sexta-feira, 17 de junho de 2016

GUEST POST: PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAQUELA NOITE


Para não dizer que não falei daquela noite*
Rosângela Lopes da Silva**

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         Imagem: Regina Dalcastagnè




Conheça Brasília de metrô. Convida a placa no hall de entrada da Estação de Ceilândia. É noite. Sento do lado direito, próximo à janela. As portas se fecham. Lá fora os trilhos vibram. Lá fora as luzes iluminam Ceilândia. As casas cada vez menores. Carros. Cachorros. Um homem caminhando sozinho, uma roda gigante. Tudo escuro. Túnel. Estação Ceilândia Norte. Conheça Brasília de metrô. Não ultrapasse a faixa amarela.

Lá fora um vento forte. Não o sinto. Vejo-o nos movimentos dos cabelos; das roupas de um varal improvisado entre a janela do quarto e a varanda; no toldo de um carrinho de frutas. Goiaba, manga, morangos. As casas cada vez menores. O túnel. Guariroba. O mundo em movimento lá fora. Ceilândia Sul. Os trilhos em curva. Sobe. Ceilândia se abre em pequenas luzes amarelas lá embaixo. A cidade acontecendo como um espetáculo. Túnel. Estação Metropolitana. "Next station: Praça do Relógio". Relógio?

Rodoviária. Carros. Mata. Concreto. Túnel. Prédios. Prédios ainda mais altos. Concessionárias. Prédios altíssimos. Águas Claras. Arniqueiras. Na janela uma menina de cabelos ruivos e camiseta azul toca violão. As estrelas. As árvores. Dentro, um garoto vende balinhas. Um atleta paraolímpico expõe suas medalhas. Um pedido de ajuda para conquistar um novo ouro para o Brasil. Lá fora o céu. Estação Feira. Cerrado. Uma casa. Cerrado. Cerrado. Estação Shopping. Carros. Semáforo. Concreto. Escuro. Túnel. Escuro. Luzes amarelas seguem o ritmo do movimento do metrô. Ficam para trás. Túnel. Concreto. Escuro. Túnel. Túnel. Escuro. Concreto. Túnel. Estação Central. Portas abertas. Passos apressados. Escada. Passos apressados. "Pegue o seu chip aqui. É de graça. O melhor plano de telefonia móvel do Brasil". Escada. Passos apressados. Escadas. Plataforma C. Sapatos. Frutas. Passos apressadas. Plataforma A. Biblioteca Nacional. Catedral. Brasília.

"Talvez de ônibus conheceria melhor a cidade". Talvez. Ontem, no entanto, não vim a Brasília de ônibus. Nem de metrô. Ontem precisei vir de moto. Não porque preferi. É o plano. Não o meu plano ou o do meu companheiro, que decidiu me acompanhar, mas o piloto. Aquele que silencia os trilhos do metrô às vinte e três horas e quarenta e cinco minutos nos dias de semana e às dezenove horas nos domingos e feriados. O que recolhe os ônibus antes da meia noite. Não queria também ser recolhida. Era sexta à noite. Por mais que soe alerta sobre as dificuldades de retornar à MNorte após a meia noite, minha audição birrenta, de gata borralheira, nem sempre me deixa obedecer a esse toque.

Chegamos ao Cruzeiro às vinte horas. Restaurante do Marzinho. Conversa. Música. Peixe frito. Bebida. Uma amiga avisa que precisa voltar de ônibus. Pressa. Carona até a rodoviária. DF trans online. Ônibus às 00h20. Espera. Angústia. Nada do ônibus chegar. Meu companheiro, gentilmente, a leva em casa. Enquanto isso, aguardo seu retorno na rodoviária. Eu, os funcionários noturnos "fazendo música com o movimento dos rodos, das vassouras e dos chicletes retirados do chão. Você ouve? Você sente?". No banco ao lado, um casal com três crianças pequenas – "todas protegidas sobre o corpo da mãe, cobertas pela noite". Ao lado um homem caminha desordenado. Fala palavras desconexas. "Palavras cujo sentido está tão dentro dele que é impossível alguém penetrar".

Do outro lado, próximo à biblioteca nacional, a polícia acorda os mendigos. Falam alto, mas não consigo entender. "É porque, às vezes, as palavras se confundem com a violência com que são colocadas para fora. Se chocam. Se misturam. Se batem. Aí fica difícil ouvir". Próximo à banca de revistas, um homem negro, descalço. "Passa todas as noites na rodoviária. Pensa ser sua missão defender as mulheres dos malandros que circulam por aqui. Não sei o que aconteceu na vida dele para pensar assim. Sabe, moça, ele é uma das pessoas mais sensíveis que eu já conheci no mundo. Ele é sensível à dor do mundo, eu acho. A gente consegue ver essa sensibilidade no olhar dele. É só amor lá dentro".

Também havia um poeta. Um vendedor de algodão doce. Narrou todas essas vidas para mim. Um homem negro, alto, sorridente. Um contador de causos. Disse-me que estava muito triste, pois só encontraria a mulher e os filhos no dia seguinte. Mas já havia se acostumado. Trabalhava até mais tarde e não havia como voltar para casa. Me ofereceu um algodão doce. Falei que estava sem dinheiro. "É um presente para deixar a sua noite mais colorida". Também deu algodão doce – de cores diferentes – para as crianças que, agora, estavam sentadas ao meu lado. A mãe e o pai procuravam alguma solução para voltarem para casa. "Um táxi?". "Não. É muito caro! Não temos como pagar". "Mas as crianças não podem dormir aqui!". "Acho que tem um ônibus às três, vamos esperar. Vai dar tudo certo".

Ouvi as histórias do poeta. Ouvi também a menina de dezessete anos, mãe das três crianças. Os "probleminhas" que provocaram sua fuga de casa. A decepção em ter que levar as crianças para o trabalho. Ganhei um poema feito para mim. Ouvi a noite em forma de poesia. Falei sobre Carolina Maria de Jesus, de sua escrita em papéis encontrados na rua, de seus poemas, de suas músicas, dos sapatinhos que sonhava comprar para a filha Vera. Olhos entusiasmados. Um poeta. A noite em versos. Falado. "Falado?". "Sim, falado. Porque a minha poesia não é para ser escrita não, moça. A minha poesia nasce e morre no momento. Ela só é eterna na memória daqueles que me ouvem. Eu falo e ela fica ali para sempre. Não do jeito que falei, mas do jeito que chegou lá. Vibrante. Passageira. Porque assim é a vida, moça". Não me lembro de todas as palavras ditas. Nem mesmo se foi esse o ritmo com o qual as palavras se misturaram à brisa e ao silêncio de Brasília. "O que está fazendo?". "Anotando as suas palavras. Vou escrever sobre a sua poesia amanhã". O poeta sorriu. "Sobre mim? Sobre essas besteiras que eu falei?". "Sim, achei tudo lindo. Um poeta chamado Manoel de Barros, certa vez escreveu um poema sobre um menino que carregava água na peneira, um menino que construía casas sobre orvalhos, que fez uma pedra dar flor. O senhor, para mim é esse menino: um poeta que será lembrado por seus despropósitos, por essas besteiras aí". Agradeceu. "Não mereço tudo isso. Você é gentil. Mas foi bom saber que pareço um menino. Queria mesmo ser uma criança". Sorrimos. "Preciso procurar um lugar quente onde possa descansar". Disse e saiu assobiando. Misturado aos algodões coloridos.

A buzina. Um até mais. A polícia. Os mendigos. As luzes lá atrás. O silêncio sendo aborrecido pelo barulho da moto. No reflexo do retrovisor, Brasília cada vez mais distante.





*Este texto faz parte da pesquisa Narrativas da cidade: Brasília e a experiência urbana na literatura brasileira contemporânea, coordenada pela profª Regina Dalcastagnè.

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