segunda-feira, 26 de junho de 2017

Você sabe como é ser Preta Nerd no Brasil?

#ocupeSeuCorpo
Como é ser Preta e Nerd no Brasil?


Hoje pela manhã, a youtuber Nataly Neri propôs em uma das stories que garotas negras alimentassem seus feeds com a hashtag #OcupeSeuCorpo. Com isso, ela reacendeu umas reflexões que tive assim que li o texto Corpo Utópico (Foucault): a consciência habita um corpo, mas não se limita a ele; não em totalidade; além disso, "de que forma habito e qual a grande narrativa que eu criei sobre meu corpo preto de mulher nerd?" são questões presentes no meu cotidiano e de muitas pessoas que se identificam desta maneira.

O racismo é um sistema desumanizador que limita a subjetividade a partir de hierarquização de diferenças físicas, interpretadas como psicológicas. Ele é o substrato social, que possibilita acessos e imagens de si diferentes entre brancos (que se entendem como neutros) e indivíduos racializados (entendidos pelos brancos, como tingidos ou coloridos). Nesta dinâmica, a dicotomia "corpo e alma" se estabelece da seguinte forma: alma é superior ao corpo, porque transcende a condição material, é criativa e ligada ao logos (conhecimento) ao passo que corpo é o limite da carne, restrito ao imediato e às sensações físicas. É evidente que separar tais características para compreender o humano não passa de equívoco, mas essa crença na superioridade da mente e da escrita, localiza brancos como naturalmente superiores, detentores das funções intelectuais e, por sua vez, população negra ao braçal, ao não produtor de conhecimento.

black woman
Podemos ser o que quisermos ser!
Source: JPM / Getty Images

Essa crença, levada à coletividade, constitui a imagem e representação do que os corpos podem ser. Nesta lógica, o corpo negro não pode ser consumidor de cultura pop, rock e tudo que fuja à ideia imediata de etnicidade. Como se rock não fosse de origem negra, como se não houvesse negro produzindo/consumindo cultura pop e como se não existíssemos.

O grande passo para a população negra nerd rumo à ocupação, apropriação e habitação de seu próprio corpo é a autodeclaração. Essa postura contra as "tendências de combinação", chacotas e a "sombra do cool", que afirma a legitimação do nosso corpo como suporte desta identidade (mal catalogada pelo Google imagens) é o verdadeiro passo contra o isolamento (síndrome de smurfette / tokenismo), contra o estereótipo de "negritude autêntica" e, ao mesmo tempo, contra a imagem única de que só podem ser nerds os clássicos clichês dos anos 1980. 

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Lunella Lafayette, a pessoa mais inteligente do Universo Marvel

Sem dúvidas, reivindicação da "estranheza" é uma das formas de reivindicação de subjetividade, afinal, a função do negro numa sociedade racista é voltar sua atenção ao afeto para com os seus e para sua própria subjetividade. Não é mera questão de visibilidade num mercado (porque o capitalismo não é a solução para desigualdade social), mas de quebrar o silêncio, autodeterminar e compreender o potencial de seu próprio poder de agencia. Resumindo: a consciência negra e nerd é um ápice do empoderamento do sujeito que habita o corpo negro, fora dos padrões de beleza, fora dos padrões de consumo e de uso da tecnologia (comprar a mesma coisa não significa consumir, compreender e se entreter da mesma forma. Isso é socialmente marcado pelos indicadores/pertencimentos raça, gênero, idade, classe, morfologia...).

Curiosa sobre tudo isso, a jornalista Amabilie Mendes decidiu fazer do tema Black Nerds no Brasil o tema de sua monografia e documentário, defendidos em junho de 2017. Segundo Amabilie, "trata-se dum webdocumentário sobre o universo Nerd com um recorte de raça visando exibir os negros dentro dessa temática, seja na representação simbólica ou como são colocados nesse espaço pela mídia"

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Militia Vox é uma das maiores vocalistas de Heavy Metal
Segundo a jornalista, é essencial "relacionar esses personagens fictícios e despertar a reflexão da inserção do negro neste espaço" o que ela fez a partir de entrevistas com pessoas negras que se identificam como nerds em diferentes estados brasileiros como São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro. 

Amabilie me propôs a participação quando nos encontramos na CCXP 2016, exatamente na mesa "A etnia dos heróis importa?". Lançar um olhar sobre a população negra nerd, que é tão pouco destacada neste cenário já constitui uma mudança radical na forma como jovens negras, negros, pessoas negras identificadas como lgbts possam ter imagens inspiradoras de modo a confrontarem o constrangimento e o isolamento e se declararem nerds, geeks, alternativa ou o que for. A contribuição desta pesquisa, para a população negra é imensurável, assim como a sensação de sentir identificada com seu próprio corpo e identidade: a sensação de quem ocupa seu próprio corpo.

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Jacqui Briggs é uma soldado que compõe o time principal de Mortal Kombat XL

Em 2015, durante a entrega do Emmy, a atriz Viola Davis afirmou que não é possível a uma atriz negra concorrer a premiações por papéis que não são oferecidos. Da mesma forma, a epígrafe escolhida por Amabilie destaca:

“Você não se sente tão real se não se vê refletido na mídia. Há algo muito poderoso em se ver representado”  
(Dwayne McDuffie, criador da Milestone Media)


Quando você realiza que seu corpo preto, (atlético ou não), seu cabelo (crespo ou não), suas roupas (cool ou não) e seus gestos convergem com seus gostos pela leitura, games e filmes, você passa a ser sujeito de si e a procurar sua própria maneira de resistir, existir e assentar. Minha trajetória pessoal do não existir ao existir, culminou no feminismo negro nerd de corpo e alma tem como marco a criação do Preta, Nerd e Burning Hell

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 Taraji P. Henson interpretou a matemática Katherine Johnson em Estrelas Além do Tempo

Sendo assim, é com imenso entusiasmo que compartilho com vocês Black Nerds: Representatividade negra em produtos nerd, o webdocumentário produzido pela Amabilie Mendes. Ele tanto dá voz e visibilidade à pessoas negras dentro de uma cultura nerd (produtoras de conteúdo, críticas e artistas), quanto evidencia que a representatividade negra nerd existe sim, no Brasil. 

Confira o site aqui: Black Nerds Brasil e o webdocumentário abaixo.


Capítulo 1 : O Nerd


Capítulo 2: Representatividade


Capítulo 3: Preta, Nerd & Burning Hell


Capítulo 4: Black Cosplayers



Capítulo 5: O Batman



Participação: Anne Caroline Quiangala (Preta, Nerd & Burning Hell), Lucas Felix (Black Cosplayers), Márcio Macedo (Mestre em Sociologia) e Mariana Santiago (Publicitária).




sexta-feira, 23 de junho de 2017

Perguntas Frequentes

Simone Missick

Essa semana participei dá palestra Qual a importância de pensar gênero e raça no mundo dos games? na Campus Party BSB e da mesa Adaptação de Quadrinhos para o Cinema (33ª Feira do Livro). Em ambos os eventos, me deparei com perguntas e comentários que se repetiram também em outros ambientes ao longo da semana, independente do lugar social dos sujeitos, bem como o grau de escolaridade e familiaridade com o tema. Assim, suponho que parte da nossa comunidade de leitoras e leitores possam ter dúvidas sobre os mesmos pontos.


- As mudanças na representação são forçadas?

Curioso que a Nova Marvel já passou de fase algumas vezes, inclusive, títulos como Moongirl and Devil Dinosaur e Black Panther: World of Wakanda já foram cancelados. Apesar dessa reviravolta, a maioria dos questionamentos parte da ideia de que "as mudanças não se justificam narrativamente", e de que "em vez de mudar o perfil étnico-racial, gênero, orientação sexual etc" deveriam criar personagens novos. O mercado de quadrinhos é marcado por um ciclo de altas e baixas vendagens, modulado por estratégias sensacionalistas como "inédito", mortes, zeramentos e reboots que bagunçam cronologias há mais de oitenta anos, portanto, a mudança faz parte da própria dinâmica histórica da Marvel. Assim, a mudança faz parte da história da mídia - ninguém inventou nada agora. No que se refere à mudança de status quo dos personagens, podemos citar o Capitão América Steve Rogers, o Homem-Aranha Peter Parker, que são personagens que têm mais de quarenta anos de publicações mensais, de modo que o esgotamento de suas premissas, origens e mortes é natural. A ocasional mudança de personagens que assumem os mantos - afinal, os valores ligados aos uniformes são mais duradouros que pessoas -, desde que seja feita de forma coerente, ou que o background já seja conhecido pode fazer grande sentido e ainda engajar leitoras e leitores. A Kamala Khan, nova Miss Marvel é uma personagem tão carismática e tão icônica para a atual geração, quanto foi Peter Parker foi na década de 1960.



- Essa história de empoderamento não entra na minha cabeça.

A primeira coisa que precisamos ter em mente é que nenhuma de nós é igual, e que pertencer ao mesmo lugar, raça, religião não significa sensação de pertencimento ou de unanimidade (que bom). Sendo assim, dois valores são essenciais: o respeito (a capacidade de ouvir, sem interromper) e a empatia (se colocar no lugar do outro como ser). Em vez de perguntar "fulana, como é se sentir negro?" você pode SE QUESTIONAR "como é ser o que eu sou? Que dificuldade ou que facilidade isso me dá? Quantas vezes eu penso sobre essa minha "vantagem" e sobre o quanto ela causa desvantagem no outro?" Privilégio é resultado de mecanismos como sexismo, racismo, capacitismo e etc, para compor (e recompor) o arranjo social tal como é e, assim, manter a desigualdade/ naturalizarem as opressões. Se você possui privilégios, empoderar - ou seja, conseguir poder - seja estranho porque você já possui. Neste sentido, os meios os quais as minorias se identificam ou mesmo, os meios dos quais se apropriam para se empoderar (como o funk, rap e outras manifestações de origem no geral negra - e não se esqueça que capoeira já foi a estigmatizada da vez) podem parecer antagônicos, mas isso não se trata de você compreender, concordar ou aderir. Se fosse, já poderíamos caracterizar como paternalismo, por exemplo. Em vez de elucubrações, talvez conversar com os indivíduos, ler o que escrevem e ouvir o que dizem como alguém do nosso tempo (não um olhar iluminista) seja o suficiente para entender o que eu disse.  


- Por que vocês gastam tanto tempo criticando parceiros (ex: homens de esquerda, feministas brancas...)?

Há uma célebre frase da ativista negra Sueli Carneiro que sintetiza a resposta: "Entre direita e esquerda, continuo preta". A maioria das pessoas brancas e/ou homens que se ofende com críticas a suas práticas interpretam de forma pessoal e, como crítica à pessoa, sem dúvidas, a interpretação de quem se sente alvo é sempre a mesma: "sou uma boa pessoa, só quero ajudar". Ora, o racismo e o sexismo não são problemas individuais; o racismo estrutura a sociedade e os indivíduos se apropriam dos mecanismos para manterem os privilégios. A negação ("Não sou racista, não") em si já identifica a dificuldade do individuo de lidar com a questão, e não porque ser racista é nocivo, mas porque "ser racista parece feio", "significa ser uma pessoa horrível" no sentido moral. Bem e mal são aspectos religiosos que não são úteis para discussões sobre racismo, e se você já leu algum sermão do Padre Antônio Vieira, já deve entender o porquê. Caso não, é o seguinte: o maniqueísmo (bem versus mal) tem sido usado por todo o tempo histórico registrado, como estratégia de hierarquização e - portanto - de criação/manutenção da hegemonia. Tendo em vista que o discurso da hierarquização da diferença já é naturalizado, potenciais parceiros que estão em posições mais favoráveis na pirâmide social, são incentivados ao longo de suas vidas a exercerem poder sobre indivíduos racializados e isso é passível de crítica. Dizer-se parceira ou parceiro é bem diferente de realmente ser; além do mais, o silêncio nunca nos salvou de nada; assim, nada mais justo que ter o direito de quebrar o silêncio, denunciar e  criticar sempre que for necessário. 


-Sua interpretação já foi além da obra/ já errou?

Interpretação é uma questão de poder, afinal só é autorizado a falar quem usa os métodos e estruturas legitimadas. Vale lembrar que, como um ser marcado pela linguagem (que é uma interpretação do real) o ser humano interpreta o tempo inteiro o real para tentar compreender. Também cabe lembrar que a arte é uma mediação, o que significa que as obras são escritas a partir dum olhar socialmente localizado e interessado, assim como o meu olhar. A diferença entre feministas é que não nos julgamos "neutras" ou "corretas" - diferente dos herdeiros do cientificismo do século XVIII. Como não acredito em verdades, mas de interpretações, também não concordo com o paradigma de "distanciamento" ou "neutralidade" de quem analisa um fato, método ou obra - independente da área do conhecimento. Eu parto de uma epistemologia concorrente da hegemônica e tenho um escopo de leituras/teorias das quais você pode respeitosamente discordar, apresentar argumentos "da vida" inclusive, mas isso não passa duma encenação do antagonismo social. Acredito que um dos maiores ganhos do pensamento mais à esquerda é a autocrítica, então eu procuro sempre ter isso em mente.



- Você não acha errado julgar o autor?

Nosso método de análise - alicerçado no feminismo nerd - privilegia leitoras de obras. Assim como optamos por "força de trabalho" em vez de "mão de obra", escolhemos sempre considerar o imaginário, a perspectiva, enfim, as lentes usadas para produzir uma obra. Não existe "a coisa em si", mas a coisa em relação ao sujeito que enxerga o mundo de determinada maneira e tem objetivos, poder, legitimação que definirá como interpreta e como representa este mundo. Então, nós não analisamos o autor, como pessoa, mas como individuo que faz parte da sociedade e tem valores fundados nela - normalmente valores racialistas e racistas desde uma identidade branca.

Leia também:  O que é Branquitude? 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Pantera Negra, Separatismo e um olhar para utópica "Democracia da Abolição"

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2018 promete coisa boa!


DIVERSIDADE, MERCADO DAS ADAPTAÇÕES E QUESTÕES DE TERRITÓRIO


O filme da Mulher-Maravilha tem levantado questionamento da comunidade nerd sobre ícones "diversos" no que diz respeito a live-action (isto é, filmes ou séries com atores reais). Enquanto uma série de fãs argumenta que personagens como Xena, Mulher-Gato e Elektra deveriam ser lembradas como heroínas (como se a Diana importasse menos), muitas outras afirmam que foi a primeira vez que se sentiram tão fortes assistindo a um filme. Eu me senti assim, quando assisti à trilogia Blade, na década de 1990, e esta ancoragem afetiva permanece intacta: #representatividadeimporta

Muita gente não sabe que Blade é uma adaptação de quadrinhos, sequer desconfia que se tratou dum investimento que possibilitou o atual momento, em que temos filmes de super-heróis agendados por alguns anos à frente. Apesar de o Universo Cinematográfico da Marvel (MCU) ser proposto como independente dos quadrinhos, sabemos que isso não passa duma "licença poética" para errar, manter valores conservadores típicos de Hollywood (como a formação dos Vingadores, versões cristalizadas de personagens como Peter Parker, Hulk, Demolidor e Capitão América) e ignorar que eventos roteirizados por Brian Michael Bendis são storyboards prontos para serem filmados. 

Aliás, antes que eu me esqueça: inserir o Nick Fury negro é uma negociação razoável para os produtores, porque ele não tem centralidade nas tramas. Tendo em vista, também, que a sua versão quadrinística e animada trouxe ao cinema popularidade junto à falsa sensação de representatividade (afinal, qual a vida que Fury tem além da S.H.I.L.D? Ele é um indivíduo ou uma função? Quais são as reais causas pelas quais ele luta?), mais uma vez um homem negro representa toda a população negra e equilibra (alguns) ânimos. 

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Samuel L. Jackson como Nick Fury em Vingadores

Por fim, o sucesso incontestável de Luke Cage avançou no sentido de adaptar a Era de Prata doa quadrinhos ao contemporâneo, de pluralizar as vozes e, principalmente, acertar as contas com a Misty Knight, personagem tão subutilizada nos quadrinhos. Ainda assim, a série não perdeu nada de realismo, verossimilhança e seja lá o que você espera desse tipo de produto. A questão que desejo enfatizar é que a história considerada séria é fincada em valores androcêntricos e lança mulheres e demais minorias políticas a um segundo plano. Essa visão política, quando transposta para a ciência ou para dispositivos midiáticos (quadrinhos e filmes por exemplo), instaura "verdades" aparentemente inofensivas e terrivelmente manipuladoras.

Exemplo disso é a bela e comovente história do jovem Prestes nos livros didáticos. Sua trajetória é parte da história da esquerda brasileira, que lança sombras sobre o ethos no intuito de criar a "grande narrativa". Desta perspectiva, parece que tampouco importa que Benario tenha sofrido tantos dissabores, violências e que o ranço sexista faça toda a diferença nos terrenos das militâncias, por mais companheiros que sejam os companheiros.

O mesmo vale para os Panteras Negras. O que você sabe além do fato de evocarem uma ética imediata de reparação material? O que você sabe sobre a situação de experiências interseccionais e sobre condutas masculinistas de pilhagens e espólios? De certo que os tempos eram outros, e que - como diz Angela Davis - fizeram o que era possível, dentro do que compreendiam e dentro das respostas que o contexto possibilitava. Nesta linha de pensamento, inclusive, Magneto parece muito certo que Xavier, concorda? Olho por olho, dente por dente, "somos melhores", "queremos nosso próprio país", revidar, vingar, voltar à essência, recuperar a honra... No fim das contas, uma inversão teórica, social e política. 

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O evento Dinastia M é um dos mais emblemáticos no sentido de discutir amplamente o conceito de diferença, minoria social, racismo e "cuidado com o que deseja".
No que se refere ao Magneto, que é um sobrevivente de campo de concentração, sua retirada para a ilha de Genosha é bastante simbólica por representar a solução encontrada pela Alemanha pós Segunda Guerra Mundial: a criação e reconhecimento do Estado de Israel e vultuosas indenizações. Reparação histórica é uma atitude justa desde que não seja usada para desencadear desigualdade, sofrimento e consequências indiretas como acontece em Marvel Especial: Vingadores Dinastia M. Neste quadrinho, acompanhamos Luke Cage, Misty Knight, Punho de Ferro e outros, que lutam contra o governo autoritário de Magneto, que persegue, escraviza e se torna para os sapiens o que eles sempre foram para a raça mutante ou homo-superior. Para muitos, isso pode parecer o ideal de justiça, mas felizmente, ao fim do evento, o personagem percebe que aquela não é a solução, porque não muda o passado, nem possibilita um futuro justo.

Black Separatist Hate Groups Over Time
Quantidade de grupos separatistas negros entre 2000-2016 via SPLC

É evidente que, quando lemos Guerra Civil: Dinastia M, podemos reconhecer e sentir total empatia pela agonia que Magneto sente por ser duplamente identificado como minoria. Sentimos isso, sobretudo porque ainda vivemos sob o julgo de injustiças sistêmicas, embasadas pela escravidão, traumas históricos como memórias plantadas e, nos EUA as Leis de Jim Crow. Apesar disso ser frustrante, precisamos compreender que o desapontamento não pode nortear a nossas práticas políticas per se, fato que tem sido bastante comum em coletivos de jovens negros ávidos por performar Malcom X e na ascensão de supostas práticas africanistas e/ou afrocentradas que ignoram a complexidade e a nossa distância geográfica da África (que não é um imenso e homogêneo país, mas um continente composto por 54 países diferentes). 

Este exemplo não tem em vista pontuar o passado, mas evidenciar o compromisso presente. Não podemos olhar para a história de forma isolada, com nostalgia de manter vivo o método e responder ao contexto atual de forma similar - afinal, professor X, ou Martin Luther king Jr, ninguém quer ser. Talvez o que nos resta, em grande medida, é a responsabilidade de ter senso crítico e de buscar novos métodos. Neste sentido, vejo a hype do filme Pantera Negra por duas vias:

1. Necessidade de discutir os problemas de teorias do separatismo, nacionalismo negro, afrocentrismo e pan-africanismo num viés contemporâneo e crítico.
2. A verdadeira democracia da abolição só é justiça social se prevê igualdade na diferença, paz e bem-estar coletivo. O mesmo vale para os feminismos, afinal "feminismo que não luta pelo fim do racismo é mais uma modalidade de supremacia branca"

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Chadwick Boseman, o Pantera Negra


PANTERA NEGRA COMO DISPOSITIVO POLÍTICO 


O  desafio de Pantera Negra é o de ser um filme de preto pra branco ver e ainda agradar aos negros. As imagens grandiosas do trailer oferecem à população negra (aqui eu me refiro ao corpo social) uma imagem unificada, masculina e superlativa tão traiçoeira quanto nossa ansiedade por representação permite, ou mesmo, exige. Assistindo ao trailer, muita gente deve ter sentido o insight de que Wakanda é um oásis livre do racismo, um país com instituições negras, prosperidade e tecnologia, tal como antes do sequestro dos ancestrais para serem escravizados. Muitos vislumbram Wakanda como possibilidade real e necessária de esquecimento do real.

Com isso, não estou dizendo que a colonização é o que há de mais importante sobre ser negra - óbvio que não - mas como brasileira, cujo pai é angolano, posso afirmar que a grande diferença identitária entre meus pais é o entendimento de racismo. Se para o meu pai, situação racista se trata duma "situação muito chata", próxima da rudeza, para minha mãe, racismo é reviver um trauma historicamente ancorado. Sem dúvidas, esquecer ou não querer refletir a respeito são formas legítimas de lidar com o trauma, o que desejo enfatizar é que a experiência diaspórica exige uma consciência negra distinta. Esse abismo evidencia que negro não é cor, mas posicionamento político.

A superioridade moral espantosa de T'Challa em face dum Luke Cage ou mesmo dum Sam Wilson evidenciam a diferença, não estritamente material e intelectual, mas o privilégio do príncipe de não ter se constituído pela relação de alteridade preto/branco, inferiorização e escravidão. Se considerarmos que heróis são aqueles que lutam pelas nossas causas e, além disso, aqueles ícones que revelam o que há de melhor em nós, receio que o Pantera Negra tenha objetivos, interesses e poder que não incluem experiências para além das fronteiras de sua nação. Nos quadrinhos é sempre evidente que sua participação nos Iluminatti e mesmo nos Vingadores (veja a saga Guerras Secretas 2 - 2015) tem como objetivo único manter Wakanda intacta, enquanto salvar o mundo é consequência.

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Wakanda

É neste sentido que vejo algumas declarações do atual roteirista dos quadrinhos do Pantera Negra, Ta-Nehisi Coates, como profundamente problemáticas. Segundo o roteirista, em seu livro Between the World and Me, "devemos nos inspirar mais nos judeus" sugerindo que a narrativa do Êxodo une as comunidades negra e judaica no objetivo de alcançar a dignidade. Para ele, que entende o modelo Israel como exitoso, a reparação africana deve se constituir dum investimento semelhante ao da Alemanha, para construir Israel. Um renomado jornalista como Coates, sem dúvidas, tem uma responsabilidade considerável, e propor um discurso imperialista como esse, que não oferece soluções para as injustiças sistêmicas; precisamos duma nova lógica. Se os planos não preveem que reparação demanda mudança de visão de mundo, extirpação da centralidade no ódio, no falo e no logos (falogocentrismo) como poderá ser justa para todos? Sem dúvidas, o Pantera Negra, o monarca do hiperbólico reino de Wakanda - nação africana “altamente avançada - é um substrato apropriado para transmitir valores hierárquicos e separatistas.

Enquanto o spin-off Black Panther: World of Wakanda traz mensagens de empoderamento feminino e LGBT pode ser visto como um avanço considerável em termos de representação de mulheres Negras, é importante notar que elas são figuras tão distintas que não representam o melhor de nós da diáspora e isso pode dar ânimo às investidas políticas interessadas em mimetizar/performar um ethos supostamente africano, como se desver a violência colonial fosse possível, como se não precisássemos de conceitos novos.

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Angela Davis

DEMOCRACIA DA ABOLIÇÃO


Todas nós desejamos um lugar seguro para nossos corpos, bem como cidadania plena e, segundo Angela Davis, a Democracia da Abolição é exatamente essa utopia. Já parou para pensar sobre o quão complexo estão as discussões sobre representação de raça e gênero? Sem dúvidas, a injustiça histórica somada aos aparatos burocráticos oferece um caminho fácil, que é o de desejar uma oportunidade igual de perpetuação de desigualdades. Ideologias supremacistas, são arcabouços do Ocidente, opostos à igualdade e solidariedade e traiçoeiros. 

Desejar privilégios, superioridade e domínio sobre populações é o oposto de se livrar da escravidão. Sem resolvermos o trauma colonial e mesmo o controle discursivo que insiste em informar que é impossível ter uma vida sã e honrada, a liberdade real jamais será alcançada. Por melhores que sejam os objetivos nacionalistas, de empreender uma solidariedade territorial, ignorar a complexidade do aqui/agora como a necessidade de Lei Maria da Penha, Feminismo Interseccional é honestidade intelectural. Atualmente, não é suficiente discutir o racismo isolado de outras opressões, porque a lógica de diferenciação e hierarquia modula as relações em diferentes direções (sexismo, lgbtfobia, gordofobia), ainda que não sejam sistemáticos como racialidade e racismo

Podemos reconhecer em Wakanda uma raiz identitária positiva, inclusive tendo em vista a animação Supremos 2: Descubra o poder do Pantera e quadrinhos Quem é o Pantera Negra? (que tem uma animação homônima) cujo roteiro-base é do Reginald Hudlin. Sem dúvidas, me incomoda que o conceito de Hudlin seja baseado na masculinidade de Jay Z e que a representação de mulheres seja bastante difusa - inclusive a irmã Shuri. Associar aspectos positivos da negritude estritamente à África é uma estratégia supremacista de convencer a desistirmos voluntariamente da Democracia da Abolição tão danosa quanto a ideia de que poligamia masculina é natural (fato que a autora moçambicana Paulina Chiziane discute em seu romance Niketche - uma história de poligamia, de 2001). Sem dúvidas, o continente africano é nossa matriz étnico-racial, e não tenho como objetivo neste texto me autodeclarar correta, mas não podemos nos iludir, nem absorver o que soa autêntico de forma acrítica.

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COMENTÁRIOS SOBRE O TRAILER/ O QUE ESPERAR


Pantera Negra (Black Panther) estreará no Brasil em fevereiro de 2018. Dirigido e co-roteirizado por Ryan Coogler, o filme conta com um majestoso elenco de atrizes a atores negros, dentre elas e eles: Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong'o e Danai Gurira. A trama se passa após Capitão América: Guerra Civil. Ao retornar à Wakanda, T'Challa se depara com intrigas de facções contra o seu governo e, junto a sua guarda-pessoal Dora Milaje, ele lutará para manter a união do país (que. dentre outras coisas, significa a centralização do poder político, econômico e religioso em suas mãos).

O trailer, publicado em junho de 2017, inicia com o Garra-Sônica desnudando a estratégia de disfarce do reino de Wakanda: ele não é um país africano de terceiro mundo. Em oposição a isso, imagens da natureza, da tecnologia wakandana e do próprio T'Challa constroem a dinâmica sujeito (branco) versus objeto (tudo e todos que não são brancos) e causam uma frustração semelhante ao início de Quem é o Pantera Negra? Apesar das sequências revelarem pouco da trama principal, a apresentação dos antagonistas brancos tem uma centralidade em detrimento das personagens que mais nos interessam; os conceitos estéticos, por sua vez (assinados pela figurinista Rutch Carter), técnicas de luta, fauna e flora nos introduzem maravilhosamente aquele mundo.

Inclusive a busca de Carter por autenticidade, retoma a discussões sobre identidade negra da década de 1960. O que o homem negro quer?" questionou Frantz Fanon em Caras Negras, Máscaras Brancas ao constatar que "o homem negro não é. Tampouco o branco" - porque se constroem pela alteridade. O que significa ser negro e o que pode ser criado para representar o orgulho é uma discussão que podemos esperar do filme.  

Garra-Sônica, nos faz pensar que há sempre o perigo de transformar o filme de origem do herói em origem do vilão, mas se o vibranium apareceu só de passagem, quer dizer que muita coisa ainda será revelada.

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Dora Milaje

Em relação às Dora Milaje: as cenas de luta e, mesmo o tempo em tela mostrando a imponência das guerreiras, evidencia que a contraparte da elevação de T'Challa é tão sofisticada e precisa quanto. Se em Guerra Civil não pudemos apreender tanto as personagens, podemos esperar arcos fantásticos neste filme - ao menos, o trailer promete!

Se, por um lado, devemos temer o modo como se expressará o essencialismo estratégico que envolve a ideia de negritude, por outro, se mantivermos a urgência inquieta por justiça e reparação longe de uma visão de mundo bélica/colonizadora e mesmo duma idealização de África, sem dúvidas o filme nos possibilitará uma diversão e uma discussão formidável sobre negritude, identidade e Democracia da Abolição.

Em relação à critica ao esgotamento dos super-heróis em tela grande: acredito que o núcleo da geração de fãs que acompanham o crescimento do universo Marvel, nos filmes e no streaming, não desistirá tão cedo de ir ao cinema e também duvido que os fãs ocasionais se afastem agora por mero desgaste da fórmula. Essa especulação parece bastante contaminada pela fobia de representação de minorias sociais em espaços regidos por muito dinheiro, como o cinema. O que definirá os rumos dessa potencial onda de sucesso - e o que definirá Pantera Negro como sucesso - em termos de representatividade e bilheteria é o cuidado dos produtores com os conceitos e o investimento em consonância com o público real, isto é, composto por muito mais que um padrão racial, estético, sexual e morfólogico.


segunda-feira, 19 de junho de 2017

Qual a importância de pensar gênero e raça no mundo dos games?

black girl plays videogame
A rapper Sammus, jogando Metroid

Entre 14 e 18 Junho 2017 aconteceu a primeira Campus Party Brasília (#CPBSB) no Centro de Conveções Ulysses Guimarães. O evento contou com diversas atividades (palestras, workshops, arenas de drones, estandes), que se tratavam de empreendedorismo, tecnologia, inovação e criatividade, além da atrativa internet de 20GB cabeada. Aproveitando a campanha Vire um Curador da #CPBSB propus à cineasta Viviane Ferreira que fosse palestrante duma comunicação chamada Qual a importância de pensar gênero e raça no mundo dos games?




Devido ao fato de nossa atividade não ter sido uma das mais votadas, o convite para integrar a programação foi realocado e Viviane não pode comparecer. Sendo assim, de curadora virei palestrante da atividade. Antes de falar propriamente da palestra, gostaria de sugerir o vlog do Canal nanoTech, sobre todos os dias da Campus e uma visão crítica do evento:

Após a palestra a conversa também foi ótima! Conheci Isabelle, Vitor e Lucas e outras pessoas interessadas no tema.

#PRETANACAMPUS



Cheguei por volta das 20h, da sexta-feira 16 de junho de 2017 à Campus e tive o primeiro baque: não havia internet wifi, então não consegui fazer nada para upar em tempo real. Passeei pelos estandes do CEUB, Cabify, na lojinha oficial e - claro - os mesões com internet cabeada.




Apesar disso, registrei a espirituosa palestra da Cristiane Borges Santos sobre segurança na internet, que ela denominou Como mandar nudes em segurança? Ela começou falando sobre a segurança ser uma sensação, não um fato, e foi desenvolvendo a questão de roubo de informações e golpes serem muitas vezes, possibilitadas pelo modo como a/o usuária/o se comporta nas redes sociais e quais os acordos aceita ao baixar aplicativos.

Encontrar o foco não é o meu forte, mas essa palestra foi incrível: divertida, didática e profunda.
  "Como mandar nudes em segurança?" foi proposta pela Cristiane Borges Santos, no palco Empreendedorismo e inovação às 21h30 do dia 16/06/2017.



Qual a importância de pensar gênero e raça no mundo dos games?

Qualquer pesquisa no Google, seja usando o termo black girl plays videogame ou mesmo garotas/mulher negra jogando/joga videogames fornecerá um número ínfimo de imagens de pessoas negras, em especial, mulheres. Isso diz muito sobre o imaginário que desconhece a comunidade Black Girl Gamers (Twitch, Youtube, Facebook e Twiter), bem como o Nerdcore da rapper e pós-doutoranda Sammus. É evidente que que todo mundo joga videogames (#everyoneplays), mas a presença de minorias sociais, seja na produção ou como personagens dos jogos costuma ser ignorada.
A imagem pode conter: 1 pessoa
Capa do grupo feita por Jay-Ann Lopez.

Assim, a proposta da comunicação teve em vista que:
"Após a reformulação da personagem Lara Croft (Rise of the tomb Raider) e da Furiosa (Mad Max), em 2015, questões como a representação de heroínas no mundo dos games, filmes e dos quadrinhos se popularizou. 
Além disso, diversos casos de assédio e textos críticos sobre #sermulheremgames mostram o quanto é difícil para mulheres e outras minorias sociais permanecerem nestes espaços, bem como identificarem-se como nerds, geeks e gamers. 
Neste sentido, é essencial discutir e refletir a respeito da representação de mulheres, negros e outras minorias sociais nos games, bem como a representatividade no campo da produção de jogos e de direcionamento a este público-alvo."
É relevante ter em vista que, pensar raça e gênero não diz respeito apenas ao modo como mulheres e pessoas racializadas estão presentes ou não, mas também ao modo como pessoas brancas e/ou homens são constituídos.
 Tendo em vista os três eixos que constituem o campo de análise da representação de raça e gênero (produtores, personagens e comunidade), construí a apresentação discutindo seu embricamento, mas privilegiei a análise de algumas personagens negras e mulheres. Você pode ler online ou baixar a apresentação aqui e conferir a palestra abaixo:

 MIN 47

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Detective Comics #2: lesbiandade é problema com o papai?


Detective Comics #2 (maio/2017)
originalmente publicada em Detective Comics #936 (setembro/2016)
Roteiro de James Tynion, Desenhos de Alvaro Martinez, Arte Final de Raul Fernandez, Cores de Brad Anderson.

DE LILITH À EVA

A edição anterior de Detective Comics introduziu a equipe que estrela o arco: Batman, Batwoman, Robin Vermelho, Orfã, Spoiler e, o vilão regenerado, Cara de Barro. A contextualização focou no pedido que o Batman fez à sua prima, Kate Kane (Batwoman): treinar um grupo heterogêneo de jovens com grande potencial. O problema, como eu disse anteriormente, é que integrar a Batwoman à bat-família significa trair a motivação dela ao assumir o manto por conta própria, sem pedir permissão. Se nos Novos 52 ela era uma outsider, notívaga e solitária, que se rebelava contra a "lei do pai", personificada na figura do Batman, no Renascimento ela virou a matriarca. 

Apesar disso, o sequestro do Batman em Detective Comic #1, abriu uma possibilidade narrativa para ela, tanto que a segunda edição começa com uma bela passagem sobre o passado dela como militar:

Detective Comics (2016-): Chapter 936 - Page 4


Apesar dos requadros nos direcionarem para a uma ideia próxima à da gênese dos Novos 52, em que foi expulsa da carreira militar devido à aplicação da lei "Não pergunte, não conte" (sobre a homossexualidade nas forças armadas), ela está apenas contando à sua ex-namorada, Montoya, sobre sobre as cobranças excessivas e assédio moral que sofria do Sargento de treinamento. Essa conversa acontece num clube noturno, aparentemente, para mulheres.

Página 3 (detalhe)

Kate está com um vestido que mostra os ombros e suas mãos estão à vista, acompanhando sua estranha tentativa de reconciliação. Como sempre, ela tenta se conectar, mas "não pode dizer o que está fazendo", ao menos, não agora. Apesar dessa tentativa soar sincera, Renee Montoya, tem uma postura distante,  e demonstra indisposição para lidar com uma situação que parece repetida. Ela está com um grosso casaco e ambas as mãos nos bolsos, e, assim que sugere à heroína que "procure ajuda", deixa a mesa.

O fato de acompanharmos a história pela perspectiva de Kate, pode nos levar a julgarmos a atitude de Montoya como ressentimento injustificado. Mas não podemos perder de vista que Renee Montoya é uma mulher racializada e lésbica, e que exigir que ela seja mais compreensiva e não que Kate seja emocionalmente mais constante, responsável e cúmplice evidencia o que se chama de emotional labor, um esforço emocional, de compreensão e afeto não recíproco que, usualmente, pessoas brancas e/ou homens exigem de pessoas racializadas e/ou mulheres e tornam as relações trabalhosas, pesadas e tóxicas. 

Esses momentos de desilusão, conjugados à vida de vigilante, mostram que Kate é uma pessoa com grave carência emocional, e uma ambivalente necessidade/dificuldade de se conectar afetivamente. Evidente que, essa continuidade retroativa (retcon), ou seja, alteração de fatos da cronologia de personagens, fez com que ela retornasse à estaca zero - e não porque ela não tenha orgulho de ser lésbica, ao contrário, ela abriu mão da carreira por isso - de buscar reatar com Montoya. Tudo porque a DC achou relevante apagar a progressão que culminaria no casamento com a policial Maggie Sawyer.

Embora muita gente possa argumentar que a sina do super-heroísmo é ter de abdicar do grande amor como prova de devoção à humanidade, há casais - fora Manto e Adaga - que funcionam bem. Agora falando mesmo da concorrente: atualmente, Peter Parker e Mary Jane vão muito bem, obrigada. O mesmo sobre Luke Cage e Jessica Jones e outros casais importantes e, curiosamente, heterossexuais. Aliás, eu li em algum lugar que, na época em que censuraram o casamento de  Kate e Maggie, o Superman e a Mulher-Maravilha estavam se relacionando.

Na maior parte da conversa, a condução narrativa não propõe uma discussão real sobre a supressão de emoções que rege as decisões de Montoya, seja  de se recolher, se afastar ou ir embora. Apesar disso, o recordatório de Kate deixa um gancho para o arco principal da história de heroísmo, sequestro do Batman e reunião da bat-família: A Ascensão dos homens-Morcego. Na primeira página, ao contar sua trajetória no exército, Kate nos informa que contou ao tenente que desejava ser igual ao pai, o Coronel Kane.


QUEM É A QUERIDINHA DO PAPAI?


Enquanto recorda os tempos do exército, Kate evidencia o quanto o Sargento a assediava moralmente por ousar desejar ser como o pai. Certamente, querer "ser igual ao pai", faz com que ela leve muito a sério a ideia de que deve ignorar suas próprias emoções. Isso faz com que ela se sinta culpada por não conseguir reprimir, incompleta por não conseguir se conectar a alguém e frustrada por não ser autossuficiente. 

"Se por um lado, essa culpa de sobrevivente rege muitos dos valores e das atitudes de Kate, por outro, não ter uma referência feminina e ser criada por um pai mentiroso, manipulador e obcecado pelo poder, indica que problemas com pai ocasionam rebelião contra a Lei do Pai."
Logo após "o fora" de Montoya, ela é recebe uma ligação do Robin a convocando. Em algumas passagens, aliás, fica evidente que o "gênio do grupo" reconhece a autoridade da Batwoman porque "O Batman disse que ela estava no comando" e "confia nele",  mas o morcego disse tudo como ele queria, de modo que o Robin continua sendo subordinado ao patriarca. Essa experiência de desempoderamento faz com que Kate Kane tente assumir o controle, independente da desvantagem posta (vide sua inserção no "mundo dos homens").



Quando descobre que o Batman está com problemas, Batwoman imediatamente após contactar sua equipe, usa sua última gota de confiança e liga para o seu pai, que pensa alto: "essa é a minha garota". Apesar de não termos acesso ao background completo dos dois, possivelmente Kate foi sequestrada junto à mãe e à irmã gêmea Alice por "terroristas", sendo que apenas Kate sobreviveu. Se por um lado, essa culpa de sobrevivente rege muitos dos valores e das atitudes de Kate, por outro, não ter uma referência feminina e ser criada por um pai mentiroso, manipulador e obcecado pelo poder, indica que problemas com pai ocasionam rebelião contra a Lei do Pai. Dentre outras coisas, isso também pode indicar identificação com a figura de autoridade, mas total distanciamento emocional, e sutilmente explicar a lesbiandade de Kate Kane. Essas são ideias tradicionais, ancoradas numa interpretação sexista e homofóbica da subjetividade bem iluministas, eu diria.

Detective Comics (2016-): Chapter 936 - Page 18


Em diversas passagens da edição, o Coronel mostra como sua ética militar, nacionalista e masculinista se alinham na direção de valores acima de sua relação familiar. Segundo seu discurso, ele acredita que depositar suas expectativas em sua filha resolve os problemas da nação e os dela, afinal ele diz: "[...] eu conheço  você, Kate. Sei o que quer. Do que precisa". Apesar de, no final das contas, a Batwoman se retinar totalmente decepcionada com o pai, desde o inicio o Robin Vermelho avisou que "O Batman frustra as pessoas".


"Já me ouviu, Spoiler. Essa luta é minha.Nunca deveria ter envolvido vocês. Eu preciso encontrar meu pai. Eu preciso cuidar disso"


A narrativa de Detective Comics #2, é centrada na subjetividade fragmentada da Batwoman. Se, por um lado, podemos identificar em sua personalidade uma fragilidade emocional que a humaniza e possibilita a conexão com o público, por outro, o fato de seu pai ser o perigo cíclico mais aterrador embora "preocupado com o bem-estar", metaforiza violências pra além duma toxidade parental (bem comum em Gotham, vide o Comissário Gordon). A representação do Coronel Kane encarna os horrores da homofobia e impedem o desenvolvimento da marca de Kate: a habilidade de "cavar seu próprio espaço numa estrutura que a exclui". Sem dúvidas, faz todo o sentido que a mitologia da DC - que tanto adora dramas familiares (vide Martha) - a maior fraqueza duma heroína seja seu pai. O problema é que a recorrência, associada ao fato de Kate Kane ser uma heroína porque é lésbica/não uma heroína lésbica, é bem suspeito que sua vida amorosa seja uma eterna bagunça e que sua referência de figura paterna seja tão ausente quanto abusiva.


O dia 28 de junho é o Dia Internacional do Orgulho LGBT. Nessa mesma data, em 1969, lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e drag queens se uniram contra as batidas policiais que ocorriam com frequência no bar Stonewall-Inn, em Nova York. O episódio marcou a história do movimento LGBT, que continua lutando por direitos e visibilidade. Em homenagem à data, durante o mês de junho, portais nerds feministas se juntaram em uma ação coletiva para discutir de temas pertinentes à data e à cultura pop, trazendo análises, resenhas, entrevistas e críticas que tragam novas e instigantes reflexões e visões. São eles: Collant Sem Decote, Delirium Nerd, IdeiasemRoxo, Momentum Saga, Nó de Oito, Preta, Nerd & Burning Hell, Prosa Livre, Valkirias. #wecannerdit #nerdiandade #nerdgirl#feminismonerd

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Finn, Poe e Queerbaiting

Da esquerda pra direita: Finn (John Boyega) e Poe (Oscar Isaac)


Queerbaiting, ou isca LGBT, é um fenômeno relativamente antigo. Por volta de 1920, era “proibido” criar narrativas explicitamente gays. Burlando esse fato, autores criavam subtextos que insinuassem a não heterossexualidade dos personagens. Amizades intensas, pessoas adultas do mesmo gênero que moram juntas há anos ou homens adultos sem interesse amoroso.

À medida que a comunidade LGBT se estabelecia e passou a exigir uma maior representação na mídia, as empresas viram no queerbait uma forma de fisgar este público e, assim, lucrar sem por em risco a heteronormatividade de suas obras.

São exemplos de queerbait as séries Sherlock (onde o personagem título e Watson, companheiro de trabalho de Sherlock, moram juntos, apresentam diversas cenas com tensão sexual e até outros personagens apontam que eles parecem um casal), e Once Upon A Time, (em que Regina e Emma apresentam a clássica narrativa de inimigas para algo mais, ambas são mães de Henry e têm uma relação de pais divorciados e a interprete da Emma, Jeniffer Morrison, já disse em entrevistas que interpreta sua personagem como sendo apaixonada por Regina). O canal Muro Pequeno recentemente fez um vídeo sobre o tema.



Mas afinal, o que isso tem a ver com Finn e Poe de  Star Wars? Os dois formam possivelmente o casal com maior número de fãs, apesar de pouco ou quase nenhum embasamento para o romance. Até aí não há nada de errado, os fãs podem se apegar aos casais que quiserem. Essa é uma das faces divertidas de sermos fãs.

Entretanto, as empresas continuam olhando tudo com uma ótica de lucro. E assim surgem comentários como o de, Oscar Isaac, interprete de Poe, que alega após o sucesso do casal ter interpretado seu personagem apaixonado por Finn desde o começo ou, mais recentemente, um produtor afirmou que não no episódio VIII, mas talvez, quem sabe, haja uma possibilidade de abordar o romance no próximo filme.

E aqui está o problema: os fãs estão celebrando promessas vazias que não asseguram nenhuma representação. E aqui não é puramente uma questão de otimismo ou pessimismo, mas comemorar ou celebrar tais comentários são formas de perpetuar o queerbait. As empresas vão nos tomar por consumidores satisfeitos e que não precisam de representação maior e real, além desta já insinuada.

Se, de fato queremos avançar com a representatividade LGBT, precisamos ser céticos, críticos e não nos contentar com pouco. Já passamos da fase de sermos felizes por termos possibilidades ou casais criados de lugar nenhum.


O dia 28 de junho é o Dia Internacional do Orgulho LGBT. Nessa mesma data, em 1969, lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e drag queens se uniram contra as batidas policiais que ocorriam com frequência no bar Stonewall-Inn, em Nova York. O episódio marcou a história do movimento LGBT, que continua lutando por direitos e visibilidade. Em homenagem à data, durante o mês de junho, portais nerds feministas se juntaram em uma ação coletiva para discutir de temas pertinentes à data e à cultura pop, trazendo análises, resenhas, entrevistas e críticas que tragam novas e instigantes reflexões e visões. São eles: Collant Sem DecoteDelirium Nerd, IdeiasemRoxo, Momentum SagaNó de Oito, Preta, Nerd & Burning HellProsa Livre Valkirias#wecannerdit #nerdiandade #nerdgirl#feminismonerd