Quando nos tornamos tão tóxicos?

Com muita frequência me coloco na posição de criticar os produtos midiáticos. Estamos aqui para analisar e exigir melhores conteúdos, com mais diversidade e mais representatividade. No entanto eu não posso fechar os olhos para um problema crescente dentro dos fandoms, especialmente os LGBT, estamos nos tornando tóxicos.


Roland Barthes produziu o ensaio "A Morte do Autor", onde ele pontua que depois que a obra é publicada a intenção do autor nada mais é do que apenas outra opinião entre muitas que irão surgir. Se quiser ter um entendimento melhor da "Morte do Autor", clique aqui para ver um vídeo explicando. Mas basicamente diz que a sua opinião como fã teria tanto peso quanto a do criador da obra. E mesmo sem o conhecimento de teoria literária, isso é o que alimenta o universo de fanfics e fanarts. São espaços que permitem que fãs aquilo de que são fãs e com o advento na Internet e das Redes Socais esses fãs que criam encontro outros fãs que consomem e é assim que surge os fandom, que vem da contração de Fan (fã) e Kingdom (Reino).

Em algum ponto da relação criadores e público as linhas de interação se tornaram tênues. Provavelmente devido a Redes Sociais e Internet. O público passou a ter uma influência com o que acontecia dentro das tramas. E é nesse ponto que o subconsciente da morte do autor se torna perigoso, por quê agora a obra não está finalizada e muitos fãs querem impor sua visão e expectativas por cima do que os criadores originalmente planejaram.


Um acontecimento que demonstra esse problema foi o ocorrido com Lauren Zuke, animadora de Steven Universe. Tudo começou quando o episódio Beta, 21 da terceira temporada, veio ao ar. Haviam rumores sobre a possibilidade de romance entre as personagens Lapis Lazuli e Peridot e apesar do casal não ter sido oficializado, Zuke compartilhou uma ilustração do casal em sua conta do Twitter. Foi o suficiente para que muitos fãs, que shippam o casal Amethyst e Peridot, se indignassem. Foi acusado favoritismo, queerbaiting (quando um casal ou plot LGBT é posto no subtexto sem nunca se tornar real), o assédio e ofensas foram tantas que a desenhista optou por abandonar a rede social.

Estamos nos tornando mimados e mesquinhos, utilizando de frases bonitas de militância. Exigindo “representatividade” quando na verdade queremos reprodução de nossas fantasias e desejos mesmo que isso custe a qualidade da obra que consumimos.

Isso foi o que aconteceu com a websérie e recém lançado filme "Carmilla". Há 3 anos atrás surgia uma web série feita com uma única câmera estática que contava a história de Laura, uma estudante de jornalismo, e sua colega de quarto Carmilla, que era uma vampira. A primeira temporada foi cativante trazendo um misto de Buffy – A Caça Vampiro com Veronica Mars, personagens complexos e interessantes, um vasto número de personagens LGBT apesar de bem brancos. A segunda temporada foi inferior a primeira, mas teve a adição de personagens não brancos. O grande problema foi a terceira temporada, a série que havia começado pequena se tornou um megassucesso entre o público feminino não hetero e fazendo fan servisse para agradar esse público que torcia para que Laura e Carmilla terminassem juntas a série descaracterizou diversos personagens, todos eles partes da comunidade LGBT, ignorou furos narrativos e deixou de dar desfechos a personagem cruciais do enredo.

Estamos reproduzindo os mesmos defeitos que fãs heteros tem com conteúdo midiático. Justificando comportamentos nocivos e romantizando relações toxicas e abusivas, como no filme "Carol", onde uma mulher de 40 e poucos anos stalkeia uma jovem de 20 e poucos, a seduz para um relacionamento extremamente controlador e termina a sua bel vontade. E por algum motivo, esse filme é considerado uma bela história de amor entre mulheres. Estamos ignorando contexto, construções narrativas e questões extratexto, como por exemplo contrato que os atores assinam para participar dessa ou daquela série.


Recentemente as atrizes Caity Lotz (Sara Lance de Legends of Torommow) e Chyler Leigh (Alex Danvers de Supergirl) fizeram um live no Instagram explicando que elas são apenas atrizes e que no final das contas não tem grandes dizeres no conteúdo final do roteiro que irão receber para atuar. As vezes alguns casais são terminados por que uma das atrizes recebeu uma oferta de trabalho melhor e por mais que os roteiristas e produtores as quisessem na série não havia o que fazer. Essa live toda aconteceu por que os fãs estavam atacando ambas as atrizes e os criadores do Arrowverse nas redes sociais pelo termino dos casais Nyssa/Sara e Alex Danvers/Maggie Sawyer.

Na temporada 2015/2016 houve um grave BOOM de personagens LGBT sendo mortos, principalmente mulheres não heteros. Foi quando foram levantadas as problemáticas da trupe Bury Your Gay e Sex Bed Death. A primeira é simplesmente a morte de um personagem LGBT para gerar ação dramática e desenvolver a história ou puramente para Shock Value, a segunda é quando a personagem não hetero morre depois uma cena de sexo onde fica implícito que o sexo entre pessoas do mesmo gênero é punido. Nesse período de 2015/2016 mais de 20 personagens foram mortos.

A morte que causou maior comoção foi a da comandante Lexa, da série The 100. Sua morte serviu para ambos, Bury Your Gays e Sex Bed Death. Foram feitas petições online, Hashtags subiram no Twitter, Outdoors foram espalhados por Los Angeles e até mesmo uma convenção foca exclusivamente em conteúdo midiático para mulheres não heteros foi criada em sua homenagem.


E é algo justo de ser realizado, o que não desceu tão bem é que a morte de mulheres não heteros e não brancas não causou a mesma comoção. A morte de Lexa ocorreu no mesmo período que Poussey morre em Orange Is The New Black, não foi feito nenhuma convenção para ela ou outdoor, na verdade muitas das mulheres não heteros que se revoltaram com a morte da Lexa elogiaram a coragem dos autores de OITNB de abordar racismo de forma não crua e aberta. Foi também o ano que Bethany Mayfair de Blindspot foi morta e fez os criadores da série terem medo da retaliação do público a ponto de talvez custar o segundo ano da série e nada aconteceu.

Por que a morte de uma personagem branca, que fazia brown face, teve maior peso que das mulheres latinas, seis mulheres negras e uma asiática? Piora quando se sabe que o fandom da Lexa organizou um boicoite a The 100, série com maioria do elenco não branca e com múltiplos personagens LGBT incluindo a protagonista bi, incentivando que as pessoas assistissem no lugar Fear The Walking Dead, nova série da interprete de Lexa, onde não havia personagem LGBT nenhum.


Se a questão era de fato exigir não apenas uma maior representatividade LGBT, mas sim uma melhor por que se dedicar a uma série onde só há pessoas heteros e cis? E no final das contas o que é uma boa representação, são personagens que nunca passam por situações difíceis, que nunca enfrentam términos, que tem todos os seus dilemas emocionais bem resolvidos, que já nasceram fora do armário e não sofrem qualquer forma de preconceito por isso, seria uma personagem bi que fica exclusivamente com alguém do mesmo gênero?

Problemas e dificuldades é o que nos torna humanos. É ser inseguro sobre sair ou não do armário, é conseguir reconhecer quando um relacionamento é nocivo e prejudicial para gente e sair dele. É superar o melhor relacionamento que apareceu no momento errado. É cometer erros, é ver alguém morrer e lidar com isso. Eu não quero meus personagens presos em uma caixa ou sob uma redoma de vidro.

Eu não quero ditar a forma como você vê as obras que você ama. Eu escrevo fanfics às vezes por não gostar dos rumos que a série tomou, eu adoro receber fanarts e eu critico muito quando os criadores fazem algo errado, esse site inteiro foi criado com essa finalidade. Mas vamos fazer isso direito, não vamos nos tornar os bulliers que tanto combatíamos.

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