REVIEW: De volta para casa de Seanan McGuire

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De volta para casa



  • De Volta para Casa (Every Heart a Doorway)
  • Seanan McGuire
  • Editora Morro Branco (Coleção Novellas)
  • 182 p.
  • 2018

  • Por Anne Caroline Quiangala


    A OBRA


    De volta para casa é uma obra vencedora dos prêmios Hugo, Locus e Nebula, que mistura fantasia, suspense e horror. Apesar de poucas páginas, a autora Seanan McGuire desenvolveu um universo próprio, com trama e personagens convincentes o bastante para nos emocionarmos a cada ponto de virada. 

    Dividida em duas partes, a novela é conduzida em terceira pessoa, focando na experiência e visão-de-mundo da protagonista Nancy, uma jovem que retornou há pouco de um universo particular, mágico,  sombrio e de imobilidade, no qual sentia-se completamente ajustada. Neste "verdadeiro lar", nem tudo era inteligível, mas o contato com "seu verdadeiro mundo" a transformou definitivamente a ponto de ela desejar a porta de volta com mais afinco do que qualquer outra coisa. E isso é verdade para as demais garotas que visitaram outros reinos por meio de portas misteriosas.

    Logo na primeira parte, acompanhamos a chegada de Nancy ao internato repleto de adolescentes que retornaram dos mais diversos reinos e não mais se ajustavam à normatização do "mundo real". A protagonista é um modelo de adolescente gótica, mas assim como as demais, ela só deseja estar num lugar confortável, dentro de seu ponto de vista. Cada uma das colegas foi para mundos diferentes, ora absurdos, ora lógicos, e carregavam a mesma sensação de orfandade, incompreensão e desencaixe no mundo fora das portas.

    Paralelo a este desconforto, uma onda de assassinatos toma conta da escola, deixando todas as pessoas que não são minimamente próximas da morte, aterrorizadas. Sem dúvidas, o desenvolvimento do mistério instiga, exatamente porque há uma apropriação de convenções neogóticas e fantásticas que se entrelaçam e, por vezes, se contradizem para criar um efeito novo.  





    LEITURA E DISCUSSÕES


    De volta para casa tem uma estrutura linear e, por mais que não deixe pontas soltas na história em si, algumas perguntas permaneceram no fim da narrativa. Num primeiro momento, me pareceu que a história era uma analogia relacionada ao trauma de crianças que passaram por abuso, e em diversas passagens, a passagem pelas portas parecia estar relacionada a uma experiência inexplicável. Em especial, a relação de Nancy com o Senhor dos Mortos, autoridade no Reino Sombrio remonta aquela experiência de submissão típica dos romances góticos do século XIX os quais, sendo de autoria feminina, remetiam à experiência de loucura e alucinação em resposta ao aprisionamento e abusos:


    A Esperança machuca. É isso que você precisa aprender, e rápido, se não quiser que a esperança corte você de dentro para fora. Esperança é uma coisa ruim. Esperança significa que você continua se prendendo a coisas que nunca mais serão as mesmas, então você sangra um centímetro de cada vez, até que não tenha sobrado nada ( p. 32)


    Sem dúvidas é, mas com o passar dos capítulos, a falta de aprofundamento sedimentou a compreensão de que o pacto narrativo deveria considerar real a viagem pelos mundos.

    Apesar deste anticlímax - ao menos para mim - a experiência de leitura foi realçada pela presença de personagens que passam por conflitos e inadequações as quais reconhecemos (muito) bem. A meu ver, o que tem mais contorno na história são as discussões a respeito de diferença, tolerância e solidariedade. Quando Nancy chega ao internato, ela é uma pessoa solitária e egocêntrica, mas à medida que vai se integrando, reconhece que seu "não encaixe" e "desconforto" era sentido pelas demais pessoas ali, cada uma sentido à sua maneira.

    À medida que se abre para o mundo, Nancy aprende a enxergar a importância da solidariedade para além de saber os termos politicamente corretos. Ela conhece pessoas diferentes dela, que a julgam ou que a recebem de braços abertos e, com isso, percebe o quanto é improdutivo e desagradável ser julgada e perder tempo com julgamentos, afinal as pessoas são muito mais do que "aparentam" e expressam. O internato é uma casa da diferença, mas nem todas as jovens internalizam essa condição como uma conexão com as colegas, porque se prendem à individualidade de sua experiência da forma mais egótica possível, ainda que os reinos não fossem "bons". Isso é compreensível, já que, segundo uma professora:


    [...] pela primeira vez, não tínhamos de fingir ser alguma coisa que não éramos. Podíamos só ser. Isso fazia diferença do mundo. (p.61)


    Em suma, a narrativa apresenta adolescentes comuns sem exagerar na interpretação que adultos tem deles. O ponto chave em De volta para casa é a capacidade de elucidar o quanto a empatia e o lugar de escuta são importantes, não apenas pra entender sobre os outros, mas para acessar uma camada mais profunda de si mesma. 



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