domingo, 31 de maio de 2015

ORPHAN BLACK E O PROBLEMA DAS SÉRIES [QUASE] FEMINISTAS




Quase todxs xs Clones

Recentemente eu vi uma lista de Cinco séries que chutam a bunda do patriarcado. A primeira - óbvio -  a especialíssima Buffy a Caça Vampiros [um dia escreverei um post sobre esse meu affair] e, dentre as demais, havia uma Ficção Científica que eu não conhecia (E está no acervo do Netflix): ORPHAN BLACK. Se você nunca assistiu, pode ser que pense como eu pensei "mas, oh, uma versão canadense com menos orçamento de Fringe?". 


(...) series que chegam 
de voadora no patriarcado, 
mostrando que mulheres fortes, 
independente de cor, credo e classe
são mais que necessárias. 
São uma realidade.


*Aviso: spoiler

Nesse momento de re-pulverização dos feminismos (coincidindo com a morte do Femen Brasil), percebo a proliferação de libelos em prol de representação de minorias na Cultura de Massa, uma corrida para o Centro-Oeste, uma ocupação, uma resistência. Até aí, excelente. A questão que me mobiliza, por outro lado é a de que "não basta estar lá". Coleciono listas digitais de outros blogs, desde  "personagens que eu mais gosto" até as de séries  feministas que ovacionam Buffy a Caça Vampiros, Orange is the new Black e a que me trouxe aqui, Orphan Black. Depois de tantos elogios e ascensão ao cago de clássico, cria-se um maremoto de surpresas (?) sobre a Viúva Negra deixado de ser "durona" e se tornado "uma vergonha"  nos Vingadores. Sério que vocês nunca viram nada parecido em Buffy? Céus, Buffy é a minha série favorita de todos os tempos, e (ainda) me diverte "apesar da convergência de estereótipos" e sutis violências que tanto re-assisti. Então acho justo dizer que é uma série que diverte, que tem lições interessantes, mas acredito que "chutar a bunda do patriarcado é demais". No máximo, puxa a cadeira quando ele vai sentar.

Sarah Manning - "Eu não sou sua propriedade"

Primeiro, o ponto é que existem diversos feminismos e que eles partem de pressupostos e de locais de fala, atravessam as subjetividades, os dizeres, os olhares e as práticas. Sendo o meu olhar de Feminista Negra, não considero melhoras (o que geralmente significa uma moça branca jovem classe média branca heterossexual magra protagonizando) o suficiente. O segundo é que confundem feminino, mulher e feminismo. Não! São coisas diferentes e que, nem sempre, se relacionam. Como se o fato de ter uma heroína mulher resolvesse os nossos (nós quem?) problemas de não-lugar e de não pertença. O terceiro ponto diz respeito ao que há de mais dissonante, pra mim, é quando deixam uma parte por fazer. Tem uma heroína, mas os outros estereótipos saltam da melodia harmônica. 




Allison - "Eu não sou seu brinquedo"


Tá, então estou em busca duma série perfeita, impecavelmente feminista e panfletária, de preferência? Não foi o que eu disse. O que eu reforço é que eu consumo e me divirto com produtos de massa apesar de enxergar as fendas nos discursos. É por esse jogo de contradições que, assistindo Orphan Black, resolvi pensar sobre o que são "séries feministas".

1. ENREDO

Helena - "Eu não sou sua arma"


Orphan Black (2013) é uma série canadense de ficção científica protagonizada por Sarah Manning (Tatiana Maslany), uma mulher com uma identidade combativa, independente, sexualmente livre (descrita como "selvagem") e mãe de uma criança de oito anos chamada Kira (Skyler Wexler). Sarah representa um estereótipo de orfandade como elemento desencadeador da identidade problemática, daí o título "órfã negra", que soa como "ovelha negra" - nada bom. Ela tem um irmão adotivo que também está à margem, Felix, que é prostituto, traficante e usuário. Já no primeiro episódio, Sarah rouba a identidade de uma mulher igual a ela (Beth Childs) quando esta acaba de suicidar-se. Aos poucos, juntxs à Sarah, descobrimos que trata-se duma trama sobre conspiração: o movimento eugenista chamado Neolução (Neolution) promovido pelo Instituto Dyard. Esse instituto, financiado por "lobistas e tudo mais que há de bom", vem conduzindo pesquisas dentro do Projeto Leda que propiciou a tecnologia necessária para a clonagem humana já na década de 1980. Esses clones cresceram em diferentes países e contextos de modo que, apesar de serem idênticas fisicamente e geneticamente, essas pessoas têm personalidades não apenas distintas, como conflitantes. Muito positivo que a premissa da série seja a discussão dos limites da ciência, o capitalismo como desencadeador da queda dos valores e a junção das variantes acessos (inclusive materiais) e escolhas como multiplicadores das possibilidades de ser. 
Cosima - "Eu não sou seu experimento"


Aos poucos conhecemos mais e mais clones e muitas delas morrem. Esse é um dos aspectos mais cativantes da série: Tatiana Maslany interpreta cada personagem de forma tão completa que eu fico viajando nos elementos de composição de cada sestra (=sister), além disso, cada clone é monitoradx por umx monitorx que, em geral, acaba sendo uma relação afetiva. O golpe é o mesmo, a pessoa se aproxima como quem não quer nada e Tchaaanz: dorme contigo e deixa a medicina do Instituto te examinar enquanto você dorme. Mas relaxa, você mal percebe (?!).

2. ONDE ESTÁ O FEMINISMO?

A maioria das clones são mulheres independentes, que não se conformam com injustiças e que lutam por sobreviver. Elas desafiam uma lógica masculinista de mundo que é bem mais aparamentada; tanto porque buscam reparação da ética cientítica, quanto a autonomia de seus corpos e subjetividades - sempre obsediados pela Dyard. È correto clonar seres humanos? Quem participa das experiências tem o direito de saber? Quais as implicações de dupla negativa? Tudo o que somos/podemos ser está inscrito nos genes... ou a sociedade nos corrompe? A questão é: existe corrupção? Heroi problemático do Lucács ia morrer, por que assim, não tem mais sinal de que houve valores. Tudo precisa ser questionado - esse é o ponto.


O irmão de Sarah - Felix (Jordan Gavaris) é gay, magro, jovem, branco. Apesar de ser marcado por diversos estereótipos, é indispensável para a trame, além de ser um dos personagens mais incríveis da série por conta de sua generosidade e caráter; a cada ataque homofóbico direcionado a ele, Fee reage de diversas formas altivas o que, em geral, constrange os/as agressores. Ele é uma das pessoas mais especiais para Sarah e que, de tão incrível, arrisca sua vida diversas vezes e passa a fazer parte do "Clube das clones". Nele podemos perceber que o que é considerado socialmente desviante são partes identitárias que não são postas como negativas, ruins ou moralmente erradas. 

Alisson é o centro do núcleo humorado da série, uma total quebra da lineariedade. É aquela dona de casa "de subúrbio" bem estereotipada, mas é exatamente nos momentos de fissura que ela se torna adorável, como no momento em que descobrimos que ela é usuária de sintéticos e maconha e quando ela vai trair seu marido. Daí ela diz ao cara:


"Estou objetificando você. Sexualmente"

A clone Cosima também é uma personagem complexa, que desafia a normatividade. Ela está cursando o pós-doutorado, é jovem, usa dreadlook, é fashionista, é usuária de maconha, lésbica, apaixonada por vinho tinto, única clone que usa óculos, e mil coisas que vamos descobrindo sutilmente. Suponho que ela é a personagem com menos discursos não-feministas subjacentes. A altivez de Cosima é emblemática quando a clone Rachel (presidenta da Dyard) encontra Cosima e sua companheira Delphine Cormier (Évelyne Brochu) se beijando no laboratório, diz com desdém algo como "ahhh, então você é lésbica!?". A resposta:



"Minha sexualidade não é o mais interessante sobre mim"


Aliás, sobre a sexualidade de Cosima é uma das que mais temos abordagem explícita. Perde pra Sarah, apenas. Enquanto o beijo entre Willow e Tara em Buffy, causou surpresa pela época, a produção de Orphan não poupa cenas de intimidade sem o peso fetichista, sem anormalidade nem nada ridículo. O melhor: até agora, Delphine está viva!


3. O QUE NÃO É TÃO FEMINISTA ASSIM?

Quando estou consumindo/curtindo a cultura de massa, tenho em vista que, toda ação/escolha das personagens se conecta a um tipo de comentário da obra em si sob o desígnio do/a autor/a. Esta pessoa transmite algo como lições/moral da história sem necessariamente explicitar. Isso é o que conceitua-se como "comentário retórico" [1]. Apesar de observarmos um grande salto em relação à categoria mulher em si (inclusive de sexualidades não-hrgrmônicas) que cultua a independência afetiva e sexual (Sarah não se importa com o fato da clone Rachel se relacionar com o boy Paul - com quem outrora se relacionou) e, sobretudo, a importância da sororidade. Mas, como muitxs sabem, a sororidade usualmente é branca [2] e isso se reforça nas narrativas. Não raro, mulheres brancas são mostradas juntas, mas excluindo uma terceira Negra.


Nessa passagem, ele se passa por um professor de teatro e "Amigo gay"

É bem paradoxal a representação de Felix, pois é um personagem positivo, mas que carrega uma série de estigmas relacionados à homossexualidade, dentre elas, a "promiscuidade", o "sadomasoquismo" a "prostituição" e o "uso de drogas". Inclusive, há momentos da série em que a orientação sexual e as escolhas são continuidades naturalizadas. Apesar de não haver um julgamento moral explícito sobre ser usuárix ou prostituir-se, o que se aprende é que pessoas cujo gênero está no espectro entre homem-mulher (como o clone que é transsexual:Tony) são disfuncionais. Isso também não é julgado como ruim, mas é como um brinde que vem com a homossexualidade.

Ah sim, muito positiva a ideia geral da série, como destaquei abaixo duma entrevista que a a atriz Tatiana Maslany concedeu à Entertainment Weekly:

Nós meio que abraçamos a ideia de que qualquer ser humano tem o potencial para ser qualquer coisa, e eu acho que isso abre portas para todos os tipos de diálogo sobre sexualidade e gênero. E é um material interessante que não se vê com frequência de maneira respeitosa na TV. E não digo ‘respeitosa’ no sentido de ‘martírio’, digo ‘respeitosa’ no sentido de personagens e performances complexos, com defeitos e qualidades  (Entrevista com Tatiana Maslany).

Mas:


  • Onde está o Tony?
O que ficou parecendo no episódio que introduziu o personagem é que a série quis parecer inclusiva e mostrar que 1) pessoas trans são desfuncionais 2) "pervertidas"  3) transfobia existe e 4) reforçar que homens negros são machistas. Porque sério, ele apareceu e foi literalmente despachado sem muitos porquês. Noutras palavras: até a Carmen Sandiego tem mais aparições, mesmo que ninguém saiba onde ela está.

  • Sobre mulheres e úteros
Embora Cosima seja adorável, ela sofre de uma doença que está ligada ao útero. órgão ligado à feminilidade cis e que dá, segundo essencialistas, o ultimato sobre a função biológica da fêmea nesse mundo (até mesmo segundo deus): carregar pessoas na barriga, engravidar. Cosima, a que desafia a normatividade, é punida na trama com uma doença no útero. A clone Rachel e a Helena, ambas são "histéricas", descontroladamente violentas etc etc, PORQUE não têm filhos. O comentário retórico sobre elas é que "se pudessem ter uma criança, não seriam os monstros", top a Viúva Negra, lembram? "Porque mulheres estéreis são monstros".

  • O "Mulato Trágico" [=estereótipo]
O ex-namorado (um dos) de Sarah Manning é um cara chamado Victor e todos conhecem por Vic (Michael Mando). Apesar de ser um personagem cômico, é um traficante que sequer para ser mal serve (eis o comentário retórico sobre ele). Está sempre querendo tirar proveito das situações e da sua amada Sarah, mas não tem competência para alcançar. É estranhamente emotivo e moralmente fraco. Usuário de drogas, violento com mulheres e reforçando a ideia de que "latinos são assim mesmo: à flor da pele, descontrolados". Há um momento, em que ele confunde Alisson com Sarah e, quando a clone vai narrar a outra o episódio, diz:

- Encontrei um homem na rua que me confundiu com você. Ele era meio...urbano.


-Han? 


-Ah. Ele não é branco.


Além disso, o chefe de Vic arranca um dos dedos dele como forma de coação porque Victor não vendeu a cocaína e sequer a tem (foi roubado por Sarah). Ele também tem sua mão pregada por Paul (o militar ariano, ex-boy-2 de Sarah). Enfim, ele é o saco-de-pancadas de todo mundo na série. Exceto Felix, com quem ele consegue ser "machão", pois "é o que latinos são", fraga o Sr. Diesel em Velozes e Furiosos? Sabe o vilão de Far Cry III? Sabe o filme Turistas? Ok. Cê já entendeu.


  • E os negros? Onde estão os negros?

E por falar em "pessoas de cor" (pra gente, no Brasil, Negrxs = Pretxs + Pardxs), temos uma parte terrível. A principal pessoa negra da trama, isto é, que não apenas sobrevive como tem falas por mais de 3 episódios é o detetive Art (Kevin Hanchard) parceiro da clone Beth. Ele é um estereótipo de "bom negro", pois 1) é policial, 2) vivia para proteger a moça branca Beth 3) é mantenedor da moral, 4) não tem família ou qualquer vínculo além de Beth, além do pior 5) macho, alfa, cis, heterossexual, homofóbico. Ele está o tempo inteiro se impondo como homem, o que o torna bastante agressor naquele contexto. E, arrisco a dizer: gerando grande antipatia. 

Mas vamos às mulheres. Captei dois momentos, ambos com Alisson:





A primeira é uma pessoa estúpida e caricata; A segunda é a "tutora" em seu período de reabilitação. Enquanto a primeira cause certa irritabilidade, a segunda é certamente aquela que está ali pra servir e cuidar. Sua indiferença e má vontade são enormes, mas ainda assim, não o suficiente para romper o paradigma histórico.

Então, guardei o "ouro" para o final. A personagem Amelia não está em nenhuma das listas que eu encontrei pela internet com nomes de atrizes de Orphan Black... Mas vamos lá. A órfã negra é, na verdade, a moça branca-hetero-cis-classe-media Sarah Manning que é socialmente uma "ovelha negra" - retórica novamente. Amelia é africana e foi submetida à experiência de ser barriga-de-aluguel e ter tido duas filhas que são clones e gêmeas: Sarah e Helena. A primeira, ela deu ao Estado e a segunda para a Igreja. Uma frase dela emblemática dita à Sarah: - Vocês são noite e dia.

Com isso, ela organiza de forma maniqueísta o que são as suas filhas: noite/dia, boa/má, claro/escuro, racional/irracional, enfim, ignorando o fato de seres humanos serem constituídos de variantes, escolhas e contextos. Ela faz parecer que algo prévio nos constitui... o que me incomoda profundamente, é que ela é a única mulher Negra a ter voz e, em poucos minutos, constrói um estereotipo tão sólido que, na verdade percebo que o problema não é esse, mas a falta de questionamentos que ela representa.

O primeiro ponto, é que ela ser a mãe de duas jovens brancas surge como algo inesperado e aquela ideia de "ah, sim, geneticamente possível, mas", mas ela não tem nada genético em comum com as gurias. Olha o jogo duplo. Sarah se encanta com a possibilidade de ter respostas sobre si mesma ao ter contato com Amelia, mas essa possibilidade é destruída pelo ímpeto "ilógico" de Helena. Ainda na primeira temporada, Helena descobre que a mãe biológica escolheu separá-la de sua sestera (=sister) e mandá-la ao convento, onde foi brutalmente violentada, submetida a todo tipo de programação mental, enjaulada, privada de alimentos, sedada...enfim. Somada a essa raiva, temos o "não é possível você ser minha mãe", já que ela é Negra. O racismo de Helena (que é ucraniana), portanto, chega ao extremo de ela apunhalar a mãe e cuspir nela. Essa imagem é de uma violência simbólica e física tão absurda que não faz sentido postar aqui. Óbvio que a construção dessa imagem é embasada pelo descontrole de Helena que é totalmente instintiva, reativa, louca, histérica (veja que é outro estereótipo), então, é uma imagem que a própria trama silencia como racismo.



A violência de gênero racializada então, é um eixo que trespassa os vários núcleos da série. O discurso sobre sororidade não cabe a nenhuma personagem Negra e, mais do que isso, pessoas negras são colocadas como dispensáveis sempre que não são passíveis de violência física. Quanto a Art, ele exerce poder de forma tão absurda quanto Paul em sua truculência desmedida. Isso tudo no século XXI, e ainda há quem me pergunte quem eu acho que eu seria no século XVI. Não precisa ser um gênio pra concordar com Grada Kilomba [3]: subjetividades negras são ainda construídas à luz (e à luz mesmo) de experiências coloniais, de violência, silenciamento e morte. E a grande violência é exatamente a reafirmação disso todo o tempo em todos os lugares, inclusive nos de divertimento, tipo séries.

4. CONCLUSÃO

Talvez, no fim de tudo isso, você se pergunte o porquê de eu me me dar ao trabalho de assistir à série, já que. É exatamente o "já que" e o "apesar de" que constituem a dialética "preta-e-nerd" e o "burning-hell". Gosto de cultura de massa porque é divertido (já dizia Joanna Russ), mas espero que um dia seja possível que as mentes criadoras não sejam acorrentadas por valores que brutalizam, desumanizam e objetificam o que consideram abjeto. No caso da série analisada aqui, óbvio que ela é bastante inovadora ao mesclar tantas questões de ética científica, sexualidade, representação da mulher, mas é de uma continuidade absurda quanto à questão racial. Acredito que vale muito a pena assistir, ter contato com essa elaboração da realidade cotidiana, pois, a exemplo da incrível Shonda Rhimes (criadora da série Scandal) conhecendo os mecanismos podemos nos apropriar deles e criar realidades possíveis pra todo mundo se divertir em paz - isto é, com possibilidade de descanso aos olhos, corpo e mente. Se você pensa que assiste séries feministas na mídia mainstream, precisa ter os dos olhos abertos sempre, porque, na real, elas são SÓ UM POUCO FEMINISTAS, pra nem perder você nem os nerds clássicos.



5. REFERÊNCIAS

[1]  HOWARD, Sheena C; II JACKSON, Ronald L. Black Cmics:  politics of race and representation. New York: Bloomsbury, 2013.
[2] Grada Kilomba escreveu um texto sobre isso, em português, na sua página no Facebook: Grada Kilomba.
[3]______. Plantation Memories: episodes of everyday racism. Budapeste: Unrast, 2010.


Quer MAIS #cloneclub? Dê uma olhada nos links abaixo:


http://blacknerdproblems.com/site/?s=orphan+black
http://orphanblackfans.com/
http://www.nemumpoucoepico.com/2013/10/bem-vindo-ao-clube-dos-clones-5-motivos-para-ver-orphan-black/
http://orphanblack.wikia.com/wiki/Orphan_Black_(TV_series)
http://www.forbes.com/sites/carolpinchefsky/2013/05/31/the-clone-wars-a-look-at-the-science-of-orphan-black/
http://www.themarysue.com/orphan-black-science-and-fiction/



domingo, 24 de maio de 2015

EM MEIO À... AULA

Relação porosa entre professorxs - alunxs é duma complexidade tal que, a maioria dxs discentes ignora quem é e de onde está falando. Tanto pior quando não ignoram e usam a sutileza da negação para exercer um poder sórdido: racista! Diz que não, afirma que não, mas exerce. Ás vezes, parece que somente a performance narrativa, o conhecimento como apreendemos no cotidiano possibilita conhecimentos alternativos. A academia como espaço híbrido - o meio ao lugar onde não se é bem vinda - é o único que nos abre as portas.  Pior quando você faz abrir e elxs têm que abrir, pois elxs não aceitam. Some à aridez do campo selvagem feminista, a cor da pele à cor da consciência, idade e todas as expectativas advindas desses dados. Some também a subjetividade e veja no que dá.
 
 
"O que é legitimado como conhecimento e que conhecimento é esse?"
(Grada Kilomba)
 
 
I
 
Meu corpo responde aos silêncios infundidos no que foi o patamar do desejo. E os desejos, sempre multifacetados e autorreferenciais semeiam a si mesma como uma esponja o faz.A semente, por vezes, passa por filtros que drenam prazeres, minam à medida que negam, ignoram e negam que negam - óbvio.Status quo é como uma teia tão invisível como de aranhas. O poder do "não" privilegia-se de ter invisibilidade, de não ser marcado e, portanto, cobrado, rastreado. O que não tem nome, o que não tem corpo, o que não é factual, o que não se limita ao conhecimento... bem, isso não existe. É frustrante quando você não pode se expressar, mas nada lhe impede de fazê-lo. Não com palavras, e não exatamente. Não fosse o Feminismo Negro, não fosse Audre Lorde, certeza que eu já estaria louca, pois só eu vejo o que eu vejo: o que cuidadosamente negam. Ah, mas pode ser uma questão de percepção (?) e você poderia não por em questão (?) não dizer (?) e manter a normalidade. Mas dane-se a norma, normalidade e formalismos estéreis [ nesse momento, o rosto exibe sua transparência afetiva]. Noto que os olhos não repuxam mais como no início.
 
II
 
Olívia Pope tem a frase que parece ser o ponto de partida de qualquer coisa sobre o indivíduo: O que você quer? É "fácil" quando trata-se de um adquirir bens, mas e quando trata-se de identidade, pathos, desconformidade? Jogar seu jogo sem regras me aborrece. Conceituação sem premissas plausíveis me irritam. E, na real, tanto faz (?) isso em si mesmo. Importa tocar a crise, examiná-la para ter hipóteses, premissas...
 
III
 
Na falta duma imagem/conceito apropriado para descrever a devastação, o vazio onde nada se fixa, nada se constrói, não há devir, apenas complexidades vazias, insolúveis, desencontros sutis de olhares e subjetividades. Porque o espaço minimalista versus o tempo obrigatório já arrancam lascas de carne da densidade dos cortes de papel. Os limites tentam simultaneamente nos incapacitar, arrancar membros, extorquir a liberdade, pois a fecundidade é o novo pedaço de autonomia sempre inegociável.
 
 
IV
 
A força de que padecemos (não temos outro padrão de relacionamento), assim como a abstenção da busca por soluções engolfam a totalidade. O contínuo identitário, quando rompido, causa o abismo abissal e unívoco?!
 
V
 
Narcísico que seja o pulso de informações não é contínuo. O "bom" nega com o silêncio e, assim, semeia outras negações. Com o detalhe: a multiplicação de negativos não pode ser positiva aqui (como seria na matemática), pois ela arrasta para além dos terrenos da proscrição. A inteligência e a subjetividade estão a serviço de quem, se estou em meio à...? O status quo  força a dialética porque sua erupção vem do choque, de certo pavor, mais limpo, sem corpo, carne e vísceras. Sem fluidez, sem prazer (o erótico de Audre Lorde). Só almas, elevações, frieza e grandes distância. Mudança de cena e mudança de identidade. Lamúrias do ser privilegiado engolfa e afogam junto com outros aspectos que inflacionam. Nós da diáspora não vivemos na terra, sequer temos acesso à ela. Nossa casa ainda é um barco em que negociamos o timão e o leme a todo tempo.
 
VI
 
Sarcasmo, cinismo, vaidade, presunção e força despertam nesse mar ante à dialética promovida pelo status quo. E tudo é peculiaridade, banalidade, e não existe e não é legítimo. Enigma desconcerta o ponto de vista da justificativa acadêmica: filho da culpa cristã, e por quê? Porque racismo é feio.
 
 


quinta-feira, 14 de maio de 2015

MONTANDO O PERFIL NO XBOX 360: CABELUDA DEMAIS PRA EXISTIR?


Disponível em: AFROPUNK


(Aisha Tyler [1])



Dia desses, a desenvolvedora de jogos Shoshana Kessock escreveu um post chamado Gorda demais pra se divertir: vergonha do corpo e cosplay. Nele ela fala de desconforto de ser nerd e Gorda num universo em que é reforçado que não se pode ser mulher, muito menos gorda. Nesse ponto, você pode pensar: quais as personagens gordas nos filmes, desenhos, jogos, bandas de metal mainstream e quadrinhos existem e quantas são inspiradoras a ponto de queremos performá-las?

Certamente a determinação, nem sempre silenciosa, de quem pode se divertir sendo cosplay não é o centro do post a seguir, mas o inferno queimando inclui todas as questões de padrão/desvio e performance. O inferno queimando é exatamente isso: um espaço nerd em disputa [2], que certas existências/experiências (tipo ser  Preta & Nerd ou Blerd = Black Nerd) em si já significam "quebrar, matar, destruir" idéias hegemônicas (concepções monolíticas). Os clássicos tão queimando no inferno. Quebrar estereótipos, portanto, é atear fogo ainda mais.


* * *


PRIMEIRO OS "TIPOS GERAIS"

Depois de escolher o nome do meu avatar, vamos à tela que solicita: "escolha um avatar como ponto de partida" (página 1 de 20).  Para escolher tipos gerais de pessoas que pareçam razoavelmente para que, no estágio seguinte fazer o "ajuste fino" (para revisoras: depois do copidesque e revisão). Na primeira vez eu passei as vinte páginas umas quatro vezes, esperando que haveria uma Preta, jovem, não-magra, com cabelos crespos, afinal, um avatar poderia ser uma vida virtual tal como somos. A expectativa vem de observar marcas que destoam da hegemonia: pessoas coloridas (inclusive brancas), diferentes idades, alturas. Apesar da frustração inicial, nesta segunda vez já pareceu mais fácil. Senti um "deja vu" de quando lançaram The Sims II e achei incrível passar horas montando meu avatar que, no fim das contas, não era montado com os atributos reais porque não havia.

O tipo geral
Voltando ao 360: Após escolher uma personagem geral, já estava sendo "critica literária" marxista e enxerguei que cada um dos avatares seria "quem pode comprar" a plataforma, e "quem pode se divertir".  Tudo codificado: Idosos podem. Mulheres podem. Negras e Negros podem. Queer pode. Evangélica e Negra pode. Idoso e gordo pode. Crianças podem. Mas há um limite do que se pode, há bordas de plástico transparente e, o que está escrito nela é que há limites pra todo mundo, não só pra você. Hmm. Algo como "veja que até as opções de nerd-clássico-queimando-no-inferno são limitadas. Há descentramento, mas ele é localizado. Vejamos como, no segundo menu: "alterar características" onde selecionei "penteados".


AJUSTE FINO: QUANTO AOS PENTEADOS...

Há uma diversidade de penteados que incluem texturas e cortes em quantidade menos satisfatória e com uns títulos carregados de sentidos "fantásticos" ¬¬' :


"Alto com cacho à esquerda"

"Revolto"

"Rebelde"

Afro

"Tranças Afro"

"Clássico"

"Nós e ninhos"
Depois de escolher o penteado mais próximo dum black power, fiquei pensando na limitação de tamanho e forma. Muito bacana EXISTIR, mas assim...esse cabelo eu tinha seis meses após a transição. Não era bem isso que eu queria, ainda mais com essa costeletinha. O cabelo "alto" (?) nos dá um teto do que o cabelo pode ser, sutilmente. Ah, e olha o que temos:

Pode Star Wars!

Vou nem comentar o juízo de valor nos outros. 



OUTROS AJUSTES FINOS

Podemos escolher a tonalidade da pele, forma e cor dos olhos (nesse os nomes têm juízo moral), sobrancelhas. As sobrancelhas são bem diversas, inclusive encontrei a minha que é falhada (que nem da 355 rá! Temos também roupas, acessórios e... o momento que me trouxe de volta a tal crítica literária.




Ok, melhorou muito, muito mesmo desde a época em que acordei antes do despertador pra ser encanador, monstro, fuzileiro ou esguia-rica-branca-europeia. Sim, tá bem melhor. Só que "melhor" tá longe de ser o suficiente. Há um teto para a altura do cabelo e para a largura também, veja que selecionando o máximo e continuo sendo muito mais magra do que sou. Opa, olha que armadilha sintática (!).




Também o que não há: traços de deficiências do "corpo não-canônico" (tendo em vista que o corpo canônico tem deficiências sim). 


CONCLUSÃO

Fato que o inferno tá queimando forte a ponto de eu estar aqui formulando ideias sobre coisas muito presentes, mas muito antigas. Quando completei o meu avatar e fui jogar "Mortal Kombat" revivi a questão dos anos 90 descrita acima: ou era branca-esguia-jovem ou era a bruxa-velha-sensualizante (porque até os robôs são homens). Mas aí temos um dilema (apesar de bruxa ser fera) pra outro texto.



REFERENCIAS

[1] Aisha Tyler é uma atriz, apresentadora estadunidense; Além disso, é entusiasta e produtora de jogos independentes para videogames : Preta e Nerd! <3

[2] Elaine Showalter escreveu na década de 1980 um ensaio que tratava a crítica literária como um território selvagem (inóspito, árido) disputado pela crítica feminista e as outras. Esse território é hostil para qualquer analista, mas, sendo mulher, a hostilidade é bem maior, porque, né.

SHOWALTER, Elaine. A Crítica Feminista No Território Selvagem. In: HOLANDA, Heloísa Buarque de. (Org). Tendências e impasses: o feminismo como crítica da Cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

sábado, 9 de maio de 2015

NO DIVÃ COM O NERD CLÁSSICO À BEIRA DUM ATAQUE DE NERVOS

Esses tempos, conversando com pessoas sobre as crises dos "omi-nerd" abalados pelo bicho-papão do feminismo, fiquei pensando que, se eu tivesse o direcionamento que a Alph Ko (autora da série Feminist Blogger), proporia uma série veículada pelo youtube e chamaria "A Crise dos Boy" e teria como tema de abertura o refrão de "Violeted" da banda filandesa Sinergy:

I'm Here to tell you - you'll never own me/ tô aqui pra te dizer - você nunca me possuiu
I will refuse you and laugh as you cry / eu te desprezarei e rirei quando você chorar
You've violeted but now I'm stronger/ você foi violador, mas agora eu tô forte
I take my life back and watch as you fall/ Eu peguei minha vida de volta e assisto quando cê cai
(Sinergi - Violeted)

* ouça se curtir gente gritando*

O plot do primeiro episódio intitularia-se AGORA QUE ESTAMOS FORTES, REIVINDICAMOS O ESTORNO E ASSISTIMOS A SUA QUEDA FINAL (bem barroco mesmo). Ele seria sobre a conversa entre o criador Joss Whedon e a personagem Kendra Young (lembram de Buffy a caça vampiros?).

Bem, resumindo bastante, a Buffy morreu e outra Caça Vampiros foi convocada e era Negra (jamaicana) e forte , sem família e sem emoções (top Michonne, só que super humana) e, óbvio, morre do nada. Ex-Machina total. Ontem li uma notícia sobre a chateação do Joss Whedon com "as feministas malvadas". Lady Sybylla disse e concordo: "tem cara de ataques dos Gamergate" Ele saiu do Twitter e tudo. Como seria se a Kendra, de quebra, voltasse pra falar com ele? Seria engraçado, porque feministas são pessoas engraçadas que vivem rindo do absurdo.


* * *

Joss entra no consultório,
Deita aí.

Quanto mais o futuro se aproxima do nosso trajeto, mais os hábitos de séculos se veem em crise. Eles querem continuar sendo poucos, mas mantendo o silêncio da nossa multidão enquanto fazem esforços pra manter um deles organizando o mundo, o conhecimento e o discurso sobre o mundo sob seus próprios termos. Morrerão tentando, pois aqui não existe cair pra cima.

A casa grande começou a ruir há séculos e chegamos a um momento em que vocês não podem mais negar: Verdades são Verdades e esconder-se sob a cama sequer arranha a superfície delas. Temos uma pirâmide social em que vocês permaneceram privilegiados por tempo demais. A gravidade que atrai sua casa para o solo não tem como objetivo disputar seu lugar, será ainda mais assustador pra você. Sua queda é pra todo mundo estar no mesmo nível. Opa, nem comecei a descrever e já sinto que seu sangue engrossou de puro horror.




  Olhe pra minha cara de complacência pra você:



Eu sei que seu olhar de medo acusa a gente de tortura e promete vingança, mas eu te lembro: foi você quem tropeçou e caiu. Aliás. Confesso que nós emboscamos você e os seus amigos e, mesmo armados, perderam. Você sabe que perdeu, mas vai continuar negando... ah, veja a minha importância para com a sua crise. Por muito tempo, nós tivemos que sublimar e entender o mundo sob seus olhos narcisistas que têm como objetivo transformar a realidade em espelhos de você e seus amigos, uma selfie eterna.

Sei muito bem que você tem subjetividade, que o sexismo te impede de fazer tanta coisa e que ter dinheiro é bem difícil pra quem tem muito (aham), mas perceba que o banco em que você tá subindo está com a perna quebrada, Você pode tentar negar isso também e rolar no chão até alguém vir fazer sua vontade. Mas um alerta: todo mundo foi assistir o "seu filme" e jogar os jogos que "seus amigos produziram". Então, você terá que aprender a esperar inclusive terminarem de postar resenhas e twitts que te chatearão bastante.

Ah sim, "velhinhas se beijando" e você não é mulher nem idosa. Feministas questionando que a personagem só serve pra ser brutalizada há mais de vinte anos seguidos, mesmo depois de 900 reboots do Universo. Descaracterizaram o personagem branco nos quadrinhos ao tornarem negro no cinema? As personagens femininas estão descaracterizadas porque não pularam de revistas pornô para o cinema? Que dó. Destruirmos o seu mundo mesmo heim. Agora que a gente reclama de tudo que você faz, seus sentimentos sobre sua arte devem estar tão feridos. Oh. tão. feridos.



Você está tão sem lugar, tão sem saída nesse mundo ditatorial implantado pelas feministas más né? Do nada você não está em lugar nenhum como gostaria? Ah sim, até está? Mas não aguenta mais as críticas? Que bonitinho, quer um reforço positivo pra continuar! Hum... espera aí enquanto vejo se a sua obra prima do momento passa no Test Bechdel... ah, não passa. 

O mundo tá impossível e você quer morrer? Não aguenta mais não se ver em TODOS os filmes e não ter suas vontades atendidas?Calma, isso passa. Nós vamos perguntar uma vez mais sobre a sua roupa e vamos pedir pra não cobrir-se tanto, porque "poxa, tá tão quente". Relaxa: estou brincando. O que te fez ter medo não faz parte do que eu acho interessante ou erótico. Esse é você, sempre foi. Ah sim, você acha que é indissociável, você e o mundo... sempre esqueço. Então você não compreende. Quando tentei conversar sobre você desconstruir essa megalomania, você rolou no chão como agora, gritando, chorando só porque está contrariado. Ah, quer mostrar "por a+b"? Desde a Ilíada e a Odisséia é do seu jeito que se conta história? Uhum, E a Grécia é a linha de largada do mundo ?!... e ter que jogar obrigatoriamente com personagem mulher sem ela gemer toda vez que escala um muro é traumatizante? Quê? Gente como eu está melhor que gente como você, hoje em dia? É, sei, parece que você vai morrer né? Mas você sobrevive. É assim mesmo, todo dia e o tempo todo. Calma, você sobrevive: tô aqui, não tô?



Nossa cara de quem se importa 



Preta, Nerd & Burning Hell