Por que todas nós devemos ler "Heroínas Negras Brasileiras"?

Heroínas Negras Brasileiras (Jarid Arraes)
Quem me apresentou o cordel foi meu pai. Eu era criança e, até hoje, ainda lembro do dia em que isso aconteceu. Jamais imaginaria que aquele conjunto pequeno de papéis coloridos poderia ter algo útil e rico, por isso não dei importância e continuei lendo meu livro grande e de capa dura colorida. Painho insistiu para que eu lesse e dias depois, ao perceber que eu não tinha nem tocado, sentou do meu lado e começou a ler; aquela métrica me prendeu a atenção, pois eu nunca tinha escutado algo do tipo, era como se ele cantasse sem desafinar e isso me empolgou muito. Larguei as fantasias de capa dura e passei a ler sobre fantasias da minha realidade, era como se minha avó estivesse contando: ela falava com tanta verdade que não tinha como não acreditar que uma mulher era professora de dia e mula sem cabeça a noite, ora pois.
Cordéis da Jarid Arraes

Não larguei mais, painho continuou me presenteando com cordéis. Na adolescência, comecei a escrever poemas e cordéis para afogar os sentimentos (além de ser fã de Cordel do fogo encantado) e até aprendi na escola a escrever e identificar um cordel. Com o tempo, tudo isso foi se perdendo, eu achava que meus cordéis não eram interessantes, achei que o cordel em si tinha se perdido no tempo e se tornado algo turístico, folclórico, distanciado do cotidiano e, principalmente: boa parte do que eu lia era machista, lgbtfóbico e racista, então como eu poderia consumir algo que me machuca? Pouco a pouco foi sumindo do meu cotidiano. 

Há uns anos conheci pela internet uma jovem mulher negra cearense e maravilhosa que, assim como seu pai e avô, é cordelista e escritora e usa do seu talento não para reproduzir mais opressão e preconceito, mas para contar narrativas apagadas pelo tempo, pela hegemonia branca e masculina: histórias de mulheres negras brasileiras e africanas reais. Jarid Arraes fala desde Aqualtune à Carolina de Jesus, Tereza de Benguela à Luísa Mahin, Maria Felipa à Tia Ciata e ela conta com tanto amor numa metodologia extremamente didática que sim, fiquei emocionada desde que comecei a ler.

Jarid autografando para mim no lançamento

Ontem (07/06/2017) tive a oportunidade de ir ao lançamento, aqui no Rio de Janeiro, e conversar uns minutos com a cordelista. Consegui agradecer por esse trabalho tão importante para a nação brasileira, não apenas para mulheres negras, porque apesar de nos convencerem que os problemas que enfrentamos seja nosso, não é, é de todos e todos precisam estar a par de informações como essas que contém no livro. Esse é o tipo de conteúdo que deveria estar nas bibliotecas, nos currículos escolares, nas universidades sendo difundida e aprofundada mais e mais.

Quem de nós já não pensou o quanto seríamos diferentes se na nossa infância tivéssemos a oportunidade de ter referenciais que nos contassem histórias encantadas sobre outras princesas,  não é mesmo? Princesas que nos inspirassem, como Aqualtune ou Luisa Mahin, rainhas como Na Agontimé, narrativas de super-heroínas que, além de mulheres negras, guerreiras, fortes e sensíveis eram capoeiristas, poetas, professoras, jornalistas, militantes, marisqueiras e, acima de tudo, grandes símbolos de resistência. Super-heroínas que lutaram e deram seu sangue para que hoje pudéssemos nos reconhecer como mulheres negras com orgulho, sem medo de continuar a travar lutas por nós e por elas. Super-heroínas que não usavam capas, mas usavam turbantes e lutavam com as armas que fossem necessárias para o bem de seu povo e de sua família. São as histórias dessas super heroínas que eu quero contar para minhas filhas.

Depois de tudo que falei, meu conselho é: leiam as obras da Jarid Arraes! Recomendo, para quem quiser saber um pouco mais sobre Jarid, olhar o site dela: jaridarraes.com.


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