sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

[X-POILERS #59] In this city, I’ve got more than my share of trouble


Imagem: Terceira Terra/ X-Poilers

Um pouco antes de terminar o interminável 2016, Anne Caroline Quiangala participou do incrível podcast X-POILERS na Terceira Terra! O X-Poilers é um podcast que analisa seriados baseados em quadrinhos a partir de vários pontos de vista, o que enriquece muito a leitura. Recomendamos super que ouçam sempre! Neste episódio comentamos os dois últimos episódios da série Luke Cage, mas a galera já vinha assistindo The Walking Dead e Vixen!

"Apresentação: Luciana, jornalista de recesso, mestre em treinamento e garota geek nas horas vagas; Leo, homem múltiplo com poderes nerdísticos e gastronômicos; Marcelo, webmaster da Terceira Terra, mas que Por Trás da Máscara é um Herói de Papel; João Camilo, comunicólogo não praticantecontador de histórias que tem o poder de narrar sonhos e que comenta séries com conteúdo; e Karin, mutante de cabelos vermelhos, cientista nas horas ocupadas e que tem o poder da metodologia." (Fonte: X-Poilers #59)

01:18 Mini-entrevista com Anne Caroline Quiangala, do blog Preta, Nerd & Burning Hell
02:43 Walking Dead (T7E08 “Hearts still beating”)
13:14 Vixen (T2E1-6)
20:40 Luke Cage (T1E12 “Soliloquy of Chaos” e T1E13 “You know my Steez”)
49:58 Notícias
1.21:04 Encerramento



Ouça aqui: In this city, I’ve got more than my share of trouble
Data da gravação: 18.12.2016




quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

10 motivos para assistir CRAZYHEAD (se você for fã de Buffy, claro!)

crazyhead
Amy (Cara Theobold) e Raquel (Susie Wokoma)

Se você está lendo esse artigo provavelmente é o tipo de fã de séries que misturam terror, fantasia, ficção científica e toda a farofada que for possível - tipo Buffy a Caça-Vampiros. A série deixou um vácuo em nossos corações que nem a continuidade em quadrinhos conseguiu preencher... Até agora!

A série Crazyhead é uma coprodução do E4 e da Netflix e tem toda a narrativa em torno de, não uma, mas duas, "chose One"(duas escolhidas). Diferente de Gilmore Girls que trouxe o frustrante revival EXATAMENTE igual aos anos 2000, Crazyhead desafia, ironiza e ataca quase todos os problemas das series daquela época. Claro que Willow/Tara foi uma revolução, bem como a moça loira sobreviver ao show de horror, mas havia muito pra melhorar em termos de representação. Se Joss Wheadon não permitiu que a caça-vanpiros Kendra sobrevivesse, porque só podia ter uma escolhida, Howard Overman fez de Rachel (Susie Wokoma) uma protagonista e tanto!

CRAZYHEAD é uma série britânica de humor e terror criada por Howard Overman (o mesmo produtor de Misfits, que tem na Netflix e super vale a pena). Apesar de Crazyhead não encabeçar o catálogo nem ter sido divulgada de forma decente, recomendo a vocês que amam Buffy a Caça-Vampiros, Birds of Prey, Firefly e Misfits. Duas jovens sensitivas se conhecem porque são capazes de enxergar a verdadeira natureza de demônios disfarçados. Elas são desajeitadas, com problemas de socialização e lutam contra os planos "do mal" juntas lidando com as diferenças. Ao todo são seis episódios cheios de ação, humor e melhores anticlímax. Por isso, elaborei essa lista com 10 motivos para assistir CRAZYHEAD!

10) Whitesplaning (explicação branca) é a grande piada!






Crazyhead começa de forma tradicional, dando ênfase à protagonista loira - Amy -  que toma decisões erradas do tipo que podem levar à morte. Muitas vezes ela quebra expectativas: se preocupa com questões raciais e conhece a história não-tradicional. Ela explica o tempo todo para geral (inclusive pessoas negras) o que é racismo e, a partir disso, cria situações ridículas. Neste exemplo é ridículo o rapaz racista e também é ridículo ela pressupor que a amiga Negra desconhece o que é racismo. Ao longo da série, Amy se beneficia da condição de mulher branca, "Tem até amigos negros", mas é racista. É bacana a série enfatizar que nenhuma dessas atitudes se anulam.

9) Tira os homens do pedestal.




A maioria dos comentários da série são enfatizando os efeitos da sociedade sexista sobre os homens-cis. Amy mostra grande habilidade em perceber quais podem ser úteis e quais não valem a pena e faz questão de usar esse conhecimento em prol das amigas. No mais, os dois homens da série não são lá grande coisa na história. Eles são termos acessórios e alvos de sua própria condição privilegiada. Não sentem vulnerabilidade... E são vitimizados! Todas as estratégias de violência psicológica são exploradas na série de forma interessantíssima!

8) Não há espaço pra broderagem!



A "clássica" rivalidade entre mulheres é invertida na série. São os homens que não aguentam a presença um do outro, brigam pelas mulheres de forma patética e nada convencional. 

7) subverte (e ri) dos papéis de gênero!


O mais comum é vermos homens-brancos-cis fazendo questão de interpretar o papel de gênero imposto, porque são os mais beneficiados. Não em Crazyhead! Jake (Lewis Reeves) é o personagem mais sentimentalista, frágil e sofrido. E toda a sua sofrência é motivo de piada à medida que Amy e Raquel mostram os privilégios dele inclusive de fazer drama na hora decisiva. A piada não é sobre ele ser um "boy desconstruidão", mas da inversão de papéis de gênero. Jake encarnada o papel normalmente dado às mulheres de rivalizar pelo interesse amoroso, necessidade de resgate e atuação como meras ajudantes. 

Homens conversando sobre a Síndrome de Estocolmo?!!!


6) Amizade entre mulheres



De cara somos introduzidas à Amy e vemos a realidade a partir da perspectiva dela. Sua melhor amiga é uma jovem negra chamada Suzanne (Riann Steele), a pessoa que cuidou dela a vida inteira e que, portanto ela faz questão de cuidar e proteger de todo o mal. Uma das características principais de Amy é sua certeza de que as amigas estão acima de tudo. Tem problemas? Tem. Mas, por hora, vamos focar a lição sobre sororidade.

5) Crazyhead mostra que Sexismo não poupa ninguém!

Raquel é a mais zoeira <3

Uma das personagens mais interessantes da série é a "Demônio mãe solteira", isto é, um demônio possuiu o corpo duma mãe solteira e tem que pagar babá, usar sutiã e - principalmente - lidar com a jornada tripla. Como ela pode ser um demônio eficaz se no tempo livre tem que cuidar do filho? Não há plano do mal que sobreviva à jornada tripla. 

A "Demônio mãe solteira" lida com tudo de uma vez, tanto que mal consegue ser do mal <3


4) Amy é uma Buffy BEM melhorada.


Enquanto Buffy Anne Summers desconhece seu lugar no mundo social e - sinceramente - nem se importa, a Amy tenta ser politicamente correta. A consciência e certo senso do ridículo colocam Amy vários pontos a frente da Chosen One. A maioria dos vilões chama Amy de qualquer coisa, não dão tanta atenção ao que ela pensa tanto quanto ela mesma. Além disso, Amy prevê atitudes sexistas dos rapazes e não tem vocação nenhuma para relacionamentos sexo-afetivos estilo Angel e/ou Spike. E ela não é nada Cool.

3) Todo mundo é estranha, que nem eu, que nem você!

"De leves"
Me diz você como não ser


Sabe quando ce não sabe o que falar? Em Crazyhead todo mundo é "gente como a gente": estranha, bizarra, diz coisas erradas por ansiedade, cai e se despe na hora errada, além de lidar com toda aquela Lei de Murphy que lidamos tão bem todos os dias!


2) Rompe (alguns poucos) clichês associados à personagem Negra.






Apesar de começar expondo os estereótipos associados às jovens Negras, a série avança nisso. Podemos até dizer que é humor negro. Embora Raquel seja uma comediante e, ao mesmo tempo, capaz de lidar com os demônios à volta, ela é uma pessoa sensível que só quer ter relacionamentos reais. Ao longo dos episódios, saímos do olhar de estranhamento de Amy e adentramos mais à realidade de Raquel. Ela não se torna primária porque a série exibe a realidade na perspectiva de Amy, mas há espaço para mostrar um processo de compreensão e respeito à "diferença". Enquanto Amy não tem nome, os demônios se referem à Raquel nominalmente porque ela é, além de "muito gracinha",  a peça-chave.

Racismo, sofrimento mental e inabilidade social são tópicos de discussão. A exibição disso como problema é bem eficaz porque mostra a garota branca e politicamente correta como melhor amiga duma garota negra, não porque venceu o racismo, e sim porque criou uma exceção confortável. Sendo assim, a reação dela à Rachel é racializada, mas isso é discutido a ponto de surgir uma amizade entre elas. Uma amizade muito real, mas longe do ideal. Apesar disso, o companheirismo é explorado de forma positiva.

1) Quebra o paradigma yin/yang. 





A metáforas de Crazyhead são muito avançadas. Todos os demônios são brancos e a maioria  deles são homens de modo que a mensagem central é sobre o poder das estruturas sociais sobre a vida das pessoas: racismo, sexismo e classismo principalmente. A interseccionalidade é explorada de forma surpreendente e inteligente. Racismo é apresentado por meio de metáforas e SEM WHITEPORN. Diferente de Orange is the New Black, toda vez que situações racistas são apresentadas há um apontamento de que é inaceitável. Não tem negro sofrendo por sofrer, não há dor pra crescimento do personagem negro. E, nisso tudo, Raquel é a dona da porra toda, mas duma forma inovadora. A narrativa constrói a diferença desconstruindo o estereótipo da mulher Preta forte que se opõe à feminilidade branca. Raquel se defende, ao passo que Amy ataca.. ora, então por que pressupor que Amy pe mais delicada, frágil e indefesa então? Fica também evidente que as reações estão relacionadas ao social, afinal privilégio faz toda a diferença.

Conclusão

Se for assistir Crazyhead, claro!

Crazyhead
 é uma série obrigatória para nerds feministas que se inspiraram em mulheres fortes como Buffy Summers e Zoe Washburne. Vale muito a pena assistir porque Crazyhead mostra que é possível sim fazer séries feministas incríveis, antirracistas e MUITO engraçadas - afinal, só acha que feminista não ri quem não entende o quanto privilégio é ridículo.


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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

[GUEST] [TRADUÇÃO] "A Máscara" (Grada Kilomba)

Imagem relacionada

A Máscara*

 Grada Kilomba (1)
Traduzido por Jessica Oliveira de Jesus**



Resumo: Este artigo é a tradução do primeiro capítulo do livro “Plantation Memories: Episodes of Everyday Racism” (Memórias do Plantation: Episódios do Racismo Cotidiano) da escritora, teórica, psicóloga e artista interdisciplinar Grada Kilomba. O episódio aqui traduzido inicia-se com a descrição de um instrumento de tortura que pode ser tomado como símbolo das políticas de silenciamento do colonialismo: A máscara, que ao tapar a boca do sujeito Negro, impedia-o de falar. A partir da apresentação deste instrumento, a autora discute através de um prisma psicológico a construção da Negritude como alteridade e os motivos pelos quais a boca de escravizados(as) tinha que ser mantida fechada, além do que o sujeito branco seria obrigado a ouvir caso a boca do sujeito Negro não estivesse vedada. Apesar da língua materna da escritora ser português, seu livro foi escrito e lançado em inglês, mas ainda não foi traduzido integralmente para língua portuguesa, o que também nos diz muito sobre (tentativas de) silenciamentos e a importância desta tradução. 

Palavras-chave: tradução, colonialismo, memória, trauma, descolonização. 


* * *

Há uma máscara da qual eu ouvi falar muitas vezes durante minha infância. Os vários relatos e descrições minuciosas pareciam me advertir que aqueles não eram meramente fatos do passado, mas memórias vivas enterradas em nossa psique, prontas para serem contadas. Hoje quero re-contá-las. Quero falar sobre a máscara do silenciamento

A Máscara Tal máscara foi uma peça muito concreta, um instrumento real que se tornou parte do projeto colonial europeu por mais de trezentos anos. Ela era composta por um pedaço de metal colocado no interior da boca do sujeito Negro, instalado entre a língua e a mandíbula e fixado por detrás da cabeça por duas cordas, uma em torno do queixo e a outra em torno do nariz e da testa. Oficialmente, a máscara era usada pelos senhores brancos para evitar que africanos/as escravizados/ as comessem cana-de-açúcar ou cacau enquanto trabalhavam nas plantações, mas sua principal função era implementar um senso de mudez e de medo, visto que a boca era um lugar tanto de mudez quanto de tortura. Neste sentido, a máscara representa o colonialismo como um todo. Ela simboliza políticas sádicas de conquista e dominação e seus regimes brutais de silenciamento dos(as) chamados(as) ‘Outros(as)’: Quem pode falar? O que acontece quando falamos? E sobre o que podemos falar? 

A boca 


A boca é um órgão muito especial, ela simboliza a fala e a enunciação. No âmbito do racismo a boca torna-se o órgão da opressão por excelência, ela representa o órgão que os(as) brancos(as) querem – e precisam – controlar e, consequentemente o órgão que, historicamente, tem sido severamente repreendido. 

Neste cenário específico, a boca também é uma metáfora para a posse. Fantasia-se que o sujeito Negro quer possuir algo que pertence ao senhor branco, os frutos: a cana-de-açúcar e os grãos de cacau. Ela ou ele quer comê-los, devorá-los, desapropriando assim o mestre de seus bens. Embora a plantação e seus frutos, de fato pertençam ‘moralmente’ à (ao) colonizada/o, o colonizador interpreta este fato perversamente, invertendo uma narrativa que lê tal fato como roubo. “Estamos levando o que é Deles(as)” torna-se “Eles/elas estão tomando o que é Nosso.” Estamos lidando aqui com um processo de recusa, no qual o mestre nega seu projeto de colonização e o impõe sobre o(a) colonizado(a). É este momento – no qual o sujeito afirma algo sobre o outro que se recusa a reconhecer em si próprio – que caracteriza o mecanismo de defesa do ego.

Resultado de imagem para escrava anastacia
 [Figura 1. Jacques Arago. “Escrava Anastácia”, 1817-18] 
Escrava Anastácia (2) 



No racismo, a recusa é usada para manter e legitimar estruturas violentas de exclusão racial: “Eles/elas querem tomar o que é Nosso, por isso têm de ser excluídos(as).” A informação original e elementar – “Estamos tomando o que é Deles(as)” – é negada e projetada sobre o(a) ‘Outro(a)’ – “Eles/elas estão tomando o que é Nosso” – o sujeito Negro torna-se então aquilo a que o sujeito branco não quer ser relacionado. Enquanto o sujeito Negro se transforma em inimigo intrusivo, o branco torna-se a vítima compassiva, ou seja, o opressor torna-se oprimido e o oprimido, o tirano. Este fato é baseado em processos nos quais partes cindidas da psique são projetadas para fora, criando o chamado ‘Outro’, sempre como antagonista do ‘eu’. Essa cisão evoca o fato de que o sujeito branco de alguma forma está dividido dentro de si próprio, pois desenvolve duas atitudes em relação à realidade externa: somente uma parte do ego – a parte “boa”, acolhedora e benevolente – é vista e vivenciada como ‘self ’, como ‘eu’ e o resto – a parte “má”, rejeitada e malévola – é projetada sobre o ‘Outro’ e retratada como algo externo. O ‘Outro’ torna-se então a representação mental do que o sujeito branco teme reconhecer sobre si mesmo, neste caso: o ladrão/ a ladra violento(a), o(a) bandido(a) indolente e malicioso(a). 

Tais aspectos desonrosos, cuja intensidade causa muita ansiedade, culpa ou vergonha, são projetados para o exterior como um meio de escapar dos mesmos. Em termos psicanalíticos, isso permite que os sentimentos positivos em relação a si mesmo(a) permaneçam intactos – branquitude como a parte ‘boa’ do ego – enquanto as manifestações da parte ‘má’ são projetadas para o exterior e vistas como objetos externos e ‘ruins’. No mundo conceitual branco, o sujeito Negro é identificado como o objeto ‘ruim’, incorporando os aspectos que a sociedade branca tem reprimido e transformando em tabu, isto é, agressividade e sexualidade. Por conseguinte, acabamos por coincidir com a ameaça, o perigo, o violento, o excitante e também o sujo, mas desejável – permitindo à branquitude olhar para si como moralmente ideal, decente, civilizada e majestosamente generosa, em controle total e livre da inquietude que sua história causa. 

A ferida (3)


Dentro dessa infeliz dinâmica, o sujeito Negro torna-se não apenas o ‘Outro’ – o diferente em relação ao qual o ‘self ’ da pessoa branca é medido – mas também ‘alteridade’ – a personificação de aspectos repressores do ‘self ’ do sujeito branco

Em outras palavras, nós nos tornamos a representação mental daquilo com o que o sujeito branco não quer se parecer. Toni Morrison (1992) usa a expressão “dessemelhança” (4) , para descrever a “branquitude” como uma identidade dependente, que existe através da exploração do ‘Outro’, uma identidade relacional construída por brancos(as), definindo eles(as) mesmos(as) como racialmente diferentes dos ‘Outros’. Isto é, a Negritude serve como forma primária de alteridade, pela qual a branquitude é construída. O ‘Outro’ não é outro per se; ele/ela torna-se tal através de um processo de absoluta negação. Nesse sentido, Frantz Fanon escreve: 

“O que é frequentemente chamado de alma Negra é uma construção do homem branco.” (1968, p. 110- tradução minha (5) 

Essa sentença nos relembra que não é com o sujeito Negro que estamos lidando, mas com as fantasias brancas sobre o que a Negritude deveria ser. Fantasias que não nos representam, mas sim o imaginário branco. Elas são os aspectos negados do ‘self ’ branco, que são re-projetados em nós, como se fossem retratos autoritários e objetivos de nós mesmos(as). Portanto, elas não são de nosso interesse. “Eu não posso ir ao cinema”, escreve Fanon, “Eu espero por mim” (1968, p. 140). Ele espera pelo(a) Negro(a) selvagem, pelo(a) Negro(a) bárbaro(a), pelos(as) serviçais Negros(as), pelas Negras prostitutas, putas e cortesãs, pelos Negros(as) criminosos(as), assassinos(as) e traficantes. Ele espera por aquilo que ele não é. Poderíamos dizer que no mundo conceitual branco é como se o inconsciente coletivo das pessoas Negras fosse pré-programado para a alienação, decepção e trauma psíquico, uma vez que as imagens da Negritude às quais somos confrontados(as) não são nem realistas nem gratificantes. Que grande alienação ser forçado/a identificar-se com heróis brancos e rejeitar inimigos que aparecem como Negros. Que decepção, sermos forçados(as) a olhar para nós mesmos(as) como se estivéssemos no lugar deles(as). Que dor, estar preso(a) nesta ordem colonial. Esta deveria ser nossa preocupação. Não deveríamos nos preocupar com o sujeito branco no colonialismo, mas sim com o fato de o sujeito Negro sempre ser forçado a desenvolver uma relação consigo mesmo(a) através da presença alienante do outro branco (Hall, 1996). Sempre colocado como ‘Outro’, nunca como ‘self ’. 


“O que mais isso poderia ser para mim”, pergunta Fanon, “senão uma amputação, uma excisão, uma hemorragia que respinga meu corpo inteiro com sangue negro? ” (1967, p. 112). Fanon utiliza a linguagem do trauma, como a maioria das pessoas Negras quando falam sobre experiências cotidianas de racismo, indicando um doloroso impacto corporal e a perda característica de um colapso traumático, pois no racismo o indivíduo é cirurgicamente retirado e violentamente separado de qualquer identidade que ele/ela possa realmente ter. Tal separação é definida como um trauma clássico, uma vez que priva o indivíduo de sua própria conexão com a sociedade inconscientemente pensada enquanto branca. “Eu sentia lâminas de facas me abrindo de dentro para fora… Eu não conseguia mais rir” (1967, p. 112), observa Fanon. De fato, não há nada de que se rir: enquanto alguém é sobredeterminado/a exterioriormente por fantasias violentas que ele/a vê, mas que não reconhece sendo ele/a próprio/a. 

Esse é o trauma do sujeito Negro; ela/ele jaz exatamente nesse estado de absoluta alteridade na relação com o sujeito branco. Um círculo infernal “Quando pessoas gostam de mim, me dizem que é apesar da minha cor. Quando não gostam de mim, apontam que não é por causa da minha cor.” Fanon escreve: “em ambas situações, não tenho saída” (1967, p. 116). Preso no absurdo. Parece, portanto, que o trauma de pessoas Negras provém não apenas de eventos de base familiar, como a psicanálise argumenta, mas sim do traumatizante contato com a violenta barbaridade do mundo branco, ou seja, a irracionalidade do racismo que nos coloca sempre como o ‘Outro’, como diferente, como incompatível, como conflitante, como estranho(a) e incomum. Essa realidade irracional do racismo é descrita por Frantz Fanon como traumática. 

Eu fui odiado, desprezado, detestado, não pela vizinha do outro lado da rua ou pelo meu primo por parte de mãe, mas por uma raça inteira. Eu competi contra algo irracional. Os psicanalistas dizem que nada é mais traumatizante para a criança do que estes encontros com o que é racional. Eu diria, pessoalmente, que para um homem cuja arma é a razão, não há nada mais neurótico do que o contato com o irracional 
(Fanon, 1967, p. 118).

 E ele continua: “Eu racionalizei o mundo e o mundo me rejeitou sob a base do preconceito de cor (...) Coube ao homem branco ser mais irracional do que eu” (1967, p. 123). Aparentemente, a irracionalidade do racismo é o trauma.


 Falando do silêncio 

A máscara, portanto, levanta muitas questões: por que deve a boca do sujeito Negro ser amarrada? Por que ela ou ele tem que ficar calado(a)? O que poderia o sujeito Negro dizer se ela ou ele não tivesse sua boca selada? E o que o sujeito branco teria que ouvir? Existe um medo apreensivo de que, se o(a) colonizado(a) falar, o(a) colonizador(a) terá que ouvir e seria forçado(a) a entrar em uma confrontação desconfortável com as verdades do ‘Outro’. Verdades que têm sido negadas, reprimidas e mantidas guardadas, como segredos. Eu realmente gosto desta frase “quieto como é mantido” (6) . Esta é uma expressão oriunda da diáspora africana que anuncia o momento em que alguém está prestes a revelar o que se presume ser um segredo. Segredos como a escravidão. Segredos como o colonialismo. Segredos como o racismo.

O medo branco de ouvir o que poderia ser revelado pelo sujeito Negro pode ser articulado com a noção de repressão de Sigmund Freud, uma vez que a “essência da repressão”, escreve ele: “encontra-se simplesmente em afastar algo e mantê-lo à distância do consciente”. (Freud 1923, p. 17). Este é aquele processo pelo qual as idéias desagradáveis – e verdades desagradáveis – tornam-se inconscientes, vão para fora da consciência devido à extrema ansiedade, culpa ou vergonha que causam. Contudo, enquanto enterradas no inconsciente como segredos, elas permanecem latentes e capazes de ser reveladas a qualquer momento. A máscara vedando a boca do sujeito Negro impede-o(a) de revelar as verdades das quais o mestre branco quer “se desviar”, “manter à distância” nas margens, invisíveis e “quietas”. Por assim dizer, este método protege o sujeito branco de reconhecer o conhecimento do ‘Outro’. Uma vez confrontado com verdades desconfortáveis desta história muito suja (7), o sujeito branco comumente argumenta: “não saber...”, “não entender ...”, “não se lembrar...”, “não acreditar...” ou “não estar convencido por...”. Estas são expressões desse processo de repressão, no qual o sujeito resiste tornando consciente a informação inconsciente, ou seja, alguém quer fazer o conhecido, desconhecido. 

A repressão é, nesse sentido, a defesa pela qual o ego controla e exerce censura em relação ao que é instigado como uma verdade “desagradável”. Falar torna-se assim praticamente impossível, pois quando falamos, nosso discurso é frequentemente interpretado como uma versão dúbia da realidade, não imperativa o suficiente para ser falada, tampouco ouvida. Tal impossibilidade ilustra como o falar e o silenciar emergem como um projeto análogo. O ato de falar é uma negociação entre quem fala e quem escuta, isto é, entre os sujeitos que falam e seus/suas ouvintes (Castro Varela & Dhawan, 2003). Ouvir é, nesse sentido, o ato de autorização em direção à/ao falante. Alguém pode falar (somente) quando sua voz é ouvida. Nesta dialética, aqueles(as) que são ouvidos(as) são também aqueles(as) que “pertencem”. E aqueles(as) que não são ouvidos(as), tornam-se aqueles(as) que “não pertencem”. A máscara re-cria este projeto de silenciamento, ela controla a possibilidade de que colonizados(as) possam um dia ser ouvidos(as) e, consequentemente, possam pertencer. Durante um discurso público Paul Gilroy (8) descreve cinco diferentes mecanismos de defesa do ego pelos quais o sujeito branco passa a fim de ser capaz de “ouvir”, isto é, para que possa se tornar consciente de sua própria branquitude e de si próprio(a) como performer do racismo: recusa/ culpa/ vergonha/ reconhecimento/ reparação. Mesmo que Gilroy não tenha explicado a corrente de mecanismos de defesa do ego, eu gostaria de fazê-lo a seguir, pois acredito que seja importante e revelador.

Recusa é um mecanismo de defesa do ego que opera de forma inconsciente para resolver conflitos emocionais, através da recusa em admitir os aspectos mais desagradáveis da realidade externa, bem como sentimentos e pensamentos internos. Esta é a recusa em reconhecer a verdade. A recusa é seguida por dois outros mecanismos de defesa do ego: cisão e projeção. Como escrevi anteriormente, o sujeito nega que ele/ela tem tais e tais sentimentos, pensamentos ou experiências, mas continua a afirmar que outra pessoa os tem. A informação original – “Nós estamos tirando o que é Deles(as)” ou “Nós somos racistas” – é negada e projetada sobre os(a)s “Outros(as)”: Eles/elas vêm aqui e retiram o que é nosso”, “Eles/elas são racistas”. Para diminuir o choque emocional e a tristeza, o sujeito Negro diria: “Nós estamos de fato tirando o que é deles(as)” ou “eu nunca experienciei racismo.” A recusa é frequentemente confundida com negação. Estas são, porém, dois mecanismos diferentes de defesa do ego. Na última, um sentimento, um pensamento ou experiência é admitida ao consciente em sua forma negativa (Laplanche & Pontails, 1988). Por exemplo: “Nós não estamos tirando o que é Deles/as” ou “Nós não somos racistas.”

Após a recusa vem a culpa, a emoção que segue a infração de uma injunção moral. Este é um estado efetivo no qual o indivíduo vivencia o conflito de ter feito algo que acredita que não deveria ser feito, ou ao contrário, de não ter feito algo que acredita que deveria ter sido feito. Freud descreve isto como o resultado de um conflito entre o ego e o superego, ou seja, um conflito entre os próprios desejos agressivos do indivíduo em relação aos outros/as e seu superego (autoridade). O sujeito não tenta impor aos outros/as o que ele/ela teme reconhecer em si mesmos/as como acontece na recusa, mas está, ao invés disso, pré-ocupado/a com as consequências de sua própria infração: “acusação”, “culpabilização”, “punição.” Culpa se difere da ansiedade, pois a ansiedade é experienciada em relação a acontecimentos futuros, tal como quando a ansiedade é criada pela ideia de que o racismo possa vir a ocorrer. Culpa é vivenciada em relação a um ato já cometido, ou seja, o racismo já aconteceu, criando um estado efetivo de culpabilidade. As respostas comuns à culpa são a intelectualização ou racionalização, isto é, a tentativa do sujeito branco de construir uma justificativa lógica para o racismo; ou descrença como o sujeito branco pode dizer: “nós não queríamos dizer isto neste sentido”, “você entendeu mal,” “eu não enxergo Negros ou brancos, eu enxergo somente pessoas.” De repente, o sujeito branco investe tanto intelectual quanto emocionalmente na ideia de que a “‘raça’ na verdade não importa” como estratégia para reduzir os desejos inconscientes agressivos em relação aos ‘Outros’, bem como seu senso de culpa.

Vergonha, por outro lado, é o medo do ridículo, a resposta ao fracasso de viver de acordo com o ideal de seu próprio ego. Enquanto a culpa ocorre se o indivíduo transgredir uma injunção derivada de seu exterior, a vergonha ocorre quando o indivíduo falha em atingir um ideal de comportamento estabelecido por si mesmo(a). A vergonha está, portanto, conectada intimamente ao sentido de percepção. Ela é provocada por experiências que colocam em questão nossas preconcepções sobre nós mesmos(as) e nos obriga a nos ver através dos olhos de outros(as), nos ajudando a reconhecer a discrepância entre a percepção de outras pessoas sobre nós e nossa própria percepção de nós mesmos(as): “Quem sou eu? Como os(as) outros(as) me percebem? E o que represento para eles/elas?” O sujeito branco dá-se conta de que a percepção das pessoas Negras sobre a branquitude pode ser diferente de sua própria percepção de si próprio(a), a medida em que a branquitude é vista como uma identidade privilegiada, o que significa tanto poder quanto alarme – a vergonha é o resultado deste conflito.

Reconhecimento segue a vergonha; no momento em que o sujeito branco reconhece sua própria branquitude e/ou racismo. Este é, portanto, um processo de reconhecimento. O indivíduo finalmente reconhece a realidade ao aceitar a realidade e a percepção de outros(as). Reconhecimento é, neste sentido, a passagem da fantasia para a realidade – já não se trata mais da questão de como eu gostaria de ser visto(a), mas sim de quem eu sou; não mais como eu gostaria que os ‘Outros’ fossem, mas sim quem eles/elas realmente são. 

Reparação então significa a negociação do reconhecimento. O indivíduo negocia a realidade. Neste sentido, é o ato de reparação do mal causado pelo racismo através da mudança de estruturas, agendas, espaços, posições, dinâmicas, relações subjetivas, vocabulário, ou seja, através do abandono de privilégios. 


Estes diversos passos revelam a consciência sobre o racismo não tanto quanto uma questão moral, mas sim como um processo psicológico que demanda muito trabalho. Desta forma, ao invés de fazer a usual pergunta moral: “Eu sou racista?” e esperar uma resposta confortável, o sujeito branco deveria perguntar-se: “Como eu posso desmantelar meu próprio racismo?” e então esta pergunta por si só já inicia este processo. 

Referências bibliográficas

CASTRO VARELA, Maria del Mar & DHAWAN, Nikita. “Postkolonialer Feminismus und die Kunst der Selbstkritik.” In: Hito Steyerl & Encarnación Gutiérrez Rodríguez (Hg.) Spricht die Subaltern Deutsch? Migration und postkoloniale Kritik. Münster: Unrast Verlag, 2003. 
FANON, Frantz. Black Skin, White Masks. New York: Grove Press, 1967. FREUD, Sigmund. The Ego and the Id and Other Works. Volume XIX. London: Vintage Books, 1923. 
GILROY, Paul. Atlântico Negro: Modernidade e Dupla Consciência. Rio de Janeiro: 34/Universidade Cândido Mendes, 2002. 
HALL, Stuart.: “The After-Life of Frantz Fanon: Why Fanon? Why Now? Why Black Skin, White Masks?”. In: Alan Read (Ed.) The Fact of Blackness. Frantz Fanon and Visual Representation. London: Bay Press, 1996, p. 12-37. 
HANDLER, Jerome & HAYES, Kelly. “Escrava Anastácia: The Iconographic History of a Brasilian Popular Saint.” In: African Diaspora: Journal of Journal of Transnational Africa in a Global World. n. 2 p. 25-51, 2009. 
KILOMBA, Grada. “The Mask”. In: Plantation Memories: Episodes of Everyday Racism. Münster: Unrast Verlag. 2. Auflage, 2010. 
LAPLANCHE, Jean & PONTALIS, Jean-Bertrand. The Language of Psychoanalysis. London: Polistar Wheatons Ltd, 1988. 
MORRISON, Toni. Playing in the Dark. Whiteness and the Literary Imagination. New York: Vintage Books, 1992.

NOTAS DA TRADUTORA


(1)  KILOMBA, Grada. “The Mask” In: Plantation Memories: Episodes of Everyday Racism. Münster: Unrast Verlag, 2. Edição, 2010. 

(2) Este é um retrato da Escrava Anastácia. Esta imagem penetrante vai de encontro ao (à) espectador(a) transmitindo os horrores da escravidão sofridos pelas gerações de africanos(as) escravizados(as). Sem história oficial, alguns dizem que Anastácia era filha de uma família real Kimbundo, nascida em Angola, sequestrada e levada para a Bahia, Brasil e escravizada por uma família portuguesa. Após o retorno desta família para Portugal, ela teria sido vendida a um dono de uma plantação de cana-de-açúcar. Outros alegam que ela teria sido uma princesa Nagô/Yorubá antes de ter sido capturada por traficantes de escravos europeus e trazida para o Brasil. Enquanto outros ainda contam que a Bahia foi seu local de nascimento. Seu nome africano é desconhecido. Anastácia foi o nome dado a ela durante a escravidão. Segundo todos os relatos, ela foi forçada a usar um colar de ferro muito pesado, além da máscara facial que a impedia de falar. As razões dadas para este castigo variam: Alguns relatam seu ativismo político no auxílio em fugas de outros(as) escravizados(as); outros dizem que ela havia resistido às investidas sexuais do mestre branco. Outra versão ainda transfere a culpa para o ciúme de uma sinhá que temia a beleza de Anastásia. A ela é alegada a história de possuir poderes de cura imensos e de ter realizado milagres. Anastásia era vista como santa entre escravizados(as) africanos(as). Após um longo período de sofrimento, ela morre de tétano causado pelo colar de ferro ao redor de seu pescoço. O retrato de Anastácia foi feito por um francês de 27 anos chamado Jacques Arago que se juntou a uma expedição científica pelo Brasil como desenhista, entre dezembro de 1817 e janeiro de 1818. Há outros desenhos de máscaras cobrindo o rosto inteiro somente com dois furos para os olhos; estas eram usadas para prevenir o ato de comer terra, uma prática entre escravizados(as) africanos(as) para cometer suicídio. Na segunda metade do século XX a figura de Anastácia começou a se tornar símbolo da brutalidade da escravidão e seu contínuo legado do racismo. Ela tornou-se uma figura política e religiosa importante em torno do mundo africano e afrodiaspórico, representando a resistência histórica. A primeira veneração de larga escala foi em 1967 quando o curador do Museu do Negro do Rio de Janeiro erigiu uma exposição para honrar o 80° aniversário da abolição da escravidão no Brasil. Anastásia também é comumente vista como uma santa dos Pretos Velhos, diretamente relacionada ao Orixá Oxalá ou Obatalá – o deus da paz, da serenidade e da sabedoria – e é objeto de devoção no Candomblé e na Umbanda (Handler & Hayes, 2009). 

(3) O termo ferida é derivado do Grego “trauma” (Laplanche & Pontalis, 1988), e este é o sentido que eu uso aqui: “ferida como trauma”.

(4) A expressão usada por Toni Morrison em inglês é “unlikeness”. 

(5) N. da tradutora: Todas as traduções de Frantz Fanon neste artigo foram feitas por mim. 

(6) Em inglês: “quiet as it’s kept.


(7) Em inglês: “dirty history”, frase frequentemente usada por Toni Morrison para descrever seu trabalho artístico quando argumenta que sua escrita traz à tona os assim chamados “negócios sujos do racismo” (1992).

(8) GILROY, Paul. Atlântico Negro: Modernidade e Dupla Consciência. Rio de Janeiro: 34/Universidade Cândido Mendes, 2002.

*Orginalmente publicado emCadernos de Literatura em Tradução, n. 16, p. 171-180.



** Jessica Oliveira

Mestranda do Programa de Pós Graduação em Estudos da Tradução (PGET) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Possui graduação em Letras Português/Alemão pela Universidade de São Paulo (2014). Tem experiência na área de Letras com ênfase em Línguas Estrangeiras Modernas e Vernáculas, Teoria Literária e Crítica Feminista. Atua como tradutora autônoma de textos feministas e afro-diaspóricos.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

"Estrelas Além do Tempo": o filme que Hollywood nos devia! (Opinião)


Da esquerda para direita: a engenheira Mary Jackson (Janelle Monáe), a matemática Katherine Johnson (Taraji P. Henson) e a programadora Dorothy Vaughan (Octavia Spencer)


























Ao menos desde a estreia de “Histórias Cruzadas” (2011), Hollywood nos deve um filme sério, "real" e respeitoso, protagonizado por mulheres negras. E quando falo protagonizado, quero dizer que somos instruídas o bastante para saber que tempo em tela, nome nos créditos e sobreviver no final não tem exatamente a ver com importância. Eu falo do valor da negritude e o poder de protagonizar o querer e gerenciar a própria vida sem intermediárias.
Aquele filme desnudou a necessidade de propor personagens com histórias próprias, sem o branco salvador, sem meritocracia, sem homens brancos abusivos, e, acima de tudo: sem whiteporn - a exposição de pretos sofrendo, só pra continuar a repetir o que todo mundo já sabe. Já vimos isso demais e com grande destaque nos últimos anos, ao passo que produções incríveis como “Bessie” (Dee Rees, 2015) ou “Crazyhead (Howard Overman, 2016) não foram divulgadas o suficiente. Como um amplo gesto de reparação, “Estrelas além do tempo (Hidden Figures, 2016) chega nos cinemas brasileiros em 2 de fevereiro de 2017.

Primeiros Passos

O primeiro aspecto que me chama a atenção na produção audiovisual são os créditos iniciais. Se há personagens negras conhecidas, fico buscando seus nomes e, quando as desconheço, fico brincando internamente de descobrir qual dos nomes são os delas. Com o tempo, você pega a manha e, na maioria das vezes, descobre mesmo. Quarto ou quinto nome, mesmo quando os papéis são relevantes. Em “Crazyhead minha cabeça explodiu quando li o nome da Susan Wokoma, mesmo que em segundo lugar - significa muito e, ao menos, a sobrevivência em tela! Mas a surpresa e admiração maior veio no trailer de "Estrelas além do tempo". Os nomes de Taraji P. Herson, Octavia Spencer e Janelle Monáe estão no topo, com letras maiores e todo o destaque que merecem.

Elas trazem à luz três mulheres negras que foram imprescindíveis às operações espaciais no auge da Guerra Fria: Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson. Um aspecto crucial como os créditos iniciais junto ao cartaz do filme revelam que, a despeito das violências, do racismo e sexismo, nós também podemos existir de forma plural, para além das repetidas cenas de escravização e do trabalho doméstico. Diferente das horrendas cenas vividas por Brunhilde (Kara Washington) em “Django: Livre” e Aibileen Clark (Viola Davis) em “Vidas Cruzadas, eu finalmente me vejo em cada uma delas.

Mary Jackson

Verdade, Realismo e Crueldade

Muita gente poderá argumentar que "Histórias Cruzadas" é um filme realista, porque “a vida para negros naquela época era assim mesmo”. O que esse tipo de perspectiva não compreende é a diferença de narrar a experiência negra por meio de interpretação branca e a narrativa de quem foi segregada realmente. O que estou pondo em jogo não é a capacidade ou não de alguém descrever a sensação do outro, mas a disputa discursiva sobre a “verdade” da escravização.

Não é agradável estar associada a uma história de derrotas e sujeição. É doloroso. E não apenas pelo passado: a forma como o racismo é expressado cotidianamente, faz com que não esqueçamos por um só instante que, onde quer que estejamos, as circunstâncias das plantation serão atualizadas. Neste sentido, mais doloroso que o fato em si, é a reiteração duma narrativa que assujeita negros e nos submete à bondade branca. Quando não é sobre a morte da inocência (não saber que a dor do outro existe) o que motiva a pessoa branca é o interesse próprio. Ambos reforçam a importância e civilidade branca e apagam traços de humanidade negra. "Vidas Cruzadas" não faz brancos chorarem porque é triste, mas porque “como alguém é capaz de separar banheiro?”.

Em contrapartida, o choro é pouco no país em que garotas trazidas para o lar são quase da família, até que o estupro gere filhos. Esta história não é digna de choro porque enfatiza o papel real do privilégio, porque sendo sintética, privilégio é aclamação geral para oprimir, e raramente opressor gosta de se ver assim. Ele gosta de se ver como justo, bom e esforçado.  Racismo “é errado", eles dizem. Por que o errado emociona tanto?

Aristotélicos dirão que é o reconhecimento do real, a tal da mimesis. Mas meus óculos fazem crer que “o real” é que o conforto de um silencia a dor do outro, a ponto do sotaque universal do “dialeto negro” tornar reconhecível o sujeito ainda que desencontrado de imagem. Essa paixão pela ignorância, essa negação do próprio envolvimento presente com a escravidão, gera altos investimentos em produções hollywoodianas que ocultam Angela Davis, Assata Shakur, Audre Lorde e Alice Walker, a menos que nós por nós façamos "Preciosa", "A Bem-amada", "Queen Sugar", "I Will Follow" e "Middle of Nowhere".

Assim como Poussey (Samira Wesley) não precisava morrer daquela forma em "Orange is the New Black", não precisávamos assistir a Viola Davis comparando sua pele à cor duma barata em "Vidas Cruzadas". Ninguém precisa aprender mais sobre o branco significar uma neutralidade corruptível por outras cores. Ninguém precisa, em 2017, de se enxergar como pessoa “de cor” a menos que branco também o seja. Racismo não é sobre cor, mas sobre definição política. Pode parecer que não, mas todo mundo sabe quem é negro e quem é branco. Na prática, a porcentagem faz diferença no preterimento de quem se autodeclara branco, principalmente mulheres (Diego Nogueira é considerado austríaco, mas se fosse mulher não deixariam passar, né).

Além disso, diferente do que "Histórias Cruzadas" tenta convencer, os anos 1960 foram marcados por lutas. Sim, a população negra (inclusive apoiada pela amarela) lutou em diversas frentes (artística, religiosa, armada, educacional e nas atitudes diárias, como Rosa Parks). Apesar das protagonistas de "Estrelas além do tempo" não serem engajadas no movimento pelos direitos civis, há cenas de protesto. As lutas individuais de Dorothy Vaughan, Katherine Johnson e Mary Jackson são atos políticos. Elas não se deixam abater, apesar de todas as agruras.


Katherine Johnson

Logo no início, as três cientistas estão paradas na estrada rumo ao trabalho, quando são abordadas por um policial típico. Ele não apenas encarna a cidadania estadunidense, como age com desconfiança em relação às mulheres. Quando ele diz: “Eu não sabia que a NASA contratava….”, elas sabiam que, de forma alguma, deveriam tornar o “racismo” real, mas não se resignam: “sim, há poucas mulheres”.

Antes disso acontecer, Dorothy tenta consertar o carro, e Mary se irrita com a “sucata”. Dorothy logo explica, com bom humor, que ela pode ir no banco de trás (onde se encontravam os bancos para negros). É de se pensar o esforço da cientista para adquirir o carro como forma de resistência àquilo. Quando ele se aproxima, o temor (tão atual) vem da inconstitucional criminalização da negritude, do poder que pende para um só lado. Não apenas a revanche de Mary ao perseguir o policial, como a ironia, conferem as três o lugar de sujeito que tanto precisávamos ver como real no cinema.

E por que "Histórias Cruzadas" reitera a aceitação? Por que ignora os abusos domésticos? Por que mostra que negros devem amar os brancos mais que a si mesmos? Por que investe tanto em dizer que “nem todo branco”? É simples: porque "Histórias Cruzadas" é um filme de mulher pra mulher (branca). Muitas mulheres devem ter se sentido mais fortes, quando Aibileen repete: “você é inteligente”. Não é difícil encontrar mulheres bem intencionadas que queiram pesquisar, entender, escrever sobre mulheres negras. Difícil é reconhecerem os privilégios e abrirem mão deles. "Histórias Cruzadas" define bem esse gosto pelo exótico, menor, naif, que reduz o racismo à imoralidade, muitas vezes abstrata. Noutras palavras: “O racismo, ele existe. Somos racistas? Não”.

"Estrelas além do tempo" não deixa passar nenhum dos modos de racismo. Sim, todos os brancos do filme são racistas porque o sistema os constrói assim, porque é mais confortável viver a ficção de superioridade. Da sutileza dum olhar, ao desprezo expressado em alto e bom som, tudo passa por um claro comentário retórico. Não há salvadores, não há uma consciência benevolente. Existem negociações que abrem caminho para afetos, compreensão e reconhecimento. Como não é um filme para aliviar subjetividades brancas, as cenas de violências são abordadas sem gatilhos, e sim, como denúncia.

Um aspecto que particularmente me doeu em "Histórias Cruzadas" foi a crueldade na forma do papel dado a Octavia Spencer. Uma caricatura multicultural, que nós chamamos de Tia Benta. Spencer ganhou um Oscar amargo, que reforça o abismo de oportunidades que separam mulheres de homens, negros de brancos, e mulheres velhas de homens “charmosos". Spencer, apesar do talento, em "Histórias Cruzadas" é reduzida à interseccionalidade que representa sob o olhar da matriz autoproclamada ideal. Finalmente, em "Estrelas além do tempo" a sua habilidade de atuar foge à simbólica violência de representar a cidadania de segunda classe, como se fosse assim. A perversidade maior é pensar que, não fosse o destaque de "Histórias Cruzadas", talvez Octavia Spencer não tivesse sido cotada para revelar uma verdade sobre a NASA: nós estivemos lá!


Dorothy Vaughan

Longe de estar pronto pra reparação

A imagem mental construída desde a nossa infância é a de que ciência é produção de Verdade. Junto a ela, cientistas são representados segundo o modelo eurocêntrico de um Einstein, Emmett Brown (De volta ao futuro), ou dos joviais devires-einstein, Dr. Henry Pyn (Vingadores), Cooper (Interestelar), Billy (Power Rangers), Bruce Banner (Hulk), Sr. Fantástico (Quarteto Fantástico), Sheldon (The Big Bang Theory) e Dexter (O laboratório de Dexter).

Essas imagens, repetidas mil vezes, constroem e reforçam o imaginário de forma tão naturalizada que, na cabine de imprensa da sessão de "Estrelas além do tempo", ouvi um homem branco dizer ao semelhante "ainda bem que você veio, porque um filme como esse... precisa de comentários", com o tom de quem está acima das coisas. Se fosse um filme sobre mulheres negras humilhadas, estupradas e aniquiladas careceria de comentários? Esse é o ponto. Se "Histórias Cruzadas", um filme dirigido por uma mulher foi tão aclamado quanto "Django: Livre", isso indica um problema a ser investigado.

A realidade em que vivemos possibilita a pessoas como eles - que são o que/como são - a certeza de serem sujeitos, opinarem sobre tudo, determinarem e exigirem antes de ouvir. Para a maioria das pessoas privilegiadas, a empatia é antes uma palavra rasa como um pires, e que combina com simpatia (as vezes na classe média, soa quase como sinônimo de apatia). Os dois homens me fizeram pensar na metalinguagem posta ali: uma pessoa Preta numa plateia com pessoas brancas, quase dispostas a assistirem uma história. "Quase" porque o determinante é se pessoas subalternizadas podem contar suas histórias E SEREM OUVIDAS. Vamos lá: dois pesos e duas medidas. A convenção narrativa pode ser "algo a comentar", uma vez que não tem selo Lars Von Trier de abstração. Apesar disso, convenções narrativas são aclamadas a todo tempo: "Stranger Things", "Interestelar" e "Star Wars". O problema pode não ser a previsibilidade, mas, sem transparência alguma, o problema será a abordagem que não está direcionada à experiência branca masculina do processo. Quando você se sente vencedor antes da batalha, deve ser difícil assistir a duas horas de vitória alheia. Fanboys estão acostumados a serem o sol num sistema heliocêntrico (note a ficção aí) e são autorizados a todo momento, portanto, se constrangem com a segregação explícita, mas sentem um prazer secreto no sofrimento dos corpos e subjetividades diferentes da sua. Uma frase da Lady Sybylla sintetiza:

"Quando a balança pende apenas para um lado, você impede que pessoas do outro lado possam viver suas vidas. Impedidas de ter voz, você não pode conhecê-las."  
via Momentum Saga

A diferença básica entre nós, que não temos peso, e eles, é a que somos fluentes nas experiências hegemônicas, mas eles não sabem o beabá sobre nós; afinal, sua sobrevivência não depende disso. Não é exagero: pergunte algo sobre Frantz Fanon, Abena Busia ou Ubuntu para eles.

Ao longo da sessão (na qual eu era a única Preta) ficou evidente o desconforto das pessoas nas cenas em que a segregação era escancarada. Entre uma forte inspiração e resmungos, a culpa e a vergonha vinham a tona, como se o que assistiam fosse um absurdo muito distante do presente. Não me leve a mal, não estou condenando o constrangimento das pessoas, apenas enfatizando que quando eu ri, eu ri sozinha. Quando eles e elas riram, sentiram um alívio coletivo. Eu ri da ignorância que pessoas racistas tendem a performar, porque o privilégio é exatamente o direito absoluto à licença poética. Direito de existir, ser, errar, não entender e não criar. E, apesar disso, sentir uma superioridade inalienável… a menos que você pense e ouça. Eles e elas riram das trivialidades da vida: lei de Murphy, tropeçar, cair e se molhar.

Se, por um lado é importante que pessoas negras sejam convidadas a assistirem a qualquer filme, não apenas a categoria "ebony", por outro o desconforto de uma sala branca assistindo "Estrelas além do tempo" é inegável - o que deu a chance a várias pessoas de pensarem suas atitudes diárias. Para nós, "Estrelas além do tempo" é absolutamente sobre a potência de Mulheres Negras Brilhantes ocultadas até o presente. Foi o princípio de reparação que Hollywood nos devia depois do desserviço fílmico que chamaram no Brasil de "Histórias Cruzadas", mas no fundo, foi a consequência das desgraças de caravelas terem cruzado as nossas vidas.

Originalmente publicado em Delirium Nerd em 30/01/2017 




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