sábado, 14 de fevereiro de 2015

QUANDO A PALAVRA É PRETA SEMPRE!

Tatiana Nascimento e seu (preciosíssimo) olhar visionário, isto é, aquariano. 
" Quando eu morder 
a palavra, 
por favor, 
não me apressem, 
quero mascar, 
rasgar entre os dentes, 
a pele, os ossos, o tutano 
do verbo, 
para assim versejar 
o âmago das coisas [...]"



1
Há uns meses atrás, quando titubeava sobre criar esse blog, passei uma semana inteira pensando em como minha amiga Tatiana se identifica simultaneamente com a negritude e a nerdiandade - também o burning hell, de certa forma. Isso porque é mais fácil entender processos a partir de outrem. Eu mesma fui identificada dessa maneira: "A menina que escreve bem, que sabe português, que é inteligente". E, como isso afetou a socialização durante muito tempo, ser nerd foi uma forma de identificação que me desse controle (ou legitimação) disso que é pura resistência ao racismo, segmentada pelo capital cultural e a classe. Identificar-se como "inteligente" é um tipo de centro de gravidade... E fratura-se a razão e a emoção, a mente e o corpo, o texto e a imagem. E como fazemos o dia-logos (2), a amarração ou a sutura entre essas carnes visíveis e invisíveis?

"Sob o véu da estética subjaz o caráter político de toda experiência"
[Márcia Tiburi (2) p.10]

Em nossas vidas, tudo é sobre a desmistificação do racismo. Desde o uso de drogas, à legalização do aborto, ao sexo, à socialização, à generosidade, aos afetos. E o centro de gravidade cobra seu preço: ficcional e/ou academicamente. Nesse sentido, a política de Tatiana tem vazão estética em seu blog PALAVRA, PRETA!

2
Na teia literária de Carolina Maria de Jesus, Audre Lorde e Conceição Evaristo, temos uma poesia repleta de expressões coloquiais que circundam a vida da autora: a conciliação entre racionalizar e politizar os afetos, visibilizar a lesbiandade Negra, somar o feminismo que percorre o ser a ponto de tornar-se "crise crítica", a matriz africana, a urbanidade permeada de amor à natureza, a jovialidade. Tudo costurado como as fitas coloridas construídas na dança, suturadas como poesia, como necessidade primária, ponte para as outras subjetividades - nunca luxo (3). Notei que a simplicidade da forma e do conteúdo parece uma forma de véu que oculta a alquimia verbal das mais profundas e mais filosofais que eu já li. Plasma desde dentro algo que me atravessa, pela incontrolável ansiedade e angústia: o desejo de autoria (4), ou seja, a vontade de seguir os passos das escritoras que a antecederam e de expressar o que a linguagem falogocêntrica faz parecer inviável.

Vejo três tipos de tendências formais que se mesclam na Palavra Preta: a) a fala comum, coloquial, b)a narrativa em verso, poesia prosaica e c) cenas específicas do cotidiano. Já o conteúdo, creio que é centrado no afeto, entrecruza o feminismo, a sororidade Negra, as confidências, as descobertas e aquilo que nos uniu: a vontade de ter uma banda de rock. 


O suporte eletrônico, o layout aparentemente simples oculta o esmero de um livro costurado à mão. um livro das horas
3
Enquanto a chamada "alta literatura" se preocupa com experiências específicas que não fazem outra coisa senão (tentar) nos confinar, a literatura da ansiedade, da voracidade e do ódio - "quem tem consciência tem ódio" - se dirigem ao nosso interior como que o conduzindo à própria cosmogonia (pós colônia) em reconstrução. Noutras palavras, o lirismo de Tate grita em uníssono com outras vivências de jovens Negras:

XIRÊ
vi o que as pretas faziam de branco da cabeça aos tornozelos, que nos pés iam descalças
alguém cochichou
“tão ensinando o santo dançar”
intuí:
tão é ensinando corpo a santar. 


Escolhi o poema "Xirê", por conta da temática que está em minha genealogia e na minha pele. Trata-se duma palavra em Iorubá que significa roda, é a dança utilizada para a evocação de Orixás. Embora as religiões de matriz africana não façam parte da minha prática, a esteira de influencia marginal(5)que se insere na poesia de Tatiana me deixa surpreendentemente em casa. A extensão, a oitava maior da escala alegre, a surpresa decorrente do fim súbito - tudo isso me chamou pra esse poema. Me chamou pra desvendar.

A voz poética, o eu-poetante, se mistura a outras vozes. A primeira camada é a voz que enxerga numa mescla de pertencer e querer pertencer; a segunda é uma voz interlocutora que diz o que é dado "estão ensinando o santo a dançar", porém, a terceira camada acessa pela intuição o conteúdo oculto: entre o ver e o não ver, fica pouco evidente que é o corpo humano suporte do santo, ele que tem que ser preparado, não o contrário como os "olhos de ver" levam inocentemente a crer. Pra isso o neologismo "santar": um verbo que parece relacionado à expressão "Assentar o santo" que é passar pela iniciação ritualística.

Atravessou-me a subjetividade que intui, que reverencia o mistério, a tradição, mas como neófita que acessa por si mesma algumas das verdades (ainda) não ditas. Então, o mundo insolúvel oferecido pelas convicções políticas - utopias - revela por essa poesia que a solução está nas coisas simples e que elas ocultam o que há de mais sofisticado: a sociedade está em crise com o eu e se contenta com quaisquer respostas prontas, complexas ou não. Xirê DESNUDA que a intensidade e os caminhos tortuosos não são a unívoca solução pro caos. Afinal, a tortura pra redenção não existe na lógica Iorubá. Não uma poesia messiânica que a leitura burguesa esbranquiçada adora num altar.

A tessitura dissonante de Tatiana desafia exatamente pela não pretensão e pela chance de vislumbre para não xs iniciadxs que também compõem o corpo social de resistência. Não iniciadxs que se oferecem a coser - "feias as fadas, lindas as bruxas - conjuntamente a reconstrução dos (abençoados) novos tempos.

*Mais literatura da Tatiana em: histórias de antes do mundo ser mundo


Preta. Nerd & Burning Hell



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(1) EVARISTO, Conceição. Da calma e do silêncio in Poemas da recordação e outros movimentos.  Belo Horizonte: Nandyal, 2008 p. 70-71..
(2) TIBURI, Márcia; CHUí, Fernando. Diálogo-desenho. São Paulo: Editora Senac, 2010.
(4) Vou ficar devendo a referencia dessa vez. 
 (5) Refiro-me à tendencia da poesia brasileira, também chamada "mimeógrafo", na década de 1970.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

E MÚSICA DE PRETA É O QUE?

O Rock é uma forma de expressão dos descontentamentos pessoais e políticos, da raiva e da agressividade.
"E ter consciência é assumir um constante estado de raiva" (James Baldwin)
Na imagem acima, Kayla Phillips (0) vocalista  da banda Bleed the Pigs.

Um dia me perguntaram o que tinha a ver ser Negra e ouvir o que eu, musicalmente, curto ouvir. Ah, perguntaram pra tentar repreender esse tal de Burning Hell (1): o Heavy Metal, aliás, o Thrash Metal. Ser Negra, tocar guitarra em consonância com gente gritando (2), para aquela perspetiva que me questionou, não combinava. E, realmente, a sensação de incompatibilidade parecia se confirmar, já que as minhas amigas Negras não gostavam de  metal, terror, quadrinhos ou jogos violentos.  Não havia pares, nem mesmo eu conhecia bandas com mulheres Negras. (Ora, até mesmo bandas com mulheres eram raras. Comemorei muito quando encontrei The Donnas, mas esperava encontrar algo mais revoltado, mais...pesado.)

Na adolescência, rock parecia um descompasso com a identidade racial, pois ainda que as bandas criticassem o racismo, eram homens e eram brancos. Certamente, o mainstream é sempre a superfície do oceano de qualquer coisa. Heavy Metal tradicional (o de todo mundo) é uma genealogia de homens brancos: Deep Purple > Black Sabbath > Led Zeppelin > Iron Mainden > Metallica. Ou isso, ou a geral se compraz com a lisura dos cabelos, com a alvura feminina, com histórias de vikings: Lacrimosa > Amon Amarth > Epica. É aí que entra o Thrash Metal e o Crossover Thrash como alternativa à brancura onipresente. Ambos os estilos se comprometem com questões políticas e passam a ser um nicho onde a possibilidade de identificação pessoas não-brancas. Quando, já adulta, conheci a cena Hardcore, aí explodiu a minha cabeça, não por ser espaço negro (e não é), mas pela amplitude de discussões políticas feministas, antirracistas e outras mais. 

Assim sendo, não é óbvio pra geral que o rock de hoje deve muito ao povo preto que criou esse tal de jazz, esse tal de blues, esse tal de...rock.

Faz um tempo que perguntaram aquilo. Hoje em dia, conheço algumas, mas a minha resposta foi mostrar a Sister Rosetta Tharpe:


SISTER ROSETTA THARPE


Sister Roseta Tharpe
Sister Rosetta foi uma cantora e guitarrista estadunidense de música gospel. Alcançou grande popularidade entre as décadas de 30 e 40, gravou discos e fez turnês oscilando entre o gospel, o jazz e o blues.

A técnica que Tharpe tem no manuseio de guitarra me faz lembrar de uma frase do documentário Uma Jornada pelo Heavy Metal (3) : Foram os negros que criaram a guitarra". Além disso, alguém percebeu que ela usa uma guitarra SG? Pra você que achou que isso era coisa de Black Sabbath e de AC/DC: errou.






Daniel John Montagu Smith,
Shingai Shoniwa
e Jamie Morrison
THE NOISETTES
"Acredito que o escapismo é algo que conecta todos nós. Todo mundo tem sua própria canção e, acredito, estou buscando fazer a minha própria prum plano de fuga. Espero que as pessoas notem que há muito mais" (4)(Shingai Shinowa)


Noisettes é uma banda londrina de indie rock formada em 2003. Liderado pela vocalista/baixista Shingai Shoniwa, o trio tem uma surpreendente proposta: unir a paixão por música de diferentes gêneros (Jazz, Blues, Pop, Eletrônica) aos conceitos de alta costura e tendências da moda. Shingai tem uma presença de palco enérgica, versátil e marcante, penteados e roupas esplêndidas. Há um grande charme nos backing vocals das canções, que dá um ar vintage espontâneo. Em vez de falar da voz, melhor ouvi-la:



BLEED THE PIGS


Bleed de Pigs é uma banda de metal liderada por Kayla Phillips, formada em 2013. O discurso gritado pela vocalista, Kayla, passa por identidade racial, violência policial e brutalidade.



BIG JOANIE

Acredito que muita gente - tipo eu - conhece Big Joanie do seriado Black Feminist Blogger. Mas quem nunca ouviu falar, bem, é um trio de jovens Negras estadunidenses que se revesam no vocal: Chardine na bateria, Kiera no baixo, e Steph na guitarra. Elas classificam como banda-punk-negra-feminista. Só o que a gente curte aha!





THE SKINS

Sentido horário: vocalista Bayli McKeithan (centro) e seus irmãos: Kayla e Reef
Quando ouvi essa banda pela primeira vez não dei conta de parar. E olha que o youtube tem uma quantidade limitada de músicas dessa galera. Inspirada no Led Zeppelin e no White Stripes, essa banda do Brooklyn, consagrada pelo Afropunk, mistura o modo clássico de fazer riffs com passagens que remetem a outros gêneros musicais como hip-hop e R&B. Rock clássico e contemporâneo simultaneamente. 



SCATHA


Julia Pombo: guitarrista
Scatha (5) é uma banda carioca de thrash metal composta por garotas em 2005. Julia Pombo, membro da formação original, é guitarrista e backing vocal. As letras passam pelo caos, raiva, política.
Lançaram sua demo Keep Thrashing em 2007 contendo uma grande surpresa: a faixa em português "Movido pela Raiva". Desde então, foram destaque da revista Roadie Crew e fazem shows pelo Brasil inteiro.

Essas musicistas Negras não são tão visíveis porque estão fora do convencional espaço destinado a nós musicalmente como o funk, o hip-hop, o rap, o samba. Mas como não aceitamos clausura a postagem é pra dizer que música de preta é tudo o que a gente quiser fazer!


Preta, Nerd & Burning Hell

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(0) Algumas idéias inspiradas no For Harriet <3
(1) Faz parte da nerdice curtir metal né, e "Burn in Hell" é uma expressão comum. Quando pensei num título pro blog queria que tivesse nerdice de quadrinho, filme e metal. Daí lembrei duma música do Venon que aterrorizava o povo na minha fase teen.
(2) O que parece "gritaria" é uma técnica chamada gutural.
(3) Metal - uma jornada pelo mundo do heavy metal  (documentário dirigido por Sam DunnScott McFadyen e Jessica Joy Wise) 2005. (Netflix)
(5) Entrevistei a banda em 2009,  pra zine online que editava na época: Brumas Negras. Qualquer coisa, só baixar.