Sam Wilson: finalmente o Capitão América que queremos?


por Anne Caroline Quiangala


Embora possa parecer uma resposta (com delay) aos mandatos do Presidente Barack Obama e de sua contra-parte ficcional na DC (O Presidente Superman), Sam Wilson (Falcão) como Capitão América é uma resposta potente à mudança política e econômica ocidental/capitalista que é aparentemente radical em termos sociais e midiáticos. Potente porque apresenta uma complexa conjunção de ideias que ora se chocam, ora (parece que) se complementam.

É fantástico pensar que agora "temos nosso próprio Capitão América", e, principalmente, que ele causou frisson no meio Nerd clássico que se julga apolítico senão neutro - púbico esse que não gostou. Não estou afirmando que isso equivale a ser racista, mas que há interesses eletivos em jogo que os sujeitos evitam reconhecer.

Ora, se houve incômodo e se Nós gostamos, este impacto deve ser analisado criticamente, que é o contrário do que temos ouvido dos nerds clássicos:
  • Não tem nada a ver mudar um herói clássico.
  • O uniforme do Falcão é Péssimo.
  • O poder do Falcão é fraco.
  • O Steve Rogers virou o Alfred do Sam Wilson.
  • Mudança inconsistente ou:A Marvel está mudando por mudar
  • É que a história é muito fraca, infantil e boba
  • É que parece história do Batman.
Em tempos de dicotomias fílmicas acirradas, buscar entender o lado oposto é um exercício pouco explorado. É Batman ou Superman, Marvete ou DCnauta, time Capitão América ou Homem de Ferro. As pessoas se julgam certas e classificam seu/sua oponente intelectual, político/a e ficcional de forma pejorativa sem raciocinar. Ainda que o aparentemente oposto possa não corresponder à oposição, há uma força invisível que, em geral, os posiciona em condições de concordância.

Certamente, a chave de entendimento usada por nós (brasileiras) não é igual a dos estadunidenses e, dada a distinção histórica e cultural, isso é bastante óbvio.



Capitão América enquanto o herói clássico Steve Rogers (Anglo-saxão, homem, heterossexual, classe media) responde aos anseios da visão de mundo cuja expressão máxima (o individualismo) aplaudia de pé a justiça dos/aos cidadãos no sentido grego do termo (nascidos na pólis, homens e de “classe” privilegiada). Por outro lado, fazia “vista grossa” para as instituições exterminadoras e todo tipo de desigualdade social, ensinando-nos que o problema a ser enfrentado são as consequências, jamais as causas. 

Assim, derrotam um vilão fisicamente (a fim de encerrar sua onda de crimes) e não focam a origem real deste problema. Esse fenômeno é repetido tantas vezes nos quadrinhos, cinema, jogos que solidifica a certeza de que é necessário ter um inimigo, um outro, para combater. A violência é a causa é a consequência. Muitas pessoas podem pensar que esse looping é a razão de ser dos super-heróis, mas podemos pensar que entre a Era de ouro e a de Bronze há mudanças radicais de formas, conceitos e conteúdos inimagináveis. Sendo assim, a Indústria de Quadrinhos pode inovar de novo.

Podemos sair do looping Frank Miller e a banalização da violência física e simbólica.

Destruir Hitler e ter um ajudante negro faz parecer que trata-se tanto de nova estética quanto de políticas radicais - naquela sociedade (pré direitos civis) constituciolmente dividida. A partir do momento que temos um "pseudo herói negro", é como se revelasse demais a questao de que projetos de nação Moderna não incluem negros. Embora a posterior conquista de Direitos Civis possa parecer unir a “america branca” e a “América negra” ela apenas borra discursivamente as tensões. As Prioridades do Estado permanecem as mesmas em relação ao acesso à educação, saúde e lazer. O dinheiro (supostamente) paga tudo, mas quem detém os meios?


Isso também vale para o casamento entre Luke Cage (negro) e Jessica Jones (branca), que lança um discurso aparentemente neutro. Parece que casamento inter-racial decreta o fim do racismo. 

Dizem que “herói é aquele que luta pelos nossos problemas” e, sendo assim, Capitão América não poderia ser um herói do povo negro aquela altura nos Estados Unidos: destituídos de direitos como sujeitos. Lutar contra Hitler e o nazismo nada mais é que um modo de proteger seu modelo de Estado, branco, laico, federativo, "livre" e "justo". Ter um melhor amigo negro é não discutir a fundo, sobretudo se o amigo negro for centro-direita.

Desse modo, o que chamo de mudança aparente, se refere à capacidade adaptativa do capitalismo que molda e adere o Público Consumidor com passar do tempo. 

Tem-se no século XXI quase XX, quase XIX, uma adaptação razoável, porque a modernidade não se firmou, e a incerteza de que as negociações moldam a realidade imediata. Nesse sentido, representações como a de Sam Wilson aumentam o posto do que se propõe, afinal não se sustentaria mais como discurso de insistir na pureza original no século XXI quase XX. O foco na ilusão de novidade através do rearranjo ou da negociação das premissas fundamentais reforça a imagem projetada daqueles opostos invertidos, sampleados reais.


Aquelas ideias meio Cavaleiro das Trevas, das televisões que denunciam manobras midiáticas e as opiniões controversas da população que batizaram o herói de "Capitão Anti-América" dão uma impressão de crítica à América Branca pela qual ele continua lutado (Deus e Família são constantes nas falas de Sam).

Em suma, Sam Wilson é quem parece de esquerda para uma perspectiva ultrarreacionária, mas que fundamenta-se algo menos que o resumo de retórica conservadores. Neste movimento de encontrar seu lugar, o Capitão América busca a antiquada posição de "respeitabilidade", recomendada na década de 1960. A sutileza desse discurso de "negro, porém correto" continua fazendo de Wilson uma partícula insolúvel à direita, mas parte dum feixe destruidor que diz a favor da Liberdade na folha de direitos para cidadãos de bem. Ou seja, definitivamente, Sam Wilson não é nosso Capitão América. E não é com o ele o problema, a grande problemática é a ideia de América que o atravessa: baseada na destruição de corpos não-brancos.

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