segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Novidades na Netflix: 13th/ A 13ª emenda


[de escravo a criminoso com uma emenda]

Estreou na netflix nesse mês um documentário da Ava DuVernay. A diretora, uma mulher negra estadonidense de 44 anos já havia dirigido “Selma: uma luta pela igualdade” que discute alguns episódios da história da luta pelos direitos civis nos EUA. Ava fez também outros filmes e dois deles, bastante interessantes, estão na netflix.

No nova produção chamada 13th, uma série de pessoas entre acadêmicos, ativistas e alguns representantes de grandes corporações é entrevistada e citada. Eu diria que a temática do filme é o projeto de nação norte-americano, cujo valor máximo da liberdade se realiza apenas parcialmente e na medida mesma em que instaura regimes de exceção para os não brancos, em especial para os negros.

Para mim, a força do documentário reside em mostrar como esses regimes de exceção se instauram, se modificam e se renovam, mantendo ou expandindo sua força apesar das transformações sociais. Este argumento é destacado no tratamento da 13ª emenda à Constituição do país, que proíbe a escravidão e a servidão involuntária, exceto, para a última, como punição de um crime. Os significados e os efeitos desta exceção são discutidos e o resultado é o questionamento do modelo de encarceramento em massa, a violência policial e o sistema penal norte-americano e sua enorme capacidade de punir e matar pessoas não brancas, em especial, homens negros.

O uso de imagens e vídeos de arquivo, que vão desde o tempo da escravidão, com cenas e casos atuais, além do excelente uso do rap como forma de resistência e de denúncia ajudam a criar um sentido de continuidade entre os diferentes regimes de exceção e mostrar os interesses econômicos e o desenvolvimento de várias imagens culturais que os sustentam, ao mesmo tempo em que tornam patente a necessidade de superação dos mesmos.


[população encarcerada nos Estados Unidos]
fonte: tumblr.com

Os paralelos com a situação brasileira são possíveis, guardadas as devidas proporções e a especificidade histórica nacional.

Nossa população carcerária é a quarta maior do mundo, com mais de 600.000 pessoas no fim de 2014. Destes, mais de 60% são negros, segundo o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen)[1].

Além disso, chama atenção a emergência de figuras políticas como Donald Trump, que mobilizam discursos racistas, xenófobos e misóginos e cuja estratégia de convencimento da população está baseada numa política do medo, que consiste em: 1) mencionar um passado glorioso, e por vezes fantasioso, onde as coisas eram melhores; 2) pintar o cenário atual como epítome da degenerescência moral e da perda de valores; 3) apontar os culpados pela situação, muitas vezes um grupo social racializado e/ou minoritário e; 4) garantir a volta do passado glorioso por meio da aniquilação ou controle do grupo supostamente culpado.
Qualquer semelhança com a narrativa política de alguns setores brasileiros não é mera coincidência.
Por tudo isso, eu diria que 13th é um filme importante e que merece muito ser visto e discutido, seja para ter um olhar sobre a história dos Estados Unidos (e suas semelhanças e diferenças com o caso brasileiro) seja para pensar novas formas de resistência.

Referência

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

LUKE CAGE ou sobre como acertaram com a Misty Knight (ufa!)


Simone Missick: a Detetive Knight <3


"Não apenas busco a justiça, eu a persigo"
(Misty Knight)

SPOILER!

OBS: sabemos que há roteiristas e muita gente envolvida, mas quando me refiro ao Cheo Hodari Coker, enfatizo o fato de que um showrunner assina a obra, então responde pelas escolhas estéticas, narrativas e políticas da série.


INTRODUÇÃO


1. A primeira ideia de heroísmo negro, em geral, remete à discussão sobre o Pantera Negra inspirar ou ser inspirado na organização política homônima. Neste caso, o rapaz é equilibrado, belo, sofisticado, inteligente e com amplos recursos materiais. Como os demais, ele "veste negro por dentro e por fora", mas as suas razões são diferentes das questões diaspóricas. 2. Pensamos também na ideia de liberdade, fraternidade, família, Deus e igualdade racial sob o pretexto de "deixa disso, sob a mesma bandeira somos TODOS iguais". Neste caso, não sabemos até que ponto ele não percebeu o que está em jogo. 3. Também há imagens duma masculinidade negra forte e sedutora, adornada por correntes, que nos lembram da violência histórica superada individualmente. Todos eles são honrados, conscientes, heroicos e respeitam a ordem lei do patriarcado ao seu modo: T'Challa, Sam Wilson e Luke Cage. Mas como você imagina uma super-heroína Negra, #marvete?



"QUEM DISSE QUE A TEMPESTADE É A ÚNICA SUPER-HEROÍNA NEGRA?" [*]


Com muita frequência, as pessoas respondem que a única super-heroína Negra É NECESSARIAMENTE A X-MEN TEMPESTADE. Ainda assim, cabelos lisos e olhos azuis não são as características que remetem à negritude. Na verdade, o que querem dizer é que não conhecem nenhuma outra dos quadrinhos, e quando citamos alguns nomes o choque é geral. Assim como o público médio, produtores de quadrinhos não conhecem personagens e tampouco o "real". A junção dessa ignorância com o silenciamento do ponto de vista das mulheres Negras torna a representação uma junção de racismo e sexismo em quase todos os casos. As heroínas Negras são descritas como "sarcásticas", intuitivas, sedutoras e absurdamente sexualizadas. Isso ocorre  porque mulheres são quase sempre hiper-sexualizadas na cultura ocidental, somado à isso,  a predominância do imaginário colonial sobre mulheres Negras categoriza como o corpo que abriga uma sexualidade bestial. Essa visão de mundo é naturalizada na mídia através de imagens de objetificação e exotização de mulheres Negras como se fossem apenas um corpo que abriga "curiosidades" sexuais.

Infelizmente esse tem sido um aspecto central do conceito de Misty Knight desde a sua origem nos quadrinhos, em 1975. Qualquer busca por imagens mostrará uma mulher com blackpower e braço biônico vestindo roupas decotadas, justas e em posições "sensuais" para deleite das fantasias dum público masculino e heterossexual. Nesses quarenta e um anos de trajetória ela tem aparecido nos quadrinhos do Luke Cage como parceira da Colleen Wing, nos X-Men como colega de apartamento da Jean Grey, até, finalmente, dividir o título "Defensoras sem medo" (2012) com a Valkíria que é lésbica. É interessante observar que a lesbiandade de Valkíria é contrastada no título com a heterossexualidade de Misty, que tem sido reforçada desde o começo (como a personagem da Pam Grier em "The L World", sabe?). Reforço que tem função retórica de explicar que ela é badass, mas é só porque ela é forte DEMAIS, e que as discussões sobre raça/gênero/sexualidade não são pauta tida como importante. Atualmente, na revista do "Capitão América: Sam Wilson" (2015) ela aparece apenas para criar um clima de sedução unilateral, o que mostra o quanto os quadrinhos têm sido frustrantes neste sentido.

Isso nos leva à sequência em de close nos "atributos femininos" de Simone Missick, e de total preservação do corpo de Mike Colter. Alias, durante a temporada inteira o máximo que aparece é o tórax. Acertaram no tom, na fotografia, cenografia, trilha sonora, mas não convenceram da necessidade dessa cena tal como foi. Eu fiquei me perguntando sobre os agentes de ambos os profissionais, contratos e interesses que foram preservados. O argumento usado nas entrevistas é o de que a cena mostra o agenciamento de Misty, porque ela decidiu ter relações sexuais no primeiro encontro, porque o deixou na cama e não deixou a casualidade atingir sua atuação profissional. Não vejo muita vantagem ou novidade nessa justificativa, então tentei focar no fato de que o ato sexual não serve apenas para objetificar a personagem, mas para mostrar que o sexo é orgástico também para ela. A ideia piegas dum status quo se resume à fala de Misty após a cena: "eu te encontro". O problema é que esse suposto poder é derrubado a cada cena de slut-shame protagonizada por Luke, cenas que passaram despercebidas para muitos rapazes. 

As demonstrações de slut shaming são bastante abrangentes: quantas vezes ouvimos que a roupa de uma mulher é curta demais ou seu comportamento atrevido? Há uma enorme variedade de insultos proferidos contra as mulheres, desde os mais pudicos, como “oferecida”, aos mais agressivos, como “vadia” ou “puta”. A sexualidade feminina e sua expressão são constantemente podadas, julgadas e restringidas. (Jarid Arraes via Blogueiras Negras)

O "silêncio como resposta" encaixa muito bem nas cenas porque é evidenciado que Misty sabe que não vale a pena explicar ao Luke, sobretudo porque tem trabalho a fazer, ele é secundário para ela. Isso também mostra o quanto está inserida no universo masculino cujas fragilidades emocionais levam ao ataque para sentirem-se no comando da situação. Ótimo. 

O que é inesquecível: o close errado passou pelo crivo do showrunner, que se diz interessado em redimensionar a representação de mulheres negras no universo super-heroico. Será que, pra ele,  o heroísmo de Misty passa por isso?


Pergunta retórica.






























Certamente. E não surpreende. Como afirma Joanna Russ: "a cultura é masculina", portanto, quando falamos de heróis (ainda que negros) há dois enfoques: os positivos tendem a ser uma representação do homem branco, com "traços de negritude" conhecidos como estereótipos, senão uma tendência política "mais à direita"; quando os valores são ambíguos ou negativos é permitido representar o herói negro como parte duma cultura/comunidade cujas motivações são "negras" ou politicamente "radicais". 

Quadrinhos mainstream são produzidos por homens e sobre a realidade masculina padrão, então a exploração, objetificação e hiper-sexualizaão de mulheres é engrenagem da máquina. Quando não é isso, a protagonista Carol Danvers produzida por mulher**  é uma ode à branquitude. As exceções são raras e sutis como a Misty Knigh de Marvel: Luke Cage e note a especificidade: me refiro à Misty da Netflix. 

À ESPERA DA NOSSA SUPER-HEROÍNA (ou, para além dos anos 80)


O nosso fascínio por narrativas heroicas passa pelos homens brancos, mulheres brancas e homens negros sendo que, nesse percurso, as mulheres negras aparecem como dispositivos narrativos, sofrendo violências físicas ou psicológicas e sendo resgatadas. A inversão da cor de uma personagem heroica não comporta a verossimilhança esperada, bem como o excesso de "etnicidade" mostra uma estratégia racista. Como então, Cheo Hodari Coker acertou no modo de atualizar a detetive Mercedes "Misty" Knight?  O básico que desejamos desses superseres é que lutem por nossa causa, daí a força de Tempestade no nosso imaginário, mas não é o suficiente. Ela representa muito mais um imaginário sobre o que talvez, quem sabe, possa ser uma personagem negra, uma tentativa infantil de enaltecer. Isso porque esquecem que:

"Um herói [ou heroína] encarna o que acreditamos ser o melhor em nós mesmos [mesmas]. Um herói [ou heroína] é um padrão a aspirar bem comum individuo para ser admirado". Ansiamos pela capacidade de olhar para cima; de olhar para além de nós mesmos e para algo maior.
(GAY, 2016, p. 268, )

O melhor de nós mesmas também requer uma proximidade com nossa vida comum, portanto, o fato de Misty Knight ser uma humana sem super-poderes não é demérito algum, ao contrário. Misty é construída como a melhor versão de nós mesmas, com fragilidades emocionais e traumas que mostram uma distância possível entre o que somos e o que aspiramos ser. A maioria das pessoas que conhece a personagem dos quadrinhos esperava a explosão e o tiro que, a custo do braço, elevariam da categoria humana à biônica. Apesar dessa ser uma das características do conceito original, a  que muitos fãs desejavam assistir, a escolha de Coker por adiar esse fanservice evento foi uma decisão acertada, afinal, ela não é o braço biônico, é ele que faz parte dela, entendem? 

Não é à toa que ele desejou mostrar a fragilidade humana de Misty Knight: sua trajetória heroica é marcada por traumas que a maioria das mulheres (no plural!) reconhece e isso é um real tópico de discussão da série. Nos primeiros momentos, o olhar choroso dela podem transmitir ideia de fraqueza, mas, na verdade eles nos desafiam a nos perguntar "o que houve?" e "o que a trouxe aqui?". Na verdade, ela não foi trazida, ela desejou permanecer para além de ascensão na carreira: está ali para um bem maior.

Mas qual a história triste que emoldura seu heroísmo? Após a sequência traumática em que o Kid Cascavel a toma como refém, ameaça, humilha, manipula emocionalmente e a objetifica, o sofrimento de Misty toma uma forma reativa, então a relação de causa/consequência desnaturaliza o estereótipo de "Mulher Negra raivosa".

A ironia padrão dos vilões misóginos.
O mérito dessa sequência é mostrar o quanto o vilão está errado.

O estresse pós traumático é tão acentuado que Misty agride fisicamente Claire Tample, numa forma de descontar o desempoderamento em alguém que parece mais fraca. Esse momento delicado foi construído após o choque exatamente para romper com a ideia de expressão de que "mulheres são rivais" ou de ciúmes, o que demonstra uma sofisticação considerável. A cena também poderia cair no lugar-comum de "pele mais pigmentada = forte" e "pele menos pigmentada = frágil", mas a humanização de ambas, sem hierarquia, cria um efeito mais complexo por focar a raiz do problema: as masculinidades tóxicas. Longe de uma representação sádica da violência de gênero, a série discute o fato de que tanto os "homens bons", quanto os vilões são agentes de machismo e que isso é um problema real, que deforma as emoções das mulheres do ocidente. O auge da discussão está no episódio 9, em que temos acesso à sessão de terapia. Nela, as falas de Misty, definitivamente, cortam a parede entre a narrativa da série e o real.

A princípio, ela resiste, questiona objetivamente o terapeuta ao mesmo tempo que vai delineando a visão de mundo dele. Na verdade, o que ele diz sobre seus gostos e escolhas apenas confirma o que é esperado pela audiência. O desconforto dele é disfarçado pela performance de poder: usar a caneta para escrever qualquer interpretação do contexto. Enquanto ele, como uma peão branco no xadrez, dá o primeiro movimento " E você gosta de estar no controle, não é? Por isso foi armadora. Queria decidir quem pegaria a bola, certo?" ela o encara de frente: "É porque eu era baixinha, e era a única forma de eu entrar na quadra". Esse momento de autodefinição, desnuda o modo como as interpretações sobre mulheres Negras costumam planar no senso comum. Ele segue com outro peão no centro: " Porque tinha que estar no jogo" e ela movimenta o cavalo: "Não é um jogo pra mim". Enquanto ele segue por interpretações preconceituosas e frívolas, os peões, ela desvenda jogo ante o apavoramento do Sam Healy terapeuta. Tempos depois, ele tenta afetá-la através da golpes misóginos, contrastados pela narrativa sobre sua relação com Cage, em que ela sentiu abertura para ser ela mesma, diferente da sessão. O terapeuta arrisca um cavalo e um bispo ao dizer que "não acredita em tudo que lê", uma vez que ele direciona o diálogo pela ficha de Misty.

O diálogo metaforiza de forma bastante eficaz a diferença de interpretação a partir do lugar social de quem narra, ou, se você for mais acadêmica, a disputa por identidades. A trágica história sobre a prima Cassandra, sob as lentes de Misty, representa a culpa de sobrevivente que todas nós já sentimos a partir de situações violentas vivenciadas por mulheres próximas e isso é uma motivação concreta e realista para uma heroína. A própria terapia demonstra o quanto essa luta significa o sacrifício do corpo, coração e mente contra a lógica centrada nas convicções de supremacia e poder masculinos-cis (falocentrismo). Neste ponto, a luta de uma mulher heterossexual contra o regime da masculinidade-padrão, informa aos desavisados sobre a diversidade de performances feministas: elas não se restringem nem à heterossexualidade compulsória da inverno, nem à exterminação do sexo masculino. A crueldade deste sistema é evidenciado pela cadeia de brutalidade que perpassa o violador, seus companheiros no ato, além da condescendência de outros homens, em conflito com a lei ou representantes dela. A desvalorização do corpo de Cassandra é resultado de uma estrutura social racista e sexista, em que é permitido aos homens negros se sentirem um degrau acima, por serem homens. Discutir isso sem reducionismo é muito importante, ainda mais porque não é preciso mostrar, nem fazer disso a motivação de Misty. Ao contrário. O fato de Cassandra, como muitas outras pessoas negras, ser tratada como cidadã de segunda classe motiva Misty a perseguir a justiça a todo custo. Essa é a nossa heroína.


"Normal" quer dizer "sem superpoderes", ora, ora.

"A GAROTINHA DO PAPAI"


A subjetividade se estende para além das mazelas, também. O legado da escravidão para a feminilidade negra ainda é vivo, mas nenhuma de nós pode ser resumida a isso - muito menos a Misty Knight. Ao mesmo tempo que a série prima por construir uma feminilidade negra que rompe a ideia de que "todos os homens são negros, todas as mulheres são brancas", ela enfatiza a detetive como uma  agente da "lei do pai" e, com isso, transmite uma mensagem. Como agente da lei e da máquina burocrática, seu código de ética distinto aponta para o patriarca tanto quanto sua performance de jogadora de basquete ter sido moldada pela opinião dele e do Pop. A aparente falta de referencial feminino, leva Misty a conter as características tidas como femininas (ex: a emotividade), exceto no que a distingue como performance estilizada/feminilidade padrão. Sua convivência com homens desde a infância levou ao conforto nesta presença, neste tipo de honra, bem como à compreensão da fragilidade do ego masculino, de modo que, por um lado, sabe como manipular a seu favor, e, por outro, a afasta de seu "verdadeiro eu". Ela só tem contato com a sua condição de mulher nos momentos em que é violentada por ser lida como tal. Ciente da ambiguidade que sua presença na instituição significa, ela se dá conta de que o sistema racista/misógino vencerá, independente dos esforços. Essa "quebra da inocência", que expõe o que já se sabe, insere outra discussão: Se homens negros são, com bastante frequência, suspeitos [e condenados] de criminalidade, ou seja, a justiça é qualquer coisa, menos cega. Mudar o sistema "de dentro", como sugeriu Priscila é a única possibilidade em que a detetive pode se encaixar de forma ativa. O prolema é que o sistema não é palpável, ele é sustentado por engrenagens mergulhadas em cada pessoa exposta à cultura.

É evidente que essa performance de feminilidade de Misty não decorre apenas de ter optado por não concordar com a desigualdade; a socialização de uma jovem Negra, passa necessariamente pela interpretação (até mesmo de seus pares) de que é mais forte física e emocionalmente, conforme a pigmentação da pele. Se notarem, ela é a mulher mais pigmentada com quem Luke se relaciona.

E, por falar em "lei do pai", é interessante como os pais do Luke Cage/Willys Stryker e da Claire Tample, mesmo "fora de cena", instrumentalizam o posicionamento político em relação às masculinidades negras marcadas pela colonização. As pessoas cujos pais se ausentaram de alguma forma,  - exceto Willys, que é uma consequência infeliz disso - se mostram mais à vontade em relação aos seus afetos e fragilidades, índices duma relação positiva com as mães. Talvez Willys seja exatamente símbolo da recusa à mãe, uma masculinidade infantilizada, numa busca exterior pelo seu "eu" desmantelado pelo abandono paterno. Essa ausência é uma ferida comum na trajetória de muitas pessoas negras, mas as interpretações tendem à naturalização da ação ou à vitimização  dos indivíduos. Ora, se desde a colonização as mulheres negras tem sido alvo de violências e submetidas a condições precárias de vida, a objetificação delas e de seus filhos, numa lógica patriarcal, desempodera aos homens negros. Quem deseja lembrar de sua ausência de poder? Neste sentido, o cristianismo encarnado pelo Kid Cscavel funciona como um sólido comentário sobre a influência das igrejas nas inserção de valores hegemônicos nas comunidades negras. A ênfase no fato de ele ser "um falso pregador" homem funciona bem para proporcionar uma crítica às instituições sem demonizar a fé em si e sem retomar o estereótipo de mulheres religiosas.

Enfim, a imagem duma mulher negra pigmentada com uma relação saudável, afetuosa e próxima ao pai mostra uma quebra de paradigmas forte, tanto no universo narrativo quanto no real. O interessante é que esse tópico de discussão, não serve apenas como explicação da "feminilização da pobreza", mas assume um aspecto relevante para Misty ser a "garotinha do papai". Enquanto muita gente acredita que a intuição somada à raça e gênero significa acesso ao sobrenatural, num diálogo com Scarfe somos informadas de que a habilidade foi desenvolvida, desde a infância, pela leitura de "Onde está o Wally" (Where’s Waldo? de Martin Handford), ou seja: nada é dado e nada é natural. A profissão de Misty Knight é, em primeiro plano, um compromisso sócio-político, uma luta por justiça social e, em segundo plano, uma atividade em que o pai "fora de cena" é evocado como lembrança positiva. Essa relação saudável com o pai,  que respinga numa emotividade imatura, e na constante busca por agradar ao pai, e à lei, aproxima Misty de qualquer mulher real, porque é fato que o mundo tem muito a melhorar, e todas nós - e nossa heroína - somos imperfeitas, dentro do que existe como possibilidade real.





























CONCLUSÃO: PRETA/NERD FELLINGS

Em contraponto à imagem de violência histórica, do racismo contemporâneo e sub-cidadania está a Preta, Nerd Detetive Mercedes Kelly Knight ou Misty Knight. Acima de qualquer convicção masculina que tende a explicar o que ela já sabe, Misty torce para o Celtics ciente da historicidade, esquemas-táticos e formações. Quando Scarfe tenta fazê-la sentir-se mal por torcer pelo Celtics, já que é negra, sua resposta representa de forma descontraída o que é ser uma mulher no universo nerd. E note que Misty está em todos os espaços culturalmente destinados aos homens: barbearia, polícia, super-heroísmo, liberdade e prazer sexual e basquete. Ela é uma versão da protagonista de Jogada Certa (Just Whright, de Sanaa Hamri) só que mais privilegiada, heroica e distante de nós. Além de poder me ver em Marvel: Luke Cage, o que mais me encanta é que, apesar de a primeira peça a se mover no xadrez ainda ser a branca/masculina, multiplicam-se as nossas peças, estratégias e nossas mãos negras no jogo.



NOTAS

*Esse questionamento norteia a dissertação de Grace Gipson sobre representação de mulheres Negras heroínas de HQ.
** Estou restringindo ao gênero feminino em fase adulta, portanto as incríveis Lunella Lafayete e Kamala Khan e Riri Williams (no prelo) não são exceções.




[Veja mais]
=> Luke Cage é o nosso herói?






Obrigada:
Anne Dias
Gabriela Costa
Gabriella Lima
E às minhas heroínas:
Skye Edwards, Tamar-Kali e Angela Davis


Textos Consultados

ARRAES, Jarid. Cultura do estupro e slut shaming. Disponível em: <blogueirasfeministas.com/2012/10/cultura-do-estupro-e-slut-shaming/>. Acesso em 20 out. 2016.
BRAGA Jr., Amaro Xavier. A ambientação de personagens negros na Marvel Comics: Periferia, vilania e relações inter-raciais. In Revista Identidade!, São Leopoldo. v.18 n. 1. Jan-jun. 2013. Semestral. (p. 3-20). 
BETTS, Tara. THE LUKE CAGE SYLLABUS: A BREAKDOWN OF ALL THE BLACK LITERATURE FEATURED IN NETFLIX’S LUKE CAGE. Disponível em: <blacknerdproblems.com/the-luke-cage-syllabus-a-breakdown-of-all-the-black-literature-featured-in-netflixs-luke-cage/>. Acesso em 20 out. 16.
CADE, Toni (org.) The black woman: an anthology. Canada: A Mentor Book, 1970.
DAVIS, Angela. Mulheres, Raça e classe. Tradução Livre. Plataforma Gueto, 2013[1982]. 
GAY, Roxane. Má Feminista: ensaios provocativos de uma ativista desastrosa. (trad. Tássia Carvalho). Barueri: Novo Século, 2016.
GIPSON, Grace D. "Who Says Storm Is The Only Black Superheroine?": An Interpretative Textual Analysis Of The Black Superheroine." Thesis, Georgia State University , 2013. 
______. Black, Female and Super Powered: An Interview With Grace Gipson on Black Comic Book Super Heroines. [2013] (Entrevista). Disponível em: <www.huffingtonpost.com/yolo-akili/black-female-super-powered_b_2659118.html>. Acesso em 6 dez. 15.
HOWARD, Sheena C.; JACKSON II, Ronald L. (org):Black Comix:  Politics of race and representation. New York: Bloomsbury, 2013;
MORRISON, Grant. Superdeuses. Trad. Érico Assis. São Paulo: Seoman, 2012.
OLIVEIRA, Selma Regina Nunes. Mulher ao quadrado: As representações femininas nos quadrinhos norte-americanos: permanecias e ressonâncias (1895-1990). Brasília: Editora UnB, 2007.
PUIG, Rebeca dos S.A Mulher como Objeto de Cena. <collantsemdecote.com.br/a-mulher-como-objeto-de-cena/>. Acesso em 17 out. 2016.
RUSS, Joanna. To write like a woman: Essays in feminism and science fiction, 1995.
SARKEESIAN, Anita. “I’ll Make A Man Out Of You”: Strong Women In Science Fiction And Fantasy Television. [Tese], York University, 2010.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

LUKE CAGE é nosso herói negro?

Mike Colter, o Poderoso Luke Cage

"Look, Luke!"

(Lorelai Gilmore em "Gilomore Girls")


INTRODUÇÃO



Começo com uma pergunta: Luke Cage é o herói de que precisamos? Antes de responder à questão é importante lembrar que a Netflix é uma das poucas empresas que produzem/distribuem produtos de massa ao mesmo tempo nas metrópoles e nas colônias. Essa concessão* possibilita uma leitura no timing do contexto que o produziu: os Estados Unidos estão em meio à visibilidade da violência policial contra a população negra através do movimento #blacklivesmatter, e a uma eleição presidencial absurda em que o candidato mais fascistóide diz que "negros o amam" e a menos fascistóide diz que "não, negros a amam". E o povo negro se pergunta: "o que está acontecendo?". Lembremos que a menos fascistóide morre de medo quando encontra homens negros de capuz, sabe?. Enquanto vários homens são assassinados por serem negros - e não apenas nos EUA - nada mais irônico que um homem, negro, encapuzado à prova de balas, isto é, resistente à morte!

A combinação desse contexto com a atualização dum personagem como Luke Cage, desenvolvida por um showrunner negro (Cheo Hodari Coker), abre frestas de discussão sobre racismo, terror racial e democracia da abolição no terreno mainstream de forma empolgante, sensível e direcionada à audiência negra.

O QUE SURPREENDEU
Quando enfatizo que pessoas negras são o público-alvo da série, quero dizer que um universo "negro" como o Harlem poderia reforçar a guetização como a que vivenciamos ao procurar produtos no mercado: de cara, nos depararmos com embalagens de cor marrom/bege/mostarda e o rótulo reiterando: ebony**. Apesar da abertura (bela, porém) estilo "ebony" em Marvel: Luke Cage a ênfase recai numa visão de mundo que desnaturaliza estereótipos em duas frentes: tanto da narrativa em si, quanto nos diálogos.
Após Luke Cage feat. Jessica Jones e de tantas prévias de sua própria série, meu receio era o de que aspectos problemáticos (sexismo. objetificação. "sabor exótico". estereótipos "urbanos") do conceito dos quadrinhos fossem mantidos como assunto qualquer salpicados numa série de ação. Eu temia que Luke Cage fosse uma espécie de personagem do Spike Lee ou um Django: Livre; noutras palavras, que a conscientização racial se desse às custas de outras discussões importantes como a interseccionalidade de raça/ gênero/classe. Apesar de a série bambear em relação às misoginias mulheridades, foi satisfatório em grande medida. No Podcast do Black Girl Nerds (inglês), Coker afirmou que seu intuito, ao produzir a série, foi possibilitar às garotas negras nerds se identificarem - coisa que raramente acontece -, não por conta dum "fan service", mas porque somos pessoas tão complexas e distintas quanto as demais.


Em Cuba, claro.rs.


O "SISTEMA" COMO PERSONAGEM

Quando o personagem foi criado, em 1973, a luta por Direitos Civis estava em alta, assim como a música Disco, os filmes Blacksploitation, assim, a sua presença nos quadrinhos hegemônicos era uma tentativa de inspirar um pensamento antirracista. Quarenta e três anos depois, a estética mudou bastante, mas as desigualdades geradas pelo sistema capitalista, continuam elencando as vidas "que valem" e, portanto, as relações sociais, burocráticas e econômicas. Segundo a filósofa Angela Davis, o sistema prisional estadunidense, nada mais é que a atualização do regime de escravidão. Desde a abolição, a população negra tem sido alvo de políticas que GERAM/ MANTEM/CRIMINALIZAM a pobreza, e se beneficia de mecanismos para manter os homens negros privados de liberdade independente de escolhas individuais. Segundo Chaves:

No período imediatamente posterior à abolição, novas instituições foram criadas para incorporar as(os) negras(os) dentro da ordem social, através do aparato jurídico e do controle dos corpos pelo poder do Estado. A democracia da abolição, expressão utilizada por Du Bois, não poderá ser alcançada pelo segmento negro da população, enquanto esse não dispor de meios econômicos para sua subsistência. A naturalização da criminalidade da população negra esconde o racismo impregnado nas relações sociais e nas instituições políticas, o qual funciona como impeditivo da sua mobilidade social. O sistema penal, tanto brasileiro quanto norte-americano, tem por intuito controlar indivíduos considerados “indesejáveis”, ao mesmo tempo que garante a manutenção das assimetrias raciais (CHAVES via BLOGUEIRAS NEGRAS).

Cientes dessas assimetrias, em vez de "Luke Cage é o herói de que precisamos? " devemos perguntar de outra forma: Luke Cage é um dos tipos de heróis de que precisamos? Nesse caso, sim. No Universo Marvel, dois dos expoentes negros heroicos são o Pantera Negra e Luke Cage. Enquanto o primeiro é um personagem africano, nobre e poderoso que representa uma trajetória de exceção com que a maioria de nós QUER se identificar, Luke Cage é um guerreiro do "novo mundo" que luta contra o racismo e a desigualdade social, tal como nós VIVEMOS todos os dias. O primeiro é uma utopia e o segundo um desvendamento do "aqui-agora". Ambos são importantes porque mostram a diversidade que nossa identidade comporta e como classe, tempo e cultura determinam o modo como nos tornamos pessoas negras (levando em conta o aspecto identitário que é ter a consciência negra). Essa diversidade quebra tanto o essencialismo que o termo "negro" pode representar nas sociedades pós-coloniais, quanto a ideia duma cultura pop negra abarrotada de patriarcas de clãs cômicos.

O fato de Cage estar exposto às desigualdades como todas nós, por um lado, cria uma identificação, e, por outro, expõe as engrenagens dum sistema invisível e suas consequências para a população negra. O modo como Cheo Hodari Coker optou por descrever a experiência de cárcere do Luke Cage, bem como sua impotência em relação ao assassinato de Pop e ao abuso dos policiais contra o adolescente, é uma forma de intervenção crítica porque desnuda o fato de que a conquista dos direitos civis, até hoje, não significa cidadania plena. Não há perda de tempo contrastando centro/periferia na série, mas ênfase no resultado dessa relação. Certamente a concentração de renda dum Tony Stark é um dos condicionantes da violência no Harlem, mas focar nessa interação não é necessário para compreender que ela existe. Desse modo, a presença de personagens negros vilões não reforça estereótipos, apenas evidencia modos de vivenciar a desigualdade. Para o "Boca-de-Algodão" a riqueza era entendida como sobrevivência, conquista de autonomia além duma tentativa falida de se "empoderar". Não está em jogo na minha leitura julgar a sua motivação, mas compreender que "independente do que faça, ser negro leva à injustiças, senão à cadeia" (Episódio 7), portanto, a inocência de Luke, na prática, não o diferencia de Cornell.

Um herói que é deslocado do plano dos privilégios (como os Vingadores principais) para a vida "real" alerta sobre a "cidadania de segunda classe" e questiona o seu cerne. O armamento "Hammer" que migra do submundo, para a legalidade através da manipulação política e midiática de Miriah, marca a complexidade que o antagonismo entre os vilões da "primeira fase" representam. O proprietário da fábrica de armamento não aparece na trama, mas o objeto em si é usado no intuito de destruir um individuo negro. Ora, por que essa tentativa exterminação bem como a política contra o terror protagonizada por Mariah não soa como "os negros matam a si mesmos"? Há um sujeito oculto que se beneficia muito mais dum Harlem sem Cage, que a própria Mariah. Essa "luta contra o terror" é representada de forma crítica com um comentário político "a lá" Noam Chomsky de que "Terrorista é o Estado" que tem poder de investir contra indivíduos e populações inteiras.

Esse "sistema" também estava ausente quando o corpo do herói foi submetido às mais diversas violências e, até mesmo, uma intervenção científica sob a tutela do Estado (consegue ver um rastro colonial?). Ainda assim, depois de salvar o dia, a burocracia o conduz à Geórgia (de onde escapou). Assim, Cornell e Mariah não representam mais que a agência mínima do individuo que nasceu em desvantagem. "Ora, mas o crime não é o único caminho!", não, não é. Mas dificilmente quem está em condições ideais, com perspectiva, autoestima e acessos se sentirá pressionado/a a seguir este caminho, não é?

Muita gente pode ter visto a crítica à brutalidade policial como uma suavização, porém, me parece que a representação da violência policial é aterradora, exatamente pela sutileza como é descrita. Não foi necessário apelar em demasia ao gráfico para compreender que o aparato jurídico não beneficia a população oprimida, nem mesmo quando se está dentro. Essa questão é focada na ansiedade de Misty Knight e em diálogos em que ela explicita o poder do medo da candidata "menos fascistóide": "Ele é um homem negro perseguido por policiais" (Episodio 12), vão atirar primeiro pra não ter o que perguntar depois. Nesse ponto, a retórica narrativa e dialógica se encontram no ápice dos acontecimentos e - surpreendentemente - me satisfazem. Evidente que a série não poderia escapar dum comentário político, já que esse é o conceito do protagonista, mas a forma como foi costurada à estética e à narrativa proporcionou uma diversão afinada com a agenda política.


CONCLUSÃO: Um homem contra o sistema

Luke Cage é um dos heróis de que precisamos ver na grande mídia, para desfazer aquela imagem de personagens negros cômicos, fracos e sem agenciamento. Sua luta contra a complexidade do mundo capitalista/racista faz com que sua posicionalidade desafie a hierarquia social duma economia que deseja vê-lo morto. Ele nos alerta sobre injustiças, inspira à luta e prova que ideias são à prova de morte. O grande mérito de Marvel: Luke Cage é a sensibilidade diaspória que norteia a narrativa: um olhar comprometido com a descolonização das mentes, evitando maniqueísmos simplistas e abrindo espaço para outras interpretações da realidade social.



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NÃO PERCA!


Notas


*que não significa ser contada como audiência "relevante".

** A palavra sempre me parece acompanha de uma invisível "only", porque duvido que pessoas brancas, compram produtos para "negros". As demais linhas são direcionadas a elas.



Textos Consultados

BETTS, Tara. THE LUKE CAGE SYLLABUS: A BREAKDOWN OF ALL THE BLACK LITERATURE FEATURED IN NETFLIX’S LUKE CAGE. Disponível em: <blacknerdproblems.com/the-luke-cage-syllabus-a-breakdown-of-all-the-black-literature-featured-in-netflixs-luke-cage/>. Acesso em 17 out. 2016.

CARDIM, Thiago.CODE OF THE STREETSA música como personagem de Luke CageDisponível em:<judao.com.br/musica-como-personagem-de-luke-cage/>..Acesso em 10 out. 2016.

CHAVES, Marjorie. NO RASTRO DA PANTERA: A DEMOCRACIA DA ABOLIÇÃO E O BLACK FEMINISM DE ANGELA DAVIS. Disponível em: <blogueirasnegras.org/2014/03/11/no-rastro-da-pantera-a-democracia-da-abolicao-e-o-black-feminism-de-angela-davis/>. Acesso em 17 out. 2016

COSTA, Dany Vamos Falar Sobre Séries: Luke Cage (Netflix, 2016).  </plus.google.com/114893417931703201178/posts/hS7BVWx1HwS>..Acesso em 10 out. 2016.
Dyce, Andrew. Jessica Jones Easter Eggs, Marvel Connections, & Comic Nods. <screenrant.com/jessica-jones-easter-eggs-netflix-marvel-mcu/?view=all.>. .Acesso em 10 out. 2016.

DAVIS, Angela Y. A democracia da abolição: para além do império, das prisões e da tortura. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.

DESCHAIN, Yasmin. Desculpe o transtorno, preciso falar sobre Luke Cage [SPOILERS] - Avengers: Random & FandomDisponivel em:  <https://vingadoresdadepressao.blogspot.com.br/2016/10/desculpe-o-transtorno-preciso-falar.html>.  Acesso em 10 out. 2016.

HALL, Stuart. Que negro é esse na cultura pop negra? Disponivel em: <uninomade.net/wp-content/files_mf/112410120245Que%20negro%20%C3%A9%20na%20cultura%20popular%20negra%20-%20Stuart%20hall.pdf> . [What is this 'black' in black popular culture?". ln: Gina Dent (org). Seattle: Bay Press, 1992. (Também se encontra em: David Morley e Kuan-Hsi ng Chen (org), Stuart Hall: Critical dialogues] in cultural studies. Londres, Nova York: Routledge, 1996.]

JACOBS, Guilherme. Quentin Tarantino diz que não é muito fã do Luke Cage da Netflix.<omelete.uol.com.br/filmes/noticia/quentin-tarantino-diz-que-nao-e-muito-fa-do-luke-cage-da-netflix/>..Acesso em 10 out. 2016.

PUIG, Rebeca S.  BRODERAGEM, MERCADO E EXCLUSÃO. <collantsemdecote.com.br/broderagem-mercado-e-exclusao/>. Acesso em 10 out. 2016.
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______. O QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE JESSICA JONES ANTES DA ESTREIA. <collantsemdecote.com.br/o-que-voce-precisa-saber-sobre-jessica-jones-antes-da-estreia/>. Acesso em 10 out. 2016.
______.A Mulher como Objeto de Cena. <collantsemdecote.com.br/a-mulher-como-objeto-de-cena/>. Acesso em 17 out. 2016.

SARKEESIAN, Anita. Some Thoughts on Jessica Jones. <femfreq.tumblr.com/post/134336278616/some-thoughts-on-jessica-jones>.  Acesso em 10 out. 2016.

VACHON, Rebecca Theodore. A love letter to black women - Cheo Horadi Coker - the gender dynamics of Luke Cage. Disponivel em:  <www.fastcocreate.com/3064174/a-love-letter-to-black-women-cheo-hodari-coker-the-gender-dynamics-of-luke-cage>.  Acesso em 10 out. 2016.

ZANETTI, Laysa. Luke Cage: Crítica da primeira temporada. 
Disponível em <www.adorocinema.com/noticias/series/noticia-124819/>. Acesso em 10 out. 2016.

Dossiê Violência e racismo. Disponível em: </www.agenciapatriciagalvao.org.br/dossie/violencias/violencia-e-racismo/ >. Acesso em 10 out. 2016.

'Luke Cage' é o heroi que todos estavam esperando, cravam críticas de nova série da Netflix. Disponivel em: <www.tudocelular.com/tech/noticias/n78156/luke-cage-netflix-primeiras-criticas.html>. Acesso em 10 out. 2016.

Race and Racism in Marvel Comics. Disponivel em: <marvel.wikia.com/wiki/Race_and_Racism_in_Marvel_Comics>. Acesso em 17 out. 2016.




quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Möira- Jogatina da demo.


Por Daniela Razia


Möira é um jogo retrô, relembrando os velhos tempos do Game Boy, mas com uma pitada da tecnologia atual. Você está no controle de Rubick, um mago capaz de copiar os poderes de todos os inimigos do game. Sua missão é encontrar o seu desaparecido mentor Zeppeli.

Grande parte da equipe do jogo é brasileira, por isso merece ainda mais destaque!
Möira está na loja Steam previsto para 2017.

Mais informações: http://www.moiragame.com/





segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O problema por trás de "Prefiro Demolidor à Jéssica Jones ou Luke Cage" (MCU)



O imaginário é um sistema de pensamentos, crenças, imagens (!) que alimenta a memória cultural e molda o gosto, estilos, valores e, em suma, a identidade do indivíduo. Esse sistema é composto por teias de significação que são tensionadas a ponto de enaltecer certos aspectos em detrimento de outros, sempre em par: bom/mau, bonito/feio e eu/inimigo.

O imaginário é tão próximo do ego (do "eu") que, não raro, as lentes usadas por certos grupos sociais para ler a realidade à volta lhes parecem transparentes. Essa (suposta) transparência se consolida quando a identidade hegemônica encontra eco do que acredita que é. Noutras palavras: ao homem-cis-branco que se enxerga como medida do mundo só interessa ver refletida a confirmação de que é sim másculo, invencível, temível, belo e com ótimo desempenho sexual. Acaso lembra o Matt Murdock de Frank Miller? Ora, não existe transparência.

Quando um homem vocifera que "Jéssica Jones é mediano" ou uma pessoa branca diz que "Luke Cage é uma série fraca" dificilmente apresentam argumentos técnicos e análises coerentes, ou seja, "é questão de opinião" de "populares". Alguns rapazes que celebram o Justiceiro - achando que ele é "obviamente um herói" - devem ter lido Watchmen (DC/Vertigo) apenas no plano literal, esquecendo que ex-combatentes são pessoas traumatizadas que precisam de acompanhamento (sabem o Comediante? Ele não é uma comédia). Justiceiro é uma pessoa com grande poder bélico que se sente acima da lei, "punindo" todos aqueles que cometem crimes "nas ruas", como se a realidade fosse simples assim. Como se justiça fosse uma equação. Ele apenas reforça a lógica masculinista, violenta, hierárquica que prefere culpabilizar o infrator sem focar a causa da infração. Essa atitude mimada de "homem pondo ordem" não difere daquela chateação que temos após um furto, por exemplo. Sim, é péssimo ser furtada ou assaltada, porém, mais triste ainda é saber que as pessoas são reféns dum sistema perverso como o capitalismo. Que pessoas não são contratadas porque não nasceram da "cor certa". Infelizmente a vida é essa.

No auge do ridículo, há quem afirme que em "Marvel: Luke Cage" atua uma espécie de "racismo às avessas" alegando a falta de personagens brancos. Ora, há vários: policiais corruptos, técnico que consome pornografia, um cientista sádico e o sidekick/vegetariano/corrupto/solitário/"engelzado" Scarf. Nenhum "bonitão", nenhuma "broderagem" e nem chutes gratuitos nas faces de minorias políticas. 





Talvez o problema aí seja que os brancos não são protagonistas, que a série não gira em torno de seus privilégios e muto menos de seu prazer retórico de afirmar que "negros são mais racistas que brancos" ou "negros são os únicos que matam o próprio povo". Se você busca por uma perversidade gratuita plasmada numa imagem de mulher negra silente, homem negro alvejado por existir, ou ataques racistas como assunto qualquer, não encontrará em Luke Cage. Se isso incomoda, o problema não é a série, o problema é você.



(E olha que tem muito disso em Jéssica Jones. Reva aparece no mesmo papel de Brunhilde em Django Livre: silenciosa, objeto de violência e motivação para o herói. Jones sente um leve remorso por ela, mas para por aí. Já Malcolm é alvo do privilégio branco de Jones que não pensa muito sobre empurrá-lo contra o carrinho "fins justificam os meios"? A construção do desejo de Jones por Luke leva à objetificação de seu corpo e ensina: "homem negro é sexualmente mais potente que o branco". Mensagem bem colonial, aliás. Que homem-cis branco vai se sentir confortável com a presença de Cage - o Poderoso - numa relação afetivo-sexual com uma mulher branca?Além disso, dificilmente um boy vai gostar de ver sua manipulação, violência e infantilidade refletida em Killgrave).

Paradoxalmente, o "Homem Púrpura" é o ponto de aderência de certa horda de rapazes cis-ht. Muitos vibraram por suas atitudes violentas, egocêntricas e irresponsáveis como se fossem o padrão a ser seguido. Ou como se Killgrave fosse um líder que legítima o mainsplaning, slutshame, stalking e abuso sexual que tanto praticam e/ou fantasiam. Killgrave é um vilão, rapazes. Ele faz mal às pessoas pelo prazer pessoal. Ele feriu Jéssica Jones de todas as formas possíveis e para sempre. Não ver problemas nisso é sinal duma psique, no minimo, desequilibrada.

(não falo aqui de sofrimento mental ou de síndromes e nem quero dizer que o problema ético resulta duma doença; quero apenas enfatizar que a identificação com Killgrave sinaliza a necessidade de amadurecimento emocional que transmute menino edípico numa pessoa autônoma e capaz de observar o contexto).



Veja, não estou desqualificando a atuação e nem mesmo o conceito de "Homem Púrpura", até mesmo porque não existe heroísmo sem o exemplar oposto que encarna o "mau", errado e grosseiro. A ideia aqui é enfatizar que o gênero de super heróis tem como objetivo principal mostrar o ideal ético e o seu oposto, que não deverá ser seguido. Assim, através da metáfora de um homem de porte mediano, mimado e com toda a sorte de facilidades, a série questionou um padrão de comportamento violento que emerge dessa masculinidade da qual não se costuma falar.




E "falando em falar": quanto tempo Jéssica Jones e Luke Cage tem juntos, em minutos, de 1) mulheres com nomes, 2) conversando sobre qualquer coisa que não seja homem? Ou apoiando uma à outra? Ou salvando uma à outra? Ou vivendo sexualidades em função delas mesmas, não da audiência? Que tal a quantidade de mulheres fortes, que não se curvam ante a violência específica, que não se calam quando questionadas por mero sexismo? Que tal a Claire Tample salvando a si mesma, se relacionando com quem deseja e dizendo "não" na hora certa. Todas essas mudanças geram profundo medo nos rapazes conservadores. Medo de que seus valores sociais se percam, junto com seu poder.

O seu tempo acabou, moço clássico. Para além deste horizonte normativo narcisista há mais possibilidade de ser/estar do que pensa a "vã filosofia", ou mesmo do que o Universo Ultimate mostrava pré Guerras Secretas 2, mas prossigamos.

Em Marvel: Demolidor" predomina o fetiche de extinguir o mal da face da terra. Como dissemos anteriormente, Murdock é parte eloquente do corpo burocrático (advogado) que inclui o sistema prisional (moedor de vidas negras) à luz do dia; por outro lado, à noite, ele se volta ao <<<crime como um fato em si mesmo>>> e o resolve com violência física. Violência essa que fere, sem matar, alimentando o ciclo. Curioso que o cristianismo dele é mais código de talião (olho por olho, dente por dente) que "dar a outra face" para o oponente bater. A liberdade de aliviar a sensação de impotência ante à burocracia, quando somada à impunidade constrói uma forma de heroísmo ao molde "justiça branca" que não apenas pune a consequência (a pessoa não-branca em conflito com a lei) no lugar de atacar a causa (concentração de renda, indústria bélica, pornografia, criminalização do uso e porte de drogas). Assim como o ícone da Justiça é uma pessoa cega, o conceito da personagem faz uso do "igualitarismo segregacionista" para representar o que Murdock se recusa a ver. Ele se relacionar com a enfermeira Claire Tample não apaga a soma de seus privilégios, apenas remonta à imagem histórica de relacionamento inter-racial. Além de usar seu conhecimento técnico para ajudar Murdock a todo tempo, Claire aparece como interesse sexual e (após ser ferida fisicamente) se consolida como motivação para o herói (fato que não ocorre com a secretária Karen Page, que se expõe aos perigos). Claire Tample é a única personagem não-branca relevante na Hell's Kitchen de Demolidor, e por quê? Alguns tentarão me lembrar do Ben Ulrich, mas ele foi uma figura que apareceu apenas para moldar a participação de Page (assim como o Rhodes na Guerra Civil 2). A importância de Tample também é de mostrar a necessidade de apoio que todas as pessoas, por mais fortes que sejam, precisam. Ela é tão destemida quanto Cage, mas eles são mais fortes quando juntos. Como afirmou Anita Sarkeesian (2015), em Jéssica Jones, pedir ajuda funciona como demonstração de fraqueza e aderência aos arquétipos femininos que Jones tanto rejeita; Malcolm, por outro lado, com porte físico menor que o de Cage é vulnerável (como seres humanos costumam ser!) e isso não fere sua masculinidade. Exercer a função de coordenador do grupo de ajuda mostra que ele reconhece sua condição de trauma - atitude lida em nossa sociedade como "feminina". Olhando com nossas lentes de feministas interseccionais, enxergamos um grande avanço na discussão sobre masculinidades negras, mas o que predomina é a interpretação de que ele é frágil, dependente e infantilizado.

Claire, Luke e Malcolm são o oposto emocional de Jéssica Jones. É como se a sensação de impotência da heroína a levasse para caminhos em que sua atitude de "vale tudo" seja justificativa para palavrões e empurrões.



Enquanto isso, a deficiência visual do Demolidor se mostra como metáfora da recusa em perceber que a violência gráfica está direcionada para "estrangeiros", não-brancos e qualquer pessoa lida como "diferente". Na série dele, não passam cinco minutos sem ossos quebrando, sangue e lutas viscerais. Quando muito, diálogos entre homens e sobre homens se estendem até que uma mulher apareça, daí eles agem como se ela não fosse capaz de entender e isso vira piada entre eles e Fogy Nelson (Atitude reconhecível em qualquer espaço Nerd quando uma garota aparece).

Sem dúvidas, é familiar e bem mais agradável a experiência de lugar-comum ou de "clube do bolinha" para os rapazes que preferem Demolidor à Jessica Jones. Neste ambiente, os valores que constroem e reforçam o imaginário e as políticas ocidentais, são destacados ao passo que outros pontos de vista, línguas, valores e necessidades são ignorados. Nesse sentido, à medida que focam em seu próprio bem-viver, os rapazes se mantém longe de sensações de empatia e deslegitimam quaisquer outras experiências. Por isso preferem "Demolidor".

Reconheço que o roteiro de Jéssica Jones poderia ter menos contratempos e pontos-de-virada, porque perder o vilão tantas vezes e de forma tão inverossímil, enfraquece a história. As formas como Killgrave se safou não convenceram a ninguém. Assim como o excesso de vilões em Luke Cage geraram temporadas dentro da temporada e não permitiram o desenvolvimento pleno do Cottonmouth. Apesar disso, sabemos que quando os meninos dizem que <<<preferem Demolidor à Jessica Jones ou Luke Cage>>> o que eles querem dizer é que não aguentam mais ver e ouvir o que mulheres, negros e LGBTQ+ têm a dizer. Para quem celebrou o crescimento de Claire Tample e a jornada de Misty Kinight, Luke Cage está bem próxima do que queremos ver. A quem não aguenta mais, boa sorte: nem um passo atrás, "sempre à frente"!






-Revisão e Edição: Anna Bárbara Araújo

Textos consultados

CARDIM, Thiago.CODE OF THE STREETSA música como personagem de Luke Cage. <judao.com.br/musica-como-personagem-de-luke-cage/>..Acesso em 10 out. 2016.
Costa, Dany Vamos Falar Sobre Séries: Luke Cage (Netflix, 2016).  </plus.google.com/114893417931703201178/posts/hS7BVWx1HwS>..Acesso em 10 out. 2016.
Dyce, Andrew. Jessica Jones Easter Eggs, Marvel Connections, & Comic Nods. <screenrant.com/jessica-jones-easter-eggs-netflix-marvel-mcu/?view=all.>. .Acesso em 10 out. 2016.
JACOBS, Guilherme. Quentin Tarantino diz que não é muito fã do Luke Cage da Netflix. <omelete.uol.com.br/filmes/noticia/quentin-tarantino-diz-que-nao-e-muito-fa-do-luke-cage-da-netflix/>..Acesso em 10 out. 2016.
PUIG, Rebeca S.  BRODERAGEM, MERCADO E EXCLUSÃO. <collantsemdecote.com.br/broderagem-mercado-e-exclusao/>. Acesso em 10 out. 2016.
______. ONECAST #3 – JESSICA JONES (podcast). <collantsemdecote.com.br/jessica-jones-a-melhor-serie-do-ano/>.Acesso em 10 out. 2016.
______. O QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE JESSICA JONES ANTES DA ESTREIA. <collantsemdecote.com.br/o-que-voce-precisa-saber-sobre-jessica-jones-antes-da-estreia/>. Acesso em 10 out. 2016.
SARKEESIAN, Anita. Some Thoughts on Jessica Jones. <femfreq.tumblr.com/post/134336278616/some-thoughts-on-jessica-jones>.  Acesso em 10 out. 2016.
VACHONREBECCA THEODORE- <www.fastcocreate.com/3064174/a-love-letter-to-black-women-cheo-hodari-coker-the-gender-dynamics-of-luke-cage>.  Acesso em 10 out. 2016.
Zanetti, Laysa. Luke Cage: Crítica da primeira temporada <www.adorocinema.com/noticias/series/noticia-124819/>. Acesso em 10 out. 2016.
*'Luke Cage' é o heroi que todos estavam esperando, cravam críticas de nova série da Netflix <www.tudocelular.com/tech/noticias/n78156/luke-cage-netflix-primeiras-criticas.html>. Acesso em 10 out. 2016.