quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

INTRODUZINDO A MINHA #NERDIANDADE

A origem da minha identificação como mulher Negra e nerd parece ser uma boa forma de iniciar as postagens nesse blog e, mais do que isso, identificar a minha proposta.

Escrever sobre o passado é um exercício de ficção que faço com frequência. Então é natural que eu tenha respostas articuladas sobre o porquê disso ou daquilo, principalmente das gêneses de cunho nerd. Vamos lá.

Já me convenci que o ponto exato da minha iniciação ao mundo Nerd (e, posteriormente, Blerd ou Anti_Nerd - veremos!) é certa tarde, aos seis ou sete anos de idade, quando assisti pela primeira vez Buffy: a caça vampiros. Foi a primeira personagem mulher e empoderada que eu vi. Daí pensei: "wooahh, ser garota é legal!" e senti o baque... "mas ela não parece NADA comigo". Aí fui percebendo que, nos jogos e nos quadrinhos, ou as personagens eram "garotas-brancas-fortes", "garotas-negras-sem-emoções" ou eram homens-negros-fortes. Exemplos dos anos noventa como a Lara Croft (Tomb Raider), Jax (Mortal Kombat), Kendra (Buffy a Caça Vampiros) deixavam-me estarrecida. Nesse momento já podia me identificar com a Diana (Caverna do Dragão) ou mesmo a Tempestade (X-Men), mas elas não me convenciam completamente por algo que eu não sabia o porquê. Mas era nada menos que a generalização ou, estereótipo.

Como cresci numa família negra em que eu era a única guria, natural que (também) tivesse acesso aos brinquedos "mais legais", videogames, faz-de-conta-de-matar-monstros, séries e desenhos fantásticos e violentos. Foram neles que comecei a me espelhar, sempre buscando uma personagem adequada a ser nas brincadeiras. Era tão fácil para os meninos... mas aquilo: "nem branca, nem homem eu sou: alternativas a isso?". O RPG (GURPS, 3D&T) é um bom degrau, porque possibilitou ser o que eu queria ser. Talvez também a paixão pelos jogos de corrida, será?

Certamente, até chegar onde estou agora, foi um processo de pensar, repensar e, academicamente, perceber que essa reflexão é viável. Talvez, mais do que a mídia em si, o que me levou a ampliar as camadas dessa discussão sobre ser Preta &Nerd foi a convivência em meios feministas, femininos, negros, classe média e não-média e suas demandas pela MINHA ADEQUAÇÃO a qualquer estereótipo de raça, sobrenome, filiação:

"Como assim, não sabe sambar???"
"Não quer ser rainha de bateria?"
"Como você não conhece funk ?"
"Você não é superfã da Beyoncé???"
"Qual o seu problema? Você é estranha!"

Esses questionamentos (longe de estarem aqui por "ai como sofro") me fizeram redimencionar o estar neste universo masculino e branco. E por aí vai. Encontrar uma comunidade, não tem a ver com identificação total, já sabemos. Mas tem a ver com conforto pleno na diferença múltipla. Tem a ver com politizar as relações, e, sobretudo, pensar que, entre pessoas negras, o afeto é político. Viver é político. Pensar é Político.

Assim, #nerdiandade, como costumo me referir à identidade nerd, é (dentre várias coisas) um tipo de posicionamento político, uma estratégia contradiscursiva prática que significa:

1)Resistir ao mundo infiltrando-se na hegemonia midiática como autoras/es, consumidoras/as e críticas
 2) Exibir uma complexidade gestual que não é adequável aos estereótipos
3) Adotar a hibridez de forma consciente a fim de demarcar o pós-colonialismo e tudo o que nos foi expropriado.

Então esse blog é sobre a mulher Negra nerd que você quiser ser.

Bora?

Preta, Nerd & Burning Hell

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