O que é horror negro?

 


Por Anne Quiangala


No mundo real, os horrores aos quais a população negra é submetida diariamente não são meras abstrações: a ameaça da mutilação dos corpos, encarceramento e morte são ameaças concretas expostas no formato de leis, programas de televisão, jornais e literatura. Para nós, esses horrores psicológicos e físicos são revividos a cada episódio de racismo cotidiano (KILOMBA, 2019a) – o horror natural – e intensificados em experiências estéticas que transcendem o gênero horror. 

A morte horrível e narrativamente injustificada de um personagem negro para mostrar a letalidade de um monstro (metafórico ou não) e a “contagem dos corpos”, seja qual for a linguagem artística empregada, refletem o imaginário do sujeito branco, que representa o seu outro social (o sujeito racializado) na representação do “selvagem”, “bárbaro”, “assassino” e “serviçal” (COLEMAN, 2019). 

Assim, o discurso que relaciona negritude a valores negativos reforça a hierarquização que diferencia os corpos que não podem ser violados dos que são expostos, dissecados e fragmentados retórica ou concretamente. Compreender que a naturalização dessa violência simbólica e física, é percebida de diferentes formas por sujeitos negros, conduziu Robin R. Means Coleman a propor em sua obra Horror Noire: a representação negra no cinema de terror (2019) uma historicização da filmografia de horror estadunidense fundamentada na ideia de que a categoria de gênero das obras está ligada à experiência (o lugar social) de quem as recebe. 

Embora Jurassic Park seja classificado como ficção científica pela crítica, para Coleman, a cena de evisceração de um personagem negro sem nome torna a experiência, na verdade, terrífica, como qualquer experiência concreta de racialização. Esse horror não é particular ao cinema mainstream: na literatura também podemos explorar a experiência de horror em obras que são classificadas em outros gêneros, se mudarmos a perspectiva

Jurassic Park



Ao abordar o “olhar racial” e “genderizado” como teorizado por Coleman, na literatura contemporânea, encontraremos resultados semelhantes ao do cinema. Por exemplo, Coleman reclassifica o filme Nascimento de Uma Nação como uma obra de horror, por expor pessoas negras em situação de violência racial, perseguição e ameaças que causam um efeito de medo. O que aconteceria se revisitássemos os clássicos literários?

O Horror Com Negros 

Já romances contemporâneos como Paraíso (2014), de Tatiana Salém Levy, embora se proponham a discutir os efeitos presentes do passado colonial, o ponto de vista da descendente branca vitimada pela maldição da suposta “magia negra” indicam uma inversão típica de uma sociedade fundamentada numa negação do passado que apenas descreve a violência (traumática para nós) e não não se responsabiliza pela criação de “novas configurações de poder e conhecimento” (KILOMBA, 2019a). 

A perspectiva adotada para contar a história não é o único problema. Paraíso recria um cenário colonial em que a condução narrativa apresenta a romantização das relações mediadas pelo racismo institucionalizado, cujo auge é o dono da fazenda se apaixonar pela escravizada e ser retribuído. O amor que supostamente fere a fronteira institucional de “raça” é punido unilateralmente por meio de uma detalhada descrição da violência física desta mulher Negra: elementos que dão complexidade às narrativas, mas não funcionam como determinantes para a classificação delas como “romances góticos” ou mesmo como “histórias de horror”. 

Por essa razão, pensar o medo por meio de uma matriz de conhecimento centrada nas “normas expressivas” (COLEMAN, 2019, p. 42), história e perspectiva negra, pode revelar aspectos do pesadelo e perturbação resistentes ao purismo do gênero horror do ponto de vista convencional (não-negro). 


Horror Negro 

Para o teórico Noel Carroll (1999), horror natural e horror artístico são distintos, e o primeiro, por focar em problemas “reais” é desconsiderado para a caracterização de uma experiência de horror ficcional. Neste sentido, a ficção de autoria Negra que faz uso do medo como tema de discussão, desafia tanto os discursos que associam negritude à vilania, quanto a própria borda do que é o gênero terror e horror, ou uso de seus elementos. 

Em obras ficcionais de autoras Negras, muitas vezes, o que horroriza pode ser explorado a partir da indistinção entre o real e o sobrenatural, que expressa as experiências históricas e subjetivas “indizíveis” (KILOMBA, 2019b), pois “[...] o terror também tem sido um meio capaz de tomar todos os tópicos de empoderamento e revolução para reescrever os lugares de heroísmo e maldade” (COLEMAN, 2019, p. 49). 

Exemplo de experiência de horror negro pode ser apreendida em Kindred (2017), de Octavia Butler. Nele, uma mulher Negra da década de 1970, Dana, em ocasião de seu vigésimo sexto aniversário é transportada, literalmente, para o sul dos Estados Unidos pré-Guerra Civil, sem qualquer explicação aparente, e precisa lidar com os perigos daquela época. Essa experiência aterrorizante revela a inaptidão de pessoas do presente histórico em lidar com a violência explícita cotidiana das plantações e é permeada pela ansiedade de que o corpo pode ser dilacerado, e a vida ceifada a qualquer momento. 



Se tomarmos como ponto de partida o conceito de memória da plantação desenvolvido na obra interdisciplinar de Grada Kilomba (2019a) Memórias da Plantação: Episódios de Racismo cotidiano podemos entender a experiência de horror colonial de Dana como uma metáfora do processo de racismo cotidiano, que força o indivíduo negro a voltar para um espaço-tempo “passado” (e não superado), mas a sua agência e esperança sugerem que há possibilidade de recuperar nossa voz, nossa história escondida, de “tornar-se sujeito” e construir novos futuros. 

Do ponto de vista dos personagens no “passado”, esta figura culturalmente distinta (alfabetizada, sábia e altiva) e performaticamente ambígua (aparência andrógina, vestes e atos fora do imaginário do século XIX) é uma aparição que volta para questionar, e até mesmo cobrar a responsabilização de um ancestral branco que ela acompanha da infância à fase adulta, entre as viagens e retornos. 

Do ponto de vista de Dana, são esses indivíduos do passado que a assombram, à medida que trazem à tona o trauma recalcado. Embora as viagens não sejam explicadas para além da “ameaça de morte”, ter como chave o entendimento de que o racismo é a reencenação de um passado colonial em que o sujeito negro é aprisionado como um Outro em um passado que coincide com o presente, evidencia a atemporalidade da angústia, do medo, e do horror incomunicável por vias realistas como os relatos da escravidão. 

Essa expressão do horripilante que mescla os horrores da vida “real” experienciados por sujeitos negros a especulações sobrenaturais, com perspectiva, equipe criativa e autoria bem como protagonismo negro são os elementos que definem uma obra de horror negro. 

Conclusão 

É comum esperarmos que filmes de horror sejam aqueles permeados de sangue, figuras monstruosas e frio na espinha, mas a partir da leitura de Horror Noire, passamos a entender o gênero de uma maneira mais abrangente. A definição de Horror Negro, em oposição a de Horror com Negros, é primordial para que possamos analisar nosso imaginário, reavaliar obras clássicas do gênero focando numa perspectiva que seja da experiência negra - tanto consumidora, como produtora de discursos. Assim, mais do que ser trevosa como proposta estética, ao compreender o que é Terror Negro, você passa a entender de forma ativa como o "terror [como gênero] oferece um espaço representativo único para desafiarmos as imagens mais negativas e racistas vistas nos meios de comunicação" (COLEMAN, 2019).


Textos Consultados

BUTLER, Octavia. Kindred: Laços de Sangue. São Paulo: Morro Branco, 2017.

CARROLL, Noel. A filosofia do horror ou os paradoxos do coração. Campinas: Papirus, 1999.

COLEMAN, Robin R. Means. Horror Noire: a representação negra no cinema de terror. Rio de Janeiro: Darkside Books, 2019.

KILOMBA, Grada. Memórias da Plantação: Episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019a. ______. Desobediências Poéticas. Curadoria Jochen Volz e Valéria Piccoli; Ensaio Djamila Ribeiro. São Paulo: Pinacoteca de São Paulo, 2019b.

LEVY, Tatiana Salem. Paraíso. Rio de Janeiro: Foz, 2014.

LILLY, N. E. What is Speculative Fiction? (2002). Disponível em: <www.greententacles.com/articles/5/26>. Acesso em 20 de ago. 19

QUIANGALA, Anne Caroline. Paraíso de quem? Descolonizando O Paraíso, De Tatiana Salem Levy. Revista Grau Zero: v. 4 n. 1 (2016): Literatura e diáspora pp: 187-207

______. Kindred (video). Disponivel em: <https://youtu.be/ZxWylXqzAss>.

RIBEIRO, Djamila. Lugar de Fala. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019.

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