Os Livros de Vitor Martins


Se você acompanha o Booktuber provavelmente ouviu falar de Vitor Martins, o jovem ilustrador depois de ter um bem estabelecido canal sobre livros se tornou escritor tendo dois livros publicados.

Por Camila Cerdeira

Devo confessar que subestimei o trabalho de Vitor como escritor. Não por ele ser youtuber, mas por que imaginava que seus livros seriam próximos dos de David Livithan, livros Young Adult populares com foco LGBT, mas superficiais e em sua maioria focados em gays cis brancos de classe média.

Seu primeiro livro foi uma grata surpresa. Quinze Dias podia puramente ser a história de um garoto gordo e como ele se envolveu com seu vizinho bonitão. E é importante termos essas histórias com protagonistas gordos, gordofobia é algo grave que afeta muitas pessoas e que não tem a devida representação.

Mas Vitor Martins foi um pouco além, criou personagens humanos criveis e que são muito mais do que a opressão que sofrem ao mesmo tempo que não retira o peso que é ser parte de uma minoria social e como opressões podem interseccionalizar.



Seu primeiro livro conta a história de Felipe, um jovem gay que sofre bullying na escola por ser gordo e estava ansioso para as férias de junho do seu terceiro ano, ele só não contava que o vizinho, Caio, por quem ele sempre foi apaixonado fosse passar quinze dias hospedado na casa dele. Sim, o livro trata de dois adolescentes gays, mas não traz nenhuma história de sair do armário, os dois apesar de terem 17 anos apenas já sabem que são gays há muito tempo, os personagens relevantes com falas nos livros são praticamente todos LGBT.

Você tem uma personagem bi, você tem a Becca que é gorda, negra, lésbica e muito maravilhosa, de longe a minha personagem favorita do livro. Você tem uma linda relação entre o Felipe e a mãe que é algo raro em livros sobre jovens LGBT. Outro pontoo positivo é como ele trabalha a interseccionalidade das opressões, Caio é tido como um gay padrãozinho, mas ele sofre com algumas formas de opressão que o Felipe mesmo sendo fora desse padrão não precisa lidar. Becca traz a discussão como a gordofobia afeta diferente homens e mulheres desde criança, além de falar sobre como é ser uma mulher negra ou uma mulher não hétero. Melissa, namorada da Becca, é magra e loira e ainda assim é extremamente insegura da sua aparência e isso faz o Felipe repensar como ser magro não apaga todos os seus problemas.

Em seu segundo livro, Um Milhão de Finais Felizes, é possível notar já um amadurecimento como autor e a abordagem de temas ainda mais delicados como a relação de pessoas não héteros com religião e com a família. Ainda assim o tom leve do primeiro livro se mantém.



Nesse livro o Vitor Martins vai falar do Jonas, um aspirante a escritor que nunca conseguiu terminar de escrever uma história e que trabalha numa cafeteria na Avenida Paulista. Tudo vai seguindo a rotina normal da vida até que um dia Arthur aparece, um garoto muito bonito, barbudo ruivo que lembra um pirata desperta o interesse de Jonas.

Novamente Vitor consegue humanizar muito bem seus personagens e fazer com que eles soem reais. Esse segundo livro eu consegui me relacionar muito mais que o primeiro, os personagens aqui estão um pouco mais próximos da minha idade dos meus amigos, me lembrou muito como foi a fase de entrar na universidade e como é lidar com a mudança da adolescência para a vida adulta.

Como falei anteriormente, é bem perceptível a evolução na escrita do autor, o primeiro livro é curto, são 200 e poucas páginas, apesar de muito importante ele não realmente se aprofunda muito nas questões que aborda. Ainda que traga bons insights ao longo do livro, já no segundo livro Vitor não teve medo do drama e trouxe com segurança algo bem delicado de se tratar e algo que é muito fácil autores pesarem a mão no melodrama e que ele não pesou, tão pouco houve uma resolução fácil e irreal. O realismo de Um Milhão de Finais Felizes é o que eu mais gosto.

Se alguém me pedir uma recomendação de autor nacional, principalmente para adolescentes e jovens adultos, sem dúvida indico Vitor Martins.

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