ARANHAVERSO: MARVEL ULTIMATE E OUTRAS RELATIVIDADES


As várias possibilidades de Criaturas-Aranha do Aranhaverso



Quando comecei estudar quadrinhos mainstream no âmbito acadêmico fui tomada por duas sensações:

  1. Universo paralelo apresentava uma infinidade de personagens e de equipes criativas “mais reais” (pessoas LGBTQ+, negras, latinas, mulheres…) - "massa!"
  2. Por outro lado, onde a diversidade é prosaica/cotidiana/rotineira, falta linearidade e, assim como temos um protagonista negro/herói, temos um macaco/herói, porco/herói e robô/herói.
  3. Dada a articulação de A e B, pensei que a maioria das pessoas - como eu, aliás - tinha pouco acesso àquela produção progressista. Daí eu me perguntei: a quem me dirigirei tratando de um universo pouco conhecido e desconsiderado na cronologia convencional? Digamos que esses devaneios continham um pouco de ignorância, somado à crença de que:

C1 - é necessário dialogar com pessoas "reais"
C2 - é necessário disputar pelo espaço "levado à sério".

Atualmente, cerca de seis anos depois, eu consigo compreender o processo, o passar do preconceito ao "saber". Uma jovem jovem pesquisadora Negra que admiro (G.C.) citou o Homem Aranha Miles Morales numa aula e, no final, quando fui à banca, encontrei Ultimate Marvel #6 e comprei. Também havia a #7 e a #8 de modo que arrisquei e levei as três. Pensei que, apenas agora eu consigo compreender as possibilidades de discussões que estão nesse título e no Aranhaverso.






O Universo Marvel, muito mais nos quadrinhos que na cinematografia, oferece entrelaçamentos entre discursos sobre a ciência, conhecimento e tecnologia que são ignorados até em contextos universitários. Aliás, as histórias em quadrinho mainstream são construídas pelo cruzamento de discursos hegemônicos (como uma teia, daí o Aranhaverso ser mais que uma pura e simples metáfora sobre a Relatividade).

A ciência do "concreto" ou as chamadas "ciências duras" apesar das críticas e da desconstruções de suas hipóteses e pressupostos, dá continuidade a um modo de pensar, supor e construir a realidade ainda falocêntrico. Neste sentido, pode-se afirmar que a ciência institui verdades sociais. Já as ciências humanas, consideradas "da abstração" são desqualificadas porque os donos do discurso a consideram incapazes de oferecer avanços e mudanças efetivas no bem-viver. Se a ciência é construída pela convenção e descrita em línguas cienfíticas (inglês, aliás) dificilmente ela seria cognoscivel fora da dicotomia língua/fala do linguista Saussure. Se a ideologia se constroi pela linguagem, como apreender o real ou refutar uma teoria despossuído de uma língua, linguagem e ideologia? Impossível. E tão impossível quanto é aciência sem política no sentido pleno da palavra. Através da ficção, o Aranhaverso traz esses questionamentos ao centro de nossa análise.

Miles Morales, o Homem-Aranha Ultimate

A linha Ultimate foi criada para abastecer o mercado de novidades e, assim, chamar um novo público. Nessa "dimensão paralela" as regras eram outras, bem como seus protagonistas. Um dos seus títulos foi Miles Morales, o Homem-Aranha Ultimate do personagem criado em 2011 por Brian Michael Bendis e Sara Pichelli. O personagem é um adolescente latino e negro, e tal compleição levou a crítica a insultar a iniciativa da Marvel, supondo que o título era "politicamente correto", não teria qualidade e que ninguém compraria ops, Luke Cage derrubou a Netflix. A grande questão é que dar um novo rosto ao personagem mais renomado da Marvel Comics significa expandir as "verdades sociais" e, assim, abrir espaço para o cotidiano.

Isso se confirmou com o crescente número de consumidores que aderiu aos títulos Ultimate, em especial, o de Morales. A aceitação da personagem motivou o evento de 2015 (que está sendo publicada no Brasil agora) chamado Guerras Secretas. O plot gira em torno da destruição do universo convencional da Terra 616, convergência e restauração dessa Terra. A partir disso, não apenas uma nova perspectiva é adotada, como a coexistência de Peter Parker e Miles Morales é possível. Essa acomodação fictícia canaliza postulados da relatividade e a teoria da identidade pós-moderna preconizada pelo sociólogo Stuart Hall. No mais, o mínimo que esse título nos ensina é sobre questionar pontos de vista que parecem familiares a nós e mesmo a realidade a qual pertencemos (ou acreditamos pertencer).

O conceito do <<Aranhaverso>>


Aranhaverso é um título que espera de você uma abertura maior que a maioria dos quadrinhos. A narrativa não é ordenada de modo convencional, a câmera que nos conduz à narrativa não evidencia o objetivo, o progresso, a linearidade. Essa sensação de deslocamento, de incerteza sobre o lugar de onde acompanhamos provocada pela não fixidez da observação demanda uma reflexão epistemológica, um exame óptico para averiguar os graus das lentes dos nossos óculos. O tempo não-linear funciona de qual maneira? Não é linear mesmo? Primeiro pensamos (desconfiadas) que o tempo é linear (causa/consequência), mas acompanhamos a simultaneidade e, temos que admitir ao longo dos acontecimentos, que não dominamos o mundo: a Terra 616 (a convencional do ponto de vista de que é a que vivemos em tempo/espaço) é reduzida de centro à uma dentre as possibilidades infinitas. Eu tive que desenhar literalmente um modelo para compreender a arquitetura dos fatos, o encadeamento de tempos/espaços. Um dos fios da teia metafórica, em que, aliás, a tensão dum ponto influencia e gera informação a outro. Esse conceito desenvolvido pelo título é como a transição do geocentrismo ao heliocentrismo, então a naturalidade que é desestabilizada.

Há radicalidade (a proposição dum novo modelo) do descentramento, de Nova Iorque para o universo que é uma teia complexa em que todos são importantes sem hierarquia e, assim, todos são comuns. Não adianta procurar o protagonista, a Terra padrão (616), o centro. Nisso, o discurso ordenador (que internalizamos) é questionado à medida que avançamos a leitura. Viramos a página e pulamos prum mundo desconhecido, com estética, versões e ideias diferentes. Nossa adaptação deve ser rápida, deslizando pela revista como as próprias criaturas-aranha.

Esse descentramento do sujeito (de Peter Parker a Porco-Aranha) promovido pela ficcionalização da Teoria da Relatividade traz ao mundo dos quadrinhos uma discussão importante sobre referenciais. Cada nova personagem desnaturaliza o ponto-de-vista convencional do Homem-Aranha que, nada mais é que o ideal de Sujeito no Ocidente (homem, branco, heterossexual, classe média).

Conclusão: por que recomendo ler?


Ler Aranhaverso bem como Miles Morales, o Homem-aranha Ultimate proporcionara uma guinada epistemológica e ética, isto é, no modo de pesquisar e de me posicionar no e sobre o "real". A capacidade imaginativa aliada ao conhecimento médio de física moderna e de literatura possibilitam por em prática as teorias das representações, retórica, a dinâmica da sociedade, além de questionar nossa noção de ciência e "boa história". A perturbação proporcionada pela dinâmica que empurra múltiplos referenciais (e, portanto, temporalidades, estéticas, classes, gêneros e espécies) é o uma experiência única para quem está no processo de desconstrução/descolonização do eu/self e de cada aspecto da própria experiência social.



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