Por que precisamos criar Artefatos Alienígenas?*

Loki, o deus da Trapaça
Loki, o deus da Trapaça segurando o Cubo Cósmico

por Anne Quiangala


É provável que você queira estar em qualquer lugar do universo, menos aqui na Terra e agora na pandemia. Já foi melhor e já foi pior, mas o que poderia ser? A especulação nos aproxima de utopias necessárias, que não são pura imaginação: são teoria, prática e podem ser experimentadas no entretenimento. A função educativa, recreativa e de socialização que os artefatos culturais (cultura de massa ou que você preferir) é inegável, mas hoje quero conversar contigo sobre o poder. Aquele vocábulo que diz respeito à possibilidade caracteriza uma força física, moral, ou um tipo de legitimidade.

Gosto de pensar na plasticidade do Poder, partir da acepção de possibilidade, o que você quer, pode, mas nem sempre Vai. Essa incerteza é importante para questionarmos e imaginarmos alternativas. Numa perspectiva artística, a Ficção Especulativa (Fantasia, Horror e Ficção Científica) faz parte do campo das possibilidades, moldada conforme o desejo de quem escreve (semelhante ao Cubo Cósmico da Marvel). Outra forma de construir alternativas é por meio da Crítica da Cultura Pop, pois se a ficção sempre nos dá indícios do que ocorre no mundo social, é a crítica quem faz a engenharia reversa: decifra e revela o que daquilo nós estamos vivendo.

No presente, temos as narrativas buscando mostrar as experiências de outro ponto de vista, pondo em prática um discurso do mundo concreto: temos que ver a situação de vários ângulos. Não é de todo equivocado aquele dizer, mas o que faltam são paradigmas, denominadores comuns, convenções éticas para aí, então, considerarmos o ponto de vista dum Loki. Caso contrário, concordamos que as possibilidades reais, concretas, que estão nas mãos do desgoverno da trapaça fazem sentido (spoiler: não fazem).

Você tem razão ao considerar que o Loki não é um vilão como os que enfrentamos na vida real. É mais complexo e sua motivação vem sendo moldada por diversas equipes criativas e interesses do mercado ao longo do tempo. Essa possibilidade, vilões da vida real não carregam. Por isso, a cultura pop é tão importante: além de demonstrar pelas analogias o mundo em que vivemos, ajuda a digerir verdades difíceis de engolir e a prospectar soluções. É sempre bom se perguntar: o que você faria naquela situação e com aquelas ferramentas? O que você pode fazer de diferente? E se? Acostumar-se com as perguntas e a instabilidade dos conceitos é sintoma de descolonização (aprendemos essa lição prática lendo Aphro-Ism: Essays on Pop Culture, Feminism, and Black Veganism from Two Sisters, de Aph e Syl Ko).

Se na nossa realidade o objeto que possui a capacidade de transformar qualquer desejo em realidade está nas mãos de sujeitos de ética individualista, quero lembrar que tal objeto foi criado por instituições como a IMA (Ideias Mecânicas Avançadas), focadas no benefício do que é considerado humano (por humano, a sociedade tende a pensar num sujeito universal branco). Sendo assim, todes nós que combatemos diariamente a lógica desse sistema, reimaginando o mundo pra além dos requadros da supremacia branca somos alienígenas, proscritas, estrangeiras, periféricas criando ferramentas próprias, autorrepresentação e vocabulário deste lugar. Pra gente, ter em mãos o cubo que ele segura não é a chave. Precisamos de novas tecnologias e perspectivas para tudo. Apenas assim criaremos raízes entre as estrelas! Bora tentar?


*Texto originalmente publicado na coluna do Jornal O Povo Online



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