Cores Vivas: reflexões sobre nós, pobres mortais



por Camille Legrand


Chega este ano, pela editora Darkside, o (ainda inédito no Brasil) livro Cores Vivas da premiada escritora britânica Patrice Lawrence. Seguindo o tema da adolescência e do conflito entre situações nada usuais, a autora nos entrega (mais uma vez) uma epopéia urbana contemporânea que, nesse caso, se aventura no terreno pesado da realidade do tráfico e do crime nas ruas de Londres. Como se não bastasse isso, ainda vemos uma narrativa extremamente verossímil da realidade dos corpos negros quando se deparam com as autoridades policiais. O racismo estrutural está mais vivo do que nunca.

A sorte é que, apesar do peso dos temas trazidos na obra, Patrice Lawrence não tem medo de confrontar a leitora com a realidade, mesmo que para algumas ela seja mais certeira do que para outras.

A história segue, ao longo de - aviso logo, insuficientes - pouco menos de 300 páginas, parte da adolescência do londrino Marlon, um garoto negro de classe média que é fã de sci-fi (seu nome completo, inclusive, é Marlon Isaac Asimov Sunday) e de black music majoritariamente desconhecidas pelo grande público. Ocorre que, a vida pode mudar em apenas um segundo, levando um garoto comum a um novo mundo em que precisa escolher entre pegar ou ser pego.



A trama foi ambientada em Londres e, conforme o histórico da autora, seus protagonistas e a maioria das demais personagens são pessoas negras. Apesar de tal fato ser recorrente nas obras de Lawrence, essa característica ainda pode ser vista como nova no gênero, mas por certo muito bem-vinda. A representação positiva - mesmo que em uma história verossímil e negativamente real - de pessoas negras é tão necessária quanto a própria história contada pela autora, assim é difícil largar a experiência experimentada quando as páginas acabam.

De Caseiro a Prisioneiro


É enervante ver a transição, inicialmente involuntária, de Marlon à situação de ter que lidar com diversas pessoas “barra pesada” munido apenas de inexperiência. Afinal, como é lembrado ao longo da narrativa, era o irmão mais velho de Marlon, Andre, quem vivia e habitava o mundo paralelo da criminalidade de baixo poder ofensivo¹ londrina. 

A maneira como a autora apresenta as diversas subtramas da narrativa, descrava pequenas dicas sobre o desfecho final e o motivo de toda a confusão (mesmo que ainda seja chocante descobrir quem fez aquilo). 

A maravilhosa edição brasileira da Darkside
A história de Marlon, de “menino caseiro a menino prisioneiro”, é recheada de personagens absurdamente opostos e peculiares, desde a melhor amiga de Marlon, Trish, até seu algoz, D-Ice, e tal variedade permite que a obra vá além da ficção e torne-se algo palpável. Especialmente ao público leitor negro brasileiro, é fácil sentir vontade de entrar no livro e retirar Marlon - e todos, na verdade - da perigosa e agoniante situação que vai se criando a medida que vamos nos aproximando do fim. 

As semelhanças entre as vivências negras e do subúrbio londrino e brasileiro - em relação às grandes cidades - são, mesmo que sem a especial intenção de Lawrence, extremamente vivas e doídas a quem sabe das intrínsecas semelhanças entre si e Marlon. Ora, a vivência de Marlon como garoto negro suburbano, que está involuntariamente a todo momento sob o olhar negativo do sistema institucional é praticamente igual àquela vivida e sentida por jovens negros suburbanos e marginalizados das, tal qual Londres, metrópoles brasileiras. 



Todo mundo conhecia a história que eles queriam ouvir. E não era a minha. 

- Marlon Sunday


Não é a toa que a palavra de Marlon é sempre desacreditada pela polícia. Não é a toa que para todos - bem, para a maioria - pareça tão fácil pintá-lo como o vilão e unicamente responsável pelo ocorrido. Desde o primeiro capítulo são corretamente mostrados indícios de como o tratamento dado pelas figuras de autoridade é distinto em relação a brancos e negros, mesmo que a situação seja, de certa forma, inofensiva e a medida que a trama vai se dificultando, essa realidade se torna ainda mais perceptível para Marlon. 

A violência policial, mesmo que não representada como diretamente fatal, bem como a latente e real diferenciação de lugar social étnico-social são retratadas com maestria. Sabe, o simples existir de Marlon em um ambiente que não o aceita - e isso não se restringe apenas aos lugares “de elite”, mas a toda a Londres - é especialmente difícil de ler, já que o resultado fatal que se repete tanto ao longo dos dias e ao redor do mundo pode ser aquele que espera o protagonista. É impossível não prender a respiração a cada virar de página e imaginar que o temido final pode ser real para Marlon, assim como para tantos. 

Amadurecimento forçado


Basicamente, Marlon precisa decidir o que fazer para conseguir livrar a si e àqueles que ama do perigo iminente e/ou de uma condenação criminosa.

A maior característica da trama, por certo, é o fator coming of age (ou amadurecimento, português), comum em tramas infanto juvenis desde sempre, e igualmente presente nesta. O protagonista inicia a história como um adolescente de 16 anos comum e com problemas usuais que está tendo o seu primeiro encontro, mas após uma tragédia que parece ter inúmeras consequências é obrigado a adentrar a um mundo que não era o seu.



Então cê entende que eu tenho que me proteger? E minha mãe também. 

- Marlon Sunday

Assim como muitos jovens pobres e negros ao redor do mundo, Marlon é forçado - desde jovem - a encarar a realidade tentando, de todas as formas possíveis, destruí-lo. Seja o sistema penal londrino, que assim como o brasileiro faz um determinismo sócio racial para criminalizar seus condenados, ou seja o meio criminal urbano das ruas, a fuga e a necessidade de se proteger vem de todos os lados ao mesmo tempo em que o protagonista tenta não perder a si mesmo.

Em poucas páginas, ainda, a autora consegue expressar o que xs ativistas negrxs vem falando há anos, isto é, que a sobrevivência negra é mais cara mentalmente do que a sua contraposta branca.  A proeza de Lawrence em representar em forma de literatura ficcional o que é a vivência afrodescendente londrina a confirma como grande escritora contemporânea e vencedora dos prêmios Waterstones Children’s Book Award e o The Bookseller YA Book Prize, em 2017.

A autora, Patrice Lawrence

Dessa forma, não é absurdo dizer que se trata de uma obra mais do que necessária, tanto por sua trama quanto pela excepcional escrita apresentada por Lawrence. Distintamente de um exemplo de literatura ficcional, parece que se trata de algo que aconteceu ou acontece de verdade. Parece que o próprio Marlon - através de Lawrence - está dividindo a sua história com a leitora. 

O ano literário de 2019, ouso dizer, tomará novo fôlego com esse lançamento e, talvez, abrirá mais portas para outras narrativas do mesmo estilo e protagonismo, entretanto Lawrence conseguiu deixar sua marca. A verossimilhança e o dinamismo da trama são capazes de conquistar até os exaustos de literatura infanto juvenil, visto que não se trata de um romance comum, mas, na verdade, da vida de um adolescente que, por um romance, vê tudo mudar - mesmo que não no bom sentido.


Nota:
1. apesar da criminalidade urbana informal (por exemplo, tráfico) ser extremamente letal, a criminalidade de maior potencial ofensivo está nas grandes corporações que manipulam e incitam a pobreza extrema em favor de uma distribuição de renda e oportunidades deturpada.






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