AUTOCRITICA E RUMOS PRA UMA MICROPOLÍTICA FEMINISTA NEGRA



Dançarinas da cantora estadunidense Beyoncè na performance de Formation (2016). A ressignificação das vestes e a ênfase em mulheres tanto propõe um diálogo estético com o passado quanto reconhece a importância ética de suas ações para o nosso presente.



Numa das primeiras reuniões de iniciação científica (lá nos idos 2009), minha orientadora disse a marcante frase: "uma coisa que o feminismo me ensinou é a não justificar o corpus" (Cíntia Schwantes). Àquela época, eu era uma caloura, obviamente não conhecia a palavra epistemologia e sequer poderia imaginar os desafios acadêmicos, profissionais e afetivos que essa palavra-conceito representaria no futuro a ponto de impactar o “eu de agora”. Muitas são as possibilidades de atribuição da frase inclusive em termos de desta frase, desde a camada óbvia que diz respeito ao modus operandi acadêmico, até o modus operandi minoritário.


Quem somos? O que somos? Para aonde vamos?



Pertencer a uma minoria (não disse SER, mas ESTAR) é pertencer a uma historicidade que está sendo escrita também a partir da nossa experiência cotidiana. Por um lado, essa historicidade é reduto de muita dor e desapontamento, oque a teórica Grada Kilomba (2010) conceitua como memórias plantadas (plantation memories). Essas Memórias das Plantations pressupõem dor, violência e injustiças que têm sido transmitidas por gerações de famílias negras, assim como os privilégios dos senhores de Engenho pavimentaram os territórios daqueles seres abertamente declarados fascistas.

A linguagem do fascista é única e simplesmente a violência desmedida. Parece-me que o seu maior desejo é o de contaminar o mundo com o seu ódio e fazer o possível para que odiemo-los tal como nos odeiam. Até divulgam o clichê de que “todo oprimido deseja ser opressor”. Ledo engano: há tantas possibilidades que a imaginação deles não vislumbra. Nós acreditamos plenamente na capacidade do ser humano de dialogar e se propor à juntar os fragmentos da realidade (não à desconstrução) e a montar uma dialética.
Por outro lado, esse trauma não explica O que nós somos. A problemática se torna ambivalência da visão do outro (projeção de si) sobre nós e da necessidade de criar uma voz própria sobre nós (KILOMBA, 2010). O legado dos escravocratas usa toda e qualquer estratégia à mão para tentar nos desqualificar e - pior - nos convencer dessa inverdade. Assim como todos os brancos são racistas (ethos, não moral), todas as pessoas negras internalizaram a semente daquela inverdade que caracteriza as “minorias políticas como “tudo o que não presta” (TIBURI, 2016). Tendo em vista essa realidade desigual, para muitas Negras e negros, nós somos excluídas/os. Essa forma de crença/afeto direciona a militância para uma ação reiterativa, isto é, ao beco sem saída, ao desespero da dor inclusive psíquica que vivemos como povo desde a escravatura. Essa, no entanto, não é a única possibilidade.

Acredito que temos uma tradição artística, empírica e acadêmica que aponta caminhos e dialoga com o futuro que desejamos “o hoje já se foi, o amanhã já vem” (yersteday is gone, tomorrow is on the way), uma tradição que aponta o caminho da descolonização mútua: do conhecimento e do self. Esta perspectiva entende que Negras e negros foram/são vitimizadas/os, escravizadas/os, porque é condição imposta, não definição do ser. Aliás, Audre Lorde nos ensinou que somos o que nós autodefinimos para que o opressor não permaneça na fantasia de nos definir e confinar.



Diferente de Tiburi (2016) acredito no poder da denúncia e da queixa como críticas. É evidente que aquelas inverdades ecoam por todos os lugares, então, antes de escrevermos qualquer denúncia somos taxadas de “mimizentas” e “vitimistas”. Se crítica é uma modalidade discursiva que pressupõe o escrtutínio de algum problema, ela já demanda uma série de estratégias dentre as quais podemos escolher “denúncia” ou “queixa”; elas se costuram a uma série de elementos e compõem o que chamamos de “argumentação”. Assim como dissertação envolve mostrar, denunciar, queixar e não simplesmente argumentar, a denúncia pela denúncia não representa um gênero de ação que aponte caminhos por si mesma. É um pouco demais caracterizar a denúncia como “tombamento”, “lacração” ou qualquer adjetivo que comporte a ideia de que aquela ideia é o ápice. Mas veja, os manifestos das Vanguardas do século XX são queixas consideradas válidas. Até a Futurista. Preciso justificar a afirmação? 

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Parece-me que o nosso problema não é exatamente o modo de discursar, não a forma, mas o conteúdo. Há algum tempo, venho percebido nas falas, nas escritas, nas visualidades que as pessoas estão reinventando a roda da questão racial diariamente. Temos as memórias plantadas, sim, mas precisamos ter em vista o dialogo com passado a fim de construir a partir do que já foi feito. Há sim respostas para muitas das perguntas que se transformaram em problemáticas “do agora”. Digo por experiência própria: Audre Lorde responde à maioria dos meus problemas, pessoais, acadêmicos, políticos e afetivos. Assim, acredito que, por desconhecerem autoras, artistas e pensadoras Negras, as pessoas estão afirmando por aí que são pioneiras no feminismo negro, que “solidão da mulher negra” é uma questão “de agora” e outra infinidade de equivocações. É legítimo ter um pensamento autônomo? Sim, mas tendo em vista que “quando penso no futuro, não esqueço o meu passado” (Paulino da Viola, Dança da solidão).


Ter um corpo de carne num mundo de animosidades

“O fascismo sobrevive na animosidade” (TIBURI, 2016, p.44). Certamente, nós conhecemos conceitualmente o fascismo e vivenciamos o racismo todos os dias. Nenhuma pessoa negra, mesmo isolada, mesmo em depressão, mesmo calada, não pode ser considerada “vítima” porque, assim como “escrava”, significa imanência, significa SER e apaga as causas. Reconhecer isso não é uma “má estrategia”, é ter sensibilidade intelectual para compreender que o estado de adoecimento é a consequência de entrecruzamento de violências inclusive institucionalizadas. “O racismo quando não mata, enlouquece”, disse minha tia Edileuza certa vez, quando conversávamos sobre a dificuldade que é manter-se humana numa sociedade que desumaniza a cada instante, que rasga, que amputa e diz que alega Inocência. Nem tudo é teoria, e, aliás, a teoria é uma tentativa de elaboração da prática. O fracasso - se pudermos chamar assim - não é um problema individual, é uma amargura histórica que recai sobre certos corpos, certas subjetividades. Quero dizer que elas (nós) somos vitimizadas, culpabilizadas (nisso concordo com Tiburi) e, muitas vezes, simplesmente não conseguimos aguentar a sucessão de violências. Muitas vezes, é pesado demais e, para além da vontade, a dor é exposta, nossas feridas abertas, cheias de sal e no sol, se tornam visíveis àqueles que nos chamam de “Inimigos” (veja que não há reciprocidade nisso).


É possível que eu me torne uma pensadora, que eu lute por direitos e que eu não deixe essas feridas tão expostas. Isso significa que alguém antes de mim deu-me suporte para alcançar o patamar de direitos, acessos e saúde e que, na maioria das vezes, esse alguém (ou alguéns) não suportaram a dor e acabaram por ter suas feridas expostas, em linha de tiro para aqueles que não conhecem nada além de violentar, culpar, explorar. Não podemos esquecer disso, não podemos esquecer o passado, quem nos permitiu estarmos aqui, o que aconteceu com o nosso povo e o que ainda acontece. Não temos que justificar nada disso, embora nos pressionem a ponto de parecer normal. Viver num mundo violento não é fácil e, inevitavelmente, traz sequelas. Todas nós temos graves sequelas e isso faz parte de nós, da nossa militância, e tem que fazer mesmo, porque temos todo o direito de sermos quem somos, humanos. Enfatizo que não falo de “raça humana”, de “somos todos humanos” nem busco reafirmar “humano” como categoria política que justifica explorar os animais. Uso o termo para me referir aos afetos, à ambiguidade, à psiquê e à autoconsciência, porque sim, isso é muito importante e isso compõe tanto o corpo emocional, quanto o corpo de carne e vísceras militante, ávido por direitos tão necessários.


E o glamour da luta? 

Militar é uma coisa linda. Virar “personalidade opinativa”, então, é o sonho de uma maioria romântica (no sentido oitocentista). Intelectuais, universitárias/os e quaisquer individuas/os reconhecem o valor de lutarem por alguma causa. Raramente, esse eu-militante é confrontado pela sua corporeidade, sua carnalidade, sua afetividade com a importância que isso merece. Quando rapazes bradam que sentem o chamado (quase um vocare) para serem “Panteras Negras” eles raramente se dão conta da relação que esse desejo tem com seus corpos. Corpos já tão vulneráveis à violência de Estado cujos tentáculos levam às minorias a violentarem-se mutuamente. Violência que busca se justificar pela reação. Eles não problematizam o quão forte é sua sensação de impotência? Essa necessidade de potência? Que desejo de poder está envolvido aí? Como o medo se instalou aí? 

Quando vivenciei essa situação eu me perguntei “por que eles não querem ser o Dr. Matin Luther King Jr?”. Aquela altura eu também não tinha ideia do quanto o ódio é sedutor. E, quanto mais consciência da injustiça da vitimação nós temos, mas difícil se torna encontrar caminhos para a saúde mental, para além do ódio e da raiva, para além de estancar a nossa dor legítima, eliminando o outro. A desumanização é tão eficaz, que, geralmente, não conseguimos aceitar a dor do outro e, menos ainda, nossa própria dor. Não apreendemos a aceitar que temos dias bons e ruins, choros e sorrisos, calma e ansiedade. Só queremos ser sutis e fazermos tudo certo, afinal, estamos sempre representando a historicidade, as memórias plantadas. Tentamos buscar soluções na rudeza, porque é o que recebemos o tempo todo do mundo e daqueles de nós que não aprenderam a amar e a serem amados. Não é o ideal “estar sempre a postos”, assim como, não conseguir compreender o processo de vitimação, mas é preciso ter em vista que o mundo em que vivemos está longe do ideal. Tais afetos não são a mesma coisa, mas eles estruturam modos de reação à violência cotidiana e ininterrupta. No diálogos uns com os outros temos que levar isso em consideração...e também que somos coagidas a entender, compreender e resolver tudo Resultado: não comprar o impossível de si nem dos outros. Entender ta si, ao outro e ao “nós” como um processo de mudança. Sem glamour, sem violência, sem mártir, sem uma personificação da liderança. Angela Davis já nos ensinou que trajetórias pessoais correm o risco de serem personalizáveis e que esse é o problema: querer ser símbolo pelo simples anseio de simbolizar.

Quando me refiro ao glamour, desejo trazer a reflexão sobre militância e concordância. Desejo misturá-la a certeza de que não é necessário se justificar todo o tempo, é ok a gente se sentir assim ou assado, a gente mudar de ideia, a gente aprender a amar. Por fim, quero reiterar que o nosso caminho não está dado e que ele é árduo. Nós não precisamos nos odiar, nós não precisamos ceder à agressividade a qual nos induzem. Mas tudo bem, vivenciarmos momentos e camadas de autocrítica. Ninguém nasceu pronta. Ninguém nasceu fora do sistema racista e da matriz de opressões. Ninguém é dona do caminho certo e nem precisa ser. Às vezes, o que precisamos fazer é dar vazão a nossa fragilidade e permitir que ela também sugira possibilidades, caminhos e amanhãs.

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