terça-feira, 12 de janeiro de 2016

TRADUÇÃO: Quem pode falar? (Grada Kilomba)


Grada Kilomba

Autora: Grada Kilomba
Tradução: Anne Caroline Quiangala

Todo semestre, no primeiro dia do meu curso, direciono algumas questões à turma. Primeiro nós contamos quantas pessoas temos na sala para ver quantas serão capazes de responder. Quando eu começo a fazer questionamentos simples como: o que foi a conferência de Berlim em 1884–5? Quais países africanos foram colonizados pela Alemanha? A colonização alemã no continente africano durou quanto tempo, no fim das contas? Então concluo com questionamentos mais específicos, tais como: quem foi a rainha Nzinga? Quem escreveu  Peles negras, máscaras brancas? Ou: quem foi May Ayim?

Não surpreende que a maioria das/os estudantes brancas/os não consigam responder às questões, enquanto estudantes negras/os respondem corretamente a maioria delas.  Repentinamente, aqueles cujo conhecimento tem sido escondido se tornam visíveis, enquanto aqueles que são sempre visíveis se tornam invisíveis. Aqueles que costumam se calar começam a falar, enquanto aqueles que sempre falam se tornam silentes. Silentes não porque não são capazes de articular suas vozes ou idiomas, mas, pra além disso: eles não possuem aquele conhecimento. Quem sabe o quê? Quem não sabe?E por quê? 

Esse exercício nos leva a entender como os conceitos de conhecimento, escolaridade e ciência são intrinsecamente relacionados ao poder e à autoridade racial. O que é conhecimento? Que conhecimento é reconhecido como tal? E qual conhecimento não é reconhecido? Que conhecimento é esse? Quem é autorizado a ter conhecimento? E quem não é? Que conhecimento tem sido parte das agendas acadêmicas? Quais conhecimentos não fazem parte? Que conhecimento é esse? Quem está autorizado a ter esse conhecimento? Quem não está? Quem pode ensinar esse conhecimento? Quem não pode? Quem habita a academia? Quem está às margens? E, finalmente: quem pode falar?


I. UNIVERSAL VERSUS ESPECÍFICO

Essas questões precisam ser feitas porque a academia não é um espaço neutro. É sim um espaço branco onde o privilégio de falar têm sido negado às pessoas negras e não-brancas. Historicamente, esse espaço vem construindo teorias cujos discursos tem nos construído como inferiores, ou seja: "outros" - localizando africanos/as em subordinação absoluta ao sujeito branco. Aqui nós temos sido descritas, explicadas, categorizadas, relatadas, expostas e desumanizadas.

Em meio a essas salas, nós temos sido construídas/os como objetos, mas nós raramente temos sido sujeitos. Nesse sentido, a academia não é nem um espaço neutro nem simplesmente um espaço de conhecimento e inteligência, de ciência e compreensão; a academia é também um espaço de V-I-O-L-E-N-C-I-A.

A posição de objetificação, que é normalmente ocupado por nós, o lugar de Outridade, não indica uma falta de resistência ou de interesse, como geralmente acreditam, é muito mais falta de acesso à representação de negrxs e não-brancxs por si mesmxs. Não é que nós não temos falado, mas as nossas vozes - graças ao racismo como sistema - temos sido sistematicamente desqualificadxs pelo que a academia entende como conhecimento válido. E mais: nós temos sido representadxs por brancos, que, ironicamente, se tornam "especialistas" em [nossa cultura] e nós mesmxs.  De ambas as formas, estamos encarceradxs numa hierarquia colonial violentíssima.

Assim como uma acadêmica, eu tenho ouvido com frequência que o meu trabalho a respeito do racismo diário é muito interessante, mas não científico, uma observação que ilustra essa ordem colonial que se coloca como lugar de quem é negro, negra ou simplesmente, não branco/a: "Você tem uma perspectiva subjetiva"; "muito pessoal"; "muito emocional"; "muito específico"; "são fatos objetivos?". Tais comentários funcionam como uma máscara que silencia nossas vozes tão logo falamos. Eles localizam os discursos produzidos por pessoas negras e não brancas de volta às margens, como conhecimento desviante, enquanto o discursos brancos são reiterados como centro, como a norma.

Quando eles falam é científico. Quando falamos é não científico.
universal/específico
objetivo/subjetivo
racional/emocional
imparcial/parcial
Eles têm fatos, nós temos opiniões
Eles têm conhecimento, nós temos experiências.

Essas não são apenas categorizações semânticas; elas possuem a dimensão de poder que mantem as posições hierarquizadas. Nós não tratamos aqui, simplesmente, duma semântica, mas duma hierarquia violenta que define quem pode falar. 

II. OBJETIVO VERSUS SUBJETIVO

Deste muito tempo atrás, pessoas negras/não brancas acadêmicas e escritoras têm falado e produzido conhecimento independente, mas, assim como são grupos cujo poder é desigual, eles também têm acesso desigual aos recursos necessários para projetar suas próprias vozes (COLLINS, 2000). Devido a nossa falta de poder ante tais estruturas, a articulação de nossa própria perspectiva fora do grupo se tornam demasiadamente difíceis, se não impossíveis. Como resultado, o trabalho de acadêmicos/as e escritoras/es negros/as é excluído das ementas e agendas, assim como aquelas questões evidenciaram. O que nós sabemos? E por quê?

Não há nada de acidental lá, eles são localizados nas margens pelo regime dominante que regula os parâmetros do que é ou não acadêmico de verdade. As estruturas de validação do conhecimento, que definem o que é conhecimento "verdadeiro" e "válido" é controlado por acadêmicos brancos - tanto homens quanto mulheres - que declaram suas perspectivas como pressupostos universais e objetivos. Desse modo, as posições  de autoridade e comando, na academia, têm sido negadas ao povo negro e não branco; Desse modo, a ideia do que é ciência e conhecimento acadêmico - óbvio - permanecem intactos - isso coloca o conhecimento acadêmico e a própria academia em si como uma "propriedade" exclusiva da branquidade.

Assim, não é uma verdade objetiva e científica que nós encontramos na academia, mas o resultado re lações desiguais das poderosas relações "raciais".

Qualquer acadêmico que não seja conivente com a ordem acadêmica dominante tem sido rejeitado continuamente e encarcerado no lugar do que não se constitui como ciência "crível". Assim como esse fato revela a inadequação dos acadêmicos dominantes em relação, não apenas aos sujeitos marginalizados, mas também das nossas experiências, discurso e teorizações. Ciência é, nesse sentido, não apenas um estudo apolítico da verdade, mas a reprodução de relações de poder racializadas que definem quem conta como verdade e em quem devemos acreditar.   
Os temas, paradigmas e metodologias do academicismo tradicional - reunidos sob o conceito de Epistemologia - refletem simplesmente os interesses políticos da sociedade branca.

Epistemologia deriva do grego "episteme", que significa conhecimento, e logos, que significa ciência, portanto, é a ciência da aquisição do conhecimento. Ela determina quais questões merecem ser questionadas (temas), o modo de analisar e explicar um fenômeno (paradigmas) e como conduzir pesquisa de modo a produzir conhecimento (métodos) e, nesse sentido, a epistemologia define, não apenas o que é conhecimento válido, mas em quê devemos acreditar e em quem confiar.
É evidente que as minhas questões, sendo uma mulher Negra, devem diferir das questões das colegas brancas. Os temas, os paradigmas e metodologias usadas para explicar minha realidade podem diferir desde os temas, paradigmas e metodologias do grupo dominante. Por outro lado, isso não significa que eu sou incapaz de produzir conhecimento, mas que o conhecimento que eu produzo transgride o academicismo tradicional. Quando eu escrevo, eu descolonizo a academia, transformo as configurações de conhecimento e poder. Cada sentença e cada palavra abre um novo espaço para discursos alternativos e políticas do conhecimento. Isso é a descolonização do conhecimento.

III. NEUTRO VERSUS PESSOAL

Interessante que eles dizem: mas é subjetivo, mas é pessoal, mas é emocional, mas é parcial. "Você está sobre interpretando", disse uma colega, "você está pensando que é a rainha da interpretação". Tais observações revelam a incessante necessidade de controlar a voz do sujeito negro, bem como o desejo de governar como nós abordaremos e interpretaremos Nossa realidade. Através desses comentários, o sujeito branco se investe do senso de poder e autoridade contra o outro grupo, que ele classifica como incapaz de produzir conhecimento válido, menos apto aquela experiência.

O último comentário, em particular, tem dois momentos poderosos. O primeiro momento é a forma como ameaça, que descreve o ponto de vista da mulher Negra como uma distorção da verdade, ideia manifestada na escolha lexical de "sobre interpretação". As colegas estavam me adivertindo quando disseram que eu estava excedendo, lendo além das normas determinadas pela epistemologia tradicional, e, desse modo, alertaram sobre eu estar produzindo conhecimento inválido.  Parece-me que essa ideia de "sobre interpretação" aborda o pensamento de  pessoas oprimidas sempre que acadêmicos dominantes são levados (pelas nossas teorias) a avistar "algo" que  não poderia estar à vista, e ouvir "algo" que não deveria ser dito. "Algo" que deveria ser mantido quieto, calado, como um segredo - isto é, como segredos do colonialismo que as rodadas de perguntas desejam ver reveladas. 
Curiosamente, é comum o discurso feminista ser atacado por tentativas (dos homens) de irracionalizar os pensamentos das mulheres, como se as interpretações feministas não fossem nada mais que fabricação da realidade, uma ilusão, possivelmente uma alucinação feminina. Em meio a essa constelação, no entanto, são as mulheres brancas que irracionalizam meu próprio pensamento e, ao fazer isso, elas definem para uma mulher Negra o que é um pensamento acadêmico "real" e como ele poderia ser expressado. Isso revela a complexidade da interseção entre gênero,"raça" e poder. 

No segundo momento, ela fala de espaços hierarquizados, de uma rainha que ela fantasia que desejo ser, mas que não posso me tornar. A rainha é uma metáfora interessante. É uma metáfora para designar poder. Também traz a ideia de que cada corpo pertence a espaços predeterminados: uma rainha pertence, naturalmente ao palácio ("do conhecimento"), diferente das plebeias, que são marcadas, fechadas e encarceradas em seus corpos subordinados.

Assim como a hierarquia introduz dinâmica em que Negritude significa "estar fora do lugar" ela se refere ao fato de que branquitude significa "estar no lugar". Foi dito a mim que eu estava fora do lugar, já que na fantasia dela eu só poderia ser a plebeia. Meu corpo é visto como impróprio. Em meio ao racismo, corpos negros são construídos como corpos impróprios,como corpos "fora do lugar" e, além disso: corpos que jamais poderão pertencer a algum lugar. Corpos brancos, ao contrário, são corpos sempre próprios, são sempre corpos em casa, "no lugar", corpos que sempre pertencem ao lugar. Através daqueles comentários, acadêmicos/as e escritores/as negros/as são persistentemente convidados/as a voltarem ao "seu lugar", isso é, "fora" da academia, nas margens, onde seus corpos podem ser vistos como "próprios" e "em casa". 
Essas palavras agressivas são frutíferas performances de poder, controle e intimidação, que, muitas vezes, me levou ao silêncio. Tais palavras foram tão fecundas que eu me lembro de ter parado de escrever por cerca de um mês. Eu me tornei temporariamente sem voz. Fui claramente excluída [white-out]  e estive esperando ser escuramente incluída [black-in]. 

IV. DOR E RAIVA

É evidente que falar sobre essas posições de marginalidade evoca dor, desapontamento e raiva. Elas são reminiscências dos lugares que nós "dificilmente podemos entrar", "os lugares em que nem podemos chegar" assim como "não podemos permanecer"

Essas realidades podem ser faladas e teorizadas. Elas devem ter lugar no discurso, porque nós não tratamos aqui de "informações privadas". Assim, o que parece "informação privada" não é privada de tudo. Não existem histórias pessoais ou reclamações íntimas, mas consequências do racismo. Essas narrativas refletem a realidade das "relações sociais" em meio aos espaços acadêmicos, o que deve ser articulado tanto à teoria quanto à metodologia.
Portanto, eu chamo para uma epistemologia que inclua a subjetividade e o pessoal como parte do discurso acadêmico, para que possamos todos juntos falar de um espaço, lugar e tempo específico, de uma realidade e história específica (HALL, 1990), não há discursos neutros. Quando acadêmicos brancos reivindicam um discurso neutro e objetivo, eles não reconhecem o fato de que eles também escrevem de um lugar específico que, certamente, não é neutro, nem objetivo, nem universal, mas dominante. É um lugar de poder.

Então, se meus escritos incluem emoções e subjetividade como parte do discurso teórico, eles, então, relembram que teoria é sempre localizada em algum lugar [porque] sempre é escrita por alguém.

Referencias:

.Patricia Hill Collins, Black Feminist Thought: Knowledge, Consciousness, and the Politics of Empowerment, Routledge, New York, 2000.
.Stuart Hall, “Cultural Identity and Diaspora,” in: Identity: Community, Culture, Difference, Jonathan Rutherford, ed., Lawrence & Wishart Limited., London, 1990,
.bell hooks, Yearning: Race, Gender and Cultural Politics, South End Press, Boston, 1990.

NOTA DA TRADUÇÃO

[*] tradução livre do texto originalmente publicado em inglês na página oficial da autora. (Exceto do livro:  'Plantation Memories'.) Disponível em: <www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=640883089274696&id=563019127061093>. Acesso em 11 jan. 16.

sábado, 2 de janeiro de 2016

STAR WARS VII: PRECISAMOS FALAR SOBRE COMO...


"Todas  as mulheres são brancas, todos os negros são homens"


John Boyega (Finn) e Daisy Ridley (Rey) no trailer de "Star Wars: O despertar da Força"



*SPOILER*

Quando recebi o alerta do Collant Sem Decote intitulado "Vamos falar sobre a Rey" eu já delineei muitas coisas sobre o que seria a experiência de assistir Star Wars: o despertar da força, mas só li  o texto e vi o review depois de assistir ao filme. Imaginei, a partir do título, que Rey seria uma heroína independente, forte, que transmitiria valores positivos ligados à mulheridade de forma inovadora dentro daquele universo narrativo. O mercado está clamando por isso: Mad Max. Jessica Jones. A vindoura Capitã Marvel (Carol Danvers). Não são por acaso que essas personagens estão aparecendo agora: depois das ondas de ódio sofridas por Anita Sarkeesian, Zoe Quinn, Shoshana Kessak e outras. Como mudança forçada pela demanda do mercado, temos uma mudança drástica incidindo sobre Rey: cultura de massa e nerdice/fandom, não são frutos do acaso. Tanto Anita Sarkeesian, quanto o Black nerd problems analisaram os aspectos positivos e negativos, mas, em geral, não contemplam nosso olhar interseccional.

Não por acaso, a personagem Rey é impecável, atende a todos os clamores das gurias nerdes e das feministas que vêm acompanhando a ficção científica setentista. Não objetificação da mulher? Ok. Autonomia?Ok. Não ser picotada e guardada no congelador? Ok. Não ser entubada? Ok. Não ser uma donzela em perigo? Ok. Não usar a sexualidade como arma? Ok. Ok. Ok.

Outro detalhe chamou a minha atenção bem no início do filme: a metáfora usada para tratar do especismo. Rey tem muita compaixão pela vida do robô R2-D2, compaixão que se transforma em perigo de morte; contrabandistas desejam desmontá-lo e lucrar com a venda de suas peças. Em  nossa realidade, essa atitude consistiria na consciência da exploração capitalista dos animais. Essa questão reforça a construção impecável da heroína, de modo a agradar qualquer feminista que se chateava com ressalvas sobre Leia e sobre todo o universo de supremacia masculina-branca da franquia Star Wars. Sim, eu adorei a Rey por isso tudo, fora que ela estabelece uma relação de companheirismo com Finn (um garoto negro), o que torna mais impecável a construção da personagem. Enquanto Rey entende o valor que cada vida tem, a construção da narrativa lembra a gente do discurso comum transmitido pelos ativistas veganos que não se desvencilham da branquitude: comparar a escravidão de animais à escravidão de negros. Assim como brancos abolicionistas (escravidão histórica) feministas (brancas) já disseram que "mulheres são os negros de hoje". Em todos esses casos, as mulheres Negras são apagadas: não estão presentes e não têm voz própria. Falar da questão negra continua sendo falar dos homens-negros-hétero, assim como Hitler continua sendo sinônimo do mal em tempos de "guerra o terror". Não estou criando similaridade, mas enfatizando a importância de a mídia  atualizar temas, metáforas e discussões. 

Sobre o Finn:

1) A redefinição da masculinidade
embora eu ache muito bacana que um personagem masculino seja colocado em situação menos de "salvador do dia", "ativo" e sem emoções, o gênero é sempre racializado. um homem negro apaixonado (e não correspondido) por uma guria branca é um lugar comum da realidade e da ficção. Embora eu acredite que tratar esse modelo como "palmiteiro"  seja atacar uma consequência, não a causa, acho essencial a discurso sobre masculinidade de homens negros. Só que é óbvio que não são eles a matriz das opressões - nem o (fálico) sabre de luz e dele, nem a jaqueta. Redefinir a masculinidade em termos mais espontâneos no contexto de Finn só coloca a masculinidade dele na hierarquia racial de ue mulheres brancas-cis importam muito mais que eles. Ele ser colocado em posição vulnerável diz mais sobre a supremacia branca do que sobre uma discussão produtiva a respeito do gênero. uma mulher branca salvando o dia é bastante empoderador (se você for mulher e branca), mas isso sempre houve; todas as garotas na cultura de massa são brancas, independente dos modelos: princesas, guerreiras, donzelas, caçadoras de vampiros. O Finn não é um personagem gangster, pantera negra, supr choque ou Jay Z, mas é um tipo do Chris que todos odeiam (e riem).

2) Relacionamento interracial
Um affair entre ele e Rey sera sempre mais complexo que Leia e Solo, Anakin e Amidala. O dilema entre poder amar ou não do jovem desertor com a devir jedi é definido por categorias hierarquizadas de raça engendrada. Notei que, ao longo dos 135minutos, Finn não conviveu com nenhuma pessoa negra. Ele é um órfão num mundo hostil, assim como Rey, mas a diferença na vulnerabilidade e na autoconfiança é notável. É pitoresco o modo quanto Finn tenta se mostrar forte para impressionar Rey, mas, quando não se torna ajudante (adjuvante) acaba tendo que ser resgatado. Essa tensão afetiva foi muito celebrada na comunidade nerd assim como a Leitura de que há tensão afetiva entre ele e o piloto Poe Dameron (Oscar Isaac). Embora sejam possibilidades que podem ser desenvolvidas, melhor seria que ele se desenvolvesse como personagem sem dar todo o peso ao pitoresco e aos relacionamentos.

E as mulheres Negras, onde estão?
No sentido do apagamento (e dos discursos de desumanização) o meu ponto é que um personagem negro homem (coberto de estereótipos) é o suficiente pra eu me identificar. Eu assisti a trilogia clássica, vivi parte do lançamento da seguinte e, portanto, consigo compreender os avanços políticos que têm sido absorvidos pela franquia com o passar do tempo. Fui achando cada vez mais divertido rir das referências, mas o filme que foi vendido com protagonismo do personagem negro não foi uma conquista pra mim. 

1) Seguindo a tradição de Star Wars, que inclui negros (homens) como secundários, vi duas mulheres Negras quaternárias: o close do rosto terrificado na hora da extinsão do planeta e - pior - a musicista extra-terrestre no quarto quadrante da tela. Nenhum delas é personagem com nome, nenhuma delas fala. Aparecem para sumir. Desse modo, a tradição de metaforizar a condição racista engendrada que desumaniza as mulheres Negras e retratam como bizarros monstros/animais a serem exibidos como exóticos. Isso mostra que simulam a entrada dos negros (homens) na categoria de humanidade enquanto as mulheres Negras são consideradas  a segunda parte do binarismo humano/animal.

2) E a Lupita Nyong'o? Alguém viu a imagem dela? Não. Então a presença dela é inexpressiva para a questão da representatividade. A personagem Maz Kanata é otina: autônoma, intuitiva, experiente, guerreira e engraçada na medida certa; ela tem uma relação de guardiã com Rey semelhante ao Yoda... mas é uma et. Mais uma vez a garota feminista é impecável no trato com a não-humana, mas a própria representação de Mez é problemática porque remonta o "bem conhecido" lugar da mulher Negra no universo do Star Wars: o Alien. A descrição de Lupita através da computação gráfica não mostra progresso de raça-gênero, porque lembram o lugar do estigma, do estereótipo que a metáfora central  sugere: bem/mal equivalente a claro/escuro. Se o lado negro da força descreve uma ideia de mal imutável e ligada à uma essência.

Em suma, o filme continua sendo uma fabula sobre supremacia branca. Finn e Rey consistem em avanço considerável, mas não pra mim.  Rapazes negros podem se sentir representados por Samuel L. Jackson ou mesmo pelo John Boyega, fazer cosplay, comprar boneco e tudo o mais; ou podem odiar ver nele a fragilidade que o racismo não lhes permite na vida real. Mais uma vez as mulheres Negras sao invisibilizadas e tornadas Aliens, o que raramente vemos os rapazes notarem. E isso, mas nao esqueçam que a metáfora também e sobre vocês, queridos (Sobre os bonecos Finn que sobraram).


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