domingo, 25 de outubro de 2015

ESCRITA COMO RESISTÊNCIA E ASSENTAMENTO FEMINISTA NEGRO

"Eu sei que, enquanto eu escrevo..." (KILOMBA, 2015) 

Às vezes eu temo escrever.
A escrita se transforma em medo,
Para que eu não possa escapar de tantas
Construções coloniais.
Nesse mundo,
Eu sou vista como um corpo que
Não pode produzir conhecimento,
Como um corpo fora do lugar.
Eu sei que, enquanto escrevo,
Cada palavra escolhida por mim
Será examinada,
E, Provavelmente, deslegitimada.
Então, por que eu escrevo?
Eu tenho que fazê-lo
Eu estou incrustada numa história
De silêncios impostos,
De vozes torturadas,
De línguas interrompidas por
Idiomas forçados e
Interrompidas falas.
Estou rodeada por
Espaços brancos
Onde, dificilmente, eu posso adentrar e permanecer.
Então, por que eu escrevo?
Escrevo, quase como na obrigação,
Para encontrar a mim mesma.
Enquanto eu escrevo
Eu não sou o Outro
Mas a própria voz
Não o objeto,
Mas o sujeito.
Torno-me aquela que descreve
E não a que é descrita
Eu me torno autora,
E a autoridade
Em minha própria história
Eu me torno a oposição absoluta
Ao que o projeto colonial predeterminou
Eu retorno a mim mesma
Eu me torno: existo.
(Grada Kilomba - Enquanto eu escrevo *)






I - POR QUE ESCREVER

Tenho lido esse texto poético repetidamente e adentrando mais e mais suas camadas de significação. Elas tocam diferentes porções da experiência cotidiana, porque o conhecimento é exatamente o modo como o mundo se organiza, como falamos dele, como nos relacionamos, como e em quais ideias acreditamos. 

Se pensarmos no entrelaçamento do que vivemos diariamente com o passado colonial, através do texto, Kilomba propõe um desafio: romper o silêncio. Se retomamos a imagem da Escravizada Anastácia, (aquela que é usada com significante de mulher Negra desde os livros didáticos de história) perceberemos que a imposição do silêncio é recorrente. Nesse sentido, falar e, sobretudo, escrever, não é apenas uma afronta à ordem, mas uma jornada de desmontar, construir, reconstruir e re-imaginar o que nós somos. 

Encontrar o olhar de Anastácia na imagem revela que o silêncio imposto não foi suficiente para apagar quem ela era, o que importava, o que ela sabia. Ela resistiu como lhe era possível. Diversas versões sobre a sua história circulam, mas a versão dela é desconhecida. Sobre a sua imagem, repetidamente reproduzida, apropriada indiscriminadamente, são depositados significados que ressaltam a cultura de silenciamento das mulheres Negras. Seu olhar me diz que não aceitou, que resistiu: o mar vai, mas ele volta.

E isso reforça a necessidade de escrevermos, de expressarmos todas as coisas que nos atravessam. Questionar o queo porquê e como nos atravessam é uma forma de arrancar de dentro de nós o projeto de heterogeneidade [1] que está em curso desde o início da Modernidade. Pensarmos sobre nós mesmas é uma questão de sobrevivência, de saúde mental de autocuidado. Nesse sentido, a escrita funciona como registro da trajetória que se constrói dia-a-dia.

Não podemos temer a escrita. O mundo em branco, a vida em branco, o lençol em branco e a folha em branco à nossa espera [2] nós já temos. É um "mudo convite", mas que precisa ser limpo em preto, enegrecido, tornado negro (de-ne-gri-do). Quanto mais tivermos reflexões marcadas pela memória, pela arte e pelo cotidiano, maior será a nossa compreensão crítica da realidade e de nós mesmas. Consequentemente, mais enraizamentos provocará: Calecanto provoca Maremoto [3]. Sobre essa obra, de Adriana Varejão, (2004) :


Colocados nos painéis formando um grid, os azulejões fazem referência à maneira desordenada e casual com a qual são repostos os azulejos quebrados dos antigos painéis barrocos. Assim, o maremoto e as feições angelicais impressas nas pinturas formam esta calculada arquitetura do caos, com modulações cromáticas e compositivas, remetendo à cadência entre ritmo e melodia.

Essa disjunção dos azulejos bem reflete a nossa turbulenta construção identitária como projeto de Nação. O que morre, o que é considerado descartável, o que quebrou é substituído desordenadamente: língua, cultura, raça/cor, gênero. Um "fóssil vivo" é capaz de revelar o fundo do mar a ponto de provocar caos na normatização, no modo de conhecer e interpretar o mundo.

O que - simbolicamente - está por trás dessa parede quase homogênea, mas lisa e acabada?

II. ASSENTAMENTO

PAULINO, Rosana. Assentamento (detalhe). Instalação, 2013 **.















Na instalação Assentamento, de Rosana Paulino, temos um complexo panorama, bastante explícito sobre a construção identitária das mulheres Negras. Segundo a artista, as fotografias científicas produzidas no século XVIII, no Brasil, instituíram uma percepção engendrada do racismo. Nelas, as escravizadas eram objetificadas, isto é, produzidas, no intuito de descrever "a raça" a partir de aspectos do biotipo. Quando digo "produzidas" quero enfatizar o silêncio e o total desconhecimento sobre essa pessoa como sujeito; construíram "conhecimento científico autorizado" sem ouvi-la. Na obra, esse conhecimento é subvertido à medida que são acrescentados órgãos internos, suturas e raízes. Assim como Anastácia, a personagem de Assentamento, conforme o nosso olhar, pode ser vista em sua humanidade, apesar do silêncio.

A sutura, que não encaixa com exatidão os "pedaços" da imagem, simboliza o trauma da colonização que temos como desafio "refazer". Reconstruir imagens, pensamentos, tradições, emoções: a humanidade. A mulher da imagem, destituída de nome, família, cultura e valores é forçada a suturar, a enraizar numa terra que a expele. Seu coração - o nosso também - denota a dor, o constrangimento, o sufocamento, o silêncio.

Repito: precisamos nos reconstruir. Os diferentes modos de compor e sobrepor linguagens são importantes nesse processo. No processo poderão dizer que "é subjetivo", "que não há importância" ou que "é subjetivo". Pedirão para calar inúmeras vezes. Acusarão. O que temos que manter na centralidade é que estamos em tempos de nos enraizarmos positivamente, isto é, de re-imaginarmos o futuro cientes do passado. Precisamos lidar com o trauma colonial florescendo através das profundas raízes predecessoras.

O sombreamento/desumanização é um desafio diário a vencer, pois o discurso racista/sexista/classista está pronto para nos encurralar psicologicamente tal como fizeram fisicamente antes de forma autorizada. Se questionarem o porquê de escrever poesia hoje em dia [4] (em tempos de romances) ou o porquê de uma Preta gostar tanto de livros [5], podemos lembrar de Audre Lorde (1984):


a maneira em que se materializa a nossa criatividade vem, muitas vezes, determinada por nossa classe social. A poesia é a mais econômica das manifestações artísticas. É a mais oculta, que requer menos esforço físico e menos materiais, e a que pode ser realizada entre turnos de trabalho, em uma despensa de cozinha de hospital ou no metrô, usando qualquer pedaço de papel (LORDE, 1984 - tradução nossa).

A importância de nossa afinidade com linguagens artísticas está no compromisso com a reconstrução de nós mesmas. Esse ideal pode manifestar-se pela estética,  teoria, ação política. Pode manifestar-se diante de outros como: penteado, estampa, texto crítico, instalação, tutoriais ou filmes e outras mais. O importante é atravessar o silêncio imposto, importante é falar, não importa o modo que encontramos.

Não são raros os momentos em que, na universidade, eu faço emergir experiências, leituras e conceitos do Feminismo Negro que são desautorizados, deslegitimados e postos à prova de forma leviana por detentorxs da autoridade. Primeiro: fingir que não vê a minha mão levantada; segundo: deixa falar interrompendo; terceiro: dizer "mas isso não é legítimo". Isso, porém, não configura a totalidade da experiência; temos a seguinte ambiguidade nos cursos: o que é importante para mim (como corpo social) é deslegitimado no mesmo movimento em que conceitos de Audre Lorde são tomados como "afinidade eletiva". Dissimulam preconceitos a cada apropriação equivocada de teóricas Negras para imobilizar, para calar cada Preta que sai do lugar de subalternidade, rompe o silêncio e, assim, quebra o espelho narcísico em que estão presas subjetividades dominantes.

O que Audre Lorde chama de "quebrar o silêncio" é fundamental para nossa resistência, construção, reconstrução, desconstrução. Denunciar a violência, porque guardá-la não nos salvará dela, pelo contrário: o silêncio autoriza ainda mais a violência. Precisamos falar sobre nossos traumas, sobre as feridas, sobre os afetos, celebrações, sobre solidariedade e amor: falar sobre como nos sentimos, sobre o que desejamos, sobre o vislumbramos.
Enraizar, florescer, frutificar.  

III. O ENCONTRO

Escrever - isto é, romper o silêncio - nos tira do lugar de objeto, nos transforma em sujeitos que se constroem em seus próprios termos (KILOMBA, 2015). O enraizamento, isto é, a re-construção que parte de trajetórias ancestrais. Ela revela uma experiência de renascimento, de encontrar a si mesma e retomar a dignidade. Escrever é como uma cirurgia de extração; é como arrancar as palavras destrutivas que semearam em nós e, ao mesmo tempo, é um processo de acessar nosso interior. Encontrar as memórias, as sensações, a alma, os afetos e dar importância a eles. E fazê-los importantes. Afrocentrar descentrando do masculino, ocidental, heterossexual. É descobrir o que somos pra além do que temos sido habituadas a acreditar que somos. É transformarmo-nos e, assim, vir a Ser em toda a potencialidade além do imaginado.

  

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REFERÊNCIAS
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*KILOMBA, Grada. While I write. 2015. Disponível em:<www.youtube.com/watchv=UKUaOwfmA9w&feature=youtu.be>.  Acesso em 25 out. 15.

** PAULINO, Rosana. Assentamento. Instalação, 2013.




[1]BENSUSAN, Hilan. Heterosexuais, heteroraciais, heteroculturais: as colonizações das mulheres negras. Disponível em<www.academia.edu/377034/Heterosexuais_Heteroraciais_Heteroculturais_As_Coloniza%C3%A7%C3%B5es_Das_Mulheres_Negras>.  Acesso em 25 out. 15.

[2] CÉSAR, Ana Cristina. Tenho uma folha brancaDisponível em:<www.avozdapoesia.com.br/obras_ler.php
obra_id=1708&poeta_id=212>.  Acesso em 25 out. 15.

[3]VAREJÃO, Adriana Varejão. Celacanto Provoca Maremoto. 2004 - 2008, óleo e gesso sobre tela, 110 X 110 cm cada, 184 peças, foto: Vicente de Mello. Disponível em:<http://www.inhotim.org.br/inhotim/artecontemporanea/obras/celacanto-provoca-maremoto/>.  Acesso em 25 out. 15.














[4] LORDE, Audre. Sister outsider: essays and speeches. California: The Crossing Press, 1984.

[5] JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: Diário de uma favelada.São Paulo: Ática, 2004. 8.ed.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

"VOCÊ NÃO CONCORDA OU NÃO ESTÁ ENTENDENDO?" REFLEXÃO SOBRE SABERES, FRONTEIRAS, IDENTIDADES E CULTURAS PÓS MODERNAS.


Senegaleses em busca de melhores condições de vida acabam mortos na travessia do Mediterrâneo. A brutalização dos corpos é uma questão híbrida? É multi-cultural? A morte é uma decisão? Lembremos do que disse a escritora senegalesa Fatou Diome: a morte não assusta simplesmente porque trata-se de abandonar uma vida que não vale nada em busca de sobrevivência”.




[...]
A fome está em toda parte
Mas a gente come
Levando a vida na arte
Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
[...]
A morte não causa mais espanto
[...]
As crianças brincam
Com a violência
Nesse cinema sem tela
Que passa na cidade
Que tempo mais vagabundo
Esse agora
Que escolheram pra gente viver?





INTRODUÇÃO 

Simplificando de forma esquemática, existem dois tipos de motivações políticas praticadas por intelectuais (a saber: o rompimento com estruturas vigentes e a continuidade).

* a primeira é praticada por aquele tipo de pessoa que busca dialogar e está pronta para se por à prova, modificar-se radicalmente a ponto de voluir[1] e limar os preconceitos (todos) de forma definitiva; Geralmente esse perfil de sujeito procura evidenciar seus projetos, posicionado de forma mais comprometida com a sua Verdade quanto possível. É evidente o que deseja alcançar. Essa postura de questionar pode se dar tanto pelo pólo das minorias políticas em busca de direitos, quanto o da maioria que é parceira e estende as mãos para negociações.

* o segundo tipo é aquele perfil de indivíduos cuja motivação é proporcional à vontade de permanência do próprio conforto. Para que isso seja possível, essa pessoa se recusa a aprender, a tentar imaginar perspetivas diferentes das suas e - o pior de tudo - desqualificar o que desconhece. Outra forma, mais sofisticada inclusive, é a fagocitose ou apropriação cultural; englobam a arte, a cultura e a estética de determinada minoria para supor uma indiferenciação, uma mestiçagem, uma hibridização... que não muda sua condição confortável ante o Outro, apenas descarta oposições diretas. Um exemplo clássico: é socialmente interpretada/o como branca/o, mas se considera negro/a; adora estampas "étnicas" e relativiza a descriminação étnico-racial. Outro exemplo: interrompe a fala de alguém para discordar ofendendo duramente ou deslegitimando de leve.

No meu cotidiano, por mais que eu lime o segundo tipo, ao máximo, ele é uma espécie de Hidra[2]. Arranco e afasto suas cabeças de perto dos meus olhos, mas elas se multiplicam, e se aproximam - sobretudo por razões institucionais. A convivência com o segundo tipo de motivação é obrigatório, em certa medida, porque constituem cenários profissionais, acadêmicos e, na pior das hipóteses, linhas perdidas entre pessoas e lugares interessantes. Perceba que - por razões já citadas - nem os jogos na modalidade online me atraem.Vínculos destrutivos são dispensáveis.



***


SOBRE AS ANGÚSTIAS

As percepções descritas acima partem da análise das relações diárias em diferentes instituições. Essas relações, em certa medida, me angustiavam porque eram difíceis de descrever, e resistentes à crítica dadas as suas estratégias de defesa ativa bastante escorregadias. Parecia simplesmente uma conspiração invisível e muda, envolvida por material opaco que ocultava a raiz da sua maquinaria, seu projeto de funcionamento. Noutras palavras: o protagonismo e o objeto de investigação científica presumivelmente neutros constituem/são uma ideologia descritiva (e nada reativa) sobre a cultura dominante, que dissimula sua inspirada “arte pela arte” e sua etérea “fruição como meta maior” (espécie de demodê). 


Dois textos desnudaram as questões acadêmicas que tanto angustiaram meus primeiros passos no mestrado. Um deles é De Ialodês a Feministas, de Jurema Wernek, que mostra o quanto algumas modalidades feministas podem tentar nos dissuadir da nossa importância, do nosso protagonismo histórico e - sobretudo - da nossa luta específica como sujeitos mulheres. Outro que mostra a camada oculta de despolitização da teoria e da construção dos saberes (epistemologia) é uma longa entrevista com Angela Davis em que ela centraliza problemas reais como objetos de análise tanto quando o olhar sobre eles e trata de questões contemporâneas tendo em vista o perigo e a perversidade do imperialismo, suas necessidades e práticas universalistas, humanistas e homogenizadoras.


Num mundo em que pretos podem ser membros da Ku Klux Khan, é fácil desenraizar uma ideologia e planta-la num solo “novo” que sempre esteve ali, mas na dimensão do invisivel. É fácil dizer que contradições básicas de conceitos podem se unir, ainda que grotescamente. Posta e brilhante está a chance de tornar-se algo que sempre foi perpetuamente impedido de ser, por razões de dissidência ideológica. É pressuposto que as ideias centrais (racismo, guarda patrimonial) foram abolidas e subentendido que as ideias centrais cairam por terra, porém, caso isso fosse verdade, essa tradição não precisaria existir. Considerando tal cenário, falta uma peça. A camada enterrada é: a oposição entre KKK e pessoas negras não é etérea, mas uma oposição materializada de vida e morte tributária do pressuposto de que há diferenças físicas/genéticas/espirituais hierarquizadas e, sobretudo, imutáveis. Em suma, o novo solo propiciará a reorganização da planta, contribuirá para uma ocultação da contradição primeira. A presença do marginalizado, em si, autorizará a permanência da instituição. Essa presença representa uma submissão coletiva, uma deslegitimação coletiva, pois nenhum corpo marginalizado é avulso; ele traz toda a comunidade.


Com isso, não culpabilizo o corpo estranho absorvido (porque sua atitude é uma complexa rede psicológica e histórica), mas busco, por um lado, evidenciar o problema e, por outro, propor respostas político-teóricas às questões do modo de saber e modo prático de identidade pós-moderna.


DESIGUAL ENTRE IGUAIS

Estar numa comunidade de iguais quando não se é igual (refiro-me aqui às percepções sociais, não à biológica) tem um custo alto à subjetividade, pois a Verdade das intenções, das oposições e dos fatos, ao mesmo tempo que opõe, é uma espécie de areia movediça que engloba e absorve. Há uma voz audível e a segunda, uma voz inquestionável. O preço pode ser o crescimento de uma voz vinda de fora dentro de mim. Ou de ser interpretada como nódoa, excêntrica, radical, exótica, e, não raro, interpelada sobre questões de mulheridade Negra num sutil gesto de forçar-me a depor contra mim/nós sob o pretexto dos filtros de boa convivência. Nessas interpelações é aberto um espaço de fala frágil, no sentido de que as noções de mundo hegemônicas estão naturalizadas e tudo derrepente parecerá limitante, afinal, tudo é tão complexo para centralizar assim em questões narcísicas, como falar de mulher, pobreza e de negritude...


Sem Grada Kilomba, Frantz Fanon e Audre Lorde não existiria escapar do destino inexplicável/inexprimível decorrente desse tratamento desigual, de inserção caridosa. Caridosa porque o medo de perder o que se tem é norteador das relações ao mesmo tempo que a divisão é incentivada. Nesses dois movimentos que parecem opostos, temos um terceiro ponto: a doação do excedente, não por dó, culpa ou compaixão, mas da materialização repetida das desigualdades. Caridade não é Compaixão assim como o “preço alto” de dar esmola não significa “conexão de corações” e "sentir junto".


A FUNÇÃO DE INTELECTUAIS SOBRE A REALIDADE FABRICADA

A maior parte dos textos acadêmicos que tenho lido e tratam das políticas de identidade costumam abordá-las num âmbito das complexidades (ciruculares) ad infinitum. Descorporificam a questão do pertencimento de uma forma que, não raro, discordo e desconfio. No mesmo instante, eu ouço a voz invisível questionar:

- Você está realmente entendendo?

Essa frase me persegue nas leituras, e, não por inabilidade, considerando minha formação acadêmica e trajetória como leitora, mas porque é a estratégia de deslegitimação primária investida contra a minha presença em solo onde não sou bem vinda. Trata-se de um desencontro entre experiência do/a autor/a e a minha, desencontro esse, motivado pela diferença de prioridades, interesses (políticos) e desejos (de revolução). Também se trada da noção de ciência e da crítica limitada ao elemento de mediação: a crítica aos clássicos. Você leu os clássicos? E por que deveria? Não apenas os clássicos repletos de aura pouco me interessam e intimidam aquelxs individuxs não familiarizadxs com a tradição acadêmica, mas, até mesmo a demanda por ler os clássicos como requisito para construir a crítica emudece. Esse modo colonizado de formular saberes dificulta a autonomia como intelectual oriunda das margens à medida que desarma e debilita nossa ação reivindicatória. O direito de criticar é um cercadinho no alto simbólico da Via Láctea (que eu chamo de The Sims).


Por outro lado, há quem diga que acessar espaços de privilégios retira o caráter de subalternização. Embora essa transição possa nublar, mudar ou intensificar a lealdade inicial, a fagulha da revolta será evocada sempre que as causas da raiva (injustiça e não direito de fala) reassumirem a superfície dos discursos científicos. Nesse sentido, o comprometimento desta e deste intelectual é em difundir suas metas, seus objetivos, seu modo de operar/construir a realidade, propostas tanto na vida, como na escrita. Muitas questões atravessam, mas é imprescindível pensar que elas não são tiros isolados. Se aparentarem ser, é necessário o momento de pausa para refletir e desmascarar questões e possibilidades.


A questão das fronteiras, por exemplo, raramente é observada a partir de locais de fala marcadamente interessados; Em geral, temos negros e pessoas não brancas desenvolvendo pesquisas sobre o ser/estar no mundo, mas ainda que a voz narrativa se posicione quanto à raça/cor, perceberemos nuances de objetividade científica, escolha lexical e escolha das nódoas históricas pouco relacionadas aos interesses da cor como corpo social vitimizado. A crítica ao sujeito desnuda a sujeição, mas continua centralizada na individuação, na observação de binóculo, no deixa estar. No mundo real, dos campos em disputa, essa postura a-crítica, e comprometida politicamente com um esvaziamento dá continuidade (agora “consentindo”) aos shows de curiosidades dos tempos modernos. Um preto KKK, um preto híbrido pode se constituir como excessão, como pretos científicos, mas o campo não alivia sacrifícios humanos. Os navios negreiros, o tronco, a casa grande se atualizam minuto a minuto.


A leitura do mundo descrita por Frantz Fanon, Angela Davis, Sueli Carneiro, Jurema Wernek e Grada Kilomba evidencia seus objetivos e interesses de forma nítida, bem de perto [*] e, por isso mesmo, radicalmente comprometidos com o fim das desigualdades. Essas teóricas erguem das profundezas do esquecimento os fragmentos históricos imprescindíveis para nós - pessoas Negras interessadas em nossa história e na justiça social - e promovem novos olhares aos fragmentos que estão na superfície, porque foram desvinculados de uma contextualização nossa. Mas o novo mundo não é fundado pelo olhar do ocidente? É possível emancipação real se estamos presas à língua e à cultura?


Matrizes brancas dos saberes afirmam que a experienciação de tecnologias da informação (CANCLINI, 2008) impossibilita que as culturas permaneçam puras, mas a questão de pureza e da ideologia supremacista não tem origem nos segmentos marginalizados, afinal:

  1. a questão da identidade racial - para nós - nada tem a ver com a reivindicação de pureza; 
  2. o que teóricos chamam de hibridismo, na real, é uma paisagem de fragmentos a partir de violência epistemológica e simbólica extremas, que usurparam, expropriaram, espoliaram conhecimentos, almas, bens materiais e ocultaram as diferenças étnicas dos povos negros que foram escravizados (e jamais foram escravos).
  3. A ideia de “colapso”, “crise” e “caos” envolvendo as identidades descreve uma ideia que pretende se instaurar. O alarde do fim do mundo deixou de ter anjos e demônios e passou a tratar-se duma oposição opinativa, distante, pretensamente científica e baseada nos apagamentos daquelas árvores em solos novos.

É impressão (só) minha ou a ductibilidade e hibridização das culturas como categorias analíticas tendem a invisibilizar o terrorismo, a dominação cultural, a imposição e a apropriação real?


FEMINISMOS, HISTÓRIA DAS MULHERES, GÊNERO, RAÇA E SABER CIENTÍFICO

A história dos Feminismos e das Mulheres tem sido narrada em três grandes ondas protagonizadas pelos Estados Unidos e pela França, impérios Modernos que são avessos ao essencialismo e ao fundamentalismo como se fossem diametralmente opostos à igualdade e à politização. Avessas às essências, mas universalizaram à sua maneira até saltarem as especificidades (?) na década de 70: raça, cor, etnia, classe, sexualidade… a nossa história começa aqui… não fosse a certeza de que antes da exploração colonial, Segundo Werneck (2008), na África Subsaariana (não a idílica, a histórica) havia organizações políticas de mulheres que celebravam o poder de agenciamento, força de vontade e a própria sensualidade (nos múltiplos usos do erótico). Nossa integridade foi mantida, segundo Davis, pelo pertinente poder de imaginação (vislumbre do futuro) e por um sentimento de comunidade empoderador, comprometido em desafiar e intervir na realidade social, sem o pernicioso culto à excepcionalidade. No ser em si jaz a explicação do critério da história das mulheres. Pluralizar os Feminismos significa nada (ou mea culpa), se não derem lugar à pluralização, à escavação e à recuperação de memórias roubadas.


A tradição tecida pelos vencedores - e pelas pessoas que têm tempo de ler/escrever - está acessível porque é incorporada ao nascermos. Repetí-la é o óbvio, difícil é perceber-se fora dos círculos de cidadania nos quais busca inscrição. Por esse motivo, sob o risco de soar como o que não quer ser, encontraremos negros fazendo piadas autodepreciativas, descrevendo situações distantes da pele, bem como feministas acadêmicas que, na ânsia de pertencer a algo digno, a se equipararem aos homens, pedem desculpas pelo carma de histórico e, com isso, deixam assassinos (simbólicos) saírem impunes. Não aponto culpados, mas a inexistência de ponto zero e de muros para permanecer. Com culpa ou sem culpa, um corpo assassinado continua assassinado. Aliás, que bela (outra) história seria aquela na qual Orfeu, pedindo desculpas, resolvesse o deslize com Hades.


Pensar no potencial sedutor de ser absorvida pelos poderosos (estocolmo), que o terror vem de quem tem poder (terrorismo), diferenciar culpabilização da vítima de incriminação ou escravização/subalternidade e escravidão/subalterno dizem muito sobre experiências pessoais levadas a sério. É fundamental, portanto, saber quem você é, ao enveredar no campo minado das Universidades e, principalmente, ao ver, ouvir e ler.. Nesse grão de mundo, a exclusão não é maior nem menor que no “mundo exterior”, é apenas a mesma. Apesar disso, como mecanismo de defesa, propõe o enfoque de ceder espaço à diferença. Então - sendo otimista - ser pretx, LGBTTTIQ e pobre pode ser enaltecido em alguma medida, pode ser o diferencial que ilustra a temática, a excessão que confirma a regra. A fratura estabelecida pela contradição “enaltecer” e “ilustrar” diz tudo sobre a inserção das categorias (devido às lutas próprias) e negação da diferença. A fratura traz à tona o que há de pior na democracia: o ato de dominar é um fato livre de intenção má, a homogeneização é o bem comum. A homogeneidade passa a ser central (fins) no intuito de ser relativizada entre a intenção ou a não intenção (razão) e, o mais perverso: esquecer mais ainda os corpos que não pesam, os corpos que não falam (meios).


PÓS-PÓS IDENTIDADE/ PÓS-PÓS MODERNIDADE

Num primeiro momento, minha dúvida foi: por que professoras/professores universitárias/os recheiam suas ementas de curso com Feminismo Negro e teóricos Pós-Coloniais? Por que, ora as discussões, ora os próprios textos me causavam tanta angústia e as vozes nublavam o que mais me parecia importante? Por que o emudecimento de questões reais? Quais dos desafios apontados por Audre Lorde (1984) e bell hooks são neutralizados para compor um discurso translúcido apropriado ao lugar de fala acadêmico, branco, classe média e não heterossexual? Quais os desafios são silenciados cotidianamente e endossados pelas escritas descritivas e apropriadas leituras perversas de um Stuart Hall? 


Interpelada pela revista “Caros Amigos” a filósofa Sueli Carneiro afirmou: “Entre direita e esquerda, continuo preta”. Embora o afastamento possa distorcer o efeito esperado naquela ocasião, retomo essa máxima no intuito de problematizar outro ponto da consciência intelectual esquerdista. Nascer numa família de esquerda é um privilégio que eu só descobri na fase adulta. O que se apresentou como “o certo” constitui um repertório de crítica, de exaltação à liberdade e de fruição artística. Comunicar-se com a SUBJETIVIDADE das pessoas que usam uniforme, cultuar os clássicos subversivos, odiar gralhas culturais e futilidades, valorizar o que sabe, não o que tem, educação financeira, o culto à elevação da arte (acima de tudo) engajada e o esforço individual em mudanças plurais modularam a minha vida com uma naturalidade tamanha que me assustou percebê-la. Assustou porque eu a percebi pelos seus limites e pela percepção que minhas amigas Negras mostraram ter de mim. Descontinuidade entre “o bom gosto” aprendido e as verdades do RAP, da fome, das prioridades. Assustou porque a postura “naturalizada” tem uma ancoragem temporal evidente, então, quem é da velha esquerda não concebe questões da mulher como centrais, black power colorido, veganismo, transsexualidade e transgênero. 


É privilégio ter crescido num ambiente que propiciou a autoconfiança, a imaginação, o questionamento e a noção de que é preciso saber reivindicar. Mas esse privilégio é redimensionado a partir do estranhamento que a consciência da incorporação dele em mim provocou. Algo como o mundo maniqueísta em que nasci no lado certo entrou em choque ruidoso com as verdades emergentes pela política de identidades. Por um lado o posicionamento à esquerda, materialista, dialético e, por outro, a percepção do quão burguês isso era trouxe pra perto a vontade de entender a operacionalidade do conceito de identidades híbridas... 


Porém, embora eu possa narrar uma complexa trajetória de formação racial, intelectual e artística em movimento desordenado, o fato é que a união de contrários permite optar por alguma identidade. Isso é a binária imagem do chicote: ou você opta pela ponta que bate ou pela que apanha. Não vejo essa aplicabilidade nos textos. Eles costumam descrever a falsa consciencia, aquele perfil do "assimulado" pra dizer que a escravização foi terrível, MAS os negros vendiam negroa; mas o sonho do oprimido é ser o opressor. 


A aplicabilidade reside na escolha dos elos mais fracos, da ponta em desvantagem, desde que a percepção de si pelo Um se revele de alguma forma. Não sou colorista, acredito que reivindicação de negritude tem a ver com experiência de descriminação, afinal, não foram pardxs que inventaram a discriminação racial. Elas transitarem mais do que, não é o meu ponto. Sofrimento não se mede e não se relativiza. Isso significa que eu ignoro a diferença nas relações sociais? Não. Isso significa que elas precisam reconhecer os privilégios, obvio, mas que não são O problema. Como nós, elas precisam fortalecer a consciência e almejar a autonomia.


Essa consciência de que é preciso reivindicar em oposição ao desconforto sem forma, revela o que chamo de “perversidade”. Esta consiste na violência perpetuada na surdina, em movimentos de “esperteza não declarados” e “golpes baixos”. A perversidade começa na escolha de obras a serem traduzidas que refletem o recortado posicionamento político do intelectual e do seu campo de atuação. Se não fosse interessante para academicxs interessadxs, engajadxs e comprometidxs (no fim das contas todo mundo é), essas pessoas simplesmente apagariam negros, latinos e brasileiras Negras assim como apagam Angela Davis e outras intelectuais radicais. 


O critério básico de destaque intelectual - além de network - é a disposição para negociar o que se entende como “função social do intelectual”. Em tempos “rígidos”, o “inimigo” era sólido e, atualmente, ele (oportunamente) liquefaz critérios numa sopa de letrinhas. Esse é um descompasso entre a teoria e o seu uso político, a sua prática interesseira. Está em jogo aqui a concretude, não a legitimação dos conceitos em si. É ótimo pensar em gênero como categoria de análise, porém, é perniciosa a concretude que faz uso de “gênero” para justificar a opinião de homens em relação ao aborto. Num mundo ideal isso será possível? Provavelmente sim, mas e no agora? E quanto ao abandono de filhos, à negação de sua presença? E ao descarte silenciosamente permitido pelo privilégio? Esse tipo de questionamentos que eu faço aos conceitos de hibridismo e multiculturalismo desnudam a angústia. Tal revelação mostra que os conceitos têm a função subversiva minadas: apenas ilustram os diversos textos sobre Identidades Pós Modernas que tanto compõem ementas de disciplinas que venho cursado.


Ao meu ver, as estratégias multicuturais fagocitam questões de justiça social à medida que neutralizam as diferenças e voltam para o estado de neutralidade/objetividade científica apesar de enfeitada por “nasci em x, cresci em y, minha mãe é de z, meu pai é de w, mas eu não sou nada disso porque gosto de A”. Assim como uma árvore de natal é aceitável, permitida e incentivada durante algum tempo nos cantos de salas laicas, o intelectual multicutural é geralmente uma excepcionalidade confortável pra quem cultua, pois não ameaça em nada os privilégios e nem inspira a conexão revolucionária entre subalternizadxs. Onde tudo é tudo e nada é nada, me parece bem fácil esquecer que o mundo não é folclore, carnaval e condições ideais. Mais fácil ainda esquecer das carnes que nada valem, como aquelas no topo da página. Segundo a escritora senegalesa Fatou Miome são corpos que não valem nada onde estavam e, exatamente por isso, arriscam-se rumo às possibilidades de sobrevivência. Embora seja possível pensar nos discursos e nos pontos apresentados pelas “pós”, não há como advogar a favor de seu uso dominante/indevido.


Toda vez que leio sobre hibridismo e identidade como algo (apenas) transitório e autodeclarado, não consigo encontrar (e não é entender) a relação entre o modo como sou percebida e a escolha do outro de dizer que é igual a mim na dor decorrente das violências institucionais e cotidianas, nas práticas interpessoais e no cotidiano profissional. A comunidade (dita) imaginada se eleva dum trauma histórico não superado, não reparado, experiência em que se confunde causa e consequência, porque ambas são a mesma coisa, segundo Fanon. Usualmente, as assimetrias são citadas com efeito de axioma, isto é, um fato evidente, mas nem central, nem coexistindo com a violência. Fala-se com intensa propriedade sobre economia, expansão das culturas,história social e identidade como uma narrativa imaginária; Mas a mutilação de corpos ou é literalmente legada às intempéries e ao mar, ou usada para ilustrar as Verdades escritas nos papéis que lemos.


Estão reduzindo as questões de violência, diante dos nossos olhos, às questões de patrimônio imaterial, no cultural, no que é, mas pode não ser. Para essa abordagem, o orgulho negro, o orgulho lésbico, o orgulho operário e de todas as categorias que tradicionalmente são negadas a centralidade e o protagonismo nada têm a ver com opressão, exceto em sua caricatural finalidade de fetiche.


Temos em "Raça[3]" de Kwame Appiah (1995) um silogismo quase convincente. Ele descreve o conceito de racialismo durante a Antiguidade, na sociedade Grega a partir de fontes textuais. Notamos em sua leitura, grande erudição, pois cita filósofos como Hipócrates e presenças históricas pouco usuais no conhecimento comum sobre aquela sociedade. Notamos também uma descrição exaustiva distante e sem interesses e desejos realmente declarados. Segundo Appiah (1995) , 1) Os gregos sentiam-se superiores a quaisquer povos (pretos ou loiros), pois desenvolveram habilidades devido ao solo infértil; 2) A inferioridade não era incorrigível; 3)Logo, os gregos não eram racistas.


É evidente que há uma violência epistemológica atravessando esses pontos. Primeiro porque não há enfoque nem na presença de outros povos, nem na compreensão de cidadania dos gregos, que excluía a maior parte da população (pobres, mulheres, escravizados) e valorizava o trabalho intelectual e hierarquizava funções de forma muito próxima à contemporânea. Isso não significa que eram racistas por uma questão simples: essa palavra-conceito é posterior. Também não podemos chamar Danaides de feministas, e por aí vai. Em segundo lugar, que abordagem a partir da matéria e das percepções não é necessariamente revolucionária. O que não podemos perder de vista é que a importância que o autor dá ao seu posicionamento no mundo é retórica, é engajamento e política. E quando me refiro à política, destaco principalmente a concepção de Joan Scott (1992): estratégias de manuntenção ou rompimento de estruturas de poder e as práticas que reproduzem ou desafiam a ideologia dominante.


Em que lugar desse silogismo está posto, pressuposto ou subentendido que o negro da KKK configura uma falsa consciência? 


Ao analisar a escolha desse mesmo individuo sob os termos da hibridez e da multicultura, qual a brecha possível leva a perceber onde a violência está mergulhada? O fato em si não busca pressupostos, métodos, olhares e abordagens menos tradicionais? Como pode o objeto, no século XXI não abalar em nada o sujeito? Como aqueles termos podem içar os corpos mergulhados no Atlântico? Que espaço eles criam para que o individuo filiado à KKK narre sua versão da história? A falsa consciência, o consumo, a colonização parecem ser elementos faltantes… Num último esforço, acaso podemos justapor a teoria aos relatos das viagens de Alice Walker como pacifista pelo mundo todo?


Talvez você pense que os conceitos não se prestam a isso; que eu li errado; que não é pertinente uma pessoa sem títulos e sem o background ideal questionar esses pontos. Ou não: talvez você entenda que o mal estar é sintoma do meu entendimento em construção, localizado e interessado na democracia da abolição (Angela Davis) simultânea à Cura/ descolonização (Grada Kilomba) e, possivelmente, se identifique. 



CONCLUSÃO PROVISÓRIA

Afetação evidencia o caráter de denúncia do racismo diário num sofisticado conta-gotas. Ter consciência num mundo como esse é viver em constante estado de raiva e desobediência. É querer a revolta e interpelar o universo de dentro e de fora com uma frequência maior do que o ordenamento de respostas. A angústia nada mais é que o descompasso entre o que preciso situar nas coordenadas ocultadas e a formulação das hipóteses, perguntas e contestações, em suma, o nascer duma motivação crítica prenhe de interesse, desejo e politização.


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REFERENCIAS

[*]  indiferenciando objeto, sujeito e modo de aprender e dizer sobre ambos. Segundo Kilomba, em While I write, quando ela (nós) escrevemos, deixamos de ser objeto de pesquisa nos tornamos sujeitos.

CANCLINI, Nestor Garcia. Comunicades e cidadãos: conflits multiculturais da globalização. Trad. Maurício Santana Dias. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2008. 7 ed.



[1] Voluir: Tradicionalmente as pessoas escolhem a palavra "evoluir", ainda que desejem ignorar o caráter evolucionista. Minha opção está direcionada à imagem de mudança para qualquer lado admitindo que não há tendência à ordem e, principalmente, ao progresso.

[2] Hidra: "animal fantástico da mitologia grega, filho dos monstros Tifão e Equidna, que habitava um pântano junto ao lago de Lerna, na Argólida, hoje o que equivaleria à costa leste da região do Peloponeso. A Hidra tinha corpo de dragão e sete cabeças de serpente (algumas versões falam em sete cabeças e outras em números muito maiores)[carece de fontes] cujo hálito era venenosoe que podiam se regenerar." Ver: Wikipedia.


[3] APPIAH, Kwame Anthony. Race. In LENTRICCHIA, Frank; MCLAUGHLIN, Thomas. Critical Terms for Literary Stidy. Chicago: The University of Chicago. 2.ed. 1995.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

GUEST POST: Improdutividade e outras doenças



Por Thânisia Marcella*


Essa pode ser uma temática comum dentro das conversas sobre "crises existenciais". Portanto, é importante pensar que esse texto não pretende te levar a revisitar todas as suas questões emocionais mal resolvidas.

Uma grande amiga minha me diz que nós só podemos oferecer ajuda a quem nos solicita e a nossa ajuda só terá resultado se aquilo que fizermos for mais criativo, empoderador e libertador que os males do presente.

Eu cresci rodeada de livros, de música e de pessoas que estavam, constantemente, ministrando todo e qualquer tipo de aula ou cuidando de crianças. Isso me fez crescer entendendo que: 1. Estudar é a coisa mais importante no nosso país; 2. Músicas e danças são apenas para diversão, mesmo que, internamente, soubéssemos que são para curar os nossos males; 3. A família é o nosso começo e fim; 4. O trabalho deve ser honrado e, dentro do nosso sistema, não ser concursada é estar em uma margem de risco contínuo; 5. Pedir ajuda é demonstrar que você não foi capaz de provar que conseguia cuidar de si mesma.

Ao suportar a carga emocional e social de ser a filha mais velha entre 5 filhos/as, de ser a garota prodígio nos primeiros anos escolares, de ser a problemática e estressada na adolescência e de ser a jovem que é a exceção dentro da regra de exclusão social, a mente volta aos primeiros momentos e constrói algumas perguntas: Será que eu vou conseguir ser quem meus pais projetaram? Será que eu sou a parceira ideal para esse tipo de pessoa? Como alinhar as minhas expectativas acadêmicas com a minha vivência?

Ao final, essas perguntas se transformam em um grande tema existencial: Será que eu vou conseguir ser o combo do que esperam de mim e do que eu quero para mim?

Infelizmente, as respostas para todas essas perguntas não chegaram e, provavelmente, não chegarão. Mas as perguntas não somem.

O corpo começa a imprimir a nossa insatisfação. Se a pessoa almejar uma reforma social, a situação se agrava. Pois ela não quer pensar apenas nela; ela acredita que sozinha ela não chega a lugar algum - mesmo que receber ajuda não seja o seu forte. O que ela não quer é ficar sozinha. 

Assim, deitada na cama, a cabeça gira. O sono chega e a rotina faz pensar que, para o outro dia, tudo está controlado: Vou acordar, vou fazer xixi, vou beber água, vou pensar na roupa que vou vestir, enquanto tomo banho. No banho, eu escovarei os meus dentes e, se for o caso, me depilo. Para economizar água, vou lavar a calcinha. Organizo tudo. Faço a maquiagem, enquanto como, mas tem que ser rápido para não ter atrasos, sem esquecer de pegar a marmita.

Ao amanhecer, o relógio tocou e, sem explicação, meu corpo e minha mente não foram acionados. Nesse momento, ativo um sinal de alerta: O que pode estar acontecendo com essa jovem inteligente, extremamente ligada à família, descolada, bem relacionada e independente?

Novamente, sem resposta, o corpo tenta seguir a rotina. Mas, agora, ele decidiu que não quer. Para ele, a mente se manteve no poço da ansiedade e ele não quer levantar até que a mente se resolva sozinha.

Diariamente, muitas/os de nós passamos por isso sem dar atenção. Primeiramente, homens e mulheres negras nasceram destinados a lutar contra a inércia. Historicamente, não tivemos a opção de escolher entre observar o mundo girar ou fazê-lo girar. Observar o mundo girar inclui "fazer" arte, culinária, etc.

Há anos estamos em um ciclo profundo que terminou nos trazendo três das piores doenças do planeta: A depressão, o câncer e a violência. 

Negamos a nossa possibilidade de sermos violentos/as e não reconhecemos que possuímos um sistema corporal e mental que requer cuidados. Atropelamos a nossa própria existência em nome de muito pouco, nivelando a realidade com uma verdade que nós nunca conhecemos.

Às vezes, precisamos de ajuda, mas não aceitamos. Outras vezes, a ajuda chega, mas não é o que precisamos.

Existir, definitivamente, precisa ser mais do que o orgulho, a expectativa, "as tretas x os deboísmos", o interesse e as cobranças. Existir, certamente, é uma viagem e, como toda viagem, precisamos relaxar e acreditar que, não importa o que aconteça, sair das nossas caixinhas é mais importante do que adoecer nelas.



Deise (Rico Dalassam)


She (Laura Mvula)



*Thânisia Marcella é uma pessoa que está esperando, ansiosamente, a chegada do segundo sol.