MÍDIA E RACISMO 2

A propaganda tem como objetivo estimular a consumo de certo produto e, quanto mais amplo o gama dessa massa (diversidade), mais rentável eficaz é a campanha. Devido a nossa trajetória histórica (exploração, expropriação, abusos), durante muito tempo a presença de pessoas negras nos comerciais era nula. Esse vazio tanto serve para apagar a possibilidade de identificação com aspectos positivos, de sucesso, beleza e, assim, tentar nos programar para a servidão. Cada vez mais, o público negro tem saído da invisibilidade nas propagandas, o que significa ser visto também como consumidores. Apesar desse holofote, precisamos olhar com desconfiança porque ele não se deu porque a hegemonia é "massa", muito pelo contrário: tem a ver com lutas dos movimentos negros e de mulheres que exigiram e exigem até hoje a presença não estereotipada; e com o capitalismo, que necessita não da igualdade entre as pessoas, mas que essas consumam.

Alegadamente racista
O a imagem de outdoor abaixo (propaganda do Playstation One, manjada, eu sei...) é uma associação evidente entre produto e ideologia. Primeiro: há um contraste entre preto e branco. A cor associada à raça está reforçada nas roupas das duas mulheres e, como roupa também é produto, há uma associação entre "você é o que você consome!". Mais do que isso: o que consumimos define a nossa sociabilização: a esquerda está em posição de inferioridade "o invisível", a fragilidade, a fraqueza, a certeza de que está sendo ameaçada de aniquilação. A mulher à direita (lado pra onde o olhar se dirige primeiramente), branca, destaca-se do fundo negro e distingue-se de tudo; segura o rosto com expressão ofensiva. Pra completar há o texto que reforça "Playstation Branco portátil está vindo". Vindo em breve pra quê? No mínimo desbancar. Mas eu sugiro que seja EXTERMINAR mesmo.

Playstation White is Coming

Nesse caso, a mensagem ostensivamente discriminatória não está em camadas profundas de análise, o que possibilita combate direto, sem dispersar com a galera "deixa disso".

Escorregadia
>>>Encontre seu penteado e #vaiqvai
>>>Crespo


Essa campanha do creme de pentear da Seda já começa bem ao dar nome aos tipos de cabelo. Clicando em crespo e, em seguida, curto temos quatro vídeos, cada um com uma atriz negra usando o produto ao mesmo tempo que ensina a fazer penteados simples e eficazes para o dia-a-dia. Os doze vídeos de cabelos crespos (curtos, médios e longos). É muito positiva essa presença de modelos com blackpower que se mostram conscientes do seu valor a ponto de inspirarem essa tal confiança. Valores como autoestima, descontração e alegria são destacados nos vídeos o que justifica muito a enorme aceitação do público-alvo. Eu também achei bem divertido e útil.

Embora tenha gostado muito dos vídeos, notei um jogo um tanto escorregadio porque há simultaneamente o estereótipo num vídeo e depois a quebra no outro! Tem a Negra que vai para o samba e a que vai para o rock, mas todas na sessão "crespo" são muito magras e com sinais de "feminilidade" que são reforçados pelo #vaiqvai conquistar aquele gato.

Temos aí um impasse muito comum: pessoas negras empoderadas (ex: blackpower) são normalmente justapostas a pessoas brancas que fogem aos padrões, geralmente entrelaçados, como se a negritude em si fosse uma disfunção. Ser negra, portanto, impossibilita a ocorrência simultânea de outros "desvios" físicos e de gênero (interseccionalidade). Esse ponto é crucial, pois quando formos observar as personagens, notaremos que, além de um lugar (função) especifico, a pessoa negra tem que ser magra, heterossexual, cis, com visual "clean", ao passo que são justapostas por pessoas brancas que podem ser o contrário e a junção de vários desses contrários ao padrão hegemônico.

Em suma: apreciei muito a propaganda #vaiqvai da Seda, pois está repleta de valores positivos para mulheres Negras. Por outro lado, muitos estereótipos permanecem em camadas menos evidentes.

Preta, Nerd & Burning Hell

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