Trama Fantasma: um manual de um relacionamento abusivo


Contém spoilers

Por Jaqueline Queiroz

A priori o filme Trama Fantasma (Paul Thomas Anderson, 2017) me fez crer que iria acompanhar ao longo de mais de duas horas apenas uma história sobre a vida de Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) um famoso estilista que desenhava e costurava ao lado da sua irmã Cyril (Lesley Manville), vestidos destinados a mulheres da alta sociedade britânica e de outras partes da Europa na década de 1950. Por vezes, Reynolds se relacionava afetivamente com as suas empregadas e modelos do seu elitista ateliê, mas os romances não duravam muito porque o foco principal na vida do estilista era fazer dos seus vestidos verdadeiras obras primas da alta costura.

Mas enganou-se quem assim como eu achou que a narrativa iria girar somente em torno dos romances vividos pelo Reynolds. Trama Fantasma vai se mostrando um filme sutil e complexo cuja principal temática a meu ver, é o jogo de poder dentro de uma relação abusiva. Uso aqui a palavra jogo não de forma aleatória, mas porque dentro da narrativa é dessa forma que o relacionamento entre o Reynols e a sua empregada e mais tarde esposa Alma (Vicky Krieps) é sutilmente e lentamente mostrado da metade do filme em diante.

Aliás, a narrativa lenta (bastante lenta em alguns momentos) foi um ponto muito criticado entre uma parte do público que viu o filme, mas interpretei essa lentidão a posteriori como um elemento fundamental para criar a atmosfera que o filme pretendia causar: Lento, sorrateiro e ilusório tal como um fantasma. Outro jogo de palavras bem utilizadas está no próprio nome da protagonista “Alma”.


Dito isto, é hora de explicar porque o filme retrata um relacionamento extremamente tóxico e abusivo. De forma reduzida podemos conceituar uma relação abusiva como aquela onde predomina o excesso de poder de um parceiro sobre o outro e esse poder é conseguido através de violências que podem ser de cunho físico ou psicológicas. Em alguma medida a influência e o uso de poder está sempre presente nas relações afetivas, o problema é que dentro da relação abusiva geralmente apenas um lado exerce de forma violenta esse poder.

E dentro de uma sociedade que ainda hoje se estrutura por uma lógica machista não é difícil identificar quem é o abusador em potencial (homem cis hétero). Mas é sempre bom lembrar que as relações abusivas não estão isentas de ocorrerem entre pessoas LGBT e até mesmo em relações familiares e de amizade. A relação tóxica pode ser definida como aquela em ambas as partes são abusivas dentro da relação, ainda que usem violências diferentes por conta das diferenças de gênero, raça, poderio econômico ou faixa etária distintas, são relações marcadas pelo mal que um faz ao outro.

O personagem do Reynolds é um típico parceiro abusivo e tóxico, homem mais velho que se relaciona com mulheres jovens e que são também suas empregadas no ateliê (ele usa então do poder afetivo e financeiro) as descarta quando enjoa, quer tudo ao seu modo e não tolera ser criticado. Autocentrado, acredita que seu trabalho é uma prioridade acima de tudo e de todas, despreza a opinião das parceiras e tenta inferioriza-las quando confrontado. A inferiorização das mulheres é feita sobretudo quando o Reynolds frisa ainda que de forma sutil, o seu lugar de classe privilegiada em relação a Alma, em algumas cenas é nítido que não há uma separação das funções que ela ocupava como empregada do ateliê e como parceira afetiva, tudo parece ser uma extensão que estaria no pacote do serviço que a Alma deveria prestar como costureira, modelo e esposa.

Alma modelando para Reynolds

Se o personagem do Reynolds é o tipico parceiro abusivo, a Alma é a potencial vitima abusiva. Uma mulher jovem que trabalhava como garçonete e que se deslumbra com o interesse de um homem mais velho e rico por ela. Alma abandona sua vida antiga e passa a trabalhar e se relacionar com o Reynolds quase que numa espécie de devoção, onde a sua vida passa a girar em torno dele. Isso é uma característica muito comum das vitimas de relações abusivas: acreditar que o parceiro é o principal elemento de suas vidas e que sem ele sua vida perderia o sentido. No filme não aparece familiares e nem amigos da Alma, o que reforça ainda mais a ideia da narrativa de que para ela apenas o Reynolds era importante. Algumas vítimas de relacionamentos abusivos seguem esse padrão de se afastar espontaneamente ou serem obrigadas a se isolarem dos amigos e da família.

Vimos até aqui como o Reynolds acionava seus poderes para abusar da Alma na relação, e como ela entra no "jogo"? Eis aqui o ponto em que para mim Trama Fantasma inova e complexifica a narrativa: De vitima Alma passa a ser também uma silenciosa algoz. Em um momento do filme Reynolds fica doente e Alma percebe que a situação o deixou frágil, dependente, gentil e amoroso para com ela. Quando a doença termina ele volta aos abusos de antes. Ela então pesquisa e descobre que nas redondezas da sua casa existe um tipo de cogumelo que se ingerido em parcimoniosas quantidades causa uma forte reação que deixa a pessoa de cama mas não a mata. Daí em diante sempre que Reynolds dava sinais de querer terminar a relação ou piorava no seu comportamento, Alma ministrava doses do cogumelo em suas refeições e aguardava a fase de redenção do seu amado.


Essa foi a primeira vez que vi e parei para pensar que um dos efeitos negativos de quem sofre uma relação abusiva pode ser o de se tornar abusivo e/ou tóxico também ao longo do tempo. A forma como Alma abusa do Reynolds é ao contrario da dele, silenciosa, reclusa e invisibilizada (o fantasma) e fiquei pensando que isso também dialoga com a forma como o poder dentro das relações heteronormativas e machistas ainda é pensado: ao homem cabe a fala no palco, às mulheres a ação camuflada nos bastidores.

Envenenar periodicamente o Reynolds foi a forma que a Alma encontrou para manter uma relação doentia que para ela significava tudo. Ao fim ela se tornou tão abusiva e tóxica quanto o marido e convicta de que o que fazia era um mal necessário para ambos. Aprendeu a jogar o jogo de poder com as armas (ou melhor, com os cogumelos) que tinha.

Enfim, Trama Fantasma é um filmão que vale muito a pena ser visto, além de tratar de um tema tão importante com uma nuance diferente ainda conta com atuações impecáveis dos protagonistas e uma a trilha sonora tocada em piano que é um primor.

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