em "Ain't I a Woman?" ("E eu não sou uma mulher?") questionava a inserção das mulheres Negras na categoria "mulher" já que os nossos problemas não eram o excesso paternalismo, o cuidado, a delicadeza dos sentimentos e a castidade.

Nosso problema, assim como da personagem Michonne, é que passamos por traumas repetida e cotidianamente. Nós fomos separadas de nossas famílias e submetidas às violências mais terríveis para que você possa ler o seu livro e teorizar sobre o que nós somos; ainda hoje, nós não podemos expressar isso sem represálias. Ciente de que, qualquer Negra (como corpo social) nunca foi impedida de estar no espaço público e de trabalhar, é indiscutível que foi necessário suprimir aspectos (estereotipados) do que se considera feminino por razões de sobrevivência. Condições ideais de privilégio, possibilitam performar ideais de feminilidade e masculinidade, mesmo que sejam ideais inalcançáveis. Por outro lado, o racismo que incide sobre o corpo interpretado como mulher (engendrado) numa sociedade sexista e racista força o atravessamento do gênero por questão de sobrevivência.  Nesse sentido, cai por terra a falácia de que sexo, gênero e orientação sexual são a mesma coisa, mas não cai porque é descolado e impossível de categorizar.

Considerando que:


1- Profissões braçais são consideradas viris, bem como os valores sociais identificados como positivos;

2 - Feminilidade Negra é pautada em padrões de sexualização e hipersexualidade;

3 - " Somos ensinadas que nós somos primeiramente negras, e então mulheres " (Charlotte Pierce-Baker via Blogueiras Negras)
4- Mulheres Negras são o grupo social mais vitimizado pela violência sexual, no Brasil.
5 - Mulher e fêmea são conceitos distintos; Reivindicação de feminilidade (um padrão comportamental, em certos contextos, dominante) não contribui de forma crítica para a mudança de paradigmas;


E,

tendo em vista que somos pessoas formidáveis e complexas, apesar de atravessadas pelos pontos listados acima, a fala da atriz Danai Gurira evidencia mais a área das experiências que a branquitude (o posicionamento político supremacista branco) não compreende:


“Como uma dramaturga, eu havia pesquisado muito sobre mulheres liberianas. [Michonne] lembrava-me das mulheres nestas zonas de guerra que se tornaram líderes rebeldes formidáveis em exércitos. Eu havia conhecido aquelas mulheres e há algo em que, mesmo sofrendo de TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático), elas de certa forma transformaram isto em algo realmente formidável. Elas meio que colocaram de lado coisas que não se encaixam no mundo em que vivem. Como emoções ‘femininas’. E eu digo isso sem querer dizer algo ruim, mas vocês entendem o que eu quero dizer. Elas estão procurando fortalecer a si mesmas em um mundo como aquele. Há algo no espírito daquelas mulheres que era muito claro para mim desde quando me aproximei da personagem durante os testes.

Aquela era uma Michonne. Ela me lembrava de uma mulher na zona de guerra liberiana onde todos tem um pouco de medo destas garotas. É o tipo de garota sem fúria igual na Terra onde ela realmente não está tentando ser feminina. Ela está só permanecendo muito poderosa no mundo que se encontra agora e transformando-se de acordo. Isto energizou a forma com que eu olhava para ela.

Muito do que uma pessoa se torna em tempos terríveis assim tem a ver com a forma com que eles interpretaram ou responderam a seus traumas. É sobre o tipo de trauma que ela passou. Todos já passaram por algum trauma. Nós vemos o trauma de Andrea com a perda de sua irmã. O mais legal do show é que você vê pessoas em diferentes estágios. O primeiro grupo de sobreviventes – você os vê começando. Mas Michonne vem e você não viu o que a fez se tornar esta Michonne. O trauma dela definitivamente causou com que ela falasse menos porque esta é realmente a ideia da vulnerabilidade quando se expõe através da comunicação, o que de que ela se arrepende e que é uma questão traumática para ela.” (Danai Gurira via The Walking Dead Brasil)

Em suma, ninguém é furiosa sem razão e ninguém é apenas sobrevivência. Ser sobrevivente não significa ser rude, mas fazer da radicalidade [4] um ponto inegociável. Não há tempo para as paródias e nem para compartilhar os saberes e as complexidades com quem se recusa a largar o escudo e apertar minha mão esquerda. Nesse sentido, ser crítica, exigente, autônoma e dar importância ao que é importante configuram políticas pessoais de preservação e autocuidado interpretadas como características viris. E, por isso mesmo, atitudes de desobediência, temíveis para quem adoraria manter a marginalização.

Em relação à Michonne: ela é apresentada sob uma perspectiva masculinista e branca. Isso porque a trama é centralizada em valores binários que autorizam a força, o poder ativo do pai, o desejo erótico masculino heterossexual. Como uma guerreira que luta pela sobrevivência num mundo destruído, ela incorpora traços estereotipadamente "masculinos" e tem como prioridade a sua agência (simbolizada pela espada). Embora possamos identificá-la como a personagem mais apta a viver naquele mundo dominado por zumbis devido à inteligência, há traços que limitam sua complexidade. Durante muito tempo, temos contato com uma rigidez de emoções e de uma identificação como "músculo" do grupo. Por mais comprometida que possa parecer ao protagonista (personagem que representa o padrão de valores na série) ela é vista como reativa demais, letal demais e  misteriosa demais. Na história, ela aparece como objeto pronto a ser questionado, estudado, interpretado tal como uma badass, uma raivosa como outra qualquer.

Nos quadrinhos, em uma edição especial denominada História de Michonne, temos algum contato com a humanidade da heroína. Após o trauma de ter a casa invadida por zumbis e do namorado ser contaminado, a personagem passa por um momento de alienação até que supera a vontade de morrer, suprime a tristeza e arquiteta um modo de libertar-se daquela situação: ser escoltada por zumbis acorrentados sem braços e mandíbulas .

Embora possa parecer exagero - sobretudo para pessoas que desconhecem os efeitos do racismo-sexismo diário - essa fábula retrata muito bem a realidade traumática negligenciada a todo momento. É um choque violento, as ameaças vêm de vários lados e, a cada incidência,  opressores apertam F5 e atualizam a retórica de negação. 

Será que Michonne simboliza o processo de silenciamento a partir de forças exteriores? Será que Michonne representa o processo dialético de tornar-se?
Ou será ela apenas uma Fúria?

LUGAR SOCIAL E FRONTEIRAS DELIMITADAS
Em diferentes contextos, o significado dessas expressões sobre - digamos - uma força de caráter (badass, histérica, estressada) pareceu fundamentada em estratégia política (consciente ou não) de normatizar, de consertar um quadro torto na parede. E, por falar de quadro torto, é perceptível que, ao olharem pra mim, esperam uma paisagem (estereótipo) e encontram outra. 

Esse "ser" (verbo), tão incômodo, consiste em uma desestabilização do conceito de negritude que a maioria das pessoas tem. É um "ser" que acaba por desafiar pressupostos e o modo de edificação desses pressupostos. Quem disse que não posso ser "cheia de mim"? Ser "cheia de si" é parecer não disposta a aceitar negociações desfavoráveis? Ser "cheia de si" é ter autoestima e agenciamento? Caso ser "cheia de mim" configure uma aparência de altivez e de expressar rebeldia, qual o problema em "ser cheia de mim"?Nenhum problema em ser, mas em aparentar ser preenchida de convicções próprias, não aceitar sugestões de natureza dominadora. Em protestar, ainda que em silêncio. 

Ser cheia de mim seria, numa percepção externa, expressar arrogância, um posicionamento de reivindicação "do que é meu" e a (legítima) disputa pelo poder.O problema é que não querem me ouvir e querem menos ainda, que eu fale. E por falar - assim como Spivak [5] - não me refiro a articular sons no idioma, mas de expressar uma não manutenção da ordem, de não achar que valho menos que alguém, de não abaixar a cabeça.

O que incomoda essas pessoas não é realmente considerarem que eu me vejo como superior, mas a percepção de que busco me sentir igual. Para um sujeito historicamente marginalizado, romper com o paradigma do lugar esperado (e há tanto tempo que acredita ser "natural"), não aceitar passivamente o nada que se tem é desobediência àquela "natureza auto evidente". E nesse mundo hostil, "mas nem tanto", os interditos atuam no intuito de barrar práticas sociais. Buscar ser igual é lido como "exceder" e desejar mais do que merece.

Temos aqui duas questões: primeiramente, mulheres Negras são atravessadas por discriminação racial e de gênero e, por isso, internalizam duas formas de ódio de si mesmas; embora para essa perspectiva o mais relevante é pensar que uma mulher Negra me "lê" como excedente tem a ver com a "rivalidade entre mulheres" temos aí a identificação de uma igual puxando a corda invisível do poder, pois eu simbolizo pra ela uma suposta falha de continuidade das ações e dos interesses dela. 

Nessa perspectiva, "cheia de si" mais parece uma ansiedade oriunda da consciência da sensação de falta de poder. É aparentemente injusto porque somos igualmente marginalizadas, então a deslegitimação debochada é usada como forma de dizer o que não é explicável: uma hierarquização foi percebida, absorvida e significada. A ambivalência descrita acima aborda rapidamente uma das leituras possíveis para o desencontro de interesses. Desencontro porque, por um lado, o desejo dela (tanto quanto o meu) é ser considerada complexa, humana, e por outro, ela reproduz a ideia contrária, de desumanização (racismo internalizado): me trata (e se enxerga) como se eu (e ela) não tivesse(mos) o direito de ser como eu quero ser/sou. 

Insisto que contradições são fundamentais, porém, no primeiro caso, parece que não há empoderamento, portanto, não há agenciamento para falar exatamente por si - e não reproduzir a fala do Um que tem como objetivo (nos) aniquilar. Esse Um, por outro lado, para manter seu conforto, aproveita sua posição e torna sua percepção sobre nós uma espécie de teoria sobre a experiência de ser mulher e Negra. Em outra perspectiva, uma pessoa branca, tem privilégios ininterruptamente. E essa continuidade a impede de perceber nuances outras. Uma pessoa "cheia de si" é desobediente e traz questionamentos, ameaça radical ao conforto, pois evoca o "medo de perder". 

A minha autodefinição, ainda que silenciosa, não passa desapercebida porque a simples existência requer a remodelagem da postura de quem detém poder. Nessa perspectiva, a recusa é enxergada como o fim dos tempos deles: se a Negra se recusa a ser o que faz - e por "fazer" entenda "faz a vida dele confortável, limpa e no lugar" - quem vai ter que fazer é ele mesmo.

CENÁRIO PROVISÓRIO

A personagem Negra mais importante em de The Walking Dead é a espadachim Michonne. Embora ela apareça em duas camadas distintas (a saber: guerreira e a civil pré apocalipse), prevalece uma comoção do público em torno da habilidade física de sobrevivência. Embora a atriz tenha construído a interpretação a partir duma compreensão complexa da psique fraturada, o que é perceptível à grande maioria é o silêncio não como atitude de recusa, mas de problemas de socialização resultante da força; a força como fúria em si mesma, em suma: um mito heroico não apenas com a subjetividade mutilada, mas distante dos processos usuais de construção das emoções.

Assim como Michonne é lida pelo grande público a partir de perícias físicas e intelectuais viris, não raro, o tipo de trauma que desencadeia sua posição de recolhimento, raiva, fúria, altivez  e dignidade é celebrada a partir do apagamento das causas e das consequências profundas; E celebrar Michonne sem compreendê-la não passa de mais uma estratégia de domesticação, folclorização e simplificação.

Acontece muito em ambiente acadêmico, onde tópicos marginalizados são discutidos (também) no intuito de ocultar as negações. Quanto a mim, a questão da fúria é a contraparte da consciência da perversidade que constitui as ideias, ideologias e crenças não declaradas. Apesar da minha complexidade, aspectos que se opõem aos estereótipos de feminilidade e de mulheridade Negra saltam nas relações sociais de modo a interpretarem-me de forma reducionista, ora como Cheia de Mim, ora como Cheia de Fúria. 

Em certa medida, a minha postura crítica e, em muitos momentos, inegociável e pouco afável, diz respeito a um lugar de fala com prioridade radical. Por radicalidade entendo o interesse  na transformação imediata dos paradigmas que organizam a sociedade inclusive a partir da política individual. Isso se dá no comprometimento em contribuir com a promoção da igualdade em nível microscópico: nos relacionamentos, no modo de fazer, de ensinar-aprender, nas escolhas lexicais, na problematização e, em alguns casos, no silêncio aos que merecem menos que uma resposta:

Quando estou em silêncio,

alguém me pergunta (sem realmente querer saber), qual a minha opinião
[sobre e
Eu estou cansada demais pra responder.

Quando estou em silêncio
vivendo minha política de ser e estar
alguém questiona o porquê
[daquilo
e, ao mesmo tempo, "por que não" o
[contrário.

Então, eu sinto que não é agora
Eu sinto que não é hoje
seu dia de querer apertar minha mão
[esquerda.

Quando estou em silêncio
não significa que não sei lutar
[em movimento
Não significa que você avançará
E, menos ainda, que sairei perdendo.

Quando estou em silêncio 
você não me convence a 
[mudar

Quando estou em silêncio,
eu tenho meu mundo inteiro de indizíveis e formidáveis
[coisas
onde você não poderá nunca me alcançar.





Especial Thanks pra:
(juro que não é heterônimo)

Ana Carolina Boquadi
pelo diálogo, tradução e 
por me perguntar sobre 
o que não estava lá

Anne Louise Dias
pelo diálogo, pelos olhos 
(de ver e entender),
 fé e realismo caprinos

- - -

REFERENCIAS

*Embora a referência esteja desatualizada, ela abarca as percepções que interessam a este texto. A citação se adequa ao que argumento no texto: de modo geral, o público percebe a personagem apenas na esfera da força física de poder letal. Restrita a esse âmbito da vida, faltam conflitos e contradições para captar nuances profundas de sua personalidade.


[1] Na série em três posts sobre Feminismo Personalista eu trato melhor da questão. O ponto é que não precisamos de "messias" que falem PELA população negra e, por mais que sejamos negras e negros nosso compromisso não é esse. Esse foco na personalidade, em geral, é esvaziado de problematizações a respeito dela possivelmente evocar um mito de Agente da Verdade, espécie de Moisés transparente (sem interesse pessoal). Esse anacronismo traz uma implicação bastante de curiosa que é um tipo de reivindicação ligada a "pegar em armas". Querer ser Malcon X está em alta, mas é preciso lembrar que as condições histórias, materiais e culturais são bem outras. Essa questão, sequer chega a ser paradoxal.
[2] Não raro, durante a adolescência, garotas Negras que não se adequam ao padrão sexualizado (estereótipo) é tratada com rudeza
[3] KILOMBA, Grada. Plantation Memories.: episodes of everyday racism. Budapeste: Unrast, 2010. - Trecho traduzido por Ana Carolina Boquadi.
[4]TRUTH, journer. Ain't I a Woman? Disponível em: <www.feminist.com/resources/artspeech/genwom/sojour.htm>. Acesso em 19 set. 15.
[5] Embora o Dicionário  Eletrônico Houaiss  da Língua Portuguesa 3.0 aponte "radicalidade" como neologismo, suponho que seja uma escolha lexical mais adequada a minha perspectiva política, pois busca dissociar-se do caráter desgastado (muitas vezes esvaziado) do termo.
[6] Em "pode o Subalterno falar" a intelectual pós colonial Gayatri Spivak questiona a possibilidade de um individuo que pertence a algum grupo estigmatizado e marginalizado poder se expressar e ser ouvido/a. 

domingo, 13 de setembro de 2015

GUEST POST - Batalha Campal: Descobrir-se negro nos espaços da Fantasia épica.

Por  Lucas Pamplona*


Sempre fui nerd. Ao longo da minha vida, tive contato com todos os nichos nesse nosso universo – começando com videogame, passando pela literatura, cinema, RPG e HQs. Aos 17 anos li meu primeiro mangá (Chobits), e isso marcou o início de uma nova (e curta) era otaku na minha vida, em especial pelo motivo pelo qual esse universo tanto me cativou: os eventos de animê. Os grandes eventos de animê, frutos do desejo de unir um fandom até então praticamente desconhecido. Com esse relato, busco compartilhar um pouco da minha vivência nesse meio e a relação com a negritude. 

Um evento típico de animê reúne centenas de fãs e cosplayers frequentando diversas lojas/quiosques/espaços alugados pela organizadora dentro de uma instituição (tipicamente escolas ou universidades), gastando rios de dinheiro para conhecer gente que também gosta das mesmas coisas que você, talvez para comprar colecionáveis diversos, beber mupy ou simplesmente participar dos eventos lá presentes.

Um desses inúmeros eventos consistia em uma pequena arena fechada em um canto qualquer, onde uma empresa conhecida por “Batalha Campal” oferecia aos pagantes a oportunidade de se digladiarem por alguns minutos em uma simulação (regrada) de combate medieval, utilizando-se de “letais” espadas compostas de um cano prensado entre placas coladas de borracha macia cobertas por silver tape. Por alguns reais, você poderia se transportar para dentro do seu personagem predileto, e lutar contra algum outro desconhecido em um pequeno torneio. 

Descobri, eventualmente, que a tal Batalha Campal se estendia para além dos eventos locais de animê. Era um fenômeno global, organizado, que ia pelo nome de Swordplay, e os eventos que tínhamos no Brasil eram apenas uma versão miniaturizada oferecida por uma empresa com o intuito de capitalizar em cima de um nicho já conhecido, por exemplo, nos EUA.

Como curiosidade, faço questão de distinguir entre duas categorias de prática de simulação em fantasia. O swordplay, descrito acima, é diferente do LARP (Live-Action Role Playing), na qual o combate físico é opcional e se dá mais valor aos elementos de enredo, atuação das personagens e a qualidade estética das armas e fantasias.


"Larp" - Quadro 1: Machado Larp feito por mim/ Quadro 2: Espada Larp
(arma  confeccionada com material sofisticado, com finalidade cenográfica)



A partir daí se organizaram as ligas de clãs da Batalha Campal no Brasil. Descobri que alguns estados já contavam com grupos grandes de swordplay, com suas próprias regras e padrões de armas e uniformes. E num piscar de olhos, eu estava envolvido e participando de treinos semanais de um dos mais proeminentes clãs no estado de São Paulo.



"Boffer" - Quadro 3: Machado Boffer/ Quadro 4: Master sword boffer
(arma de contato feita de materiais leves para prevenir ferimentos) 


O clã seguia temática de Templários. Éramos todos uniformizados e titulados e organizados conforme uma hierarquia pseudo-baseada na história militar medieval cristã e nesses momentos encenávamos. Ao treinar ou ao lutar contra outros clãs, de certa forma abríamos mão de nossas identidades e assumíamos uma identidade simbólica dos guerreiros templários que queríamos ser. Eu, pelo menos, me entregava por inteiro. Era a primeira vez que eu participava de um grupo grande, onde havia pessoascom as quais eu me identificava. Foi também a primeira vez que eu descobri que havia gente tão nerd quanto eu, e gente diferente de mim também. Tinha gente alta, gente baixa, gente rica, pobre, hetero, gay... 

E branca. O que mais tinha, era gente branca. 

Veja bem. O universo de fantasia medieval, de fantasia épica, sempre esteve cheio de gente branca. É onde mais têm auto representatividade, já que podem criar uma simulação das vidas de seus antepassados europeus, revivendo lendas e histórias baseados em contextos eurocêntricos, com personagens e atividades típicas do homem europeu. Seja na realidade ou na ficção. Rei? Europeu. Feiticeiro? Branco, europeu. Ferreiro? Artesão? Cavaleiro? Euro-euro-europeu. 

Templários? Europeus. Opa. 

Então, não era tão fácil assim viver o personagem na íntegra, pois aquela caracterização, nem na realidade nem na ficção, representava um modelo de personagem que fizesse jus ao adolescente negro que o vestia. Eu tinha tudo: Tinha a arma, o uniforme, a disciplina, a diligência... Mas, não tinha umsenso de identidade de personagem. Eu não queria pensar nisso. Na verdade, eu nem sabia, mas não tinha recursos ou maturidade para fazer a reflexão sobre a forçada de barra que era pra minha autoestima permanecer naquele contexto. Não queria pensar que tinha gente que apontava OBJETIVAMENTE que era “estranho” ter ali um templário preto, tampouco queria refletir sobre o fato de que mesmo estando pela primeira vez entre tantos nerds, eu ainda me sentia um estranho no ninho em função do que achava ser um detalhe. Mas lá permaneci, sofrendo quieto. 

Avançando dois anos. Saí desse clã, e junto a um amigo, fundamos um segundo clã que cresceu rapidamente. A temática era baseada vagamente na mitologia e estética celta/tolkeniana, e mesmo sendo algo que nasceu dos nossos esforços conjuntos, deixei a história se repetir por mais um ano, soterrando o (potencial) negro dentro de mim para me manter em atividade em um universo que não me solicitava estética ou culturalmente. Mas lá permaneci, sofrendo quieto. 

A vida, eventualmente, se encarregou de me afastar desse meio. E a partir daí, os questionamentos referentes a negritude x interesse por fantasia épica começaram a surgir, embora eu ainda não houvesse encontrado espaços legitimados para a discussão dessas questões.

As coisas começaram a mudar quando comecei a me dar conta da importância da representatividade. Quantos homens negros foram estes guerreiros medievais, ou pelo menos eram representados como tais, seja na realidade ou na ficção? Quantos homens negros, para todos os efeitos, não morreram nas mãos destes mesmos caricatos guerreiros? Quantos homens negros, afinal, ocupam espaços de protagonismo (ou qualquer espaço sequer) nas histórias de fantasia épica clássicas ou modernas? 

E aí veio o questionamento final. Estaria eu relegado a ser fruto de um povo sem histórias bonitas comreis e castelos e guerras durante longos invernos? Seria eu apenas fruto de um povo escravizado e mais nada?

Qual era o uniforme que eu deveria ter vestido? Certamente não um uniforme simbólico, mas esse uniforme real que hoje visto. Que representa a história de um povo guerreiro, perdido, mas não esquecido. Que foi ao inferno mas voltou mais forte, e que a cada dia luta para reconquistar seu legado. E esse legado vive em mim. 

Quer algo mais épico?

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*Lucas Pamplona tem 25 anos, é psicólogo e professor. Suas paixões são cozinhar e jogar videogame, mas também curte livros, quadrinhos, suas diversas coleções, e jogos de tabuleiro. Prefere ficção científica à fantasia épica. Nerd, preto e idealista, valoriza obras e discussões que atravessem essas realidades.


sábado, 12 de setembro de 2015

TEORIA/AÇÃO E CELEBRAÇÃO DA VIDA


Paula Lima


"Aquelas de nós que estão fora do círculo do que essa sociedade define como mulheres aceitáveis, aquelas de nós que foram forjadas nos caldeirões da diferença – aquelas de nós que somos pobres, que somos lésbicas, que somos Negras, que somos velhas – sabemos que sobrevivência não é uma habilidade acadêmica. É aprender a estar sozinha, impopular e às vezes insultada, e a fazer causa comum com aquelas outras identificadas como externas às estruturas, para definir e buscar um mundo no qual todas nós possamos florescer. É aprender a tomar nossas diferenças e torná-las forças" [1].
(LORDE, 1984)

Estudar a Diáspora na posição de Negra inevitavelmente gera momentos de recolhimento, de raiva e desesperança. Isso porque a história de violência é vivida o tempo todo, ela atravessa as relações, as escolhas, as crenças. Em alguns momentos, ter a vida norteada pela consciência do fato (racialização, racismo, sexismo, gordofobia, homofobia) pesa além da conta. Em maior ou menor grau, nós temos uma alma saqueada em reconstrução; além disso, há pessoas que tentam nos dissuadir da luta e gozam de privilégios o tempo todo. As vezes, parece que as coisas não vão mudar, que não tem saída, não tem jeito.  Nesses momentos, eu me forço a parar e relembrar do sentido da luta, da resistência plena que consiste em cuidar tanto de dentro, quanto de fora.

Sobreviver é um ato político [1], mas não é apenas no sentido de não tirar a vida ou não "deixar" que a tirem, mas de saúde mental, de aprender a amar e viver a solidariedade; de ter a vida em ordem [2], de não desistir, e de cuidar de si mesma [2]. Num dia ruim desses, eu tive a ideia de ouvir o acústico MTV do Gilberto Gil e, então, aquelas verdades lidas suspenderam o caráter imediato, por questão de sanidade; elas deram lugar à seriedade, à paz interior, à dignidade, e, principalmente, ao que Marisa Monte chama de "celebração da vida através da Música" [3]. 

A militância política, em geral, nos leva à ênfase no problema, à supressão de certas camadas de subjetividade, o que tem sido essencial para estarmos aqui vivas [2]. Por outro lado, toda a teoria/ação [4] às vezes é priorizada a ponto de reduzir um aspecto essencial: a sobrevivência deve ser plena. Precisamos nos curar constantemente e nos atentarmos para o futuro. Há momentos em que resistir e sobreviver é parar tudo e ouvir as nossas necessidades, físicas, emocionais e estéticas. É reerguer. É ter em vista que dimensões menos reconhecidas como políticas são políticas pessoais. É esse empoderamento (a sensação de que sua vida é norteada pela sua vontade, pelos seus desejos, pelo seu ser completo) que possibilita manter-se sã a cada encontro com a realidade desfavorável, a violência, a cruz de malta preta tatuada em pele branca, o desrespeito e as "questões de opinião".

Quando você tem consciência disso tudo, no mesmo ritmo que luta lá fora, diariamente, quando vai estudar e trabalhar, tem que sobreviver plenamente à consciência do afeto e de outros pontos que a vida proporciona. Hoje em dia, nosso compromisso é para além da sobrevivência do corpo, temos  o compromisso diário com a dimensão pessoal/política das nossas próprias emoções.

Experimente um pouco desse ritual e proponha muitos outros a si mesma:

Gilberto Gil
Acústico MTV Gilberto Gil


Gilberto Gil
Kaya N'gan Daya


Cidade Negra
Acústico MTV Cidade Negra


Paula Lima
"Tirou onda" in Samba Chic


Elza Soares
Do cóccix até o pescoço



REFERENCIAS

[1] LORDE, Audre. Textos escolhidos de Audre Lorde. [Tradução de tatiana nascimento] Disponível em :  <we.riseup.net/assets/171382/AUDRE%20LORDE%20COLETANEA-bklt.pdf>. Acesso em 12 set. 15.
[2] hooks, bell. Vivendo de amor.  [ Tradução de Maísa Mendonça]  Disponível em: <arquivo.geledes.org.br/areas-de-atuacao/questoes-de-genero/180-artigos-de-genero/4799-vivendo-de-amor>. Acesso em 12 set. 15.
[3] Nos agradecimentos do show, Marisa Monte fala do show como "celebração da vida através da música" . MONTE, Marisa. Memórias, Crônicas e Declarações de AmorDisponível em:<www.youtube.com/watch?v=ZSyuG4adHPA>. Acesso em 12 set. 15.
[4] Acredito que a teoria é tanto uma política quanto um elemento essencial para a prática política, como um fluxo de retroalimentação. Teoria é ação e ação é teoria.



Preta, Nerd & Burning Hell