sexta-feira, 21 de abril de 2017

O QUE É EPISTEMICÍDIO?


quarta-feira, 19 de abril de 2017

O dia de Jerusa: um mergulho no espelho do que fui, sou e serei.

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Lea Garcia interpreta Jerusa

Eu não sei você, mas toda vez que eu vejo Lea Garcia eu sinto uma tocante memória, que não é da vida que eu vivi, nem da minha avó. Não é a palavra memória, é a sensação memória, entende?

Eu sempre procurei as respostas em seus olhos e suas mãos repetidamente, buscando a resposta no ato, mas nunca entendi o que era, nem o porquê. Há outras: Ruth de Souza, Zezé Mota, mas o olhar de Lea me encantou desde o primeiro instante, e assim, um encanto em si, sem elaboração, como a experiência indescritível. 

Até que eu assisti O dia de Jerusa.


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Debora Marçal interpretou Silvia
(eu vejo nela uma grande referência ao clipe de Pearl da Tamar-Kali)

Num primeiro momento, o filme apresenta a cidade de São Paulo e as camadas de apropriação do espaço urbano por pessoas pretas. Camadas temporais, inclusive. Numa espécie de cruzamento, vemos Silvia (uma jovem trabalhadora que nos ancora junto a si) caminhando no rumo oposto ao do homem que puxa sua carroça. Ambos, opostos em idade, gênero e inserção no mercado de trabalho, se chocam à frente dum homem negro que recita um poema de Luis Gama, escritor e ativista negro cuja história de vida representa também a antítese, a contradição que é ser uma pessoa negra neste mundo sexista, racista, elitista e, ainda assim, ter acessos. 

Interessante que a voz do sujeito que entoa o poema, marca o início do filme como um desafio. Será ele uma pessoa em situação de rua? O questionamento da obviedade me faz sempre parar. Em que medida os signos se voltarão contra o discurso/sentido e, sobretudo, em que medida estou apta a compreender?

A naturalização dessa ideia me fez pensar nos signos da imagem que levam a isso (o indivíduo na cidade, falando consigo ou para si, ignorado como... Louco). O louco é, na cosmogonia ocidental a qual nos filiaram, o símbolo daquele que sabe ler as camadas da realidade física, emocional e espiritual. E quando falo louco, quero enfatizar o estigma, que muito tem a ver com racismo. Seja pela pressão social que incide sobre o sujeito que empurra de volta, seja pela historicidade que ele presentifica. 

Através do poema, "o louco" (e podemos até nos lembrar do arcano maior) representado sob um olhar humanizado, nos lembra de que a escravidão é uma realidade lembrada e vivida diariamente, com as devidas atualizações. O modo como a câmera nos permite ver, faz do personagem um terreno de confiança, uma certeza de que podemos nos entregar ao porvir.

O fato de o DIA DE JERUSA ser cinema negro faz da presença de pessoas em situação de rua uma presença humana rara no cinema nacional. E nem é necessário ouvir uma grande fala/dialogo para notar que isso ocorre. Essa preparação para a espinha dorsal do filme cria um território confiável para conhecermos Jerusa, para reencontrarmos a nossa Silvia interior e compreender seus processos.

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Em primeiro plano Debora Marçal, e em segundo a diretora Viviane Ferreira


"Negra a cor da escravidão"

Jerusa (Lea Garcia) é uma pessoa de rotina, organizada e reticente, ainda que se expresse muito bem. Em tudo o que ela fala há o que dizer, uma informação que adiciona experiência, ao passo que afasta ainda mais os limites do que desconhecemos, e me pergunto: será mesmo que eu a conheço mais a medida que a escuto? Seu fluxo ampliando a linguagem rumo ao que não sabemos dá sinais de que não. Minha sensação é a de que existe um silêncio nela, no que faz e diz que se choca com a presença-voz. O filme é intitulado "O dia de" que nos leva a compreender que o bolo que ela prepara é para seu próprio aniversário, mas é se fosse "Um dia com"? É nesse momento que me vejo imersa em Silvia.

A garota é como um elo entre aquela realidade exterior de pessoas negras em situação de rua e a profundeza de Jerusa, refugiada e solitária no seu mar azul e branco. A solidão é referenciada nos detalhes, como nas notas que seus lisiantos (minha flor preferida) róseos representam. O por quê não roxo, é evidente na imagem, são traços musicais que, dialogando com Luis Gama e com o branco nas formas, chama de forma indireta a presença de Cruz e Souza para a reflexão. "Brancas formas, alvas...". Eu não quis ligar azul à solidão, mas senti conforto na solidão melódica duma imagem repleta de alusões ao simbolismo. Ao simbolismo negro. Simbolismo silenciado pelo inexplicável, inexprimível, pelo que se traduz em branco.

Mas o vazio dá linguagem não é branco. O vazio dá linguagem é o desafio posto a nós, o público ali no prólogo, e representado pela Silvia - o espelho. A garota, que enfrenta o real do assédio sexual (precisamos dá interseccionalidade), do assédio moral dá chefe, das necessidades materiais. As injustiças se somam e suas reações é silêncios se automatizam numa polidez superficial. 

A princípio, Silvia dá sinais de que deseja mergulhar no espelho que é Jerusa. É espelho no sentido místico, daquele portal para o autoconhecimento, para a sabedoria e adivinhação. Tudo o que Jerusa descreve, a memória das coisas (o sabão, principalmente), das palavras e das pessoas que não estão (ou não existem?) são como um jogo. 

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Olho mais uma vez para Silvia é lembro dá expressão "quando você está pronta, um mestre aparece". É toda a resistência dá jovem em se fundir ao espelho exibem mais do que ela é, sua imaturidade, que de Jerusa que fala de si. A frustração de Silvia com a necessidade de resolver a missão do questionário, gera uma angústia contrária de quem contempla. Ela finalmente explodiu e se recolheu no banheiro. Ela foi chorar no banheiro, se iniciou e foi transformada. 

A solidão sentida pela jovem, no banheiro, leva a uma situação surpreendente. Passou no vestibular. Certo, o que fazer com a informação? Neste momento de conexão com sua própria profundidade, traduzida como solidão, transformou o Dia De Jerusa, o aniversário, num dia Com Jerusa como uma ligação covalente. Silvia deu tudo o que tinha para dar, tudo o que era possível. 

A maturidade de Jerusa guarda um silêncio que nos conecta com o que seremos. E não falo de Jerusa como personagem em si, mas como peça duma narrativa na qual estamos submergidas. Ela é o espelho de Silvia, seu devir. No fim do dia, a saída de Silvia não é resposta nem solução para nada, ela só evidência os ciclos da vida e lança luz sobre a alteridade e sobre importância da travessia e do processo de mergulhar em si mesma. Não sob o viés ocidental de imersão ensimesmada, narcísica, mas da experiência mística de imersão às profundezas do ser.

A questão do filme não é propor certezas, não é discutir se Jerusa tem ou não filhos, netos, mas sim nos fazer pensar nos afetos. Discutir a historicidade dos nossos afetos em vários níveis, e apontar para a construção de nossa humanidade que o racismo estrutural tenta apagar, que o racismo diário até abala, mas sejamos francas: o dia de Jerusa assim como o dia de Silvia com Jerusa refletem dignidade. Por mais dialética e circundada por uma história social dolorosa, o casal em situação de rua la do início do filme nos dá indícios de elaboração acerca da profundidade que nós temos e do quanto a precisamos alimentar diariamente.

Assista ao teaser:

O Dia de Jerusa, curta-metragem, produzido por Elcimar Dias Pereira, dirigido por Viviane Ferreira, estrelado por Léa Garcia e Débora Marçal. Mais uma produção da ODUN FORMAÇÃO & PRODUÇÃO 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

DIVERSIDADE NÃO DEVERIA SER UM SHOW DE HORRORES


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Imagem meramente ilustrativa extraída de Batgirl #38 (Cameron Stewart, Brenden Fletcher e Babs Tarr)

"Sou muito legal, tenho até amigos estranhos" é uma frase que caberia a maioria dos líderes de equipes de super-heróis, de ficção científica e horror que "não são racistas", mas sabem que o racismo existe.

Posso listar rapidamente: Buffy, Sense8, Power Rangers (série), Vingadores, Velozes e Furiosos 2, Tekken, The Expanse, Firefly, Batgirl, Guardiães da Galáxia, Skins, Misfts, Rise of the Tomb Raider, Tropa Alfa, The Ultimates e - até mesmo - X-Men.

Apesar de ser uma grande entusiasta dos quadrinhos do Brian Michael Bandis e da Gail Simone e de ter sido impelida a pensar sobre a #nerdiandade pelas problemáticas que encontrei nas séries do Joss Whedon, há um ponto que me incomodou sempre: a diversidade estética nas histórias com múltiplos protagonistas sempre apresenta um líder dentro dos padrões de raça, sexualidade, classe, "capacidade" expressada por um corpo finalizado e fechado, além de jovem e saudável.

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Segunda formação dos X-Men.O único momento que fez sentido o (imaturo) Ciclope ser líder da equipe.

Esta conformidade com privilégios sociais - mesmo que personificada por um individuo que se sente "diferentão" o bastante para andar com aqueles que são visivelmente marginalizados - significa que há uma categoria de "normalidade" que se opõe ao "diverso", anormal ou grotesco. Veja, o problema não é ter um líder dentro dos padrões, mas sim a insistência numa abordagem que defende valores tradicionais por meio da omissão de pontos de vista.

Se, por um lado, essa centralidade quer nos convencer de que existe neutralidade, por outro, a incorporação maciça de azuis, verdes, robôs, androides, ciborgues, aliens, cortanas e até de animais é um grande esforço de apagar categorias humanas identificadas como minorias sociais e políticas. Ou mesmo, de atribuir estereótipos reconhecíveis a personagens que "não poderão ser criticados de forma direta". Ou podem.

Desse modo, assim como o apagamento é um problema grave, a exotização, a higienização e o silenciamento são a outra face da mesma moeda. Eu sempre me pergunto: por que é tão acessível a visão de mundo, os sentimentos e a história doídas dos líderes enquanto os "protagonistas secundários" são corpos vazios? Isso é tão real, que, na maioria das vezes, os companheiros de equipe que "destoam" do líder tendem a se encaixar em estereótipos raciais facilmente identificáveis.

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A Guerra Civil é uma polarização de dois homens. O plano de fundo é bem "diverso", colorido e narrativamente  descartável.

As histórias que se propõem a mostrar a complexidade de backgrounds normalmente focam na perspectiva do personagem central, que se sente excluído do seu "lugar natural", por motivos mil, inclusive de não corresponder à expectativa positiva. Em personagens masculinos isso normalmente aparece nas histórias como problemas na performance de masculinidade e no conflito com o pai. Personagens femininas, quando falham em manter na medida que o padrão exige, em geral, buscam aventuras e formas de escapar do ideal branco de feminilidade. Ou de escapar da "Lei do Pai", na esperança de agradá-lo.

Ainda assim, a maioria das histórias com múltiplos protagonistas perde a oportunidade de lançar um olhar crítico sobre as questões em torno do conceito de "diversidade", afinal, tanto as presenças simbólicas (token) que representam estereótipos e/ou morte no fim quanto presenças disfarçadas em cores e formas mostram o mesmo desprezo. Esse desprezo é uma forma de olhar particularmente ligada à branquitude e à heterossexualidade porque é desse lugar que parte a ideia de "diferença" na ficção especulativa mainstream. E é essa condição que dá livre acesso à apropriação dum espaço que deveria ser descentralizado ou, pelo menos, mais democrático.

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No especial de natal, ficou bem evidente o objetivo de Sense8 com a diversidade: apagar. O episódio focou nos personagens mais planos (estadunidense e islandesa) e no prazer exótico do alemão para com a indiana. 
Recentemente, escrevi sobre como a Capitã Marvel é um dispositivo discursivo que veicula mensagens de supremacia racial disfarçada de feminismo. Ela se comporta como líder duma equipe composta majoritariamente por heroínas e heróis negros (The Ultimates) com larga experiência de combate como se fosse dotada duma capacidade inata para a liderança. Vejo resquícios deste "orgulho" em todos aqueles seriados, filmes e jogos já citados.

Se você notar, os indivíduos "normais, porém desajustados" se tornam um fantasma do padrão num grupo de "estranhos", "freaks", "bizarros" e reforçam a hierarquia social do aqui-agora, mesmo que a narrativa seja futurista. E essa "normalidade" circunstancial faz com que o "desajustado" se sinta mais confiante, mais forte e capaz, o que é reforçado pelas palavras positivas e pelo companheirismo dos colegas outsiders- o que nem sempre é recíproco.

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Os Supremos (The Ultimates) equipe formada por (esq_>dir) : Spectrum, Marvel Azul, Capitã Marvel, Pantera Negra e Miss América.

Uma estratégia bastante difundida (e aprovada) nos quadrinhos é a de protagonistas femininas (brancas) fortes com ares feministas e, até mesmo, com interesses afetivos por heróis negros (Jessica Jones, Carol Danvers, Thor). Num primeiro momento, a Capitã Marvel Carol Danvers (por Kelly Sue DeConnick) da Nova Marvel (2012) causou grande comoção entre garotas e mulheres. Logo então veio a Batgirl de Gail Simone. Apesar do ganho de buscar alternativas à infeliz Piada Mortal, Simone construiu uma narrativa sobre uma garota branca que sofreu muito com uma temporária deficiência física, que, por isso, entende o sentido de ser uma outsider e que, portanto, acolhe todas as diferenças.

A grande questão é que a sua melhor amiga é uma mulher trans, seu namorado é de origem latina E deficiente físico e por aí vai. Note que a maioria das pessoas à volta de Barbara Gordon é o oposto dela, o que me transmite a sensação de que tantos recordatórios que descrevem o mundo interno dela opõem todos os "diferentes" do mundo exterior e constroem um sentido nefasto. Diferentes que, no fim das contas, se observados juntos, remontam a mesma ideia oitocentista de "freakshow" ou dos "gabinetes de curiosidades".

Não afirmo isso por questões de auto-ódio, afinal, nem eu, nem Lupita Nyong'o nem Zoë Saldana somos alienígenas! A questão é que atualmente não dá mais para levantar bandeira de que "antes verde do que nada" nem a de que somos "UM TIPO" de Homem Aranha, Homem de Ferro ou Capitão América como a Totalmente Nova Marvel possa tentar dizer dando tanto espaço para "politicamente neutros" como Nick Spencer.

A diversidade é a discursão da Marvel desde 2011 e, digamos que as Guerras Secretas (2015) foram sobre isso.

É importante que haja honestidade de discutir o conceito de "humano" que a suposta inclusão ou "diversidade" está enfiando em nossas goelas. Apenas com essa compreensão, ficará evidente que pintar uma pessoa negra de cores esdrúxulas não mascara estereótipos tão conhecidos como Angry Black Woman.

Já chega de não ter com quem nos identificar no mainstream. Já chega da ideia de que somos freaks, bizarras ou simplesmente alienígenas! E, sobretudo, chega de focar em histórias sobre a fragilidade e vulnerabilidade de homens brancos heterossexuais que tentam equilibrar a liderança de equipes e suas masculinidades frágeis. Corta essa parte, já sabemos que eles são sensíveis e de "coração nobre". Também chega de heroínas que são estandartes dum feminismo branco e que enxergam toda a diferença como um território divertido, interessante ou exótico a ser explorado e conquistado. CHEGA DE REPRESENTAR DIVERSIDADE COMO SINÔNIMO DE SHOW DE HORRORES.

Reforço: não estou aqui julgando uma questão moral, a intensão ou a "boa vontade" de autores e autoras ou do público que se identifica com as personagens citadas. Meu ponto aqui é desnaturalizar essa relação automática de que "multi-étnico" e "multicultural" é a solução emergencial para os nossos problemas. Afirmo isso porque os Vingadores têm essa proposta: reagrupam visões de mundo mais-do-mesmo com o "prazer do exótico" sobre o qual nos alertou Edward Said e brincam de renovar.

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Wet Moon (Sophie Campbell) foca o cotidiano de jovens pessoas. O interessante da representação da "diferença" neste quadrinho é entrelaçada com situações triviais, o que desmistifica a ideia de "outsider". Afinal, há vida "além dos trilhos".

No fim das contas, a maioria das obras que se proclamam diversas, nada mais fazem que reforçar a ideia de que diversidade é a reunião de tudo o que "não é". Não é branco, não é cisgênero, não é heterossexual, não é rico, não é normal.

É claro que o desconforto que destrinchei neste texto não foi elaborado para reforçar o quanto o mainstream desrespeita as minorias, mas para ressaltar o quanto os quadrinhos de Sophie Campbell retratam múltiplas protagonistas em Wet Moon com a naturalidade que cada personagem merece. Além disso, também há a série original Netflix Crazyhead, Logan, o Novíssimo e incrível Hulk, a Miss Marvel Kamala Khan e os Novíssimos Vingadores.

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A interação entre Kamala Khan, Sam Alexander e Miles Morales é incrível. O fato de serem indivíduos racializados confere complexidade às experiências sem restringir suas subjetividades.
Sem dúvidas, cabe ao público mostrar que ser minoria não é mais ser nicho. É necessário disputar os espaços mainstream, lutar por visibilidade dentro do que é considerado específico, mas também tendo em vista de que não é extravagante ou anormal ser negro, gordo, portador de deficiência ou estrangeiro. Se há um show de horrores é a história de usurpação e violências realizadas até hoje por nações imperialistas que sustentam a economia às custas de vida e dignidade humanas.


LEIA TAMBÉM

Capitã Marvel: Ser uma “boa” feminista não é o bastante

sexta-feira, 14 de abril de 2017

O QUE É FALSA SIMETRIA?

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Mulher Maravilha e sua irmã gêmea Nu'Bia

É imprescindível a compreensão de que não podemos embasar um pensamento em comparações absurdas entre elementos de categorias diferentes. Isso tanto no que se refere a comparar atitudes de minorias  às das maiorias políticas por meio de afirmações que parecem compreender todos os elementos da questão
("negros são os mais racistas"), quanto ao se preocupar em acusar uma mulher vítima de abusos ("não sei quem é pior, ele ou ela").

-Ta, e por que não uma Lei José da Penha?
-Tá, e os brancos, também não sofrem racismo?
-Ah, mas as mulheres são desunidas.
-Ah, mas transformaram o Flash em negro e ninguém reclamou.

Pense bem, faz sentido comparar as vezes que personagens brancos nos quadrinhos são interpretados por atores negros no cinema? O número é próximo? E quanto ao número de homens violentados por mulheres? Pessoas negras escravizaram brancas? Pois é. Não é razoável que, numa discussão os dos fatos sejam levados em consideração como se fossem a mesma coisa, como se houvesse simetria.




[Edição]

Para mais informações:
MARINO, Dani. O machismo no universo nerd e a tal da falsa simetria.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Raça: o filme que (também) poderia ser sobre nós

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Miúda dos Santos

A primeira pergunta que deve ser feita é o que está sendo considerado "nos" aqui neste texto. Em conformidade com a descrição do site, afirmo que a nossa comunidade Preta, Nerd & Burning Hell é constituída por um "nós" mulheres/garotas negras, nerds que se identificam com o feminismo negro como método, abordagem e visão de mundo. E com essa visão de mundo, assisti à pré-estreia do documentário Raça: um filme sobre igualdade, codirigido por Joel Zito Araújo (As filhas do Vento) e Megan Mylan (Lost Boys of Sudan), em 2013.

O FILME


Financiado por fundações estrangeiras como a Kellogg's (quem leu Mulhere, Raça e Classe entenderá a ironia disso), o documentário Raça se propõe a discutir representação e representatividade de pessoas negras brasileiras em três esferas: a midiática, política e cultural. Para isso, são construídos três perfis : do cantor e apresentador de televisão Netinho de Paula, do senador Paulo Paim e da quilombola Dona Miúda (nesta ordem). 

Embora eu pudesse interpretar o modo como as ironias (exemplo: Pelé e Xuxa) lançadas sem comentários explícitos ao público geral podem ser prejudiciais à nossa causa política, prefiro analisar a representação feminina no filme que deixou ( é muito) a desejar.


NATUREZA VERSUS CULTURA


A meu ver, o primeiro ponto que se apresentou problemático no filme foi a escolha dum número ímpar para a representação dos perfis. O conceito de representação discutido no filme deveria levar em conta que a presença não é suficiente para garantir representatividade, pois a representação é a construção de quem é observado a partir das perspectivas do observador. E quem garante que o indivíduo "real" representado se vê na obra? Como o uso da imagem desse indivíduo representado pode ser usada para transmitir ideias opostas ao que ele acredita?

Os perfis são compostos por dois homens negros do topo econômico, heterossexuais que representam a cultura letrada e capitalista, o mundo do poder e das decisões. Os homens destacados no documentário, assim como Joel Zito (que é um cineasta reconhecido também no âmbito acadêmico internacional), representam o máximo de privilégios sociais conquistados por pessoas negras brasileiras até o presente, e isso é significativo.

Em oposição discursiva, temos uma mulher negra trabalhadora numa área rural, líder política e religiosa duma comunidade destituída de representatividade na câmara, senado e na mídia. A presença dessa cidadã, que pertence à uma comunidade quilombola do Linharinho, no Espírito Santo, é sim uma dádiva para a obra, mas as escolhas discursivas dos autores mina seu potencial à medida que a reduz ao "inculto", "popular" e à"natureza" - aspectos historicamente reduzidos.

Talvez, o filme devesse chamar-se "gênero", o "primeiro" na verdade. Ele não precisa mostrar pessoas brancas para me lembrar o desserviço que muitas sufragistas defenderam de voto para homens negros. Desserviço apreciado por muitos homens negros, aliás.

Raca Mylan Araujo
O brasileiro Joel Zito Araújo e estadunidense Megan Mylan 

No fim das contas, a base do documentário que se propõe a discutir a complexidade que é ser uma pessoa racializada, no Brasil, é reduzida à clássica dicotomia questionada pelos feminismos, desde a primeira onda. E veja, embora eu compreenda a dignidade e resistência que Dona Miúda representa, é evidente que esta oposição no filme retoma as polaridades que embasam violências que buscamos combater diariamente.

Se, por um lado, mostrar o cotidiano da comunidade tradicional evidencia que seus direitos são conquistados (e não concedidos), por outro, gravar um rito religioso sem permissão objetifica esse grupo social tanto quanto qualquer trabalho de campo de antropólogos comprometidos com o status quo. Lembro do assombramento de Dona Miúda na sessão e de sua ênfase no fato de terem gravado o que não deveriam. É absolutamente chocante um intelectual negro, militante, compactuar com esse nível de desrespeito. Mais chocante ainda porque ele é o autor do belíssimo As filhas do vento.

Nas duas vezes que assisti ao filme ele estava presente, a platéia era majoritariamente negra e houve debate. Seu discurso não apontava em nenhum nível uma sabotagem, edição ou qualquer outra informação que não fosse de seu arbítrio. Sim, eu sei que isso seria pouco estratégico, mas convenhamos: temos uma responsabilidade com tudo o que fazemos e precisamos ser intelectualmente honestas sempre. Sempre.

Representa quem?

A ESCOLHA DO PERFIL COMO DISCURSO

 

Além disso tudo, é preciso problematizar a presença de Netinho de Paula. Sabemos da importância de sua iniciativa de construção de um canal de televisão de negros para negros, bem como sua presença na mídia. Por outro lado, é bastante ofensivo selecionar o perfil de um estereótipo colonial de homem negro (conhecido pelo gravíssimo ato de violência contra a mulher) e desrespeito às mulheres negras como símbolo da "raça". Enfatizar suas atitudes de "bom pai" para com sua filha "nega japa" não minimiza a absência dos demais filhos (vários), ainda mais em tempos de debates profundos sobre a solidão da mulher negra e da participação dos homens negros nisso. A representação de Netinho, se comparada à de Dona Miúda beira a broderagem.

Seria uma escolha política revolucionária trazer o perfil dum homem negro da mídia que tivesse uma história de comprometimento e de ética política que dialogasse de forma respeitosa com o(s) feminino(s). Não podemos ignorar que homens negros, apesar do racismo, são investidos de poder social, inclusive para oprimir mulheres negras e, sobretudo, quando não há pessoas brancas. 

O perfil de Paulo Paim é focado apenas na sua atuação profissional ( o que reforça a broderagem para com Netinho de Paula). As filmagens acompanhavam com doses de espontaneidade (câmera nos ombros, momentos de descontração e hora do cafezinho) as negociações com os "coronéis" para a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial. A sua presença marca tanto a perseverança necessária para alcançar o objetivo quanto a missão autoatribuída de fazer pelos "nossos", quando se é um "preto que ascendeu socialmente". A pergunta que ele personifica é: o que posso fazer pelos meus?

Como o filme foca apenas o cotidiano profissional do senador, ele se torna a personificação da burocracia, da "civilidade" do universo masculinista e da política partidária. Ora, neste caso não seria muito mais interessante trazer o perfil de Benedita da Silva?

De fato, senti muito orgulho de ser capixaba (nascida no Espírito Santo) quando assisti ao documentário. Dona Miúda representa o orgulhoso, a resistência e a dignidade da população negra. Sua luta por direitos evidencia o quanto precisamos avançar como povo ao mesmo tempo que nos inspira.

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CONCLUSÃO


Por mais que as escolhas que constituem um filme não sejam sempre restritas ao que o diretor deseja (mas também ao que é possibilitado pela produção) assinar significa assumir as escolhas que constituem a obra. Neste sentido, foi bastante frustrante assistir a um filme negro tão masculinista. 

Reforço: o problema não é simplesmente a presença. Dona Miúda me representa sim, mas também há mulheres exercendo cargos políticos e na mídia. O apagamento histórico de intelectuais negras, bem como a representação do ranço de masculinidades privilegiadas torna o documentário o retrato não do problema racial no Brasil, mas uma ode às ardis sofrências dos homens negros focados muito mais em desafios de serem homens que numa crítica atual, que reflita o projeto de sociedade igualitária e justa.


Assista ao trailer:


segunda-feira, 10 de abril de 2017

RYSE: son of Rome - um filme jogável e muito mais!


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*Apesar dum jogo milenar há indícios de spoiler*


É comum ouvir que os exclusivos de Xbox são fracos em termos de gráficos e até mesmo de histórias. Apesar disso, o jogo grátis mais interessante dá live deste mês de abril de 2017 me surpreendeu muito nestes quesitos, é o RYSE: SON OF ROME (Crytek/ Microsoft - 2013).

Apesar da pouca importância dada a ele pela maioria, e de ser pouco sedutor em termos de temática, e cenário, os gráficos são maravilhosos. A movimentação, os golpes, as lutas, as execuções, enfim, tudo isso mostrou, na época de lançamento, um potencial incrível para o console. A jogabilidade é incrível e, logo nos primeiros cinco minutos, percebi que estava totalmente no clima de diversão.

Mesmo não sendo do grupo do Asterix.

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Os cenários remontam toda a glória e sofisticação do nosso imaginário.

"Roma é civilização, força e ordem"


A história do RYSE bebe de elementos da Roma que já conhecemos dos livros e séries. Apesar de não se prender a datas específicas, é cheia de intrigas por glória, riqueza e senso de honra. Nosso personagem é o soldado Mário Tito, um líder nato, leal e destemido. Vivemos as aventuras na sua perspectiva de civilização versus barbárie que, com o passar dos atos, vão se tornando menos maniqueístas. Seu objetivo é, aliás, defender a ordem de Roma e vingar a morte de seu pai (um senador popular e incorruptível).

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Nesta jornada do herói em busca de vingança, se delineia o ideal de Roma defendido pelos centuriões. Um senso de superioridade moral, de honra e de justiça se estabelecem como um ideal de masculinidade em oposição à ausência de mulheres. Em vários momentos, a união faz a força, escudos erguidos contra a investida dos "bárbaros" evidencia a importância de sincronizarem pensamentos, ideais e força.

E por falar em "bárbaros": é interessante notar a representação dos bretões. Enquanto os romanos costumam aparecer com elmo e, quando não, mostram faces diferentes, os opositores nada mais são que cópias uns dos outros (sim, são os mesmos!) o que, apesar de questões técnicas transmitem um sentido problemático. "Ah, mas os soldados romanos também são iguais". A questão, neste caso, é que existe um investimento discursivo no senso comum de que os povos que não eram romanos não passam duma massa insensível, amorfa, grotesca e suja.

Um fato interessante do jogo é que, apesar da perspectiva ser a romana, há certa dose de criticidade. Não há uma divisão entre heróis e vilões, afinal, o rei Oswald e seu povo só lutavam por igualdade, liberdade e condições de vida adequadas. Como o imperador Nero era impassível, a única forma definitiva de resolver essa antítese era derrubar o império romano. O simples fato de não haver uma polarização estrita e desumanizadora já é em si um motivo para gastar algumas horas com RYSE.

Não haver uma polarização não significa que a representação dos bretões é positiva. Oswald é representado como um homem idoso, amigável e humilde, pronto para negociar a paz. No contexto narrativo, essa humildade, em contraste com a perversidade dos romanos faz parecer que ele sofre de fraqueza moral e, portanto, sua virilidade é questionada pelos centuriões.

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A maioria das movimentações nas lutas lembram  os movimentos de Brad Pitt em Tróia


"O vale sombrio"


São apenas 8 atos, mas é o suficiente para a jornada do herói vivenciada por Mario. O soldado começa com um jovem típico, ávido por lutar pelo seu ideal de civilização. À medida que explora territórios e tem novas experiências, Mario percebe que essa divisão entre romanos e bárbaros é uma interpretação dos fatos. Após o discurso de Oswald ele se choca com a humanidade dos bretões e até se envergonha pela covardia do filho do imperador.
Apesar disso, particularmente me interessou o ato Vale sombrio. Nele, Mario caiu num vale "sombrio" cheio de "bárbaros" vestidos com pele e vísceras de animais. Nesta sequência ele precisa resgatar os romanos de serem queimados a partir de várias lutas e a batalha final com o "minotauro" Glott.
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Foi nessa luta com Glott, aliás, que comecei a pensar sobre a construção do gênero masculino no jogo. Se até então a maioria dos oponentes se dirigia contra Mario, na arena sombria de Glott ele espera que ataquemos. Lembrando que , com a carcaça de animal sobre ele e com as armas de pedra, Glott é tão forte quanto assustador, senti uma considerável repulsa de me aproximar e de ser golpeada.

Na lógica do jogo, ser mais frágil e de menor estatura (se comparada ao Glott) não é um problema para Mário. Daí lembrei da necessidade que rapazes (senso comum) tem de parecerem competitivos, lutarem mesmo que cientes da derrota iminente. Uma certeza naturalizada de que não importa a cautela, mas sim a bravura.

Bravura. Este é um valor que não faz parte do repertório convencional de experiência de garotas. Com isso, não estou afirmando que há essências, mas que existe uma estrutura que força a construção de gêneros como se fosse natural.

Em Diablo 3, por exemplo, eu sempre escolho classes que não demandam contato físico e investidas ofensivas com proximidade, porque gosto de pensar o contexto e de ter tempo para lidar com os golpes. Claro que isso tem raiz na primeira infância, condicionamento sobre controlar o impulso violento, domesticar emoções, "não seja bruta e não desconte sua raiva" já que não é legítimo senti-la. É como se dissessem que mulheres não tivessem pelo que lutar e fossem - no máximo - o pretexto.

À medida que comecei a explorar essa camada da experiência de Marius, outro ponto se mostrou relevante: a representação do feminino.

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Deusa Minogue?


"Não faz o meu tipo"


A primeira mulher que apareceu no jogo é uma deusa, cujas vestes parecem inspiradas na Kylie Minogue. Noutras palavras: a nudez é quase total. Apesar de sua onisciência, aparentemente sua condição de mulher a destitui do tipo de honradez da qual Mário é investido.
Mas à frente, outras mulheres NPCs (personagens não-jogáveis) de vestidos aparecem, sempre performando uma fala ou duas sobre o desespero daquela Roma arruinada. Elas não são bravas e honradas, elas não são nada além duma presença pontual num mundo dos homens (token).

Outra tentativa de token é a filha de Oswald: Boudica. A jovem é muito importante no jogo, por mais que a narrativa não a favoreça. Se antes de tudo eu já me identificava com os "bárbaros" em termos ideológicos e estéticos, quando ela chegou à história eu já queria mudar de lado na hora. Assim como sua presença no cenário de guerra mostra a diferença ideológica entre as mulheres Bretãs e romanas, sua bravura e senso de comunidade transmitem uma imagem rara sobre "feminilidade".


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Boudica <3

Sim, é senso comum de que mulheres vikings, por exemplo, participavam ativamente de guerras, mas a representação delas normalmente é filtrada a partir dum olhar alarmado, já condicionado aos valores sexistas que embasam nosso tempo/espaço. Assim, essa garota - nossa Alloy interrompida, do Xbox - é a total e perturbadora antítese de Mário.

E, quando digo perturbadora, enfatizo que aquela força moral que o próprio Mário performa é muito parecida com a dela, dadas as proporções. Enquanto vários homens temem a ira do soldado, ela não declina o primeiro golpe e sequer se humilha como o pai. Boudica tem orgulho e honra que surpreendem Mário e humanizam nosso olhar sobre a condição do seu povo.

Mas nem tudo são flores. Uma das conquistas necessárias para completar o jogo é matar a filha de Oswald. Quando a matamos, a conquista liberada é "não faz o meu tipo". Assim como a deusa, a valentia de Boudica e seu senso de caráter não a libertam da objetificação e da condição de "mulher" em nossa sociedade.


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Na luta final, mais uma vez a derrotamos e o diálogo é sombrio. Boudica afirma que ela e Mário são muito parecidos e lamenta estarem em lados opostos. Se o objetivo dela fosse clemência, ela se frustraria com o golpe a seguir. Mário afirma que poderiam lutar juntos, mas não nessa vida. Ao longo do jogo, desde que ela aparece, há uma atmosfera implícita de que os dois sentem uma atração mútua (estilo colegial) e, por isso, se desafiam.
Desculpa a foto, mas tinha que compartilhar isso >.<


Eu temi que eles terminassem juntos. Mas foi pior. Ele a executou Boudica dando a entender que foi porque ela não faz o seu tipo. Se ela fosse outro tipo de mulher, (quem sabe?) ele a pouparia.

O desfecho do jogo é previsível. Depois de descobrir que o pai foi assassinado a mando do imperador, Mário passou pela arena do filho de Nero e mostrou uma face abastada de Roma, em oposição àquela miserável e doente do povo. O culto à violência e ao "profano" são como um ponto de ancoragem que lembra o presente em aspectos óbvios (luta de classes, a objetificação da mulher e o direito que a hegemonia tem de infringir as próprias leis).



Ao longo da narrativa, muitos problemas com o pai e na construção de gêneros, se revelaram como insights que formaram a minha experiência com o jogo. A execução de Nero (empalado numa espada gigante), acima de tudo, é uma catarse para quem se identifica com a história no nível de engendramento masculinista. Enquanto a morte de Boudica me marcou profundamente como uma violência simbólica que simplesmente revela a falta de interesse em jornadas de heroínas, o desfecho de Mário é mera repetição de convenções narrativas: um mergulho que simboliza sua trajetória, que reforça sua honradez e o quanto o ideal de nação está acima de individualidades. O mergulho em direção à escultura gigante tanto fecha o ciclo de tirania na cidade, quanto liberta o herói da vingança, à medida que amplifica seu senso de honra.
Sem dúvidas, mais uma fábula cionemática sobre o que e como é ser homem, mas valeu a pena pelo lindo visual e pela belíssima fala de Oswald:


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segunda-feira, 3 de abril de 2017

Capitã Marvel: Ser uma “boa” feminista não é o bastante


A maioria das pessoas talvez não saiba, mas até a década de 1980 foram criadas mais personagens negras e negros nos quadrinhos de super herói do que até bem recentemente. Após uma série de retrocessos (backlash), como transformar personagem negro em branco e queer em heterossexual, a Marvel finalmente voltou a dar importância às minorias políticas, em 2012, sob a iniciativa Nova Marvel. Claro que, com ressalvas. Nesse contexto, vamos conhecer um pouco da história da Capitã Marvel.

Quem é a Capitã?

Na década de 1980, o título do Capitão Marvel havia passado de forma aleatória para Monica Rambeau, uma mulher Negra com blackpower, pele pigmentada –  quase o oposto de Ororo Munroe – e uma voz própria que não se calava ante ao sexismo racializado de figurões como Tony Stark. Não raro, Monica é descrita pelo público como seca, sarcástica e rude, simplesmente porque ela não se cala em relação às injustiças. Sua carreira de líder dos Vingadores é ignorada pela maioria dos/das fãs de quadrinhos, além de eclipsada por diversas vezes que se viu desalojada de seu nome. Capitã Marvel, Fóton e Pulsar, cada mudança mostra que nem sua expertise, nem todos os seus poderes são o suficiente para se estabelecer como super-heroína, ao passo que muitos dentre os Vingadores são humanos comuns, ou heróis de terceira.
Reconhecida a presença de mulheres no hall de produtoras e consumidoras de quadrinhos, o ideal social encarnado pelos homens-brancos-ricos-cis-gênero foi suavizado em prol do aumento da presença de mulheres, pessoas negras (em geral, homens) e LGBTQ+. Este afã de criar um título feminista trouxe Carol Danvers – uma personagem bem antiga, aliás – a primeiro plano aleatoriamente como Capitã Marvel. Sim, eu sei que ela tem sangue Kree, mas a insistência do Capitão América/Steve Rogers mostra que “Capitão Marvel”, não é um nome, mas um manto que ela deve assumir. Ele disse:

“O negócio é o seguinte, você foi líder dos Vingadores. Já salvou o mundo. Chega de ser coadjuvante. Assuma o manto” (Capitão América in Capitã Marvel #1, 2012, p.10)

Será que ele não disse isso à pessoa errada?
Captain Marvel (2012) 1 Page 9 Capitã Marvel
Capitã Marvel (2012) #1 Página 9 (Roteiro: Kelly Sue DeConnick/ Arte: Dexter Soy, Emma Rios, Rich Elson. Karl Kesel, Al Barrionuevo/ Arte Final: Mario Lopes com Emma Rios/ Cores: Jordie Bellaire, Wil Quintana & JavierR Rodriguez)
Apesar de Steve Rogers ter sido um grande amigo de Monica Rambeau  na época em que ela fazia parte da formação principal, existe uma visível identificação entre Mar-vell, Carol Danvers e Steve Rogers que nada mais é que o pertencimento racial. Sim, sabemos que Mar-vell não era humano, mas a forma que ele assumiu na Terra era de um ideal de sujeito branco e, assim como Steve, serviu como vetor ideológico que reforça o imaginário social do indivíduo forte, correto e justo. Num primeiro olhar, a grande questão é que cada hífen  da expressão “homens-brancos-ricos-cis-gêneros” representa uma fronteira, ou seja, o limite que define se você é mais ou menos considerada humana.
Mar-Vell
Ser considerada humana define a dinâmica de socialização, isto é,  se vão tentar lhe agredir ou matar pelo o que você é ou se lhe chamarão pelo nome, com delicadeza. Neste sentido, não nos referimos a indivíduos específicos, mas à espinha dorsal de nossa sociedade, o racismo. E de como os indivíduos, investidos de poder social, se apropriam das vantagens que o racismo lhe concede – inclusive o de não ter que pensar sobre raça (falamos de raça no sentido social, não biológico!).
É uma vitória quando uma das identidades que nos constitui conquista direitos, mas nós não podemos esquecer que os sujeitos mais beneficiados com os avanços são aqueles mais próximos das áreas interiores, mais longe das fronteiras. Como o racismo estrutura a cultura ocidental, não é exagero dizer que na maioria das vezes que há exaltação do feminismo nos quadrinhos, quem protagoniza é uma mulher branca que representa interesses do feminismo branco. Essa é a Capitã Marvel Carol Danvers.

O Real Problema

Carol Danvers é uma heroína loira que encarna valores positivos de liderança, força, inteligência, autonomia e excepcionalidade. Obviamente existem pessoas assim no mundo, mas a quantidade dessas representações é desproporcional à quantidade de heroínas racializadas representadas de forma positiva, sejam latinas, nativo-americanas, negras ou asiáticas. Apesar disso, muitas feministas podem discordar dizendo que “Carol Danvers em si é o produto, assim como não é ela quem escolhe suas roupas, ela também não escolhe suas atitudes”. Será?
Muitas vezes, para nos sentirmos identificadas, nós fechamos os olhos para aspectos negativos de personagens que amamos. Essa “negociação” é o cotidiano de qualquer pessoa nerd que pertence a minorias sociais. Compreendo perfeitamente esse fenômeno, mas é preciso admitir que a imagem de Carol funciona como um aparato cultural supremacista, uma espécie de contraparte dum Steve Rogers. É preciso reconhecer que isso é um problema, o que mostra o quão importante é o Feminismo Interseccional, isto é, um feminismo que abarque também as reivindicações de indivíduos que habitam as fronteiras nas áreas de convergência das “diferenças”.
Carol Danvers pertence a um corpo social privilegiado e, portanto, não é impelida socialmente a pensar nas desigualdades raciais, apenas de gênero. Sua melhor amiga é latina, mas isso não acrescenta discussões políticas à revista. Em vez disso, as atitudes de Carol invisibilizam, silenciam e hostilizam Monica Rambeau em vários momentos, como em Capitã Marvel #7 (2012). Muita gente pode não ter percebido, mas a interação de Carol com Monica é atravessada de silêncios que localizam a atual Capitã como feminista branca. Ela não percebe que ela se apropriou do manto de Mar-vell que foi expropriado de Monica.
Em vez de um simples pensamento histórico, que poderia revelar que essa desapropriação do nome metaforiza a trajetória de negros no ocidente, Carol Danvers replica que o título nem de Monica era. Essa negação e indiferença em relação à Monica se estende a total ausência de vontade de tornar-se aliada. E sim, porque o desconforto de Carol é latente, e tem tudo a ver com a inversão discursiva que pessoas brancas acríticas usam: você está sendo racista, ao contrário. O mítico racismo reverso.
Captain Marvel (2012) 7 Page 8 Capitã Marvel
Capitã Marvel (2012) #7 página 8
É desconcertante como se constrói uma oposição discursiva de carisma e delicadeza entre Carol (positiva) e Monica (negativa). É mais desagradável ainda que. apesar da inclusão duma pauta feminista, prevalece nos quadrinhos da Capitã Marvel a lógica colonial que hierarquiza grupos sociais por raça/cor e, assim, a Marvel continua valorizando a branquitude, mas agora personificada pela feminilidade branca.

Nós podemos fazer isso?

O grande mote dessa nova Carol Danvers é “Nós podemos fazer isso” (we can do it), mas “nós quem, cara pálida?”
Carol não apenas é uma “boa feminista” em suas práticas, como conquistou o lugar de protagonista feminina mais importante na atual fase da Marvel. A maioria das garotas que conheço que leem quadrinhos se sente representada pela Carol Danvers, como se fossem parte da Carol Corps. Assim como elas, acho que os roteiros da Kelly Sue são muito divertidos e acho a relação da Carol com a Kit (uma menininha loira que mora no mesmo prédio e é fã da Capitã) e mesmo com a Kamala Khan (Nova Ms. Marvel) discute muito bem a questão de representatividade para garotas. Por outro lado, em diversos momentos daquela primeira fase,  2012, encontramos uma ode à supremacia racial.
kelly sue deconnick carol corps Capitã Marvel
Kelly Sue DeConnick e um grupo de fãs que se intitula Carol Corps
Alguém tem uma explicação para Carol Danvers ser Coronel da Tropa Alfa? Ela é um Gênio científico ou tático? É a Criatividade? É a Força e poder além da conta? É por Voar no espaço? No mix publicado pela Panini, Avante, Vingadores! mais da metade das histórias é protagonizada pela Coronel Capitã Marvel Carol Danvers – a aposta feminista da Marvel – e isso parece um avanço incrível, não é?
Na atual fase publicada no Brasil (antes da Guerra Civil 2) ela tem sido representada de forma mais fria e externa. Diferente dos roteiros subjetivos de Kelly Sue DeConnick, a Capitã Marvel roteirizada por Michele Fazenkas e Tara Butters é uma personagem plana, previsível e sem profundidade. Algumas pessoas podem argumentar que ela está numa fase muito militarizada e que isso define sua frieza. Curiosamente, há uma rivalidade entre ela e Abigail Brand, a comandante da Tropa Alfa que é representada como perseguição de Abigail contra Carol.
Assim como essa Carol é retratada como uma pessoa sempre hostilizada, ela trata a equipe multi-cultural com muita indiferença e condescendência. Embora seja louvável sua vontade de agir de forma correta e se sacrificar, sua presença na Tropa Alfa é apenas uma posição, um cargo ocupado por alguém que enxerga apenas o que lhe convém, sob filtros humanistas do tipo “somos todas iguais”. Neste caso, o mérito da parceria de Kelly Thompson e de G. Willow Wilson é a capacidade de construir personagens fora do padrão com voz própria e distantes dos estereótipos, mas sempre em posição secundária em relação à Carol.
 the ultimates marvel Capitã Marvel
Os Supremos (2015 ) – Roteiro: Al Ewing/ Arte: Kenneth Rocafort/ Cores: Dan Brown
Outra coisa que nos faz pensar é em como “O retrato da mulher moderna” que Carol representa se contrapõe a todos os personagens da equipe Os Supremos (The Ultimates). Ela é a única pessoa branca da equipe e, ao mesmo tempo, a pessoa que se sente mais confortável para autoproclamar-se apta, líder, piloto. Pensando que a equipe está repleta de personagens inteligentíssimos, poderosíssimos e deveras experientes e maduros o suficiente para saber lidar com as próprias fraquezas, e com senso de comunidade, por que ela insiste em liderar? Parece uma performance de branquitude. Uma performance de poder.
The Ultimates (2016) 3 Page 11 Capitã Marvel
Os Supremos #3, p. 11 (2016 ) – Roteiro: Al Ewing/ Arte: Kenneth Rocafort/ Cores: Dan Brown
Pode parecer que “Fazer o que pode” (we can do it) é levado ao pé da letra por Carol. Junto a isso, há um sutil comentário retórico de que o affair entre ela e Jim Rhodes (que tem efeito na Guerra Civil 2) faz dela uma progressista, senão um ser livre do racismo.
Muitas de vocês podem falsear o que eu afirmei a partir da informação de que, nos EUA, casamentos inter-raciais eram proibidos até bem recentemente, o que faz dessas relações ainda um tabu. Isso, no entanto, não minimiza a total abstenção dela em relação à desigualdade histórica entre negros e brancos. Sua falta de disposição para rever seus privilégios e, sobretudo, a indisposição ao exercício de sororidade em relação a Monica revelam tanto uma continuidade das feministas que apoiavam direitos civis para homens negros (não para mulheres negras), quanto dá indícios de uma relação colonialista de exotização para com o corpo de homens negros.
Sendo assim, a emancipação feminina representada por Carol Danvers soa muito mais como uma ode a um feminismo branco do que  como um projeto político que envolva a liberdade para todas. E esse “feminismo bom, justo e leal” humanista (“que não separa por cor”) nada mais é que uma estratégia de manutenção da hierarquia racial. Por essas e mais outras que precisamos de um feminismo interseccional, que não deixe ninguém de fora, que seja crítico e sempre aberto ao diálogo. Nesse sentido, o feminismo representado por Carol não é bom o bastante.