Vamos Falar Sobre Killmonger?

Quando havia saído apenas os trailer de Pantera Negra eu brincava em conversas com amigos que não me interessava o que o personagem do Michael B. Jordan faria, ele era um cupcake incompreendido pelo mundo e que eu protegeria todas as ações dele tal qual uma mina branca faz com o Loki. Era uma piada, no entanto depois de ver o filme, acredito que algumas pessoas levaram o tema meio a sério.


Por Camila Cerdeira

Entendo bem que Michael B. Jordan é um cara extremamente carismático, lésbicas tem sentido palpitações quando o rapaz está em cena no novo filme da Marvel. Quando o ator sorri, eu quero dar, entre outras coisas, a manopla e todas as joias do infinito e deixar ele fazer o que bem entender com o cosmo. Inevitavelmente um pouco desse carisma foi transferido para o personagem do Erik Killmonger.

Além disso, temos um vilão brilhantemente construído no roteiro de Pantera Negra. E eu poderia gastar alguns bons parágrafos explicando todo brilhantismo da construção do personagem no roteiro , mas acredito que seja melhor deixar alguém muito mais hábil que eu tanto no quesito construção de personagem quanto criação de roteiro falar sobre isso. Então recomendo que todos leiam esse texto da Rebeca Puig do Nebulla, por que a moça é roteirista gabaritada e sabe muito bem do que está falando.

Voltando, como o personagem é extremamente bem construído e temos total compreensão da suas motivações somadas ao profundo carisma de seu intérprete algumas pessoas estão querendo dizer que Erik Killmonger não é tão vilão assim, falando que chegaram a torcer para que ele ficasse com o trono de Wakanda.


Killmonger pode ser uma representação do negro da Diáspora. O que é negro da Diáspora são os negros assim como eu e a maioria dos brasileiros e norte-americanos, negros que perderam sua conexão com a ancestralidade africana depois que nossos antepassados foram sequestrados, saqueados, escravizados e tiveram sua cultura apagada pelos brancos ao serem trazidos para o novo continente.

Devido a isso, nós não temos um senso de wakandanos ou nigerianos ou qualquer que seja o país africano que você queira pensar, somos uma nação negra sem pátria, justamente esse sentimento que faz com que Killmonger pense que a função de Wakanda deveria ser libertar todos os negros oprimidos do mundo, por que para ele somos uma única nação. No entanto, um wakandano não terá essa visão de negritude, ele tem uma conexão ancestral com as pessoas criadas na mesma cultura, na mesma religião, na mesma tradição que ele.

Quando Nakia ou mesmo T’Challa falam em trazer refugiados ou abrir as portas de Wakanda para o mundo, não estamos falando de um senso de “temos que ajudar nossos irmãos”. Eles estão falando no sentido de temos que ajudar os outros por que é a coisa certa a se fazer, por que temos que fazer a capacidade de fazer o mundo melhor e a cor da pele, raça ou etnia das pessoas que serão ajudadas é indiferente aqui.


Em entrevistas foi declarado que Killmonger teve inspiração nos personagens do filme brasileiro Cidade de Deus. O que faz muito sentido, temos aqui um jovem negro que cresceu oprimido em uma sociedade que o menos preza e que nunca lhe deu qualquer assistência e que encontra através da violência sua saída de vingança. T’Challa comenta que eles ao tentarem proteger o segredo de Wakanda criaram um monstro ainda pior ao isolarem o pequeno N’Jadaka depois da morte do pai. Esse é um erro não apenas de Wakanda, mas de toda sociedade, quantos jovens negros você ignorou hoje ao andar na rua? Aquele garoto de nem 10 anos que está nas esquinas vendendo chiclete ou parado no sinal jogando bolinhas atrás de conseguir um trocado para levar para casa e que tudo que você fez foi fingir que não viu, que não ouviu o balançar um dedo de forma negativa através do vidro fechado de um carro.

Estamos criando Erik Killmongers todos os dias e precisamos entender que Erik Killmonger é um vilão. É alguém que apenas associa o poder com a violência, alguém fala em dar força aos oprimidos, mas que manda queimar todas as ervas formato de coração para que assim Wakanda não tenha um próximo Pantera Negro para proteger ou substitui-lo no trono.

Eu, como uma negra ocidental que sofre opressão de uma sociedade racista diariamente consigo entender perfeitamente a origem da raiva do Erik Killmonger. Apesar de muitas circunstâncias serem diferentes, o tronco da nossa opressão é o mesmo. No entanto, não posso de forma alguma concordar com as suas ações. Ele é alguém que viu a namorada negra como alguém puramente descartável no caminho de sua vingança, é o que o filme me mostra. Tudo não passa de um meio para um fim, onde o fim é sua vingança pessoal com todo o sistema que lhe virou as costas, isso inclui tomar o trono de Wakanda e distituir essa nação de seu poder na figura do Pantera Negra.


E aqui não temos uma discordância teoria a lá Martin Luther King Jr. Vs Macolm X. T’Challa e Killmonger não são dois lados de uma mesma moeda, o que o personagem de Michael B. Jordan queria era revanchismo, era reproduzir a estrutura que os colonizadores que ele tanto odiava fizeram apenas mudando que ele estaria no topo da cadeia alimentar, não importando quem sofreria a curto ou longo prazo. Killmonger não lutou por uma causa, ele lutava apenas por si.

Para entendermos a crítica que o personagem representa e o perigo que é criamos Erik Killmongers em nossa sociedade, precisamos entender que ele era um vilão, muito bem construído e desenvolvido, mas um vilão e que suas ações não estão do lado certo da história.

6 comentários:

  1. Obrigado por esse texto, Camila! Realmente é bem fácil empatizar com o Killmonger, porque o que logo a gente conclui é que ele é vítima, e não vilão. Mas na real é vítima, ALÉM de vilão.

    Torcendo por um texto exaltando a Nakia como a heroína que ela foi, antes do T'Challa subir ao trono e depois, com a ideia dela de ajuda sendo levada à ONU <3 <3 <3

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    1. Exato, ele se torna vilão pela forma como reagi ao que sofre e a gente não pode esquecer isso. E estamos pensando com carinho nessa sugestão sobre o texto da Nakia

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  2. ô site, mas vocês não acham que essa parte do "revanchismo", essa persona mais egoísta do Erik foi mais pro meio pro final (quando ele assume o trono), e um tanto destoante dele, da personagem, no geral? Como se o roteirista tivesse escrevendo o Killmonger e "putz, esse cara tá muito certo, era pra eu fazer um vilão..!", e aí desse uma freada na razão do rapaz? Porque realmente a gente ama o T'Chala e tudo e a gente não quer que ele morra nem nada -mesmo porquê ele mesmo nem tinha nada a ver com a treta dos pais e talz -, mas a gente fica torcendo e concordando com o Erik, pelo menos até o meio do filme.

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    1. Não, acredito que o personagem tem camadas e elas foram exibidas aos poucos até por que eles não queriam deixar escancarado quem era o Killmonger e quais as suas motivações. A gente passa por um processo de conhecer e compreender o personagem, mas por exemplo ele mata a companheira sem pensar duas vezes antes do meio do filme, de que ele não era essa pessoa toda certa.

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  3. Acho que o filme tomou algumas decisões muito duvidosas e o Killmonger é o principal.
    O filme nos fala que ele é extremamente inteligente formado no MIT e ele não mostra isso para nós apenas que ele é um homem bruto que só usa violência. Certo está o pantera negra que sempre viveu com privilégios e não sabe o que passa lá fora enquanto o cara que viveu na pele o racismo está errado.Killmonger é um vilão pq usa violência com um objetivo sério: salvar os negros da sua opressão enquanto o capitão América fez a mesma coisa e é de boas. Como ele foi estabelecido como vilão a decisão tomada é mata-lo em vez de fazê-lo se redimir enquanto Loki, Buck e hulk viram bonzinhos. O cara branco da CIA vira herói do nada e fala que oKillmonger ajudou a derrubar governos e tal sendo que o Killmonger era um soldado e ele era da CIA o órgão que de fato fez tudo isso. A mensagem do filme é "crianças não se rebelem tanto assim tá? Se quiser ajudar os seus tomem medidas paliativas e peçam ajuda dos seus irmãos brancos tá?

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