quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Desculpe o Transtorno, Mas Precisamos Falar Sobre Pitch


Em 2016 Mo’ne Davis fez historia no baseball ao ser não apenas a primeira negra a a competir na Little League World Series, mas também ao ser a primeira garota a ganhar um jogo arremessando.
Esse fato inspirou Dan Fogelman (Crazy, Stupid, Love) a escrever uma série chamada Pitch. Essa série narra à história de Ginny Baker (Kylie Bunbury), a primeira mulher a participar na MLB (Major League Baseball).

Existe um discurso poderosíssimo na criação de Ginny Baker. Ela é uma mulher negra quebrando uma barreira e inspirando milhares de outras mulheres, dentro e fora da série. E existe um peso nisso e o piloto da série já aborda o quando isso afeta a Ginny.

O primeiro episódio, e único exibido até o momento, funciona como uma introdução ao universo que estamos adentrando. Ainda não é possível dizer muito sobre, a série arranhou apenas a superfície. É possível já ver a complexidade que é nossa protagonista, estou muito intrigada sobre como ela vai lidar com a relação com o pai. Esse e um relacionamento conturbado, difícil e é possível até reconhecer que abusivo, entretanto a figura dele é de extrema importância para ela. Fica difícil distinguir onde começava o sonho dela e onde terminava o dele, as linhas são muito tênues.



Inevitavelmente vai ser abordado questões de representatividade feminina, machismo e misoginia, afinal temos uma mulher entrando num universo até então exclusivamente masculino. Porém, aqui mora minha preocupação, existe uma possibilidade enorme de assim como aconteceu com Agent Carter, Ginny ser isolada do convívio com outras mulheres devido sua profissão. É importante manter um numero de personagens femininas fixas convivendo com a personagem.

De nada adianta termos uma protagonistas complexa, tridimensional e interessante se ela é a única personagem feminina regular da série. Você não vai estar progredindo tanto quanto imagina. É preciso trazer mais mulheres para o centro da série.

Pitch era uma das séries que estava mais empolgada para assistir essa fall season. Devo confessar que estou bem animada com os rumos que a temporada está tendo no geral, entre séries novatas e séries veteranas juntando canais abertos e fechados americanos e a Netflix foram lançadas aproximadamente 15 séries com protagonistas negros. Nunca antes tivemos tantos negros em destaque.



Esse aumento no protagonismo negro e na quantidade de atores negros em geral nas séries proporcionou algo fundamental, diversidade. Não estamos mais narrando apenas um tipo de historia para personagens negros. Temos atores de diferentes idades, diferentes corpos que interpretam personagens com diferentes desejos, diferentes passados, com diferentes funções narrativas. Estamos gradativamente deixando os estereótipos de Sassy Black Girl e Preto Magico e sendo reconhecidos como personagens complexos, tridimensionais e diversos.

Temos Annalise Keaton em How To get Away With Murder, Luke Cage, Zeke de The Get Down que traz algo que é muito ignorado pela comunidade negra norte-americana que é o negro de origem latina. Temos séries policiais, dramas, super heróis, comedias, negros fazendo uma infinidade de gêneros e sendo reconhecidos por isso.


Toda série protagonizada por negro é importante, quando ela tem um roteiro bem feito e dá vontade de voltar na semana seguinte é ainda melhor. Por isso precisamos falar sobre Pitch, assistir a série, indicar para os amigos, compartilhar esse texto. Quanto mais público séries com protagonistas tiverem mais surgiram séries com protagonistas negros.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Joguei Forza Horizon 2, e aí?



Não é de hoje que ecoam críticas à objetificação de mulheres nos simuladores de corrida automobilística. Em geral, a personagem jogável não pode ser escolhida, e é homem, branco, jovem, "goza de todas as faculdades físicas e mentais" e é pretensamente heterossexual. Curioso que a maior parte do tempo do jogo, a personagem está dentro do carro e -ao menos eu prefiro assim - daí temos a visão em terceira pessoa, de fora, e ela oculta que o avatar é o nosso oposto no mundo "real". Na maioria dos jogos, isso é transparente até que a vitória seja regada à champanhe, dinheiro e mulheres seminuas, mas felizmente não é um problema do Forza. Ele peça mais pela associação de valores masculinistas-cis, meritocráticos e consumista.

A primeira lição, portanto, é aprendida no momento da premiação: ser campeão é acumular objetos que constroem e reforçam um poder subentendido.




Estilo (e estímulos) de vida

Essa ideia de maximizar o "mundo das coisas" e minimizar o humano está em praticamente todos os jogos desde o Top Gear, e não é mérito algum do Forza essa mensagem ou a de que mulheres não podem ser pilotos. O único demérito real em Forza é a ausência de escolha da personagem, aspecto que, hoje em dia, é uma reivindicação comum da comunidade de jogadoras/geeks/feministas. E sabemos que não há dificuldade técnica alguma em proporcionar diversidade, os videogames comportam muitas informações, afinal são mais de 200 carros, mais de 300 estradas. Sendo assim, também acho que poderia ter mais músicas!

A questão da representação tem chegado com certo atraso nos videogames, por isso enfatizamos o estilo de vida veiculado pelo Forza Horizon como a manutenção da representação hegemônica e da alternativa única que é desejo de glamour e poder... falocêntricos. E a força desse paradigma está no apagamento de outras possibilidades de experiências e pontos de vista.

A única personagem mulher que apareceu foi a Ashley, mecânica capaz de personalizar as máquinas que adquirimos. O modelo que ela atualiza é a da mecânica da Firefly, Kaylee,: uma garota branca, magra, bonita sem saber, inteligente, mas ingênua. Assim como a engenheira de Firefly há um potencial narrativo no conceito da personagem, exatamente porque ela está inserida num ambiente que valoriza o oposto do que ela representa. É como feministas num ambiente tão tóxico quanto o mundo Nerd. Veja que ela é autorizada a customizar/pimpar o veículo, mas não de dirigi-lo. Lugar-comum.



À esquerda de Ashley, temos o apresentador do Festival Ben, uma cópia do Tiago Leifert.


Além disso, é quase "normal" no universo dos jogos de carros que, já no início, a pessoa tenha um capital inicial para promover a compra dum carro de alto desempenho, brilho e personalidade, uma máquina potente e veloz que abre caminho para um estilo de vida festivo e ilimitado. No caso de Forza Horizon, o clima de festa é reforçado pela Horizon Pulse, a rádio oficial do Festival e seus comentários dignos dum Tiago Leifert, com voz "feminina". Entre uma música e outra (que eles chamam de alternativa, mas não difere duma Jovem Pan) o mote da rádio: "A vida é uma festa". Ora, que vida é uma festa?

(Questionamento retórico: você trabalha? Se alimenta bem? Usa seu tempo livre de forma saudável? - em caso de ser da classe trabalhadora, você acredita que deve desejar o oposto? Acredita que tem chance? )




Forza é o mundo do belo, jovial, saudável e brilhante. É o mundo do poder (como em The O.C), não o "das ruas", mas o da inconsequência, da juventude de classes sociais abastadas. Pergunto: estar lá simbolicamente é fazer parte da inconsistência dessa propaganda dos desejos fabricados de fora pra dentro, uma propaganda que faz parecer acessível uma Ferrari, Jaguar ou Lamborghini e suas manutenções, estilo de vida, e o alto preço do combustível?

Não.

Aliás, por falar em combustível, um ponto realista do jogo me intrigou. O GPS é a tecnologia que nos possibilita viajar pela Itália e encontrar os circuitos, prêmios e desafios ao longo do mapa. Essas viagens trazem ao primeiro plano o conceito do jogo: o horizonte é incrível e absorvente; o horizonte é lindo e seduz para observarmos sua totalidade. Até mesmo as corridas proporcionam uma viagem prazerosa. (por outro lado, nem parece que as civilizações lutam por petróleo).

O visual do jogo é incrível, tanto que o amanhecer/entardecer são tão lindos quanto realistas. Os carros reluzem sob o sol do meio dia, o público assiste animado fogos de artifício nos recebem, mas o foco não é bem as pessoas - elas são decorativas assim como as cercas, placas e arbustos. Diferente dum Need For Speed (Underground) em que o avatar aparece quando cometemos a infração e a polícia nos alcança, em Forza Horizon o estilo de vida é mais sutil, "limpo" e no auge da felicidade (é como o aplicativo Extremis 3.0 do Tony Stark), não há urbanidade, sujeira, pichação, latinos, negros, pobres, gordos, pessoas com deficiência... E veja, não estou dizendo que GTA V é melhor por isso. São duas partes do mesmo sistema de exclusão e desigualdade social naturalizada. Num GTA o negro está presente para interpretar um papel de negro, caracterizado pelo hip-hop, machismo, pobreza, crime. A mulher está como qualquer objeto de luxo decorativo, portanto, são todas compráveis. Nada bom neste estilo de vida, também.


Esqueci de dizer que a platéia foi inspirada em quadros do Picasso. Bizarrices aqui!


A animação do início do Forza Horizon foca nos carros brilhantes e no festival musical, sendo que o público é uma massa indistinta. Lembra a estética de festivais de música eletrônica, pulseiras, óculos de sol, juventude a mil. Esta lição é o apelo: junte-se, caso queira ser feliz e livre. Curioso o apelo à liberdade dessa deriva.

Só que a deriva é um tanto cortada pela necessidade de encontrar os circuitos, prêmios, desafios, oficina - locais predeterminados. Existe um objetivo, portanto, essa liberdade total inexiste. Por sorte, os carros que são destruídos ao longo dos percursos são reconstruídos de graça, bem como o tanque de gasolina sequer é citado. Nosso rico dinheiro é puro investimento nos carros de cada modalidade/patrocínio que galgamos, já que os circuitos se diferenciam mais pelos modelos dos carros. Engraçado que o estandarte são os carros futuristas, cromados cuja velocidade média é de 190km/h, mas um Dirty, Rally e outras mais nos levam a experiências interessantes de velocidade, e de resposta do carro ao asfalto, à terra e às curvas. Por exemplo: um jipe demora bastante à alcançar 70km/h, e seu peso faz toda a diferença durante as manobras.

Os primeiros mil dinheiros possibilitam comprar o primeiro carro e, a partir disso, vencemos as corridas e ganhamos mais dinheiro. Muito glamour, e parece que a segunda lição está dada: a vida é fácil, basta iniciar. "Comecei do nada no Brooklyn (NY). Meu pai me deu um pequeno empréstimo de um milhão de dólares", disse Donald Trump. Olhando assim, quase parece justo.

Então, a homogenização de Forza é um esforço de moldar a ambição e naturalizar relações assimétricas (não brancos e mulheres, apenas como figurantes ou adjuvantes). Nada de submundo, crimes, extorsões ou missões que nos colocam em conflito com as leis. Apesar disso, é difícil acreditar que não há uma sutil referência à sonegação fiscal, afinal, não é difícil conseguir patrocínio (basta comprar um carro adequado) e vamos acumulando mais e mais carros, dinheiro e fama. É tudo muito clean e acessível, todos jovens, brancos, magros e felizes. Como não ser feliz se a cada falha recebemos mais bônus, um drift, uma batida, aliás, tudo que fazemos é recompensado. Mesmo perdendo, subimos de nível, ganhamos pontos de habilidade e, o melhor: se falharmos, podemos reiniciar a corrida. Lição: o mundo é seu e não tem limite, Sebastião. (só toma cuidado com o uso politico que fará dele)

Estamos na Europa, inscritas num festival com diversas modalidades, mas priorizando aquelas que enchem os olhos: a majestosa presença de carros dos sonhos. Estamos agindo numa ficção que se esforça em promover um pertencimento inalcançável, porque não, querer NÃO é poder. Histórias de superação confirmam o poder de instituições que mantém o mundo tal como é - longe da emancipação. É por isso que não basta parar de jogar videogame ou ler quadrinhos de super-herói: precisamos dum engajamento crítico em relação a tudo o que consumimos, afinal, cultura de massa é sensacional - quase um Horizon.

E você, o que tem a nos dizer sobre simuladores de corrida automobilística?



Obrigada :)
David Yuri

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Por que precisamos de mais mulheres EDITANDO quadrinhos?


quadro à direita: sketch de Tanxxx


Sabemos o quão importante tem sido a presença de ilustradoras como Afua Richardson (Genius),  Pia Guerra (Y: o último Homem), Annie Wu (Canário Negro), Beckye Cloonan (Pixu, Gotham Academy) Fiona Staples (Saga), Natasha Bustos (Moongirl & Devil Dinossaur) e de roteiristas como Amanda Conner (Arlequina, 2013-...), Amy Reeder (Moongirl & Devil Dinossaur), Ming Doyle (Constatine) no mercado mainstream das Marvel e DC/Vertigo. Apesar dessa mudança, ao ler Arlequina (tanto a dos novos 52 quanto a posterior) nos deparamos com requadros que priorizam aspectos "femininos" da personagem, a definição perfeita duma mirada masculina heterossexual (the male gaze). E aí, como resolve o problema?


Arlequina

-----------------------------------------------primeiramente:----------------------------------------------
Se você não sabe o que faz o/a editor/a de quadrinhos, veja:

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Se vocês já fizeram roteiros ou ilustrações de quadrinhos editados por outra pessoa, já devem ter pensado que - em muitos aspectos - a história não está mais como você idealizou*. E mais: talvez o título encomendado sequer seja de seu interesse primário. Seu nome pode vir antes do nome do editor, mas ele é o Diretor, aquele que define "o que vende", os "valores da empresa" e, portanto, aquele que elenca preferências. 1) Isso também é fato no mercado alternativo, 2) Estou usando as palavras no masculino porque 99℅ dos produtores e 93% dos leitores são homens e sim, 3) quero chamar a atenção para isso. Pois bem, nada de errado com o ofício ou com editores em si, mas devemos reconhecer que, muitas vezes, é ele quem solicita mais sangue, mais close, mais peito, mais bunda, menos roupa. E isso se torna uma questão quando encaramos a problemática do ponto-de-vista nos quadrinhos. Se torna uma questão quando não somos a fatia considerada "cidadania padrão" e, ainda assim, desejamos nos entreter jogando videogame, lendo quadrinhos e assistindo a séries.


...Sim, o underground pós-internet, cada vez mais, nos proporciona encontrar nichos que nos cabem e sim, podemos produzir o que desejamos ver/consumir. Acredito muito na potência e na vontade de mudança que o underground proporciona. O ponto que estamos discutindo é que negros, mulheres e LGBTQ+ produzem fanzine, quadrinhos e romances e jornais há muito tempo. O problema é que não há circulação e que não é a primeira ideia que a "maioria" terá de googlar. Então, o mainstream (o mercado mais visível/popular) se torna uma arena política assim como as Universidades. Ora, podemos produzir conhecimento fora da universidade, posso eu mesma validar esse conhecimento, mas no sentido mais amplo de sociedade, essa iniciativa isolada não ultrapassa o gueto. Oportunidade e direitos devem ser ampliados e mesmo que meus ideais políticos sejam anticapitalistas parte do meu investimento pessoal está inserido neste "sistema inescapável". Talvez implodir de dentro, talvez.

Grandes editoras  começaram a rever o modo de criar ou reconceituar heroínas lentamente até culminar no "Ano das mulheres" (2015). Houve muita celebração de protagonistas fortes - como Furiosa e Jéssica Jones e, mesmo assim, a ideia equivocada sobre a Arlequina permaneceu no  desagradável (?) filme Esquadrão Suicida.

Neste caso, as mulheres são tão bombardeadas por imagens negativas que aderem com naturalidade à caricatura "louca, sensual, jovem, magra, loira, vulnerável" etc, esquecendo que ela superou boa parte desses estereótipos em seu próprio quadrinho. Ela, no final das contas, é mais lembrada como a materialização de "nerdes punheteiros" (PUIG, Rebeca), que uma mulher "real" e/ou forte.

É considerado "natural"representar os heróis em poses "ativas" e "viris" que concentrem as informações para qualquer parte do corpo senão sua genitália. Eles aparecem:


1) De  frente 




2) Escondendo o pênis



3) Com o volume  do pênis ocultado por sombras.




Por outro lado, heroínas são representadas em poses desconfortáveis e que reafirmam os atributos tidos como "femininos". Exemplos clássicos:


1) "Dominadora, porém feminina" ¬¬'


2) ... ¬¬




3) ...¬¬''


A inserção de mulheres lenta e gradual das quadrinistas evidenciou que não basta que a história seja produzida por roteirista ou desenhista para que a male gaze e tropos como "mulheres no refrigerador" se repitam. Para quem acompanhou a Vertigo (subdivisão da DC comics) entre 1980 e 2013, é evidente que o olhar de Karen Berger direcionou obras de Alan Moore, Neil Gaiman e Grant Morrison para além do mercadológico em si é contribuiu para a construção dum discurso político e estético mais critico. A partir da leitura da carta de Karen Berger direcionada a Neil Gaiman (colagem abaixo do extra de Orquídea Negra) notamos que as produções eram analisadas sob uma perspectiva crítica que influencia incrivelmente o resultado final. Com isso, não quero reduzir o trabalho desses gênios, apenas enfatizar a importância e o poder que a editoração propõe e demanda. Uma boa edição significa que o/a editor/a soube direcionar o talento, decantar as idéias e oferecer soluções, mostrar o que é bacana, o que funciona...enfim, acompanhar o processo de forma crítica. Nem preciso dizer que esse/essa profissional precisa dum background cultural, social diversos e que seja uma pessoa flexível.

Veja que, em meio a elogios e críticas, há sugestões ricas que foram incorporadas ao resultado final da obra.

Carta de Karen Berger para Neil Gaiman, sobre o trabalho dele na Orquídea Negra


Em 2014, quando finalmente a série Genius (2008!) foi publicada por completo, a desenhista Afua Richardson perguntou no Facebook se acaso as pessoas achavam sua capa da edição #1 inadequada*** em algum sentido. Veja com seus próprios olhos:


Hipersexualização de uma adolescente negra e marginalizada.

Sem dúvidas, assim como negros internalizam racismo e o repetem, uma mulher replicou o que tem visto nas histórias em quadrinhos dos últimos 100 anos. Outro ponto a ser levado em consideração é que essa capa está de acordo com outros títulos da editora protagonizado por mulheres como Tomb Raider. Assim, podemos concluir que:

1) O perfil da editora é conservador;
2) o público-alvo são homens heterossexuais jovens e abastados (gênero construído segundo essas convenções);
3) o editor ou a editora não tem senso critico aprimorado, já que desconhece avanços básicos do mercado em pleno século XXI.

Na prática, esses pontos não são isolados, principalmente no mercado estadunidense. A saída de Karen Berger da Vertigo revela que o direcionamento da editora DC é, cada vez mais lançar produtos médios que atinjam uma porção do mercado qualquer, desde que seja grande. O investimento ideológico em manter mensagens conservadoras no momento que vivemos é alto demais. Para manter Superman como carro-chefe não se cansam de cancelar títulos mais progressistas. A demanda é por representação positiva de minorias políticas, portanto, é isso que o público deseja. Insistir no retrocesso agora parece ilógico até para o capitalismo selvagem, o ranking de vendas mostra isso

É comum que autoras independentes optem por editarem suas obras ou deixar a cargo do coletivo. Exemplo disso é a adorável - e Magra de ruim - Sirlanney. No caso da autora cearense, isso possibilita que toda a sua expressividade esteja na obra, sem cortes, sem podas. No caso da zine XXX, a multiplicidade de olhares/experiências possibilitou que muitas garotas tivessem a liberdade de expressar seus sentimentos, pensamentos e a própria experiência de autoria.

Em suma, acredito sim que o underground é a chave da liberdade criativa, mas que devemos buscar por visibilidade, por espaço de expressar outras experiências e pontos de vista. Ser autora e publicar a própria obra é uma experiência incrível, isso é inegável. O ponto-chave é que precisamos - e muito - editar as representações daqueles 99% .










NOTAS

* Não estou defendendo a ideia de uma arte pura que expresse o artista, afinal não estamos no século XIX. O que eu aponto é que a confecção coletiva de quadrinhos, cinema e música pop passam por critérios hegemônicos para se tornarem palataveis ao cidadão comum e, portanto, vendaveis.Obvio que um álbum bem produzido não é o que artistas imaginaram e que isso pode ser ótimo, como um Black Álbum do Metallica que todes gostam.

**Para citar os mais famosos

***Nunca mais encontrei o Post. Gerou polêmica, entao deve ter sido tirado do ar.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

(GUEST) O Silêncio das Marias





O Silêncio das Marias

por Rosângela Lopes da Silva *


Ali, depois da mesa, da geladeira, dos vidros no chão, da pequena porta estreita, sobre as

rachaduras da velha escada de concreto, estava ela. Os dedos, trêmulos, deslizavam entre as frinchas,

construindo desenhos indecifráveis.

Lá, depois do negro dos cabelos se misturar as folhas da mangueira, noite apenas. Distante,

vazia, silenciosa, embrutecida.

A oito passos dali, antes da porta estreita, dos cacos de vidro no chão, da geladeira branca, da

pequena mesa de madeira, estava Luiza a contar os degraus da escada. Perdera-se entre os cinco

algarismos. Imaginou que a ordem e a quantidade das coisas são tão abstratas. Os números não

conseguem tocar o instante. São incapazes de mensurar o momento. Arrumou um cantinho entre o

fogão e o armário. Após tanto tempo encolhida lá, já não sentia as pernas, nem os braços, nem as mãos

entrecruzadas, pouco abaixo dos joelhos. Tudo pesava.

- O abstrato do existir! Pensou um pouco, antes de recomeçar a contagem, sem ordem, sem

regras, sem tempo.

Dali, via as pernas da mesa, a triste figura que se somava à escuridão lá fora, a pouca luz

emanada da candeia. Fosse um outro dia, certamente acharia lindo o círculo oscilante, de luz amarela,

que se desenhou em volta da lamparina. O pavio havia sido tecido na noite anterior. Aprendeu com a

avó a girar os pedacinhos de algodão na mão até ficarem parecidos com um barbante. Achava mágico e

divertido tudo aquilo. Quis, por um momento, aquela magia de volta, mas o olhar encontrou mais uma

vez a triste figura lá fora.

Enquanto tentava, em vão, recuperar o sorriso da noite passada, lembrou-se de uma outra triste

figura. Uma que lutava contra moinhos de vento, na história que a professora havia contado na terça-

feira. Tia Rita, empunhada com uma espada de papelão, bradava eloquente:

- Não fujam, criaturas vis e covardes!

As crianças sorriam, gritavam, encorajavam a triste figura. Luiza, no entanto, continuou quieta

em sua carteira. Viu apenas loucura naquela batalha. Não encontrou motivos para sorrir. Achou seus

colegas tão ingênuos.

- Não são gigantes, são moinhos de vento! - Balbuciou, ao ver pela janela que algumas crianças

no pátio sorriam da cena que presenciavam.

Não sabe como, mas de onde estava agora, ali no canto da cozinha, encontrou em um milésimo

de segundo, desses que não se pode contar, sentido naquela insanidade. Quis voltar lá e pedir para a tia

Rita não desistir da luta. Quis também ter uma espada de papelão para não deixá-la sozinha. Era

preciso mostrar aos zombadores que havia, de fato, gigantes enfurecidos vestindo aqueles moinhos.

Desses gigantes que precisamos enfrentar todos os dias. Mesmo que ninguém lá fora possa enxergar.

Luiza constatou assustada que aquela triste figura, petrificada no quarto degrau, também lutava

contra gigantes.

- Está só e sem espada. Como vencerá?

A menina sabia da necessidade de levar a espada até lá. Levaria. Diria que também ver os

gigantes. Mas tudo estava tão adormecido. Dormiam profundamente as pernas, os braços, as mãos.

Estava ali havia tanto tempo que já nem se lembrava mais de...

- Que besteira pensar em moinhos de vento! - Disse a si mesma, silenciosamente, em tom de

repreensão. Desviou seu olhar para um canto da cozinha, onde encontrou duas crianças dormindo.

Estavam abraçadas. Dormiam em uma cama velha de casal. Havia espaço do lado direito da cama.

Luiza sabia que deveria estar deitada ali, mas não ouvira os conselhos dados mais cedo. Das duas

crianças, o mais velho parecia forçar os olhos para mentir o sono. A menorzinha dormia em sua

inocência. Luiza também quis mentir, também quis a inocência, mas gritos aflitos pareciam chamar

pelo seu socorro.

Naquele dia, horas mais cedo, quando a luz ainda escondia a noite escura que viria, a dona

Maria Roxa, uma senhora cega que morava próximo a sua casa, contou-lhe que todas as Marias vieram

ao mundo para carregar os fardos do existir. Não quis acreditar no que ouviu. Lembrou que muitos

diziam que dona Maria Roxa havia ficado louca. Luiza, no entanto, duvidava disso. Acreditava que os

olhos cegos e o tempo abrigado nos cabelos brancos a faziam saber de coisas que nenhum outro adulto

da rua seria capaz de saber. Nem mesmo a avó. Por isso, a menina passava horas conversando com ela.

Ouvia, curiosa, a história de um tempo em que uma moça chamada Liberdade foi levada de sua terra

mãe. Aprisionada por aqueles que se diziam seus senhores.

Certa de que dona Maria Roxa era a maior sábia que já havia conhecido, a menina ficou

angustiada com a ideia de que as Marias vieram ao mundo para sofrer. Pensou alto a sua aflição.

- Não pode ser verdade! Minha mãe não veio ao mundo para sofrer!

Era preciso existir exceções. A vizinha sorriu. Daqui de longe, não se sabe ao certo se era um

sorriso alegre ou de compaixão. Luiza nem teve tempo de tentar interpretá-lo. A velha senhora, olhando

no fundo dos seus olhos, como se pudesse enxergar toda a tristeza escondida lá dentro, falou-lhe

baixinho:

- Todas nós somos Marias, minha menina. Todas nós. Algumas, no entanto, carregam fardos

mais pesados que outras.

Luiza temia que aquela triste figura, sentada no quarto degrau, estivesse há muito carregando

um peso que já não podia suportar. Estaria muito machucada. Estava. Luiza sentia. As marcas no corpo

gritavam isso. A menina sentiu que também queria gritar. Era preciso erguer a cabeça, agora acolhida

com calma pelos joelhos, e empunhar a sua espada. Queria, mas não foi capaz. Tudo estava tão pesado.

Lembrou-se que, um pouco antes da noite chegar, sua mãe havia lhe dito que os filhos nunca

devem sentir raiva dos pais. E que era papel da filha mais velha cuidar dos irmãos mais novos, protegê-

los de tudo. Luiza não queria escutar aquilo. Queria fechar os ouvidos o suficiente para que não ouvisse

nem mesmo o som acelerado de sua respiração. Mas sua mãe não parava. Dizia coisas sem nexos.

Frases soltas.

- Ele não gosta de alho!

- Como assim não gosta de alho? Eu gosto!

- Teus irmãos vão precisar de você...

- Construirei um castelo de pedras. Meu quarto será na torre mais...

- Menina, você é muito sem atenção! O feijão está queimando.

- Eu quero muito ser bailarina. Dançar toda noite num castelo cheio de doces. Sozinha. Existem

bailarinas ne...

- Você precisa prometer, por favor! Eu posso não estar aqui. Às vezes tenho medo de me matar.

- Se matar? Alguém pode matar a si mesmo?

A menina pensa agora que talvez tenha se segurado a pensamentos vazios enquanto a mãe

falava. No vazio fazia de conta que tudo estava bem. As frases foram se confundindo no eco que

faziam. Os dedos da menina se entrecruzavam bruscamente. Sem mais espaço entre um e o outro,

restou a dor. Um formigamento. Encolheu-se. Luiza envergou-se para um dentro que não sabia onde

acabava. O peso das palavras. A dor de ouvi-las repetidas vezes dentro de sua cabeça. Lá fora, aquele

soluço sufocado. Lá em cima, sobre os outros cinco degraus, um ronco ameaçador. Sim, havia uma

outra escada. Talvez Luiza quisesse deixar claro que estaria melhor se ela não existisse. Não era ódio,

prometera a mãe que jamais sentiria isso. Então inventou ser uma coisa sem nome que fazia sofrer.

          Palavras ávidas por existir

                param subitamente ao observar

                        o ser atônito a implorar inerte.

                                   Constroem na solidão do momento um lar.

                                                          Tecem nos vazios um teto sem alicerces.

Luiza não acreditava fazer poesias bem. Achou melhor parar. A tia Rita insistia em dizer-lhe

que era uma grande poeta. Mas a menina duvidava. Não encontrava em seus versos toscos a beleza e a

sensibilidade das poesias que lia, encostada à parede da biblioteca da escola, escondida pelas estantes

cheias de livros. Pensava ser as imagens construídas por aqueles poetas inalcançáveis. Ah, as palavras...

Elas são fugidias. Têm vontade própria. Quando não querem sair, ficam presas, machucam, doem. Se

querem sair, e não deixamos, saem desajustadas, cortantes.

- SE CONTINUAR A BATER NELA, O SENHOR VAI VER!

Quis segurá-las. Promete a si mesmo que quis, que tentou. Mas elas estavam cortando lá dentro

há muito tempo. Ouviu quando a mãe disse que ela e os irmãos precisavam ir para a cama mais cedo e

que, independente do que acontecesse, era preciso que continuassem dormindo, pois ele certamente

chegaria bêbado novamente naquela noite. Ouviu tanto quanto ouviu aqueles gritos sufocados no

quarto lá em cima. Tentou mentir que dormia, mas não foi capaz.

- As palavras cortam.

Não lembra quando subiu os cinco degraus.

- São cinco? Não! São seis.

Lembra-se apenas das palavras, como plumas agarradas à brisa despercebida, se tornarem ainda

mais ameaçadoras e cortantes quando capturadas por ele. No canto esquerdo do quarto, a mãe chorava.

Os olhos vermelhos, zangados, feriam-na.

Luiza quis gritar, mas lembrou dos irmãos. Não podia acordá-los. E foi assim, que as palavras,

assustadas, resolveram construir morada no silêncio. Ficaram lá, quietas, enquanto o corpo da menina

era pintado por marcas avermelhadas. Dona Maria Roxa estava errada quando disse, certa vez, que

pretos não ficam vermelhos. Ah, se ela pudesse enxergar aquela momento! Veria que podemos sim.

Procurou a mãe em algum lugar do quarto. Queria dizer que não precisava se preocupar. Estava

bem. Procurou em vão. Não estava mais lá. Luiza sabia que a mãe saiu para que ele parasse. A menina

também sabia que depois a mãe lhe cobraria por não tê-la ouvido, como fez os outros irmãos. A culpa

foi chegando devagarinho a procura de refúgio. Até que fez moradia lá onde as palavras construíram

um muro imenso e se esconderam.

- Onde?

- Aqui dentro.

O gigante era forte e impetuoso. Não podia contra ele. Precisava de sua espada. Correu. Se

escondeu entre o fogão e o armário. Colocou a cabeça entre os joelhos o quanto foi possível. Queria

fazer morada junto às palavras. Não as culparia. Faria apenas companhia. Lá em cima o gigante

adormecera. Lá embaixo um ser a se confundir com o vazio ensurdecedor da escuridão.

Enquanto a memória insistia em manter vivo o que aconteceu, Luiza insistia em apagar tudo.

Talvez, se daqui não pudéssemos pular o muro construído pelas palavras, essa história jamais teria sido

contada. A menina prometeu ao silêncio que todas aquelas lembranças seriam dele. Certa de que ele

cuidaria de tudo, tomou coragem. Levantou-se. Sentou-se ao lado da triste figura. Tentou esmiuçar

algumas palavras que havia guardado para aquele momento, mas até essas pediram para morar também

lá no silêncio. Algumas delas, no entanto, saíram correndo desesperadas e soaram súbitas:

"Mãe, nós somos todas Marias, sabia?".

E, antes que outras resolvessem acompanhar as primeiras fugitivas, ouviu-se emudecidamente:

- Shhhhh!! Cala a boca, menina! Você quer que Ele acorde!?





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*Rosângela Lopes da Silva é professora do Ensino Médio Básico do estado do Tocantins. Também é  mestranda em Literatura na Universidade de Brasília  (UnB) com pesquisa em andamento vinculada à linha Representação na Literatura Contemporânea; mais precisamente ao eixo Representação e autorrepresentação de grupos marginalizados na literatura brasileira contemporânea. Possui especialização em Poética da Linguagem: Do signo ao discurso, do verso à prosa (UFT 2012) e graduação em Letras pela Fundação Universidade Federal do Tocantins (2010). Atualmente é integrante do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da UnB.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

VENHA SER PRETA, NERD COM A GENTE!


 


A equipe Preta, Nerd & Burning Hell está buscando colaboradoras (mulheres e pessoas não-binárias negras escritoras e artistas visuais) para contribuir com discussões sobre feminismo antirracista e descolonização da cultura pop.

Buscamos colaboradoras interessadas em resenhar livros, filmes, séries e jogos, participar de mesa-redonda, traduzir artigos, legendar vídeos e entrevistar gente fina-elegante-sincera; produzir chamadas, tiras e banners. Além disso, ao integrar a equipe você poderá trocar saberes com pessoas interessadas no mesmo tipo de conteúdo que você! Caso não se sinta a vontade com a escrita, saiba que terá auxílio de editoras sempre que precisar!

Para submeter sua proposta é necessário:

0) links de trabalhos anteriores
1) uma prévia do conteúdo que deseja submeter
2)uma mini biografia
3)uma foto sua em formato PNG
>Envie uma prévia do conteúdo para o email: pretaenerd@gmail.com





Ao entrar na equipe você concorda que:

*Não é uma atividade remunerada
**Nosso objetivo é contribuir para visão mais crítica do entretenimento
***É um comprometimento real com a PROPOSTA, sem fama, glória ou poder!

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

(GUEST) Por que o marketing de Narcos foi melhor que a temporada?


Por Larissa Ribeiro

*SPOILER*

Tudo foi muito bem pensado. Panfletos em aeroportos, uma matéria antiga do Aqui e Agora chegou a passar na TV, jornais mostraram (ou criaram) manchetes de 1993 com o Escobar sendo procurado... mesmo quem não viu a primeira temporada teve vontade de ver a segunda. Pena que não senti o mesmo nos episódios.


O starter pack de Javier Peña nas bandejas de aeroporto

A temporada começa mostrando que se antes Pablo parecia intocável, agora não é bem isso. Com alguns dos antigos aliados formando o Los Pepes e jurando matar qualquer um minimamente envolvido com Escobar, ele se vê forçado a se esconder com a família. Nenhuma casa é segura,e fugir no meio da noite se torna comum. É literalmente um "Todo mundo odeia o Pablo".

Na primeira temporada de Narcos, duas coisas me causaram bastante incômodo: o Pablo estar um passo a frente mesmo quando não havia sentido e a maneira de retratá-lo como um gênio perfeito, trabalhando sozinho, sendo mal por ser mal.

Agora (não chega a ser uma inversão de papéis) pelo menos vemos mais da sua família do que só ele jogando bola com o filho mais velho. Já o agente Murphy está no limite. A esposa fugiu com a filha, e ele sabe que ninguém ali realmente quer ajudá-lo a desmantelar o cartel de Medellín. Agride um executivo que estava usando cocaína no banheiro, e é afastado por isso. E o agente Peña começa a passar informações para os Pepes, sem se dar conta que mesmo estando contra Pablo, eles não estão do lado do povo, muito menos da justiça.


O presentinho de Natal dos Pepes a uma comunidade


Sem ter a quem apelar, já que as autoridades americanas e o presidente Gaviria se recusam a dialogar, Pablo tenta mandar a família para a Alemanha (em minha opinião, uma das melhores sequências da temporada). Como não consegue (graças a algumas manobras do agente Murphy), só resta escondê-los na Colômbia. E não manter contato, já que os telefones podem ser grampeados. É literalmente um "Todo mundo odeia o Pablo".

Na verdade, o que se torna o grande problema da temporada é ela ter ficado muito, MUITO arrastada. Que o Pablo morre todo mundo sabe, então muitas cenas desnecessárias são jogadas até que finalmente aconteça. Depois de todo o marketing de série policial, de ação, o negócio vai pra um lado bem novelão dramático. E como não podia deixar de ser, vem aí uma terceira temporada.


"Ele morre logo nos primeiros episódios?"

Agora sabemos porque a série não se chama Pablo, Escobar ou algo do gênero... se preparem,um novo narco vem aí.



quarta-feira, 7 de setembro de 2016

(GUEST) Naquela quarta


por Rosângela Lopes da Silva*


Era uma quarta-feira de uma semana qualquer, dessas que se encompridam em dias que parecem não ter hora para terminar. Exaustos, os ponteiros do relógio seguiam devagar. Já era a oitava vez, talvez nona, que Martha desviava o olhar das tabelas que preenchia entediada para verificar, decepcionada, que o tempo fizera morada nas 11h. Apaixonado, namorava os minutos como se não os quisesse abandonar. Ela, deslizando fortemente os dentes para frente e para trás, pensou ser os apaixonados egoístas. Parou por um instante. Ponderou não ser preciso terminar o trabalho tão rápido. Era meio de semana. Metade do dia.  Quem sabe, metade da vida.
- Por que sempre paro no meio do caminho?
A mesmice dos dias, tão defendida pelos pais para o seu futuro, sufocaram-na de repente. Sempre os mesmos. Repetidos horários para acordar, repetidos horários para dormir. Tudo sempre igual. A mesma mesa, as mesmas tabelas, os mesmos assuntos, os mesmos colegas de trabalho, as mesmas cores, os mesmos sons dos dedos cansados tocando os teclados dos computadores. Os dias se sucedendo como uma eterna manhã nublada de domingo. Tão melancólica. Tão vazia. Perguntava-se como pode os ponteiros do relógio se enamorar do tempo, se demorar tanto em um mesmo lugar.
- Senhora, posso recolher esses papéis?
- Hã?
- Os papéis sobre a sua mesa, senhora.
- Os papéis so... Ah... Sim, por favor!
Ao mover levemente o olhar, viu-se engolida por recortes coloridos, clipes enormes, papéis amassados. À direita, um cesto de lixo completamente cheio.
- Um dia tudo transborda, não é mesmo? Sempre transborda.
- Falou comigo, senhora?
- O quê?
- Nada não, senhora.
Constrangida, desviou subitamente o olhar e, quase sem querer, encontrou no canto esquerdo da mesa um acanhado papel amarelo. Desde as seis, Martha tentava terminar com perfeição a tarefa escrita nele. As letras corridas e emaranhadas gritavam arrogantes: "Refaça as tabelas de preços! A falta de atenção não será tolerada uma outra vez!”.
- Eu sei, pai! Não haverá tolerância uma outra vez, não é mesmo? E já houve algum dia? – Pensou ela ao morder fortemente os lábios impedindo que o pensamento escapasse sonoro.
Desviou o olhar. Colocou uma bolsa azul sobre a mesa. Retirou um pequeno espelho. Contemplou a palidez do rosto e a tristeza nos lábios densos e acinzentados. Coloriu-os de um vermelho intenso. Abriu a segunda gaveta e começou a amaçar cada uma das trinta tabelas que passara o dia anterior digitando. Quando estava próxima do término, passou a rasgar cada folha em pequenos pedaços. Enquanto ouvia o som abafado das partes se distanciando, lembrou-se do que Alice lhe dissera antes de ir. Já havia passado duas semanas desde aquele dia. As palavras, no entanto, se repetiam incessantes: "Tem certeza?". Que poderia ela ter respondido?
À sua frente, alguns papéis eram devorados por um saco azul e passivamente sufocados por um nó dado às pressas. Mordeu ainda mais forte os lábios buscando entender por que ter ficado sem respostas. Talvez não soubesse mesmo o que responder. Ou talvez soubesse, mas escondera as palavras ao constatar o quanto soariam insignificantes. Por mais belas que fossem, elas não levariam embora aquela neblina que a acompanhava desde a infância. Sempre esteve com ela e, ainda que numa quinta ensolarada se recolhesse brevemente para contemplar a brisa, na sexta pela manhã viria sorrateira escondendo o sol.
- Não há certezas. Nunca houve, minha Alice.
- Meu nome não é Ali...
- Ei, por favor, tem como passar o pano sobre a minha mesa? Sem querer, deixei a água cair. – Interrompeu uma voz rouca no fundo do escritório.
- Sim, sem problemas. Já estou terminando aqui.
Sem muita espera, as botas de borracha amarela saíram firmes e barulhentas, uma após a outra, até alcançar a pequena mesa no fundo da sala.  Em pouco tempo, um pano amarelo bebia sedento o líquido que afogava o branco dos papeis. Daquela distância, Marta não pode ver se houve maiores estragos.  Na verdade, fora as mãos negras a conduzir firmes o pequeno pedaço de tecido, nada mais ali prendeu a sua atenção. Não sabe como, mas o vai e vem do tecido, sem avisar, tocou a linha do horizonte desenhada acima das ondas embriagadas pelo sol numa tarde ensolarada de sábado. Sem relutância, o olhar se deixou mover pelo despretensioso ritmo de um vestido amarelo ondeante até cumprir-se naqueles enormes olhos cor de jabuticaba.
- Alice!
 A tarde pareceu se estender em uma Sinfonia de Beethoven. Não entedia de sinfonias ou mesmo de Beethoven. Antes, sentiu, ao vê-la, a mesma sensação que aquela melodia lhe causara certa vez. Sentada sobre o ressalto da janela de seu apartamento, extasiada pelas pequenas luzes fugidias a se esvaecer no vermelho da buzina e dos murmúrios cada vez mais distantes, foi apanhada pelo azul tímido que soou do andar de baixo. Sentiu mesmo que era capaz de tocar cada sopro de vida exalado das notas. Fechou as janelas, deitou no sofá da sala, olhou as linhas do teto, adormeceu. O sorriso de Alice se mostrou tão vivo e intenso quanto aquela sinfonia. 
- O André é mesmo um desastrado, não é mesmo?
- Oi?
- Disse que o André é mesmo um desastrado.
- Sim, ele é.
O amarelo no horizonte emoldurou-se repentinamente. Encobriu-se por prédios e mais prédios até não ser nada mais que um cinza distante e vazio.  Martha procurou novamente o relógio. Onze horas e quarenta e sete minutos. Talvez quarenta e oito. Difícil determinar o lugar exato do ponteiro.
- É complicado ter certeza. É difícil ter certeza. É impossível, Alice. Quando estamos quase a agarrando, já não se sabe se são quarenta e oito ou quarenta e nove minutos.
Em busca de algo a que pudesse se segurar, o olhar encontra no lado esquerdo da sala um pano envelhecido a deslizar com força sobre o chão.
- Alice, você sempre joga água e sabão acima do necessário.
A lembrança veio acompanhada de um sorriso tímido. Escondeu-o rapidamente. Na sala a sua frente, as portas de vidro e as persianas cor de creme inquietas pareciam vigiá-la. Mas, embebecida pelas memórias, convenceu-se de que não havia necessidade de recuar.
- Quanto sabão, arrrrrr!
 Aquele cheiro de sabão em pó. Alice deitada sobre a cerâmica molhada. Aquele olhar. Os olhares. A noite chegando, a noite ficando ao amanhecer, um pano sendo torcido e mergulhado na água embaciada e acinzentada. Nada parecida com as tonalidades de azul, rosa, amarelo e verdes vibrantes que Alice dobrou, meio sem jeito, e guardou na mala cor de vinho. Demorou muito para a nebrina se desfazer dessa última vez. Veio quinta, sábado, segunda, sexta novamente, e nada. Veio novembro, dezembro, janeiro, fevereiro, março, abril e nada dos ipês de maio colorir o dia. A brisa entrou desavisada pela janela e a encontrou no sofá. Martha não sabia ao certo quando deixou a cama e encontrou aconchego ali. Não sabia muito, só não queria ver aquele lindo vestido amarelo perder sua intensidade. Sentindo-se abraçada pela brisa, ajeitou os pés e elevou a coberta até cobrir toda a cabeça.  Ficou lá, até não sentir mais o perfume de sua amada.
- O que eu poderia ter feito?
- Senhora? Oi? Senhora?
- Sim, pois não.
- É meio dia."
- É?"
- Sim, e só preciso arrumar a sua mesa antes de terminar o meu turno. A senhora vai demorar a sair?

Martha, com um sorriso envergonhado, desculpou-se. Olhou profundamente nos olhos daquela mulher a procura de algo que não pode falar, que foi incapaz de pedir. Não poderia, nem a conhecia o bastante. Em um bloco de notas, deixado sobre a mesa, escreveu: "O dia está tão amarelo. Vou nadar!". Sorriu um sorriso demorado, olhou para a lixeira vazia, pegou a bolsa azul e foi. 


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*Rosângela Lopes da Silva é professora do Ensino Médio Básico do estado do Tocantins. Também é mestranda em Literatura na Universidade de Brasília (UnB) com pesquisa em andamento vinculada à linha Representação na Literatura Contemporânea; mais precisamente ao eixo Representação e autorrepresentação de grupos marginalizados na literatura brasileira contemporânea. Possui especialização em Poética da Linguagem: Do signo ao discurso, do verso à prosa (UFT 2012) e graduação em Letras pela Fundação Universidade Federal do Tocantins (2010). Atualmente é integrante do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da UnB.​