A mudança é mais que sobrevivência

Tia Edileuza & Anne "Carol" Quiangala

Fui convidada pelo site Alpaca Editora a escrever uma reflexão sobre o dia 21 de março (Dia Internacional contra a Discriminação Racial). Esse texto - "Sobre equiparar ao que não existe" - sintetiza uma jornada de construção da minha identidade pensando no particular como experiência coletiva. A leitura que Edileuza Penha de Souza foi de uma sintonia emocionante. E, como hoje é um dia especial (O lançamento do documentário "Mulheres de Barro (*)" dirigido por ela), nada melhor que compartilhar nossa sintonia traduzida em sua belíssima leitura:

(...). A mudança é mais que sobreviver, sim,
é tirar a semente podre que plantaram quando nascemos,
é cortar as linhas de duplo vínculo,
ter raiva enquanto precisamos dela,
mas estarmos preparadas para o dia em que não seremos problemas,
mas pessoas. Aí, então, a raiva não mais será necessária.
Sobre equiparar ao que não existe

Anne Caroline Quiangala

É fato! É impossível comparar algo com a inexistência.
É essa abordagem, que trata o texto “Sobre equiparar ao que não existe”. Em que a autora, parte de suas experiências pessoais e descreve com presteza a existência de uma sociedade desigual que historicamente nega a diferença e o existir de homens e mulheres negr@S.

Os elementos que compõem a narrativa de Quiangala são suas sensações e experimentos: “de estar sempre a se olhar com os olhos de outros, de medir sua própria alma pela medida de um mundo que continua a mirá-lo com divertido desprezo e piedade”. Ao ler o texto de Quiangala e voltar a meus pensamentos para Carolina, Lélia, Beatriz, Neuza e tantas outras afrodivas que moldaram minha (nossa) identidade de mulher negra. Arriscaria em dizer que o conhecimento e a existência para nós é a consolidação de sonhos e afetos. Assim, entre tantos elementos de linguagem o que a jovem Quiangala sintetiza é que a metáfora negritude/feminilidade/mulheridade se produz a partir do acesso, da visibilidade, dos estudos, mas, sobretudo das experiências e da autobiografia. “Instintivamente, eu sabia que me apoiar em uma das identidades (negritude) não me faria igual a eles, eu continuaria sendo a única a ir ao outro banheiro”. Em outras palavras, disse Nina Simone: “Toda a minha vida desejei exprimir meu sentimento de prisioneira, esse silêncio atroz que transforma todos os negros em encarcerados".

Saber-se negra é viver a experiência de ter sido massacrada em sua identidade, confundida em suas perspectivas, submetida a exigências, compelida a expectativas alienadas. Mas é também, e, sobretudo, a experiência de comprometer-se a resgatar sua história e recriar-se em suas potencialidades.

Neuza Santos Souza - Tornar-se Negro

Trazendo a tona os clássicos, os intelectuais e as militantes, Quiangala compõe uma equação entre impossibilidades e possibilidades. O sonhar é o existir. Trata-se de um texto sedutor, maduro e instigante. “(...) ou eu morreria primeiro, ou eu não existia mesmo”. É impossível comparar algo com a inexistência, mas a autora nos possibilita o existir:

Precisamos reaver o nosso empoderamento, nossas condições materiais, nossa autoafirmação, nossa cultura, cosmologia e autorreconhecimento. O lugar de estrangeiras e estrangeiros, nesse território simbólico e físico, não nos cabe mais. Precisamos lembrar o 21 de março, companheirxs, mas é necessário ressaltar que ainda há um passo longo rumo ao existir.

O lugar político da Lei Federal 10.639/2003, da Criação da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), em nada impedem o preconceito, a discriminação e o racismo, entretanto, é “Uma das formas políticas de dizer não a isso”, de inibir a violência, frear o racismo institucional e, sobretudo, “reconhecer nossa existência”.
Assim, novamente recorro à Nina Simone; quando da ocasião do casamento de Nelson Mandela com Graça Machel, em 1998, ela disse: “Isso pode ser um sonho, mas eu vou dizer assim mesmo: ele deveria ter se casado no ano passado, quando eu comprei um vestido. Quando me encontrar com Nelson Mandela, eu vou colocar esse vestido e apanhar o comboio puxado para fora e colocá-lo de lado, e beijar o chão que ele pisa e beijar seus pés”.

A jovem Quiangala também comprou e vestiu seu vestido novo, ela e indiscutivelmente milhares de jovens negras, que sem dó nem piedade desmantelam a Casa Grande consolidam sonhos, mudanças e afetos. Desmoronam “tijolos normatizadores (racismo, sexismo, classismo, homofobia, gordofobia, preconceito geracional)” e tantos outros. Sementes germinadas por Acotirene, Dandara, Luiza Maim e tantas outras guerreiras. Óvulo maduro e fecundado da luta diária de nossas quilombolas, iyalorixás, avós, mães e tias. As primeiras folhas nasceram antes mesmo da travessia do Oceano Atlântico.

Os nutrientes foram gerados na luta e nas organizações de Mulheres e Homens, nas irmandades, na Frente Negra, no TEN, nas Rodas de Samba, nos Terreiros e nas incontáveis organizações de mulheres. Anne Caroline Quiangala faz parte de uma germinação que não carece mais de raiva. Pois a mudança é fato e sua geração apesar do enfrentamento diário. Sim, sua geração já pode sonhar, pois estão colhendo o existir.


Edileuza Penha de Souza
Mulher negra, cineasta, professora da Universidade de Brasília - UnB, historiadora, organizou a publicação: Negritude,cinema e educação: caminhos para a implementação da Lei 10.639/2003, editado pela Mazza.



(*) MULHERES DE BARRO
Lançamento Documentário Mulheres de Barro + Lançamento do livro "Negritude, Cinema e Educação"

24 de março de 2015 às 19:00
Museu Nacional da República - Auditório 2 Esplanada dos Ministérios Setor Cultural Sul, Lote 2, Brasília (ao lado da Rodoviária do Plano Piloto).

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