quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A Mídia e a Solidão da Mulher Negra



"Durante os 16 dias de ativismo na luta contra a violência à mulher, os blogs  Collant Sem Decote, Momentum Saga, Ideias emRoxo, Delirium Nerd, Vanilla Tree, Preta, Nerd & Burning Hell, Prosa Livre, Nó de Oito, Valkírias, Psicologia&CulturaPop, Iluminerd, Kaol Porfírio e Pac Mãe todos envoltos pelo #feminismonerd, se propuseram a discutir as problemáticas em torno da representação de mulheres tanto como uma matriz que reitera os discursos de violência e ódio, como veículos que visibilizam a discussão. Sabemos que, apenas a exposição e discussões possibilitam o combate direto, a resolução e identificação do problema. Como reitera a escritora e teórica feminista Audre Lorde : é preciso transformar o silêncio em linguagem e ação"

A violência não é caracterizada apenas da agressão física, mas também vem de forma simbólica, emocional e psicológica. Além disso, é preciso compreender que não existe uma hegemonia no que é ser mulher, mulheres não-brancas terão violências específicas causadas devido à intersecção de questões de gênero e raça, o mesmo acontece com mulheres não héteros ou mulheres trans.
E eu vim falar sobre um tipo especifico de violência simbólica, a tão conhecida Solidão da Mulher Negra. Essa solidão é um fator que vai atingir as mulheres negras independente de suas sexualidades, infelizmente ela é tão presente e naturalizada que ninguém se dá conta da sua constante reprodução no meio midiático.

Mas o que é a Solidão da Mulher Negra? É preciso compreender que nossa sociedade vive de uma forma hierarquizada onde no topo da cadeia social está o homem branco e no fundo está a mulher negra. Então socialmente nós, mulheres negras, somos a casta mais baixa, a mais oprimida, a menos desejada. Logo a mulher que é vista como troféu a ser ostentado socialmente é a mulher branca, que é uma mulher de primeira classe e não a mulher negra, que é vista como um ser de segunda classe.
Portanto o homem branco já naturalmente não nos procura para relacionamento romântico, ele é criado para casar com mulheres brancas. Acontece que muitos homens negros também não se relacionam com mulheres negras, por que muitas vezes para eles se envolver com uma mulher branca é sinal de ascensão social, que eles subiram no status quo. Além disso, existe o racismo institucionalizado que educa até pessoas negras a terem aversão a características negras, fazendo assim com que os traços negroides das mulheres negras não sejam atraentes e, assim elas são consideradas socialmente como feias.

E o que a mídia, o meio de entretenimento tem relação com isso? Ele normatiza esse comportamento, porque, muitas vezes a gente apenas reproduz o meio em que vivemos sem questionar.
Se você pegar o livro Hibisco Roxo da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, no final, vai se dar conta de que todas as personagens  femininas estão sozinhas, a protagonista até chega a dizer que o lado romântico dela não existe mais. Isso acontece porque a escritora recria o mundo ao seu redor e essa é a realidade das mulheres negras que a rodeiam, relacionamentos fracassados, relacionamentos abusivos onde a mulher negra se sujeita por achar que não vai encontrar outra pessoa, longos períodos de solidão e solteirice.


Essa mesma solidão é possível ser vestida em Grey’s Anatomy, série criada e roteirizada por Shonda Rhimes. Nas temporadas iniciais tínhamos apenas Miranda Bailey como mulher negra na série e os personagens demonstravam surpresa ao descobrir que ela tinha 10 anos de casada. Por que era inimaginável associar aquela mulher negra com uma vida romântica. Essa relação se mostrou tóxica e o marido de Bailey não deu qualquer suporte a personagem, os relacionamentos futuros continuaram trazendo os mesmos problemas onde o homem se sentem demasculinizados pela médica, sem demonstrar em momento algum a mesma consideração pela parceira que exigem.

Mais na frente tivemos a inclusão de mais duas personagens negras no elenco fixo da série. Dra. Edwards, ela chega a se envolver com o Jackson Avery, um médico negro, mas o mesmo a deixa para se envolver com uma médica branca. Meggie Pierce, que é uma personagem com destaque dramático, tem uma vida romântico praticamente ignorada ao contrario dos personagens brancos em posição de destaque.

Em How To Get Away With Murder, a personagem Annalise Keaton, interpretada por Viola Davis, começa com um casamento fracassado onde ambos traem e, nas temporadas seguintes, não consegue manter um relacionamento com ninguém, seja branco ou negro, homem ou mulher e termina em uma condição onde está sozinha e sem ninguém.



Nos quadrinhos, temos Luke Cage que, inicialmente, tinha um envolvimento com a Claire Temple, mulher negra, mas que só foi constituir família com Jessica Jones, uma mulher branca. O casamento entre T’challa (Pantera Negra) e Ororo (Tempestade), termina em uma separação.

E a lista poderia continuar, é um questionamento que nos faz perguntar qual é olugar da mulher negra no amor? Será que temos vez? E aqui entra a violência simbólica, crescemos com essas imagens na mídia de forma geral, no meio ao nosso redor e fica embutido nosso inconsciente de que não somos dignas de amor, que não somos boas o suficiente, que devemos ser gratas pelas migalhas que recebemos.

É através disso que surgem mulheres que se sujeitam a serem amantes ou a não serem assumidas publicamente. Que toleram agressões e abusos por acharem que não terão alguém além dessa pessoa ou que tudo que recebem é o que elas merecem exatamente por não serem boas o suficiente.

Quandoa mídia quebra esse padrão e coloca uma mulher negra numa posição de interesseamoroso, par romântico e de uma forma saudável é uma grande esperança, é a ideia de que esse ciclo vicioso possa ser quebrado.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

ASSÉDIO É VIOLÊNCIA CONCRETA SIM!



#FEMINISMONERD: 16 DIAS DE ATIVISMO CONTRA A VIOLÊNCIA À MULHER


"Durante os 16 dias de ativismo na luta contra a violência à mulher, os blogs  Collant Sem DecoteMomentum SagaIdeias em RoxoDelirium NerdVanilla TreePreta, Nerd & Burning HellProsa LivreNó de OitoValkíriasPsicologia&CulturaPopIluminerdKaol Porfírio e Pac Mãe todos envoltos pelo #feminismonerd, se propuseram a discutir as problemáticas em torno da representação de mulheres tanto como uma matriz que reitera os discursos de violência e ódio, como veículos que visibilizam a discussão. Sabemos que, apenas a exposição e discussões possibilitam o combate direto, a resolução e identificação do problema. Como reitera a escritora e teórica feminista Audre Lorde : é preciso transformar o silêncio em linguagem e ação"


ASSÉDIO:  VIOLÊNCIA SIMBÓLICA E CONCRETUDE


A sensibilidade em relação ao problema "Violência à mulher" faz com que o tema vire objeto e método de análise de pessoas que se identificam como "feministas". Restringindo ao (multi)verso do #feminismonerd em que vivemos, não é exagero dizer que estamos cercadas pela questão tanto no mundo ficcional quanto no "real", e, portanto, todas nós, em algum momento, vamos falar disso reportando as violências dos comentários ou mesmo desmontando a retórica dos jogos, quadrinhos e filmes.
Como estudante de literatura, afirmo que, na maioria das vezes, o cotidiano duma mulher é feito um romance gótico: ameaçador, terrífico e inescapável. A heroína luta, luta e até tenta fugir, mas o substrato cultural encaminha ao corredor sem saída do trauma, loucura e morte. Se o "sem saída" é o que já temos - longe de qualquer positividade Pollyanna - eu acredito (e busco construir) no (o) feminismo como grande a utopia no "aqui-agora". Antes que vocês possam enxergar no que digo uma negatividade descabida, quero dizer que o realismo (não fatalismo) é uma das peças-chave para o ativismo. Os fatos são tristes (após 10 anos da Lei Maria da Penha, o índice de homicídios contra a mulher negra aumentou 19,5℅ enquanto a taxa em relação às brancas caiu 11,9%), mas temos que enxergar com lucidez e buscar soluções práticas. Sem reconhecer a violência, inclusive sua historicidade, não podemos erradicar nem de nosso cotidiano, menos ainda da sociedade. Exemplo dessa necessidade de repensar a realidade traumática imposta aos femininos e às mulheridades é o modo como as pessoas entendem o assédio. É incentivado que as garotas ignorem e até mesmo não vejam o assédio como violência, afinal "são apenas palavras" e "olhar não arranca pedaço".

Deixa eu te contar: arranca sim.

Entre as diversas modalidades de violências físicas e psicológicas, ambas marcam a vítima de forma concreta e permanente. 


Um conceito central, quando se trata de violência simbólica, é o conceito de poder simbólico cunhado pelo sociólogo francês Bourdieu. Há, segundo o sociólogo, um poder que se deixa ver menos ou que é até mesmo invisível. Esse poder, que se exerce pela ausência de importância dada a sua existência, poder ignorado, que fundamenta e movimenta uma série de outros poderes e atos. O poder que está por trás, escondido nas entrelinhas e que é cunhado com este propósito. Quando reconhecido, estamos diante do poder simbólico, denomina Bourdieu (BOURDIEU, 1989, p.7). “O poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem”
(BOURDIEU, 1989, p. 7 via Não Me Khalo).

É notável como permanece uma hierarquia de dor focada na concretude física que eu acho contraproducente. Segundo essa lógica, o assédio sexual é visto com normalidade (como se estivéssemos no momento infantil de descobrir o mundo pelo tato, sem a compreensão do conceito de substantivo abstrato) e a justiça contra o agressor deve ser física no estilo "olho por olho, dente por dente". Sinto informar: a ideia de corrigir estupro com linxamento, não é nova e está muito próxima do que entendo por "justica branca", que antes pune raça/cor e classe (aquela do Jim Crow). Imagens são muito densas, mas Strange Fruit  na voz de Nina Simone é uma forma de compreender o ponto de vista interseccional. Mas vamos pensar um problema de cada vez.

Uma percepção adequada à complexidade do problema é a de que assédio é sim concreto. Ele atua de forma real no cotidiano das vítimas, é bastante letal e, sobretudo, é o que autoriza a violência física, no olhar do abusador. Na maioria das vezes, o insulto disfarçado de elogio é o primeiro passo.


Isso me ocorreu essa semana, analisando "A donzela de bronze" (Amazing Spider-Man Annual #16 (1982) [Brasil: Heróis da TV -1987]) a história em que estreou a Mônica Rambeau estreou como Capitã Marvel. Nela, o Peter Parker a.k.a Homem Aranha, primeiro demonstra um instinto naturalizado de "stalker" (uma masculinidade insegura) que culpa a vítima. Mais à frente, noutro plot da mesma história, ele a agride fisicamente. E parece tudo normal e desconexo para um olhar insensível, senão privilegiado como o do roteirista Roger Stern. O "amigão da vizinhança", a despeito de não ser "um estuprador" (porque acredita-se que *fatos produzem indivíduos*), se sente "safadinho" e, portanto, bastante à vontade para seguir uma mulher que "achou bonita". Não, isso é assédio. Isso é violência.


"A Donzela de Bronze" (1 nov. 1982) [detalhe]
Roteiro: Roger Stern
Arte: John Romita, John Romita Jr.  


O entrelaçamento do real como o fictício mostra com propriedade a concretude dessa narrativa em nosso imaginário e experiência "real". Qualquer mulher é vulnerável ao assédio, por mais autossuficiente que seja e em qualquer situação e ambiente. Tanto é verdade que o assédio é violência concreta que, quando ignoramos ou mostramos desacordo, o/os agressor/es mudam o tom, o palavreado e a abordagem e coagem de forma direta insinuando agressão física, insultando com palavras de calão e desvalorizando. Essa situação é o plot de "A vingança de Briggs" (1986) roteirizado por Ann Nocenti. O mutante Briggs, depois de assediar Tempestade e ser ignorado por ela se sente à vontade para agredi-la de forma contínua. De fato, quando aparece uma espécie de Lord para defendê-la, Tempestade que é uma deusa, recebe a proteção com muito gosto o que ensina para os garotos àquela época que mulheres estão interessadas em homens "formosos e com posses", como se o problema não fossem as atitudes. Em seguida, Briggs coage a mutante a escolher um dos seus melhores amigos (Colossus ou Wolverine) para morrer. Como uma heroína gótica, Tempestade se sente aprisionada e escolhe Wolverine por acreditar que ele é mais apto a se defender. Embora a escolha seja racional, ela não leva em conta a cooperação entre homens e o final não é positivo para ela, exceto no que tange à integridade física. Veja que o título faz parecer que Briggs é a vítima, em busca de vingança. Ora, é o próprio Briggs que tenta humilhar a heroína (slutshaming) por sua (suposta) atração sexual pelo (suposto) salvador.

Sendo Nocenti uma mulher, notamos em sua narrativa a falta de agência da heroína e a impossibilidade dum desfecho transgressor, tal como a ficção especulativa de autoria feminina do século XIX. Já Stern possibilita que Rambeau salve a si mesma naquela situação, surpreendendo Parker, mas sua forma combativa é punida física e moralmente noutros momentos daquela história - como o gótico masculino Ex: "O castelo de Otranto" (Horace Walpole).

Tendo em vista que as equipes criativas de ambas as histórias em quadrinhos não são compostas por nenhuma pessoa negra, uma perspectiva interseccional identifica a complexidade que é o fato de Rambeau e Munroe serem sexual e racialmente diferentes desses times. Óbviamente escritoras/es devem ser capazes de escrever sobre qualquer experiência, no entanto, se vocês observarem qualquer história em que a Wanda Maximoff eiticeira Escarlate ou mesmo da Jean Grey (Garota Marvel/Fênix) sofrem assédio perceberão que ambas não há índices imediatos de violência física, e sim a tentativa de manipulação mental para que elas escolham o vilão como parceiro sexual. A primeira está sempre acompanhada do irmão Pietro (Mercúrio) para defendê-la dos invasores, a despeito de apresentar comportamento tão manipulador quanto o Mestre Mental, por exemplo. A segunda também é assediada, mas duma forma que compromete o plano psicológico com danos irreparáveis.

Por um lado, defendo a ideia de que assédio sexual e moral são violências concretas e entendo que "Vingadores, a queda"  e "Dinastia M" são formas de representar os efeitos da violência simbólica na vida de mulheres brancas. Por outro, tanto "A vingança de Briggs" como "A donzela de bronze" descrevem situações em que o assédio moral é metáfora da ameaça física, de uma violação imediata do corpo. Não há estratégia de convencimento, nem o insulto e a perseguição isolados; Tempestade e a Capitã Marvel estão expostas ao risco de morte iminente. Como eu mesma e qualquer outra garota negra. Ora, quem disse que essas situações imaginadas não refletem e constroem o cotidiano?  Aliás, cá estou existindo e contra-imaginando, afinal, ser Preta, Nerd, acadêmica e  escrever sobre violência quer dizer contrariar estatísticas, não é mesmo? 

CONCLUSÃO


Graças à veiculação de imagens que mostram a violência simbólica como aspecto da vida cotidiana, muitas vezes nos vemos concordando que "palavras não arrancam pedaços". Em "A Vingança de Briggs" e  "A donzela de Bronze", duas histórias criadas pós conquista dos direitos civis, roteiristas reforçam a norma sexista que diferencia o sujeito e o objeto, respectivamente, como homens e mulheres (estas divididas entre "boas" e "más" com punições visivelmente diferentes). É importante ler essas histórias tendo em vista o contexto histórico e econômico, porém, ambas as situações ficcionais constroem padrões de comportamentos que perpetuamos. É evidente que, enquanto não desnaturalizamos os pensamentos e práticas, enquanto não transformamos tudo em linguagem e denúncia, refletiremos a ideia de que violência simbólica é invisível, abstrata e menos importante. Está firmado no nosso campo de experiências  que esse tipo de violência é normal, mas como audiência negra crítica, estamos no caminho da decolonização a ponto de lidar com o poder simbólico de forma combativa, porque assédio, mainsplaning, slutshame e assédio sexual são violência concreta sim!



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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Preta, Nerd entrevista: Roberta Araújo!



Quantas mulheres negras quadrinistas você conhece? Pois é. A maioria das pessoas só parou pra pensar nisso quando a Marvel anunciou a suposta primeira quadrinista negra: Roxane Gay. Quando digo “suposta” quero enfatizar que a própria Marvel já contratou a Nilah Magruder para A Year Of Marvels: September Infinite Comic #1, que, a despeito de não ser uma série contínua nem ter ido às bancas, tem a marca da casa das ideias estampada na capa. Gay, embora seja uma feminista negra influente (veja seu tedx aqui), nunca trabalhou com quadrinhos, o que levou o público blerd a questionar: existe uma lista enorme de quadrinistas negras, negros, negrxs experientes que carecem de visibilidade, sério que a Marvel não contratou nenhuma dessas pessoas?

Bem, sobre a diferença entre quem produz conteúdo e quem é produzido, podemos lançar pensar um pouco no espaço que o mainstream da para personagens negros e o espaço para quadrinistas negros (sim, os homens cis).

Dou uma segunda chance a você, leitora, para pensar na questão: qual a diferença entre quadrinhos negros e negros nos quadrinhos?



Consciência Preta, Nerd

Em comemoração ao dia da Consciência Negra, entrevistamos a roteirista Roberta Araujo para privilegiar sua produção Nerd. Roberta é roteirista da webcomic D.A.D.A (ilustração da Renata Rinaldi), do selo Pagu Comics, que estreou na plataforma digital Social Comics no dia 20/11/2016! Para ter acesso à HQ assine a Social Comics e curta a fanpage da Pagu!

D.A.D.A


“Protagonizada por quatro heroínas negras, “D.A.D.A” tem o roteiro de Roberta Araujo, arte de Renata Rinaldi e cores de Jéssica Lang. Essa história se passa no futuro, depois que um apocalipse enviou a Terra para uma era sem tecnologia. Nesse cenário árido e violento, quatro mulheres negras, com poderes de suas orixás, tentarão proteger o que restou da humanidade” ( Ana Recalde via Pagu comics)



Preta, Nerd Entrevista Roberta Araújo



PN: Roberta, em primeiro lugar, queremos agradecer sua disponibilidade para contribuir conosco! Como foi a concepção deste quadrinho, as primeiras idéias, a construção do roteiro?

Roberta Araújo

Então, quando Ana Recalde  me convidou e falou que a ideia era criar heroínas brasileiras eu tinha certeza de que ia ser negra. Minha ideia é não só me ver representada, mas que todas nós possamos olhar e nos vermos nessas mulheres. E também pensei nelas como salvadoras e, por isso, veio essa ideia de ter a história em um futuro pós apocalíptico tendo mulheres negras como salvadoras. Nesse primeiro número a ideia é não contar muito sobre elas e colocar elas 4 na ação lutando e salvando as pessoas, e como eu gosto muito de ação, sangue e cabeça sendo arrancadas vai dar pra conferir muito disso na D.A.D.A. rsrs


PN: como surgiu a sua parceria com a ilustradora Renata Rinaldi?

A Ana começou a me apresentar as artistas para fazer o quadrinhos, já conhecia o trabalho da Renata e posso dizer que fiquei mais fã ainda dela depois da D.A.D.A.

PN: Você pode falar um pouco sobre como a experiência com produtos de massa lhe conduziu a querer produzir D.A.D.A?

A D.A.D.A. tem muita influência de filmes de terror e zumbis. Toda essa ideia de pós apocalíptico posso dizer que os zumbis me ajudaram bastante rsrs.

PN: Como você define seu perfil de leitora de quadrinhos? Qual a sua relação com a linguagem?

Eu sou apaixonada por quadrinhos  e hoje em dia sou muito mais ligada aos quadrinhos independentes. E como estudante de história da arte, também pesquiso sobre o assunto.
Quadrinho é uma relação de amor

PN: Qual foi a primeira super-heroína negra que te marcou? Por quê? Há traços dessa experiência em D.A.D.A?

Sem dúvidas é a Ororo sou apaixonada por ela. Principalmente pela figura forte que ela passa e com certeza na D.A.D.A tem MUITOOO disso guerreiras fortes e com liderança.  

PN: Como você enxerga o cenário dos quadrinhos alternativos no Brasil? Você acredita que as iniciativas estadunidenses (Marvel, DC, Dark Horse, Image, Valliant) conferem visibilidade à “””diversidade””” e abrem possibilidades reais de crescimento do mercado aqui?

Eu acho que o quadrinho nacional está em seu melhor momento, as pessoas estão dando mais valor e ninguém mais depende de uma editora pra poder ganhar fãs e conseguir produzir. Eu sempre fico com pé atrás com algumas iniciativas que vêm aparecendo rsrs, mas acaba sendo bom tanto pro mercado quanto para a construção desse novos leitores que estão nascendo e até mesmo pra mudar a visão da galera mais antiga que consome quadrinho  

PN: quais as suas referências de quadrinho nacional?

É até difícil é tanta gente, acabamos nos tornando amigos e fãs uns dos outros rsrs

PN: É notável que suas inspirações políticas já marcam sua estreia nos quadrinhos de forma positiva, tanto pelo valor das ideias quanto pela estética refletir a diversidade étnica da população negra. Você pode falar um pouco sobre isso?

Eu estou muito feliz porque essa repercussão positiva foi meio inesperada, só a divulgação já surtiu o efeito que eu tanto queria. Meninas de todos os tipos se identificando com cada personagem só vendo as imagens dela. Isso me deixa muito feliz, é difícil você crescer sem uma referência visual de você olhar as super - heroínas e você pensar “Poxa nunca vou conseguir se uma” justamente porque elas não foram feitas pra você. Não só a D.A.D.A mas a Pagu Comics estão criando referência para várias meninas no Brasil inteiro.     

PN: Um dos temas comuns quando se constrói roteiros sobre personagens negros é enfatizar a descrição da experiência de racismo e produzir um comentário sobre. Como D.A.D.A avança em relação a isso?

Como a história se passa no futuro o racismo meio que não existe, mas vou tentar trazer a lembrança do racismo do passado. Porque é uma tema que não tem como passar batido.

PN: O plot de heróis negros serem Orixás já foi apropriado até mesmo pela Marvel. Como você você conseguiu montar uma que ao mesmo tempo que fugisse do convencional, ainda contribuísse  de uma forma positiva e questionadora?

Acho que com a nossa herança histórica já me faz ter uma visão bem diferente de como trabalhar com os Orixás. E essa relação com os Orixás são colocadas de jeitos sutis, natural e com muito respeito.

PN: como você define D.A.D.A?

Acho que irmandade e luta define bem a  D.A.D.A.

PN: Você se considera uma militante? você acredita que a arte engajada desencadeia reflexões? De que maneira?

Sem dúvidas, sou a chata do facebook que compartilha tudo em relação a racismo e preconceitos, e não tenho vergonha disso rsrs. Eu acho que a arte é a melhor arma para trabalhar com alguns temas. Porque ela sempre vai atingir quem tem quem atingir

PN: mais uma vez, agradeço pela entrevista Roberta. Você pode fazer o merchan! Rs.

GENTEEE leiam a D.A.D.A, leiam as meninas da Pagu e leiam mulheres que fazem quadrinhos <3

PN: você quer acrescentar alguma coisa?

Só agradecer muito, e não esqueça que toda mulher é sua própria super- heroína <3






Leia mais:


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

A importância de Tara Mae Thornton sobre a pele de Rutina Wesley


Yeah, I’m just another mad weirdo
Yeah, I’m just another mad weirdo
Ergo
I came up with a chant for other mad weird folks’ earphones
(Sammus - Weirdo)


INTRODUÇÃO


Digamos que esse texto deve ter sido formulado em minha mente no fim da adolescência, assim que me deparei com "True Blood" (HBO: 2008-2014), adaptação audiovisual duma série de "romances pra garotas que gostam de vampiros e são mais radicais: "As Crônicas de Sookie Stackhouse" (Charlaine Harris). Nem os romances, nem mesmo os quadrinhos me interrogaram tão estranhamente quanto a série televisiva.

Pra quem não acompanhou, True Blood foi como "Game of Thrones" daquela época: todo mundo gostava porque trazia a tona os tabus sexuais, religiosos e sociais, além de resgatar as sombras coletivas. Que é um vampiro, senão a porção narcísica, a infância afetiva e a manifestação ilimitada dos nossos desejos? Obvio que não foi à toa a explosão de "Crepúsculo", "Vampire Diaries" e muitos outros que nos preencheram do revival soft de vampiragem estilo "Terça Vampiros na Fox" à época. Mas o texto não é sobre isso. Quero falar com vocês sobre a importância de Rutina Wesley como Tara Mae para a maturação do/da Preta, Nerd & Burning Hell. Aliás, se você observar, deveria haver lá nos primórdios, um texto sobre True Blood e o Racismo 2, que sim, existiu, mas não veio para o site porque a pesquisa finalizada me foi tomada num assalto. Apesar disso, a ideia sempre esteve comigo.




DE RUTINA WESLEY AO PRETA, NERD


A maioria das garotas Negras nerds têm como  marco de representação na cultura pop a Tempestade da animação dos anos 90 ou a Diana da "Caverna do Dragão". Pra além delas, algumas afirmam que a Ranger Amarela marcou ainda mais, só que depois. Eu sou deste segundo grupo, pois, como vocês sabem, considerava a Diana despida demais e Tempestade anciã demais, (fora o meu pertencimento diaspórico antes de conhecer o termo) para serem "eu". A personagem Tara Mae, no entanto, deixou uma impressão duradoura. Primeiro eu observei o quanto sua pele era pigmentada como a minha, era jovem, vivia num mundo branco e, portanto, sua perspectiva tinha muito a me acrescentar. Apesar do contexto e das atitudes dela não serem iguais às minhas, percebi que eu a entendia melhor que a sua melhor amiga, Sookie Stackhouse porque eu a olhava de uma forma diferente. Apesar do meu incômodo com seu mal enquadramento, maquiagem, iluminação e narrativa, eu quis entender melhor o efeito de tudo isso sob o meu olhar então perseverei pelas temporadas.

Separei o verão que normalmente era reservado a maratonar "Buffy, a caça vampiros" para (re)assistir "True Blood" e analisar o porquê da minha atração por uma série tão ruim do ponto de vista narrativo e político. O mais evidente era a ínfima porção de tempo da Tara em tela e a forma como ela era entendida pelas pessoas ao seu redor. Apesar de sua vida ser marcada por picos (jamais vales) de dramas, violências, preterimentos e negligência parental, suas sequências sempre eram focadas em suas respostas irônicas e reativas. Era classificada, inclusive por Sookie, como uma pessoa agressiva, como se isso fosse um dado isolado sobre sua "amiga quase da família". E, por falar nisso, a série se passa em Nova Orleans e as personagens pretas importantes são todas da mesma família problemática, desestruturada. Ora, que Nova Orleans é essa onde não há negros?

Após a leitura do texto O meu, o seu o nosso lugar no mundo da Lady Sybylla, penso que a pergunta correta talvez seja: o que True Blood nos informa sobre o nosso lugar no mundo

Na primeira sequencia, Tara nos localiza:


"Não estala os dedos pra mim, eu tenho um nome, é Tara. Não é engraçado, uma garota negra com o nome de plantação? Na verdade me irrita. Ou minha mãe era burra ou simplesmente má. Por isso você deve ser amável comigo se quiser beber algo essa noite"  (TARA MAE THORNTON in True Blood. #1 ep.1 - grifo nosso)

Para um olhar descompromissado talvez seja fácil localizar a personagem de Rutina no mesmo hall do Wes de "How to get away with murder": a pessoa negra difícil, emocionalmente instável, reativa demais e chata. Em todas as conversas das quais participei sobre a série, nunca foi apontado o vestígio da colonização na forma de representar personagens negros, nem mesmo as tentativas de entender os sentimentos e vulnerabilidades da Tara. Curiosamente, o primo Lafayette (um homem negro, gay, afeminado) foi um personagem ovacionado, evidenciando locais na pirâmide social. A abertura, mínima que fosse, pra compreensão da sensibilidade dele era um lugar. Lettie Mae, sua mãe e duplo, era a típica "mãe negra megera" que somente aparecia para mostrar o quanto era egoísta, violenta e impotente (como a mãe da Preciosa). É muito fácil colocar a mãe de Tara no lugar do ódio, sobretudo pela oposição entre a bondosa avó de Sookie e ela. Esse jogo entre as famílias negra e branca, que associa preto ao mau e disfuncional, é a tônica da série, pelo menos, até a terceira temporada, quando notamos uma notável mudança na forma de enfocar a narrativa da personagem.

Com toda a sutileza que meu olhar sensível à personagem, sofri com a busca incansável de Tara por afeto a ponto de se por a disposição de homens brancos insensíveis como Jason Stackhouse e Sam Merlotte. Em seguida, quando se apaixona por Eggs e esperei que a felicidade fosse palpável e veremos no desenrolar de True Blood que a felicidade é simplesmente inalcançável para ela. Situações que atualizam as memórias de escravidão são vividas pela personagem, que busca a todo tempo uma possibilidade de transcendência. Na quarta temporada, Tara passa do lugar de negligência e solidão ao lugar de interesse amoroso de uma mulher não-branca... que, também morre. Infelizmente, a mensagem que o programa deixa é a de que não há saída para Tara, além de que identificação com uma mulher e/ou a bissexualidade são apenas reações à vida.





E por falar em transcendência, sua condição de mulher negra num ambiente branco reflete nossa condição neste mundo de forma tão desesperançosa, que Tara se torna o que menos aprova - vampira - e tem que conviver com uma criadora não apenas branca, como secular. Para além do afeto inerente às relações vampíricas, é evidente que Pam e Tara encenam a relação de senhora/escravizada mostrando como tudo é racializado; por mais marginalizada que seja a identidade, existe hierarquia. Na segunda temporada, a energia sexual emanada por Tara e Eggs é canalizada pela Mariyann, uma entidade ligada à fertilidade e à organicidade da terra, que, apesar de não-branca para os estadunidenses constitui uma metáfora incontestável da exploração dos corpos negros no período colonial, seja pela reprodução em si, seja pela relação de objetificação no sentido amplo.

Tudo isso me instigou a entender o porquê de tantos estereótipos. Por que tanta dificuldade em confiar. Por que as relações, as atitudes, os afetos de Tara eram tão reconhecíveis. Por que o abuso é apresentado como uma "história negra" sempre. E essas dúvidas, foram suspensas pela morte desnecessária de Tara. Uma morte que serve apenas lembrar que ela representa um lugar que não pode existir naquele mundo, que não cabe na narrativa de fadas, brancuras e o privilégio de viver o amor e a luz do dia.

Confesso que foi muito frustrante experienciar essa série, embora ela tenha sido uma espécie de rito de passagem pra mim. Desde então, eu criei o Preta, Nerd & Burning Hell e desejei ver Rutina Wesley encarando outras histórias e vozes que realmente dizem e são ouvidas como Queen Sugar (OWN, 2016) da Ava DuVernay. Nesta série, algumas inscrições de Tara são vistas, mas num outro ponto de vista, e isso resgatou a importância da atriz como representatividade feminina e negra. DuVernay, produzida pela grandiosa Oprah, nos proporciona indescritível prazer nesta série dirigida por mulheres, que, finalmente, criou o papel que Rutina merece interpretar e que merecemos assistir (mas esse já é outro texto!).


CONCLUSÃO


Bem, muito da minha insistência e boa vontade com a série vampiresca True Blood vem da ambivalência que eu sentia em relação à personagem de Rutina Wesley: Tara Mae Thorton. Num primeiro momento eu queria  entender a profundidade da personagens naquelas entradas rápidas e, posteriormente, veio uma frustração prolongada. Numa perspectiva mais construtiva, decidi estudar e poder responder às perguntas que a série embasou. Rutina indiretamente me conduziu à bell hooks, Grada Kilomba, Patricia Hill Collins porque o corpo, o olhar e a interpretação dela são trechos do que caracterizamos (todas nós) como Pensamento Feminista Negro - Nós somos o que compomos, o que vemos e o modo como vemos, lemos e compomos.



LEIA TAMBÉM:

segunda-feira, 14 de novembro de 2016



Neste registro do III Colóquio Feminista (10/11/2016) Anne Quiangala apresenta sua análise da obra "Paraíso" (2014) da escritora luso-brasileira Tatiana Salém-Levy. Para mais informações acesse o site do evento: www.coloquiofeminista.com/comunicacoes.




sábado, 12 de novembro de 2016

[Podcast] Capivariando 002: Luke Cage



*Post originalmente publicado em: Plano Nove


"Tissy, Dalton, Pereira e Cliff recebem Anne do Preta, Nerd & Burning Hell e Augusto Oliveira do O Lado Negro da Força, para falar sobre a série Luke Cage. Contextualizando a série com a apresentação da Beyoncé no Super Bowl, violência policial nos EUA, #OscarSoWHite e o blaxploitation na criação do personagem."



ESTE EPISÓDIO TEM SPOILERS SOBRE A SÉRIE LUKE CAGE
Acesse, curta, siga leia e ouça: