sexta-feira, 28 de abril de 2017

Jogando: TALES FROM THE BORDERLANDS (Episódio 1)

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Fiona e Rhis: os principais personagens jogáveis

Tales from the Borderlands (PC, Xbox One, PS4) é um  jogo episódico produzido pela TellTale Games. Ele segue o estilo de cartunesco focado na narrativa na qual exploramos o cenário e tomamos decisões cronometradas como The Walking Dead (TellTale) e Life is Strange (Square Enix). Diferente destes últimos jogos, Tales from the Borderlands é uma aventura de comédia e ação. 

Diferente de Life is Strange, há elementos pontuais para interagir em cada cenário além de momentos em que é necessário atirar,  mas os personagens geram grande identificação. O ponto alto, aliás, é a construção de personagens e a trilha sonora, mas quem é fã de Mad Max provavelmente amará a ambientação e a interação com os personagens não-jogáveis.

Primeiro Passo: conhecendo o Rhys


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Num primeiro momento assumimos a pele de Rhys, um típico anti-herói sortudo que trabalha para a corporação Hyperion. No momento em que acredita que será promovido, Rhys é sabotado pelo novo chefe Vasquez, um chefe arrogante que faz questão de ser seu inimigo desde o primeiro contato.


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Essa corporação controlada por Vasquez mantem o controle do planeta Pandora numa estação espacial. Esse poder moral e tecnológico da Hyperion faz da corporação uma instituição odiada pelos cidadãos de Pandora, de modo que o episódio inteiro será permeado de piadas sobre isso.


Vasquez faz questão de ressaltar sua masculinidade, como se suas atitudes desleais fossem uma especie de "evolução da espécie"


Toda a interação com Vasquez é marcada por opções pouco afáveis, então já identificamos Rhys como uma pessoa que se não tem medo de se arriscar e é incapaz de performar atitudes resignadas. Apesar disso, você pode conduzir suas atitudes para uma ética mais ou menos leal com as pessoas próximas.


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A barra de tempo em vermelho e todas as opções (exceto o silêncio!) conduzem o personagem a agir "à altura"

Um personagem não-jogável (NPC) que nos acompanha por todo o episódio é o melhor amigo Vaughan "o homem do dinheiro" (contador). Ele é o típico sidekick que tem atributos morais e materiais, mas funciona como materialização de tudo o que o protagonista não é. Ele é um tanto covarde, mas faz questão de estar ao lado de Rhys seja qual for a situação.


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A outra melhor amiga de Rhys e de Vaughan é Yvette e é ela quem faz os requerimentos. Toda vez que for necessário solicitar suprimentos e armamentos é ela quem arriscará seu emprego por você. Por mais que ela não se arrisque a ir para a aventura em Pandora, sua lealdade é inquestionável por todo o episódio um. 

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É uma personagem que eu gostaria de ver mais interações, porque em todas as cenas em que aparece ela faz um comentário sarcástico típico de quem observa as cenas. Apesar de ser um estereótipo como personagem não-jogável, quem sabe fosse mais profunda?

Desde os primeiros momentos em que começamos a jogar, já nos ambientamos na perspectiva de Rhys e arrumamos confusão com o povo de Pandora. E aí?

Segundo Passo: O que é engraçado?


As informações sobre Pandora vão sendo mostradas de forma fragmentada e um dos momentos em que isso fica mais claro é numa espécie de Gabinete de Curiosidades. Rhys e Vaughan caminham juntos pelo "museu" e o protagonista analisa as peças com o seu óculos, Neste momento eu comecei a notar certas questões que não passam despercebidas.

São vários os espécimens exibidos, mas me chamaram a atenção especialmente dois: a formiga operária e o braço podre.


Formigaranha racista (?)

A construção dessa análise como se fosse neutra, transmitida digitalmente não questiona o quanto o banco de dados está reforçando uma perspectiva nada engraçada. Veja, se a Formigaranha operária está em seu território, que deve ser normalmente sitiado por companias como a Hyperion, será que elas são racistas por desejar que certas espécies não estejam lá? Elas atacam ou se defendem?  Elas têm um sistema de exploração e desvalorização e uma ideologia a respeito de outras espécies? Infelizmente nada no jogo vai além dessa análise simplificada

braço forte/estimulante masculino? sério?
Outro ponto nada construtivo é a análise completa do Braço podre, um individuo cuja "grande" característica é ter braços fortes e longos. A piada sobre masturbação junto com a lição de Vasquez mostra o público preferencial dos produtores do jogo. A suposta piada com o trivial não leva em conta problemas reais (visivelmente não solucionados neste futuro) como a pornografia que atinge, em sua maioria, mulheres.

Terceiro Passo: as coisas melhoram!


As coisas melhoram quando descobrimos outra célula narrativa. Nela conhecemos nossa nova personagem jogável: Fiona. Treinada desde cedo por um vigarista junto à sua irmã Sasha, ela também está numa sequência que envolve Rhys. Quando passamos à pele dela, vivenciamos outra perspectiva da mesma ação, mas de uma forma surpreendente e ativa.


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Fiona, também é você!

Eu adorei particularmente a customização do menu de escolhas quando passamos a jogar como Fiona. Suas características e personalidade são muito diferentes de Rhys, mas também muito convincente. Sua vulnerabilidade emocional torna a experiência de jogar com ela mais complexa e realista (apesar do plot twist) e faz dela uma heroína que diz as coisas certas.

Apesar de a maioria das pessoas que encontramos em Pandora hostilizar Rhys por ser da Hyperion, Fiona é a única pessoa que diz com firmeza a Rhys que as privações que sofrem e até mesmo o fato de ser uma vigarista são reações a exploração de Hyperion. Ele visivelmente nunca havia pensado nisso, mas dali para frente parece que a noção do privilégio foi marcante.


Outra personagem que dá sentido ao jogo é a Sasha, irmã mais nova de Fiona. Elas são muito diferentes e se completam nas ações. Enquanto Fiona privilegia a espontaneidade, Sasha é mais observadora e sarcástica. A união das duas pela sobrevivência transmite uma mensagem importante sobre amizade, que vai além do simples fato de serem irmãs aparentemente órfãs.

Apesar de Sasha não ser muito direta sobre o que pensa, ela tem em comum com a irmã a ideia de que Rhys é muito vaidoso e pouco apto para sobreviver em Pandora. Achei particularmente engraçada a passagem em que ele se propõe a matar um vilão, mas não consegue. A masculinidade ferida é experienciada quando nós estamos jogando com ele.

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Quarto Passo: Ação!


Depois de tantas reviravoltas no roteiro (e de encaixes perfeitos de azar) somos lançadas numa arena no maior estilo Mad Max para lutar ou fugir. Os vilões mascarados estão loucos para ver nossa equipe morrer dolorosamente, mas uma sucessão de ações com direito a cutscenes lendárias e ping pong de Rhys para Fiona, que se separaram logo no começo. 


A interação em ambas as perspectivas traz efeito dramático e de ação e, finalmente, mostram em que resultou nossas escolhas lá no início.

Em suma, esse jogo é muito divertido! Vale a pena dar uma chance para o primeiro episódio (grátis). A história é convencional, assim como a estética, o que nos absorve com facilidade. As mudanças são tão absurdas, as vezes, que nos instigam a continuar. Eu joguei em cerca de três horas e fui somando conquistas generosas só por continuar. 

Resultado das minhas escolhas: estou na média. rs

O primeiro episódio tem a história bem amarrada e fecha com estatísticas sobre as escolhas comparadas à dos demais jogadores. Fiquei bastante surpresa e interessada em saber o que outras pessoas pensaram sobre o jogo, além de que é hiper divertido. Compartilha comigo o que você achou do jogo!



Confira o trailer do episódio:



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______. A violência Gráfica à mulher em Mortal Kombat.
RAZIA, Daniela. QUEM É AVELINE GRANDPRÉ?

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Razões pelas quais a vida é estranha

Menino Clay

*Aviso: spoiler*


Os porquês e as coisas

Após tantos textos maniqueístas, a primeira impressão que tive ao assistir 13 Reasons Why (Os 13 Porquês) foi a de que a série era uma espécie de Life is Strange,  sem superpoder, mas com todas as escolhas erradas (ora, mas o jogo não dá quase sempre no mesmo lugar?) e a trilha sonora certa.
Eu já sabia que a série era sobre uma garota (Hannah) em profundo sofrimento provocado por atitudes ou omissões de 13 pessoas. A série é conduzida pelo áudio que ela registrou em 7 fitas k7 antes de se suicidar. Em cada lado das fitas ela contava como e por que cada pessoa estava envolvida com a sua morte. Quem está ouvindo as fitas é o amigo/crush Clay, um nerd típico, que é muito mais um indivíduo com privilégio masculino de não pensar sobre o que é ser homem - tampouco mulher - que uma pessoa horrível.

Eu sei, pode parecer estúpido da minha parte dizer isso, afinal "não pensar" é uma definição possível de privilégio. A série foi eficaz ao fazer pensar no quanto é diferente a apropriação do privilégio para matar ou para não conseguir entender. O Clay é do segundo tipo, porque ele acha elogioso pra uma garota estar numa lista de objetificação. Apesar disso, o fato de ele parar quando ouve um "não" e ir embora quando mandado ir, mostram um caráter básico (não faz dele "homão da porra"), e uma tentativa de acertar, bem diferentes dum Bryce, Justin, Alex, Zack e ... Marcus.

Assim como Clay não pensava sobre o sistema que o privilegia (sexismo), Hannah não pensava sobre o que é ser um homem de origem latina e gay, afinal, “Tony era o único homem que não encarava seus seios”. Privilégio é assim mesmo, estar distante do problema porque ele não existe pra você. A diferença é o modo como nós nos comprometemos em aprender e discutir.

É a partir dessa premissa que a série aborda assuntos importantes como sexismo, violência contra a mulher, privilégios sociais e saúde mental.
Aborda, mas não discute de forma coerente e sincera. Tanto que, boa parte das pessoas identificou problemas discursivos nos primeiros episódios e desistiu. Problemas como a romantização do suicídio, a culpabilização de terceiros e a possibilidade de desencadeamento de outros suicídios são apresentados nos primeiros episódios como condução narrativa. E vejo nisso um problema de narratividade do tipo que faz o público desistir, nem que seja pra olhar para o teto.
Como você conquista o público mostrando que a garota se suicidou e quer culpar, post mortem, a todos inclusive o boy o qual ama? Como ter empatia por uma pessoa a todo tempo arrogante e mal educada?
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Hannah


“A Hannah não foi feita pra gostar”


A garota é apresentada como uma adolescente rebelde comum, sem índices de desequilíbrio químico (diferente de Clay) e, portanto, a causa e a consequência são distorcidos num primeiro contato. Eu mesma me irritei com a persistência da garota em ser desagradável ao mesmo tempo que deseja tanto ser compreendida e amada. Com o passar do tempo, (exatamente nos 3 últimos episódios) a estranheza foi fazendo algum sentido.

Se por um lado, a edição, fotografia, trilha sonora e tudo que envolve a experiência audiovisual atraem quase qualquer público, por outro, a narrativa é uma série de desencaixes e situações inverossímeis que afasta. E não falo de problemas que Syd Field alerta, mas da estranheza dos comentários retóricos e a maestria da “máquina do mundo” (a convergência de fatos improváveis).

Elenco + Selena Gomez

Minha Estranheza

Podemos dividir a série em três faixas: os episódios de 1 a 5 (em que você acha que conhece a história) de 6 ao 9 (inversão) e do 10 ao 13 (o “aaaaaaaah sim”).
Por mais que sua postura como público seja a de tentar compreender melhor cada personagem, a primeira impressão de Hannah é a de que ela é uma garota socialmente padrão, levemente inadequada e totalmente azarada. Ela parece arrogante e o que se mostra é uma personalidade interessada em ser apreciada, sem se esforçar para ser agradável, isto é, um paradoxo.
A medida que o conteúdo das fitas vai sendo apresentado, descobrimos que as atitudes de algumas pessoas  culminam em situações trágicas que estão além do que o indivíduo faria intencionalmente. Além disso, é importante notar que muitas das 13 razões são pessoas que pertencem a minorias sociais.
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quase todas as razões


Apesar de não ser psicóloga nem diagnosticada (e talvez ser questionada por escrever sobre a série) alerto que a minha abordagem tem origem no famoso "ver racismo em tudo", alicerçada em obras de Grada Kilomba, Frantz Fanon e
Waleska Zanello. Não poderia ser diferente, já que sou uma pessoa negra e faço e vivencio tudo como tal.

Meu ponto aqui é o de que bullying e racismo são violências distintas e que é importante discutir isso. A minha adolescência (ou melhor, toda a minha trajetória escolar) não foi estranha, ela foi marcada por violência estrutural - simbólica, física, epistemológica e burocrática. Não estou hierarquizado o sofrimento, apenas enfatizando que bullying e racismo são experiências distintas.
Apenas uma perspectiva do lugar de privilégio como a branquitude imagina que fazer uma série diversa e quebradora de estereótipos significa vilanizar minorias sociais e contar experiências duma pessoa racializada na pele duma garota branca.


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Mr. Potter  (orientador) e Mrs. Bradley (professora) 

Enquanto representação da realidade social é imprescindível para que o maior número de pessoas compreenda a relação entre sofrimento mental e hierarquia social,
a vilanização de todos os negros da série transmite uma mensagem negativa. Marcus, Mr. Potter são estereótipos de homens negros mais à direita, ao passo que as garotas Shuri e Jéssica são inquestionáveis líderes de torcida. Aparentemente nenhum deles experienciou racismo, nem ouviram falar.

O cuidado que houve em fazer um mosaico grotesco de diversidade não para por aí. Tanto o herói quanto a heroína românticos (brancos) buscam se envolver com pessoas negras e até serem amigos de LGBT+ para evidenciar o quanto não são racistas nem homofóbicos, embora pertençam ao padrão social. Com isso não quero dizer que brancos não sofrem, mas é necessário abordar a diferença entre ser inadequado e ser odiado por ser quem você é, AFINAL ter medo de existir é diferente de sentir desconforto.

Apesar do desejo de ser inclusiva, a série errou ao tentar quebrar certos estereótipos e apagamentos ao passo que visibilizaram outros. É verdade que a maior parte das séries adolescentes não apresenta garotas asiáticas fora do perfeccionismo, “fofura” e feminilidade fetichizada, mas ao apresentar uma garota asiática LGBT+ filha dum casal gay como a grande vilã, 13 Reasons Why não acrescenta discussões válidas sobre a interseccionalidade raça/gênero asiática (quantas personagens asiáticas lésbicas você já viu na TV que não fossem para deleite masculino heterossexual?). A forma como é abordada a situação de armário de Courtney é perversa porque leva o público a odiar simplesmente por ignorar estatísticas de violência e correlacionar o espectro LGBT+ a desvio de caráter. Um tanto medieval fantasiado de diversidade?

Não, "só" bastante ofensivo.

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Justin, no fim das contas, não é enquadrado como "mau caráter", mas sim resultado duma família abusiva.

Faltou discutir o quanto o social influencia o plano psicológico quanto mais distante você está das normas de aparência e de comportamento, de raça, gênero, etnia, sexualidade e classe porque, na série, tudo se prende à moral e ao caráter.

Sexismo (como outras opressões) é uma força deformante que atua sobre o ego e nem sempre ele tem defesas suficientes, porque sua construção já é imersa à opressão. Lembre-se que as opressões preexistem e moldam o que somos e como reagimos antes de sermos capazes de elaborar sobre. Hannah (objeto ficcional) não apenas vive essa realidade como foi criada por ela (roteiristas) recriando imaginários, experiências e visões de mundo tradicionais (eurocêntrica, heteronormativa, classe média).

Meu primeiro questionamento foi: em que planeta se passa a história? Pra além de situações improváveis (como a placa que causa a morte dum amigo próximo) o que me parece mais estranho é a história vilanizar pessoas que normalmente estão do lado do objeto da oração, isto é, são os que sofrem bullying, racismo e homofobia.

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Jessica não apenas é líder de torcida como namora Justin AND é considerada mais "bonita", enquanto Hannah é considerada mais "gostosa" pelos boys da série









"A grama do vizinho é sempre mais verde"


A expressão "em maior ou menor grau", se aplicada a 13RW, me leva a pensar na falta de proporcionalidade entre estuprar (Bryce), encobrir um estupro (Potter) e derrubar uma placa (Sheri) e Ir embora (Clay). Por mais que seja compreensível (não justificável) a lógica de Hannah sobre quaisquer ações terem consequências, tudo acaba em escolha errada (desmedida) que gera uma ação trágica. As sequências da série levam a crer que o vilão de Hannah é muito mais o Destino (saído de Sandman) que o rico, loiro, heterossexual, mais velho e popular Bryce, aliás, não ele, mas a estrutura social que o criou e o mantém.
Essa desproporção embaralha o antagonismo social do ocidente (construído em fundações racistas, masculinistas e capitalistas) que dão papéis muito específicos para os atores sociais. Neste caso, minha crítica não é unicamente sobre assemelhar-se ou não ao real (verossimilhança), mas às improbabilidades cobertas por tintas grotescas de diversidade.
Pense na série Skins. Se já é levemente improvável que a Mini seja uma "abelha rainha" dadas as sardas e as companhias, qual a probabilidade dum grupo de negras serem todas líderes de torcida?E a porcentagem de asiáticas patricinhas malvadas e mais populares duma escola repleta de garotas loiras?

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A cena em que Skye (loira) insiste em dizer que Shuri (foto) é uma das garotas padrão do colégio leva 13RW para o polo da comédia. 

Acompanhar a visão de mundo de Hannah nos possibilita compreender que ela acredita fielmente que garotas negras são mais requisitadas para relacionamento sério, por garotos padrão, que ela.

Óbvio que exceções existem, mas ficções fundamentadas na exceção legitimam ideias equivocadas como racismo reverso. Além disso, focar a dramaticidade em problemas pequenos se comparados a crimes, reitera o discurso de que a vítima é o problema que, uma vez morta, vira solução.

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A protagonista de Life is strange: Max


Tal como fiz agora com 13RW, há anos atrás eu acompanhei um diário de jogo sobre o ovacionado game Life is Strange. O game chamou a atenção pelo protagonismo feminino com representação positiva e pela capacidade de agradar (e divertir) a gregas e a troianas. Eu particularmente não terminei o primeiro capítulo (mesmo gratuito) porque não senti a profundidade (ou desespero) que muita gente sentia à época. Contra mim há o fato de que não vi nada demais em Stranger Things, (talvez porque nostalgia dos anos 1980 não faça muito sentido pra mim, que vivi os anos 1990). Por que diabos eu gostaria de 13 Reasons Why?
Pois bem, não acredito que valeria um post que fosse apenas sobre gostar ou não.


Afinal, a Vida é estranha?

Pra ser sincera, achei bem fofo estilo Juno, com experiências válidas que não são mais as compatíveis com a minha faixa-etária. Não me entenda mal: acho que são necessários sim, só não me identifiquei. E outra: ser uma garota branca esquisita é bem diferente de ser uma garota racializada. Neste sentido, Life is Strange cumpre o papel de não cair no erro da "Diversidade a qualquer custo" e acaba sendo uma história sobre as dificuldades de ser jovem, mulher (branca) e fora dos padrões com bastante coerência entre forma e abordagem.
Vejo essa honestidade como o ponto forte da narrativa do jogo, que foca em Max e sua melhor amiga, ambas brancas, com problemas convincentes (compatíveis às suas realidades). O bullying e a sensação de impotência são assuntos abordados objetivando a conscientização e, no fim das contas, a história é sobre como Max enxerga o mundo. Isso significa que é sim possível discutir questões adolescentes com seriedade e sem panfletar racismo fingindo antirracismo.
Bem, perto de 13RW me pergunto se Meninas Malvadas também não é razoável. Será que se Hannah tivesse assistido aos filmes da Lindsey Lohan ela não poderia ter outra ideia das relações escolares?
A série original da Netflix me é estranha porque parece uma série sobre suicídio, mas sua abordagem leva a crer que é sobre acaso e revezes, como uma tragédia grega.

Roteiristas e diretores de audiovisual sobre/e para adolescentes, costumam errar muito pela tentativa de englobar os problemas e esquecerem a sequência lógica das subjetividades (veja: "deus ex machina" emocional NÃO É profundidade).

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Freaks and geeks
Esse lugar comum conduz séries interessantes que mostram várias perspectivas sobre a realidade. A "garota estranha" de Freaks and geeks lembra Hannah pela situação de privilégio social e inabilidade no ambiente escolar, mas a semelhança é rasa. A piada proferida por Hannah para Clay, após um filme de terror ('Você é racista de zumbis") só faz sentido se houver discussão séria sobre o que significa racismo, sobretudo nos Estados Unidos. O que não é apenas uma questão de privilégio, mas também de aulas de história e de comprometimento dos roteiristas.

O mesmo vale para representação de interseccionalidade raça e gênero.

Em suma, 13RW é uma obra visualmente bem acabada que, segundo o autor do livro (Jay Asher) , se propõe a discutir um tema importante "e tão pouco abordado". De fato, as atrizes principais e a própria produtora executiva e ícone teen, Selena Gomez, pontuam no documentário 13 reasons why: beyond the reasons que o romance foi uma obra imprescindível durante a adolescência delas.

Não duvido que seja, assim como a série foi pra muita gente. Apesar disso, mais estranho que a vida é: como, dentre tantos porquês, nenhum questiona a narrativa dramática duma jovem branca que é preterida, ignorada e humilhada por muita gente afetada pelo sistema racialista e homofóbico que está a favor de Hannah?


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Eu não sou seu negro...



James Baldwing


por DANIELA RAZIA
colaboradora do Preta, Nerd & Burning Hell


Eu me pergunto todas as vezes que vou escrever algo sobre racismo se todos os negros se sentem mal ao comentar coisa tão óbvia. Se comentar sobre o massacre de sua gente , da nossa gente irá se tornar tão comum quanto dizer " vou ali fumar um cigarro." Questiono isso por que em mim dói sempre. Não importa se é nas HQs, livros, na vida aqui fora ... MAS SEMPRE dói.

Martin Luther King Jr. e Malcom X


Assisti Eu não sou negro de forma meio privilegiada, mas de estado de espírito ruim. Sentada na minha cama, no conforto do meu quarto, aluguei o documentário sem nem mesmo saber que ele tinha estado nos cinemas, muito menos sido indicado ao Oscar. Minha vida está uma névoa e são poucas coisas que me deixo "enxergar."

James Baldwin - antes de entrar na militância só conhecia Martin e Malcon X ( devoradora de HQs eu sabia da referência do Professor X e do Magneto baseada nos dois militantes). Mas James e Medgar nem me eram conhecidos.

Medgar Evers

O manuscrito ficou inacabado com a morte de Baldwin em 87. Mas sua carta para Jay seu agente serviu para cobrir as lacunas, nela estava o desejo dele em terminar Remember This House que relata a vida e morte dos seus amigos Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King Junior.

O documentário não é apenas centrado nesses personagens. Baldwin também narra suas angústias, o desejo de achar um lugar que o aceitasse e o choque de ver seus amigos perecerem por apenas quererem ser vistos como humanos. Além de todo o racismo e segregação da época que ele descreveu minuciosamente .

James Baldwin

Um fato mostrado no documentário dividido em alguns capítulos foi a " caminha da fé" de Dorothy Counts . Seu primeiro dia de aula na Universidade de Harry Harding, na Carolina do Norte (EUA), em 1957. Ela enfrentou todo ódio e violência com tal dignidade que me ardeu o coração. Esse acontecimento foi um dos motivos para Baldwin querer retornar da Europa para o Harlem. " Eu deveria estar lá, nós deveríamos estar lá".

Dorothy Counts (esquerda)

Cada cusparada, pedrada e ofensas a Dorothy me atingiram mesmo tendo se passado quase sessenta anos . Eu imagino no Baldwin. Sentado em um café absorvendo aquela notícia via rádio ou jornal. A raiva, frustração e desespero dele.

Não posso deixar de citar que este documentário mostra todo o resultado do poder da branquitude. Como era tão normal tratar os negros como animal de carga, ou algo sujo e abaixo de qualquer coisa. E conhecendo vagamente a história do Malcom X e do seu relacionamento com Martin, o Magneto me pareceu muito mais simpático. Enquanto Malcom queria lutar e reagir, Martin pregava paz e amor aos opressores, não admitindo rebater com violência. Quando questionado por Malcom , que acreditava que aquele modo de pensar favorecia ainda mais os brancos, estereotipando os negros como criaturas sem vontade, Martin disse que pensar daquela forma não significava submissão.

Raoul Peck
Medgar e Baldwin estavam no meio do embate digamos. James pensava que nem todos os brancos eram ruins. Monstros morais eles seriam. Enxergavam o que lhe convinham. E mesmo discordando do movimento de Malcom, James o admirava. E digo o mesmo dele em relação ao Medgar e Martin.

Ir ao velório desses homens foi algo que ele demorou muito pra "superar". Por ser o mais velho, esperava ser o modelo dos amigos. E deu-se ao contrário. Os três viraram sua inspiração. 

Baldwin também cita vários filmes da época que o marcaram, tanto como "representatividade" como mostrando o racismo mais escrachado possível. O choque ao torcer por Jon Wayne se dar bem contra os índios e perceber que eles também eram ele, sua família e seus vizinhos. Amadureceu na marra. Já os brancos , na visão de James sempre permaneciam no mesmo estado de "inocência", e repetindo o que disse antes, enxergando apenas o que queriam ver.

Também cito o começo do documentário quando em um talk show, o apresentador pergunta se James não está feliz e esperançoso: afinal os negros estão conquistando mais espaço, cargos influentes, lugares mais visíveis nos filmes. A risada seca de Baldwin e sua resposta amarga e dura me doeu; " Não existe esperança nenhuma."

E James no fim, sabia qual era seu lugar. O mundo inteiro.

" A história do negro na América é a história da América - e não é uma história bonita." - James Baldwin (1924-1987)


" Eu não sou seu negro.

O produtor Raoul Peck usa o livro inacabado de James Baldwin sobre o racismo nos EUA para examinar as questões raciais contemporâneas, com relatos sobre as vidas e assassinatos dos líderes ativistas Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King Jr.

Data de lançamento: 4 de fevereiro de 2017 (Brasil)
Direção: Raoul Peck
Indicações: Oscar de Melhor Documentário de Longa-Metragem 
Elenco: Samuel L. Jackson ( narração)
Roteiro: James Baldwin, Raoul Peck
Produção: Raoul Peck, Rémi Grellety, Hébert Peck "








quarta-feira, 19 de abril de 2017

O dia de Jerusa: um mergulho no espelho do que fui, sou e serei.

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Lea Garcia interpreta Jerusa

Eu não sei você, mas toda vez que eu vejo Lea Garcia eu sinto uma tocante memória, que não é da vida que eu vivi, nem da minha avó. Não é a palavra memória, é a sensação memória, entende?

Eu sempre procurei as respostas em seus olhos e suas mãos repetidamente, buscando a resposta no ato, mas nunca entendi o que era, nem o porquê. Há outras: Ruth de Souza, Zezé Mota, mas o olhar de Lea me encantou desde o primeiro instante, e assim, um encanto em si, sem elaboração, como a experiência indescritível. 

Até que eu assisti O dia de Jerusa.


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Debora Marçal interpretou Silvia
(eu vejo nela uma grande referência ao clipe de Pearl da Tamar-Kali)

Num primeiro momento, o filme apresenta a cidade de São Paulo e as camadas de apropriação do espaço urbano por pessoas pretas. Camadas temporais, inclusive. Numa espécie de cruzamento, vemos Silvia (uma jovem trabalhadora que nos ancora junto a si) caminhando no rumo oposto ao do homem que puxa sua carroça. Ambos, opostos em idade, gênero e inserção no mercado de trabalho, se chocam à frente dum homem negro que recita um poema de Luis Gama, escritor e ativista negro cuja história de vida representa também a antítese, a contradição que é ser uma pessoa negra neste mundo sexista, racista, elitista e, ainda assim, ter acessos. 

Interessante que a voz do sujeito que entoa o poema, marca o início do filme como um desafio. Será ele uma pessoa em situação de rua? O questionamento da obviedade me faz sempre parar. Em que medida os signos se voltarão contra o discurso/sentido e, sobretudo, em que medida estou apta a compreender?

A naturalização dessa ideia me fez pensar nos signos da imagem que levam a isso (o indivíduo na cidade, falando consigo ou para si, ignorado como... Louco). O louco é, na cosmogonia ocidental a qual nos filiaram, o símbolo daquele que sabe ler as camadas da realidade física, emocional e espiritual. E quando falo louco, quero enfatizar o estigma, que muito tem a ver com racismo. Seja pela pressão social que incide sobre o sujeito que empurra de volta, seja pela historicidade que ele presentifica. 

Através do poema, "o louco" (e podemos até nos lembrar do arcano maior) representado sob um olhar humanizado, nos lembra de que a escravidão é uma realidade lembrada e vivida diariamente, com as devidas atualizações. O modo como a câmera nos permite ver, faz do personagem um terreno de confiança, uma certeza de que podemos nos entregar ao porvir.

O fato de o DIA DE JERUSA ser cinema negro faz da presença de pessoas em situação de rua uma presença humana rara no cinema nacional. E nem é necessário ouvir uma grande fala/dialogo para notar que isso ocorre. Essa preparação para a espinha dorsal do filme cria um território confiável para conhecermos Jerusa, para reencontrarmos a nossa Silvia interior e compreender seus processos.

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Em primeiro plano Debora Marçal, e em segundo a diretora Viviane Ferreira


"Negra a cor da escravidão"

Jerusa (Lea Garcia) é uma pessoa de rotina, organizada e reticente, ainda que se expresse muito bem. Em tudo o que ela fala há o que dizer, uma informação que adiciona experiência, ao passo que afasta ainda mais os limites do que desconhecemos, e me pergunto: será mesmo que eu a conheço mais a medida que a escuto? Seu fluxo ampliando a linguagem rumo ao que não sabemos dá sinais de que não. Minha sensação é a de que existe um silêncio nela, no que faz e diz que se choca com a presença-voz. O filme é intitulado "O dia de" que nos leva a compreender que o bolo que ela prepara é para seu próprio aniversário, mas é se fosse "Um dia com"? É nesse momento que me vejo imersa em Silvia.

A garota é como um elo entre aquela realidade exterior de pessoas negras em situação de rua e a profundeza de Jerusa, refugiada e solitária no seu mar azul e branco. A solidão é referenciada nos detalhes, como nas notas que seus lisiantos (minha flor preferida) róseos representam. O por quê não roxo, é evidente na imagem, são traços musicais que, dialogando com Luis Gama e com o branco nas formas, chama de forma indireta a presença de Cruz e Souza para a reflexão. "Brancas formas, alvas...". Eu não quis ligar azul à solidão, mas senti conforto na solidão melódica duma imagem repleta de alusões ao simbolismo. Ao simbolismo negro. Simbolismo silenciado pelo inexplicável, inexprimível, pelo que se traduz em branco.

Mas o vazio dá linguagem não é branco. O vazio dá linguagem é o desafio posto a nós, o público ali no prólogo, e representado pela Silvia - o espelho. A garota, que enfrenta o real do assédio sexual (precisamos dá interseccionalidade), do assédio moral dá chefe, das necessidades materiais. As injustiças se somam e suas reações é silêncios se automatizam numa polidez superficial. 

A princípio, Silvia dá sinais de que deseja mergulhar no espelho que é Jerusa. É espelho no sentido místico, daquele portal para o autoconhecimento, para a sabedoria e adivinhação. Tudo o que Jerusa descreve, a memória das coisas (o sabão, principalmente), das palavras e das pessoas que não estão (ou não existem?) são como um jogo. 

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Olho mais uma vez para Silvia é lembro dá expressão "quando você está pronta, um mestre aparece". É toda a resistência dá jovem em se fundir ao espelho exibem mais do que ela é, sua imaturidade, que de Jerusa que fala de si. A frustração de Silvia com a necessidade de resolver a missão do questionário, gera uma angústia contrária de quem contempla. Ela finalmente explodiu e se recolheu no banheiro. Ela foi chorar no banheiro, se iniciou e foi transformada. 

A solidão sentida pela jovem, no banheiro, leva a uma situação surpreendente. Passou no vestibular. Certo, o que fazer com a informação? Neste momento de conexão com sua própria profundidade, traduzida como solidão, transformou o Dia De Jerusa, o aniversário, num dia Com Jerusa como uma ligação covalente. Silvia deu tudo o que tinha para dar, tudo o que era possível. 

A maturidade de Jerusa guarda um silêncio que nos conecta com o que seremos. E não falo de Jerusa como personagem em si, mas como peça duma narrativa na qual estamos submergidas. Ela é o espelho de Silvia, seu devir. No fim do dia, a saída de Silvia não é resposta nem solução para nada, ela só evidência os ciclos da vida e lança luz sobre a alteridade e sobre importância da travessia e do processo de mergulhar em si mesma. Não sob o viés ocidental de imersão ensimesmada, narcísica, mas da experiência mística de imersão às profundezas do ser.

A questão do filme não é propor certezas, não é discutir se Jerusa tem ou não filhos, netos, mas sim nos fazer pensar nos afetos. Discutir a historicidade dos nossos afetos em vários níveis, e apontar para a construção de nossa humanidade que o racismo estrutural tenta apagar, que o racismo diário até abala, mas sejamos francas: o dia de Jerusa assim como o dia de Silvia com Jerusa refletem dignidade. Por mais dialética e circundada por uma história social dolorosa, o casal em situação de rua la do início do filme nos dá indícios de elaboração acerca da profundidade que nós temos e do quanto a precisamos alimentar diariamente.

Assista ao teaser:

O Dia de Jerusa, curta-metragem, produzido por Elcimar Dias Pereira, dirigido por Viviane Ferreira, estrelado por Léa Garcia e Débora Marçal. Mais uma produção da ODUN FORMAÇÃO & PRODUÇÃO 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

DIVERSIDADE NÃO DEVERIA SER UM SHOW DE HORRORES


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Imagem meramente ilustrativa extraída de Batgirl #38 (Cameron Stewart, Brenden Fletcher e Babs Tarr)

"Sou muito legal, tenho até amigos estranhos" é uma frase que caberia a maioria dos líderes de equipes de super-heróis, de ficção científica e horror que "não são racistas", mas sabem que o racismo existe.

Posso listar rapidamente: Buffy, Sense8, Power Rangers (série), Vingadores, Velozes e Furiosos 2, Tekken, The Expanse, Firefly, Batgirl, Guardiães da Galáxia, Skins, Misfts, Rise of the Tomb Raider, Tropa Alfa, The Ultimates e - até mesmo - X-Men.

Apesar de ser uma grande entusiasta dos quadrinhos do Brian Michael Bandis e da Gail Simone e de ter sido impelida a pensar sobre a #nerdiandade pelas problemáticas que encontrei nas séries do Joss Whedon, há um ponto que me incomodou sempre: a diversidade estética nas histórias com múltiplos protagonistas sempre apresenta um líder dentro dos padrões de raça, sexualidade, classe, "capacidade" expressada por um corpo finalizado e fechado, além de jovem e saudável.

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Segunda formação dos X-Men.O único momento que fez sentido o (imaturo) Ciclope ser líder da equipe.

Esta conformidade com privilégios sociais - mesmo que personificada por um individuo que se sente "diferentão" o bastante para andar com aqueles que são visivelmente marginalizados - significa que há uma categoria de "normalidade" que se opõe ao "diverso", anormal ou grotesco. Veja, o problema não é ter um líder dentro dos padrões, mas sim a insistência numa abordagem que defende valores tradicionais por meio da omissão de pontos de vista.

Se, por um lado, essa centralidade quer nos convencer de que existe neutralidade, por outro, a incorporação maciça de azuis, verdes, robôs, androides, ciborgues, aliens, cortanas e até de animais é um grande esforço de apagar categorias humanas identificadas como minorias sociais e políticas. Ou mesmo, de atribuir estereótipos reconhecíveis a personagens que "não poderão ser criticados de forma direta". Ou podem.

Desse modo, assim como o apagamento é um problema grave, a exotização, a higienização e o silenciamento são a outra face da mesma moeda. Eu sempre me pergunto: por que é tão acessível a visão de mundo, os sentimentos e a história doídas dos líderes enquanto os "protagonistas secundários" são corpos vazios? Isso é tão real, que, na maioria das vezes, os companheiros de equipe que "destoam" do líder tendem a se encaixar em estereótipos raciais facilmente identificáveis.

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A Guerra Civil é uma polarização de dois homens. O plano de fundo é bem "diverso", colorido e narrativamente  descartável.

As histórias que se propõem a mostrar a complexidade de backgrounds normalmente focam na perspectiva do personagem central, que se sente excluído do seu "lugar natural", por motivos mil, inclusive de não corresponder à expectativa positiva. Em personagens masculinos isso normalmente aparece nas histórias como problemas na performance de masculinidade e no conflito com o pai. Personagens femininas, quando falham em manter na medida que o padrão exige, em geral, buscam aventuras e formas de escapar do ideal branco de feminilidade. Ou de escapar da "Lei do Pai", na esperança de agradá-lo.

Ainda assim, a maioria das histórias com múltiplos protagonistas perde a oportunidade de lançar um olhar crítico sobre as questões em torno do conceito de "diversidade", afinal, tanto as presenças simbólicas (token) que representam estereótipos e/ou morte no fim quanto presenças disfarçadas em cores e formas mostram o mesmo desprezo. Esse desprezo é uma forma de olhar particularmente ligada à branquitude e à heterossexualidade porque é desse lugar que parte a ideia de "diferença" na ficção especulativa mainstream. E é essa condição que dá livre acesso à apropriação dum espaço que deveria ser descentralizado ou, pelo menos, mais democrático.

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No especial de natal, ficou bem evidente o objetivo de Sense8 com a diversidade: apagar. O episódio focou nos personagens mais planos (estadunidense e islandesa) e no prazer exótico do alemão para com a indiana. 
Recentemente, escrevi sobre como a Capitã Marvel é um dispositivo discursivo que veicula mensagens de supremacia racial disfarçada de feminismo. Ela se comporta como líder duma equipe composta majoritariamente por heroínas e heróis negros (The Ultimates) com larga experiência de combate como se fosse dotada duma capacidade inata para a liderança. Vejo resquícios deste "orgulho" em todos aqueles seriados, filmes e jogos já citados.

Se você notar, os indivíduos "normais, porém desajustados" se tornam um fantasma do padrão num grupo de "estranhos", "freaks", "bizarros" e reforçam a hierarquia social do aqui-agora, mesmo que a narrativa seja futurista. E essa "normalidade" circunstancial faz com que o "desajustado" se sinta mais confiante, mais forte e capaz, o que é reforçado pelas palavras positivas e pelo companheirismo dos colegas outsiders- o que nem sempre é recíproco.

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Os Supremos (The Ultimates) equipe formada por (esq_>dir) : Spectrum, Marvel Azul, Capitã Marvel, Pantera Negra e Miss América.

Uma estratégia bastante difundida (e aprovada) nos quadrinhos é a de protagonistas femininas (brancas) fortes com ares feministas e, até mesmo, com interesses afetivos por heróis negros (Jessica Jones, Carol Danvers, Thor). Num primeiro momento, a Capitã Marvel Carol Danvers (por Kelly Sue DeConnick) da Nova Marvel (2012) causou grande comoção entre garotas e mulheres. Logo então veio a Batgirl de Gail Simone. Apesar do ganho de buscar alternativas à infeliz Piada Mortal, Simone construiu uma narrativa sobre uma garota branca que sofreu muito com uma temporária deficiência física, que, por isso, entende o sentido de ser uma outsider e que, portanto, acolhe todas as diferenças.

A grande questão é que a sua melhor amiga é uma mulher trans, seu namorado é de origem latina E deficiente físico e por aí vai. Note que a maioria das pessoas à volta de Barbara Gordon é o oposto dela, o que me transmite a sensação de que tantos recordatórios que descrevem o mundo interno dela opõem todos os "diferentes" do mundo exterior e constroem um sentido nefasto. Diferentes que, no fim das contas, se observados juntos, remontam a mesma ideia oitocentista de "freakshow" ou dos "gabinetes de curiosidades".

Não afirmo isso por questões de auto-ódio, afinal, nem eu, nem Lupita Nyong'o nem Zoë Saldana somos alienígenas! A questão é que atualmente não dá mais para levantar bandeira de que "antes verde do que nada" nem a de que somos "UM TIPO" de Homem Aranha, Homem de Ferro ou Capitão América como a Totalmente Nova Marvel possa tentar dizer dando tanto espaço para "politicamente neutros" como Nick Spencer.

A diversidade é a discursão da Marvel desde 2011 e, digamos que as Guerras Secretas (2015) foram sobre isso.

É importante que haja honestidade de discutir o conceito de "humano" que a suposta inclusão ou "diversidade" está enfiando em nossas goelas. Apenas com essa compreensão, ficará evidente que pintar uma pessoa negra de cores esdrúxulas não mascara estereótipos tão conhecidos como Angry Black Woman.

Já chega de não ter com quem nos identificar no mainstream. Já chega da ideia de que somos freaks, bizarras ou simplesmente alienígenas! E, sobretudo, chega de focar em histórias sobre a fragilidade e vulnerabilidade de homens brancos heterossexuais que tentam equilibrar a liderança de equipes e suas masculinidades frágeis. Corta essa parte, já sabemos que eles são sensíveis e de "coração nobre". Também chega de heroínas que são estandartes dum feminismo branco e que enxergam toda a diferença como um território divertido, interessante ou exótico a ser explorado e conquistado. CHEGA DE REPRESENTAR DIVERSIDADE COMO SINÔNIMO DE SHOW DE HORRORES.

Reforço: não estou aqui julgando uma questão moral, a intensão ou a "boa vontade" de autores e autoras ou do público que se identifica com as personagens citadas. Meu ponto aqui é desnaturalizar essa relação automática de que "multi-étnico" e "multicultural" é a solução emergencial para os nossos problemas. Afirmo isso porque os Vingadores têm essa proposta: reagrupam visões de mundo mais-do-mesmo com o "prazer do exótico" sobre o qual nos alertou Edward Said e brincam de renovar.

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Wet Moon (Sophie Campbell) foca o cotidiano de jovens pessoas. O interessante da representação da "diferença" neste quadrinho é entrelaçada com situações triviais, o que desmistifica a ideia de "outsider". Afinal, há vida "além dos trilhos".

No fim das contas, a maioria das obras que se proclamam diversas, nada mais fazem que reforçar a ideia de que diversidade é a reunião de tudo o que "não é". Não é branco, não é cisgênero, não é heterossexual, não é rico, não é normal.

É claro que o desconforto que destrinchei neste texto não foi elaborado para reforçar o quanto o mainstream desrespeita as minorias, mas para ressaltar o quanto os quadrinhos de Sophie Campbell retratam múltiplas protagonistas em Wet Moon com a naturalidade que cada personagem merece. Além disso, também há a série original Netflix Crazyhead, Logan, o Novíssimo e incrível Hulk, a Miss Marvel Kamala Khan e os Novíssimos Vingadores.

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A interação entre Kamala Khan, Sam Alexander e Miles Morales é incrível. O fato de serem indivíduos racializados confere complexidade às experiências sem restringir suas subjetividades.
Sem dúvidas, cabe ao público mostrar que ser minoria não é mais ser nicho. É necessário disputar os espaços mainstream, lutar por visibilidade dentro do que é considerado específico, mas também tendo em vista de que não é extravagante ou anormal ser negro, gordo, portador de deficiência ou estrangeiro. Se há um show de horrores é a história de usurpação e violências realizadas até hoje por nações imperialistas que sustentam a economia às custas de vida e dignidade humanas.


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