TRUE BLOOD E O RACISMO 1: Panorama

True Blood

*Cuidado: spoilers!*
É bom ter visto as 7 temporadas pra ler!


“É importante entender que racismo não é algo pontual, uma biografia particular, algo que acontece uma ou duas vezes, mas sim a acumulação de eventos violentos que estão presentes em todas as esferas do cotidiano e que dá continuidade ao passado devido a repetição de um abuso paternalista histórico”

Grada Kilomba

Como disse no post sobre #nerdiandade, sempre gostei muito de seriados de ficção, em especial, os vampirescos. Neles - assim como nos filmes de terror trash - nunca havia uma razão identitária compatível com a minha realidade, mas eu gostava assim mesmo, tanto que vim parar nesse blog nerd.

Invariavelmente, as mulheres com relevância para a trama (isso é, a sucessão de acontecimentos que constituem a ação de uma obra de ficção (1) ) nunca eram Negras em Buffy e Angel da "Terça Vampiros" na FOX e, mesmo que não fossem as primeiras a morrerem, morriam. A maioria das Negras em filmes vampirescos, quando "do bem" pode ser reduzida a uma existência sem relevo, com a família desestruturada (quando há) e com atributos "masculinos" (2), ou seja: força, racionalidade, controle de si, independência, agressividade, dominância. Atributos femininos são apenas os negativos: histeria, intuição, submissão, cooperação(5). Esse é o padrão, mas, em 2008, tive uma surpresa agradável ao assistir a série True Blood. Vamos por partes:

1. Ficção Especulativa
Podemos por os estilos de narrativa (que não são gêneros literários) como Ficção Científica, Fantasia, Horror, Terror, Gótico num grande guarda-chuvas denominado Ficção Especulativa. Ela é um comentário (em forma de metáfora ou metonímia) sobre algum desconforto social (6). Em relação as lutas por representação, temos como exemplo os quadrinhos de Stan Lee e Jack Kirby: X-Men. Estes que são "os adolescentes mais estranhos do mundo" são a forma afável de mostrar aos privilegiados que a diferença é múltipla e a perseguição sanguinária.

Noutras palavras, uma aula lúdica sobre inequidade (desigualdade). Não porque os dois rapazes eram "muito legais", mas porque o mercado precisava dar resposta às lutas por Direitos Civis para negros (e uso masculino propositalmente) como os Panteras Negras. Caso se interesse, há análises que, dentre outras coisas, comparam Magneto ao Malcom X e Charles Xavier ao Martin Luther King.


2. Metodologia
Para fazer a análise panorâmica sobre o comentário social, usarei a técnica de Leitura Retórica rápida que consiste em focar a ação para compreender os comentários sociais, e em que nível se dá a luta contra as discriminações.

3. Plot
Tru Blood é uma série televisiva estadunidense que foi transmitida, no Brasil, pelo canal HBO entre 2008 e 2014, baseada livremente na série de livros de Charlaine Harris: Mortos até o amanhecer. Além disso, foi adaptada para os quadrinhos pelo roteirista da série pra TV: Alan Ball. Segundo nossa amiga Wikipédia "True Blood fala sobre a co-existência de vampiros e humanos em "Bon Temps", uma pequena cidade fictícia localizada em Louisiana. A série é focada em Sookie Stackhouse (Anna Paquin), uma garçonete telepata que se apaixona pelo vampiro Bill Compton (Stephen Moyer)".,

Pra quem não assistiu a série, Sookie é a moça loura no centro da primeira imagem ( a Vampira dos X-Men); Bill o único homem à esquerda. Das sete pessoas, duas são negras e o mais interessante: são primos! Mas estou pulando etapas. Vamos por camadas.

4. Metáfora Antirracista
Desde o século XIX, notamos que a literatura vampiresca está relacionada ao "medo de contaminação", a invasão da sua individualidade, propriedade e pureza por algo grotesco, destoante do padrão. Embora não se fale especificamente de raça ou classe, é exatamente de hierarquização social que se trata a relação do vampiro com a sua vítima: os dentes rasgam e sugam para si a essência (sangue) a medida que contamina com o gérmen vampírico.Os clássicos "Drácula" e "Karmilla" são sobre pessoas caucasianas com título de nobreza que se apoderam de vítimas socialmente inferiorizadas. Bon Temps, como releitura daqueles góticos oitocentistas, não é diferente. Usa dessa imagem para compor uma crítica às relações raciais nos Estados Unidos. Assim como X-Men, teremos uma quantia ínfima de negros e Negras em histórias que falam sobre racismo. À saber de pessoas negras com falas e que estão em mais de uma temporada de TB temos: Lettie Mae, Tara Mae, Lafayette e o Pastor Daniels (marido da primeira). Todos eles formam uma única família de subtramas muito (muito mesmo) secundárias.

Desde o primeiro episódio, notamos que a história é sobre pessoas brancas: os Stackhouse e os vampiros Bill, Eric e Pam. Uma vez que os japoneses criaram o sangue sintético, os vampiros puderam "sair do caixão" a fim de conviverem pacificamente com humanos. Nesse ínterim, muitos movimentos fundamentalistas (principalmente) cristãos protestantes, brancos, "classe A" atacam os vampiros com comentários racistas. Dentre eles, reina o "eles não são humanos" e são "violentos, irracionais". Como resposta a isso, Nan Flaganan, representante da Liga Americana de Vampiros, responde numa entrevista:

Somos cidadãos e pagamos nossos impostos, merecemos os direitos civis Três pontos. Primeiro: mostrem-me documentos. Não existem. Segundo: sua raça nunca explorou ninguém? Nunca tivemos escravos, Bill, ou detonamos bombas nucleares. E mais importante, terceiro: agora que os japoneses desenvolveram o sangue sintético que satisfaz nossas necessidades nutricionais não há razão alguma para que alguém nos tema

(TB T1, E1)

Temos um comentário explícito sobre como "o padrão de humanidade" se comportou ao longo da história, o quanto isso é verificável historicamente e, implicitamente, a busca por direitos civis como a transmissão de herança (drama vivido por Bill, quando se vê próximo da "Morte verdadeira" e, quer deixar seus bens para a cria Jessica).

5. "Negro Racista"
Assim como não existe "negro racista" e nem "mulher machista", pois a discriminação se dá pela diferença, pelo "não ser", não faz sentido que você discrimine a si mesmo. Pode haver problemas de identificação e reprodução da violência que foi interiorizada, porque sim, a gente lida com isso o tempo todo. Tomando esse argumento como verdade, é bastante irônico que não são poucas as cenas em que negros se comportam de forma absolutamente discriminatória com vampiros, absorvendo a ideologia que é usada contra si mesmo. Lettie Mae, mãe da Tara, é uma mulher Negra, alcoolista, desfuncional, agressiva, obcecada, que absorve esse discurso contra a coexistência como se fosse branca falando de negros. Curioso que é exatamente a vivência em meio violento e de desamor a causa, dentro da trama, para ela agir dessa maneira, isto é, o racismo e a misoginia juntos, agindo como força violenta que deforma a psique. O álcool é a fuga e, posteriormente, o "V" (sangue vampírico) para essa realidade terrível. A mãe louca, "que esquece de alimentar a filha" tanto emocionalmente quanto no sentido óbvio, é um estereótipo muito comum e serve como forma de minimizar a história da filha e dar um horizonte de expectativa para suas ações. Um bom momento da série para mostrar que é importante se repensar, muito embora as forças deformantes jorrem pra cima de nós. Óbvio que o problema do mundo, da iniquidade, não é um problema negro, mas as pessoas negras tem responsabilidades

6. Raça humana e Raça vampírica
A certeza científica de que não existem raças, mas sim etnias humanas, é um elemento ambivalente que trespassa todas as temporadas da série. Embora haja uma tensão social e, muitas vezes, verbalizada entre negros e brancos, isso não é problematizado diretamente. Como nos X-Men, é como se o racismo como ele é, fosse um problema já resolvido no mundo, que é bobagem falar sobre.

Quanto a aos brancos-mortos-vivos, embora sejam vampiros e tenham desvantagens burocráticas, perceberemos que há a certeza de seu lugar, direitos e o conforto para transitar em qualquer lugar como seres que têm privilégios. Assim, observamos que aquela construção identitária que negros tem (seja do apagamento e negação, seja da incompatibilidade com padrões) destoa da altivez dos vampiros que vem da vivência branca.

7. Conclusão
True Blood é uma série vampiresca que, através da ironia, trata de questões raciais nos Estados Unidos. Embora o racismo se dê de forma diferente nos E.U.A, é possível identificar as semelhanças também, porque o foco é a metáfora do racismo. Não a coisa em si. É uma quase discussão, portanto.

Temos personagens progressistas e outros nem tanto. Devido a essa complexidade, vou dedicar o próximo post a elas. Hasta!



(1) HOUAISS, Antônio. Dicionário Eletrônico de Língua Portuguesa 3.0.
(2) Vou dar uma pausa pra quem não está familiarizada com idéias/discussões feministas e Negras. Se você já manja, pode pular tranquilamente! Primeiro: nossa organização social separa seres humanos a partir da sua genitália e de outros aspectos biológicos, como macho e fêmea. Como consequência dessa divisão essencialista yin-yang, pra ser mais ilustrativa (3), os valores opostos de dominância (preto) e passividade (branco) foram atribuídos respectivamente ao que se convencionou chamar de homem e mulher, que são as "funções sociais". Então, nessa perspectiva, o corpo é o sexo (macho/fêmea) e o "como você existe, como se veste, se comporta e o que pode fazer" é o gênero (homem/mulher). Essa é a lógica binária que exclui a pluralidade, um ponto importante na história do(s) feminismo(s). Porém, essas duplas podem se recombinar de forma "inadequada" socialmente, então, a partir dos anos 70, essa discussão tomou forma até chegarmos a uma pluralidade que está fora desse arranjo: o queer. Segundo: quanto à raça (4), temos a interseção de duas experiências sociais discriminadas: mulher e Negra. Como a nossa sociedade foi fundada a partir da relação colonial, a lógica de mundo que prevaleceu foi ética vitoriana: a de que pessoas negras são mais fortes, não sentem dor e são animalizadas; que as mulheres são seres frágeis, pálidas, magras...delicadas. Ou seja: a cultura dominante, além de inserir as mulheres Negras na base da pirâmide social, reafirma todo o empo que nós não somos mulheres. Terceiro: nosso plano é empoderamento: vencer todos os obstáculos, sermos saudáveis, felizes, complexas, bem sucedidas de forma plena. Mais sobre isso, ler: COVINGTON, Lisa Danielle. All the girls are white, All the blacks are male: experiences of young black woman on the the west coast . San Diego University, 2010.(Dissertação)
(3) BEAUVOIR, Simone de. O Segundo sexo Vol. 1.
(4) Estou me referindo ao conceito social de raça, não biológico. Lembrando que ninguém, no Brasil, é discriminada porque pertence à cultura/biotipo X, mas pela cor da pele e traços distintivos como cabelo crespo. Nesse sentido, todas as etnias negras são dissolvidas e vira "negro", que é uma experiência social, não biologicamente determinista.
(5) SARKEESIAN, Anita. I'll make a man out of you: strong woman in science fiction and fantasy television.
(6)HOWARD, Sheena C.; JACKSON II, Ronald L. Black Comics: Politics of Race and Representation. New York : Bloomsbury Academic, 2013. Disponível aqui.

Preta, Nerd & Burning Hell

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