sábado, 30 de julho de 2016

[Preta, Nerd no Youtube] #Sigaaspretas




Na maioria das vezes que buscamos um videoblog de pessoas negras encontramos temas recorrentes como cabelo, maquiagem e colorismo. Nenhum problema nisso, na verdade, é incrível acompanhar esse crescimento da presença de vozes Negras em espaços como o Youtube. O que incomoda é que, quando buscamos um review de livros da Chimamanda Adichie, avaliações da Nova Marvel e análises de filmes normalmente não encontramos garotas Negras falando sobre isso, principalmente, em nossa língua. Não estamos dizendo que não existam, mas que é comum encontrar canais de língua inglesa nos quais as garotas falem sobre a experiência de ser Preta, Nerd. Isso nos mostrou a necessidade de um canal feito por garotas Negras de temas nerdes a partir dum olhar feminista negro.

Também inspiradas pela campanha #segueaspretas da youtuber Gabi Oliveira, do canal De Pretas, Anne Caroline Quiangala e Kami Jacoub indicam canais de youtubers Negras incríveis para seguir.
Quer mais indicação? Dá um like, comenta, compartilha!




TEASER




Preta, Nerd & Burning Hell - 001: #SIGAASPRETA


#SEGUEASPRETAS por Gabi Oliveira




Obrigada à Gabriela Costa pelo registro e edição; Gabriella Lima e Anne Louise pelo apoio e feedback.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Parem de Agredir Negros Para Explicar Racismo


O movimento racial tem ganhado bastante destaque nos últimos tempos. O movimento #BlackLivesMatter chegou ao conhecimento de todos, quer apoiem, entendam ou não. E isso gerou um impacto na produção de mídia. A questão racial tem mais do que nunca sido abordada na música, nos filmes, quadrinhos e nas séries.

E isso poderia ser algo imensamente positivo se fosse feito do jeito correto, o que infelizmente não tem acontecido. Quando você é um autor é preciso um extremo cuidado ao tratar de assuntos como preconceito e opressão, especialmente se você não faz parte do grupo oprimido e sim do grupo opressor. A Anne Quiangalaescreveu sobre o absurdo que aconteceu em Orange Is The New Black. E algo que contribuiu para os erros da quarta temporada é que era um grupo de roteiristas brancos, mais que isso, era um grupo que escrevia para uma audiência branca.

Você não precisa me mostrar brutalidade policial para que eu entenda que existe um racismo institucionalizado que muitas pessoas nem se dão conta e faz com que uma pessoa negra andando seja suspeita apenas por ser negra e andar, ou que um negro parado em um carro é algo que precisa ser averiguado, ou que qualquer movimento feito por um negro recebe uma reação exageradamente agressiva vinda de uma polícia despreparada e nem que não faz diferença se o negro está de terno ou esfarrapado, a polícia sempre duvidará dele. Eu não preciso dessa explicação, eu como uma pessoa negra já sei disso. Minha mãe desde muito cedo me ensinou, não interessa se você está certo ou errado, porrada dada não se retira.

Aos 17 anos eu e um grupo de amigos fomos a um shopping depois da aula do colégio, todos de classe média, mas acontece que eu e outro amigo éramos negros e duas meninas eram brancas. Uma das meninas esqueceu uma sacola de compras com uma jaqueta jeans, nos dividimos para procurar, meu amigo foi pra praça de alimentação e um segurança estava com a sacola, ele informou que era da nossa amiga, que havia uma jaqueta jeans e que ficava responsável. O segurança disse que ele estava mentindo, que havia um porta-moedas dentro da jaqueta e que não ia entregar nada, que ele estava tentando roubar a sacola. Uma confusão enorme, todo mundo desceu pra sala de segurança do shopping, meu amigo revoltado que o segurança estava mentindo (o que ele estava), que não havia nenhum porta-moedas. E o que eu vi foi um segurança de mais de 1,90 de altura que dava dois do meu amigo gritando e apontando dedo e não me interessava quem estava certo ou errado, eu precisava fazer meu amigo calar a boca e sair dali ou ele iria apanhar.

Essa é minha realidade, eu não preciso que um personagem negro seja morto ou agredido pra saber que isso está acontecendo todo o dia. Eu não preciso da TV me explicando que eu preciso ter medo quando meu irmão sai de casa, por que a policia pode parar meu irmão e achar que o 3DS no bolso dele ou é uma arma ou foi algo roubado.

E o absurdo que aconteceu em OITNB aconteceu novamente em outra série, dessa vez foi no sétimo episódio da segunda temporada de Unreal. Antes de explicar o racismo do episódio em si, é preciso falar de todo o absurdo que tem acontecido na série.



Unreal é uma série que se propõem a mostrar os bastidores de um reality show, Everlasting, aos modos de The Bachelor, uma programa onde um solteiro vai tentar encontrar o amor da sua vida entre 20 candidatas. Eu sei que esse tipo de programa é tudo manipulado, falso, envolto em mil tropes preconceituosas, então um seriado mostrando, mesmo que de forma extrapolada pra entretenimento, os bastidores disso poderia ser interessante e fazer uma boa crítica. E a primeira temporada foi, havia uma absurda carência de personagens não brancos, mas eu dei um desconto e foi bom ver uma narrativa de um anti-herói feminino. Rachel e Quinn, tal qual Walter White em Breaking Bad, são pessoas escrotas e que não tem redenção, são escrotas pelo puro fato de serem escrotas. Claro que ambas são personagens tridimensionais e complexas, ainda assim nada justifica e não é pra justificar, esse não é o ponto da série.

E a segunda temporada começou trazendo um novo pretendente para Everlasting, Darius Beck, um jogador de futebol americano negro. A intenção dos criadores era criticar o racismo televisivo, em especial desses programas de namoro onde negros nunca tem vez. O problema é que desde o primeiro episódio dessa temporada foi um banho de discursos racistas gratuitos vindos tanto de Rachel quanto de Quinn.

O ápice do racismo culminou com Rachel chamando a policia quando Darius e Romeo, seu melhor amigo e agente, também negro, saíram da locação num carro com duas participantes. A polícia parou os dois, desacreditou tudo que eles falaram, os acusou de roubar o carro, foi excessivamente violenta algemando ambos, apontou gratuitamente arma de fogo. E então Rachel desesperada e cheia de culpa sai do arbusto onde estava com a produção do programa, por que sim, ela estava filmando tudo para colocar na TV e expor o racismo dentro da policia. No que a Rachel sai gritando desesperada para que os policiais parem aquilo que não havia necessidade, o policial se assusta e reagi atirando no Romeo que estava ajoelhado no chão, com as mãos para cima.



A cena é uma clara referencia a morte de Trayvon Martin que iniciou o BlackLivesMatter. Mas como Jay, o único negro na equipe de produção de Everlasting, bem pontual para Rachel, essa não é uma historia dela para contar, graças à megalomania dela em fazer televisão que faz a diferença ela colocou um homem negro gravemente ferido numa cama de hospital.

E a ironia maior é que os roteiristas de Unreal não perceberam que eles são a Rachel aqui. Eles não têm direito de escrever essa historia, por que assim como aconteceu com Orange is The New Black, com Guerra Civil, tanto a primeira quando a segunda da Marvel, temos personagens negros sendo mortos e feridos para uma narrativa branca, para que brancos entendam o peso do racismo. Eles não feriram o Romeo para me mostrar o peso do racismo, eu sinto ele todos os dias, eles fizeram isso para o público branco.

Pior ainda é eles estarem sendo aplaudidos por isso. Eles estão expondo a realidade da televisão? Novamente eu já sei que a TV vê a nos negros como descartáveis, como muletas para historia de brancos, não existe nada de novo ai. Não existe mérito em matar negros para se falar de racismo, é como jogar bombas pela paz.


domingo, 24 de julho de 2016

[#LoveForLeslieJones] Contra o Racismo e a Ignorância intencional





Sob a pretensa ideia de democracia, o @twitter se absteve ante o racismo de seus usuários que direcionaram todo o ódio e contravenção à atriz Negra estadunidense Leslie Jones, uma das protagonistas do remake de Caça-Fantasmas (2016), mas estamos aqui por ela. Estamos aqui para discutir a questão tendo em vista que não é um problema dela e não tem nada a ver com o filme em si. Os ataques nada mais são que o reflexo da violência estruturadora do ocidente que tensiona a vida cotidiana de todas as pessoas negras. Em relação à opressão não existe neutralidade, abster-se é ser a pá que joga sal em ferida aberta. 

Aliás, o racismo é uma ferida aberta desde a colonização, e toda vez que trazido à tona, colheradas de sal são lançadas para doer, silenciar e mandar voltar pro lugar de subalternização. Cada vez mais, posicionamentos de status quo como #g4mergate e reformulações de ultradireita têm inflamado a internet de ódio, e, ao mesmo tempo tornam visíveis os seus absurdos. Tornar público tira o peso de querela e, apesar do direcionamento a uma pessoa (ataques virtuais têm um peso emocional de trauma), traz à superfície o que tenta-se ocultar. Tornar público mostra o quanto as pessoas se sentem à vontade e invulneráveis, mostra o quanto sentem o poder.

Por outro lado, quem sente  o peso dessas tradições nas relações sociais diárias, sabe quão assustador é viver sob o signo da ameaça física, moral e virtual. Imagens diárias nas páginas policiais dum fruto estranho bem como os símbolos de grupos que fomentam o ódio estão à volta diariamente para aterrorizar, porque barulho e fogo são violências visíveis demais e, portanto, encarnam uma oposição explícita. Digo isso para evidenciar que o oposto deste suposto "direito" à livre expressão do ódio é o terror, o medo duma violência em potencial. Você sabe o que é ter medo todos os dias? Quão pior é o medo da injustiça se concretizar e ser ignorado por um lavar de mãos?



TWITTER: ignorância conveniente

A série de tweets que Leslie Jones foi compartilhando mostra que foi alvo dum ataque que remonta os cenários de linchamento sofridos pela população negra dos E.U.A legalmente até a conquista de direitos civis. O mais traumático em tudo que foi direcionado à Jones é a presença de violências presentes desde a colonização, as imagens e insultos cercam um indivíduo no intuito de reforçar uma relação de poder que não foi criada por nós, portanto rasgam as nossas costas. 

Foi assim que os tweets de denúncia e chamada para ação da @theblerdgurl me avisaram da violência dirigida à Leslie Jones. Foram esses pensamentos e sentimentos que vieram à tona.

Para quem não faz ideia do que é temer, expressões de ódio são opiniões inofensivas. E, para nós que tememos, uma coisa é real: escolher o lado do agressor é endossar a agressão. Reconhecer o erro é o primeiro passo para uma mudança efetiva, legal, mas os danos não mudam de estado, não é mesmo?






Leslie Jones em entrevista (Foto: Reprodução/Youtube/Late Night with Seth Meyers)


Racismo e ataque à individualidade 

Nada do que Leslie Jones passou foi sobre ela ou sua atuação num filme, mas apenas por ser Negra e estar presente num lugar que indivíduos privilegiados acreditam não ser o dela. Os haters trazem ao presente relações sociais e econômicas de violência inaugurada por seus ancestrais que instauraram a escravidão e que depois dela, <<<institucionalizaram>>> a desumanização, o abuso, a violência física e a humilhação. 


Estamos aqui por todas, e por ela em especial, devido aos ataques explícitos que sofreu através do Twitter. Mais de dez mil tweets com um conteúdo explicitamente racista (insultos, montagens audiovisuais) foram direcionados à ela e, após retweets e denúncias o @twitter optou por manter a neutralidade e sua política de liberdade de expressão em detrimento do bem-estar dela. Essa (suposta) neutralidade da empresa, como qualquer "deixa ser, deixa estar o mundo segue o seu próprio rumo" é um posicionamento de manutenção da hegemonia. Isso ficou mais evidente quando o @twitter reconheceu que faz parte da democracia permitir que as pessoas se protejam ante abusos de qualquer natureza. Percebam que essa atitude só foi tomada depois que a atriz comunicou que abandonaria a rede social. Eu vi algumas pessoas comentando que, fosse uma atriz branca, possivelmente seria criada uma hashtag com emojis etc. Fato.


"O que me assustou foi a injustiça que é um bando de pessoas te atacando por uma causa doentia. (…) Eles realmente acreditam nisso, e é tão cruel, tão horrível e desnecessário. Se eu não tivesse exposto isso, ninguém ficaria sabendo". (Leslie Jones via Famosos)

Cientes de que era necessário transmitir mensagens de apoio e afeto à Leslie Jones acompanhadas pela hashtag #LoveForLesliej, internautas buscaram combater os opressores e fortalecer Jones. Essa hashtag mostra o quão conscientes estamos de que não podemos nos calar ante às injustiças. Assim como os cavaleiros de branco, esses intolerantes só querem nos calar. Para azar deles temos duas referências: Bessie Smith e Audre Lorde.


Bessie Smith foi uma das primeiras cantoras de blues e, em seu filme Bessie (2015), dirigido por Dee Rees (mesma diretora de Pariah, 2011), temos um trecho emblemático. Num dos seus shows a tenda sofreu ataque dos cavaleiros de branco; eles cercavam o lugar, faziam barulhos terríveis e, por fim, incendiavam. Bessie desceu do palco, encarou e afugentou os agressores. Autoconfiante e ciente de que:

Fomos socializados para respeitar mais ao mero que as nossas próprias necessidades de linguagem e definição [...]
(Audre Lorde).

Não estamos à salvo neste burning hell. Não adianta não responder, não lutar, não dizer, porque o silêncio não nos protege. Nesse sentido foi importantíssimo que Jones tenha denunciado e retweetado os absurdos, além de expressar seus sentimentos. Também é animador que q audiência tenha se engajado a ponto de fazer a rede social reconhecer sua abstenção.

Bessie (2015)

E por que não "À prova de balas"?

Denunciar, resistir e permanecer logada é admirável, mas isso não quer dizer que alguém é obrigada a permanecer nessa situação toxica. As pessoas que acompanharam - na "melhor de suas intenções" - deveriam ter ideia do quão doloroso é ser alvo e que mensagens de "deixa disso" e " seja superior" " porque eles não têm jeito NÃO AJUDAM. Galera, a culpa dela ser vitimada NÃO É DELA. Ninguém é obrigada a aguentar, aceitar e vivenciar aquele absurdo doentio. Rever privilégio também é compreender que pessoas sofrem e não precisam de sermões sobre superação e sobre "você é mais do que isso". Não foi sobre inveja, foi sobre racismo, sobre ódio. Repito: isso é aterrador.

Leslie Jones trabalhou num filme, foi violentada e muita gente ainda encheu seu feed de comentários sobre "não ligue para isso" ou "eles não sabem o que fazem". Duas coisas: não existe não ligar e sim, eles sabem muito bem o que fazem. Muitos comentários pareciam desejar que Leslie Jones fosse Luke Cage, que ignorasse os projéteis, devido à pele impenetrável. Falem para agressores não agredirem, em vez de exigir que vítimas não sintam! Estou reafirmando esse ponto porque é necessário que todas as pessoas "bem-intencionadas" revejam sua atitude em situações de impotência. Quando alguém sente uma dor não-concreta e não podemos fazer nada, é comum tentarmos fazer a pessoa se sentir bem, mas não podemos dizer o que a pessoa deve sentir menos ainda como. É simplesmente absurdo. Apenas parem.

Don't let the trolls get to you @Lesdoggg You're on billboards. Are they? They literally have to look up to you. pic.twitter.com/EAsaI8zZFT

— J.A. Adande (@jadande) 22 de julho de 2016

É importante enfatizar que nenhuma de nós é à prova de balas e que a realidade é que a maioria dos agressores tem acesso livre a qualquer espaço. Exatamente a impunidade faz as vítimas se verem obrigadas a sair do espaço tóxico. Foi triste pensar que Leslie Jones estaria fora do Twitter? Sem dúvidas, mas faz sentido essa exposição? É sobre ela ou sobre o desejo de poder segui-la? 


Racismo e Demanda

Não precisamos dissertar sobre como o liberalismo escamoteado por discursos de "liberdade de expressão" se repetem para justificar sexismo, homofobia e racismo. E que através duma individualização busca-se ocultar problemas estruturais tais como fato de "o racismo ser o coração do ocidente", o que não podemos deixar de lembrar diariamente. Essa semana, posts e tweets incríveis foram escritos sobre o problema que levou Leslie Jones a sair da rede social (Judão, Collant, MinasNerds), mas quero enfatizar o quanto foi importante a divulgação da hashtag #LoveForLeslieJ contra a maré de ódio. As lutas que travamos nos definem.

Cientes de que o racismo vende, e muito, se apontado por brancos, enxergamos a abstenção inicial do twitter como racismo. #LoveForLeslieJ, pelo visto, não parecia ter potencial lucrativo, tanto que não virou moda de roupa e cabelo, não teve camiseta. Não teve produto aparentemente antirracista, mas que soterra o ato racista. Diferente dum #somostodosmacacos, que mostrou que o racismo foi direcionado a um individuo, mas faz parte duma estrutura sócio-política, #LoveForLeslieJ buscou enfatizar que a atriz não estava sozinha, que é admirada e amada por muito mais gente que insiste em odiar a ela e ao seu povo.

Ao dizer que o racismo apontado por brancos vende, retomo a campanha da Nike contra o racismo no futebol, que encheu os braços dos garotos de pulseiras de borracha enlaçada preta e branca. Estético, politico e, portanto, recheado de valor simbólico/monetário. A mais recente #somostodosmacacos foi um desserviço que se estendeu a camisetas e toda sorte de produtos imprimidos numa rapidez absurda. Neymar Jr. Não apenas ficou no olho do furacão, passando vergonha, como contribuiu para a legitimação dum discurso absurdamente racista porque a consciência objetiva apenas tangenciou a consciência apos incidentes na Europa. Mas isso é outra história. 


Amostras do cotidiano (everyday racism) dão sustentação ao pensionamento da teia que atingiu Leslie J, os eventos violentos direcionados à atriz por ser Negra. Nessa onda de democracia que dá plenos direitos numa sociedade desigual, apenas a demanda maciça pode modificar. Muita gente pode insistir na ideia de que não adianta enfrentar, mas não fossem os enfrentamentos, não estaríamos aqui para escrever esse texto.

Foi lindo ver o twitter recheado de mensagens afetuosas direcionadas à Leslie e, mais ainda, a empresa ter admitido seu erro. Com isso, Leslie Jones retornou com força total: 

— Leslie Jones (@Lesdoggg) 21 de julho de 2016


Logo que Leslie postou que retornou fortalecida, pronta para batalha, eu vi o tocante tweet de @violadavis. Foi ele que motivou a escrita deste texto:  Estou ao seu lado, irmã. Eu te vejo tão bela, talentosa e poderosa (trad. livre)

@Lesdoggg.....I stand beside you sis. I see you...your beauty, your talent, your power. #LoveForLeslieJ pic.twitter.com/X9aNKrCYcQ

— Viola Davis (@violadavis) 21 de julho de 2016

A sensação foi a mesma de quando ouvi pela primeira vez Nina Simone entoar "jovem, talentosa e negra". Ambos os textos dialogam com o que Grada Kilomba propõe sobre descolonização do self, sobre nos curar. Consciência negra passa pela compreensão da violência sofrida coletivamente tendo em vista a continuidade. Você tem noção de um roubo, uma dor, uma impotência que esmorece, esmorece até que veja a construída sobre terrenos pedregosos, arenosos e pantanosos demais para você não ter aprendido antes. Contra esse esmorecimento, #LoveForLeslieJ foi de uma importância imensurável. Sem dúvidas, diversas garotas e mulheres Negras se viram representadas nessa onda de tweets para Leslie, sobretudo no ponto de vista da sororidade. 

Alguns contextos são tão violentos e tão ininterruptos que desarmam o ego e desmontam a psique, destroem a vida. Que vão de graça pros presídios, param debaixo do plástico, vão de graça pro subemprego, pros hospitais psiquiátricos: a carne mais barata do mercado é a carne negra. Nesse sentido, sabemos muito bem o quão importante foi a hashtag demonstrando que "atingiu uma, atingiu todas" e que "estamos juntas". Porque somos um corpo mesmo, estamos realmente juntas enfrentando as camadas de Jim Crow,
Somos jovens, talentosas e Negras, temos que repetir isso até que seja uma verdade incorruptível em todas as camadas do nosso ser. Assim, mas memorias plantadas não poderão dar frutos que planejam seus cultivadores. Não que isso desfoque os problemas que apontei acima, do mercado, do liberalismo, do racismo. Precisamos reforçar que 1) ok, temos resistido há anos 2)racismo é um problema branco que 3) a população negra enfrenta todo dia só de estarem vivas.


-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
E você acompanhou os tweets? Participou? Interaja conosco lá no Twitter: @pretaenerd Instagram:@pretanerdburning e no facebook.com/pretaenerd






quarta-feira, 20 de julho de 2016

[Opinião] As Caça-Fantasma



Eu tinha sentimentos conflitantes sobre o novo filme das Caça-Fantasma. Por um lado eu estava adorando ver uma franquia de sucesso ser protagonizado por mulheres e de quebra irritar o nerd homem cis branco hetero classe media que choravam capciosamente que estávamos destruindo suas infâncias. Por outro lado, nunca achei a franquia Caça-Fantasmas grande coisa, é uma comedia okay que tinha uma música tema muito muito boa.

Eu estava empolgada pelo filme, mas não esperava assistir nada de muito genial. Na quinta feira, estreia do filme, acabei indo ver com alguns amigos e fui surpreendida. Eu me diverti bastante, foi um ótimo passatempo, com personagens que me cativaram e superou minhas baixíssimas expectativas.

O filme tem o melhor roteiro? Não, o roteiro é bem simples, bem básico e o ponto é nem o filme dos anos 80 e nem o atual se propõem a ter um roteiro revolucionário que vai explodir a sua cabeça, a ideia é só ser um filme engraçadinho mesmo.



Esse é um filme super feminista empoderador revolucionaria contra todos os estereótipos opressores existentes? Não, novamente o filme nunca se propôs a fazer isso. Esse filme não foi criado como um discurso politico, o filme tão pouco se propõem a ser um grande blockbuster da propaganda feminista. Esse é só um filme decidiu que as protagonistas da historia seriam mulheres, essa roteiro sem modificação alguma poderia ser perfeitamente interpretado por homens sem perder nada do enredo.

E justamente o puro e simples fato de poderia ser um filme com homens, mas escolhemos mulheres protagonistas é que o deixa tão significativo. Não é preciso escrever histórias complexas, revolucionarias e que mostrem a injustiça social que mulheres sofrem por ser mulheres para ter protagonistas femininas, você pode simplesmente escrever uma historia e em vez de ser protagonizada por um homem, por uma mulher nessa posição. Simples assim. Se você está procurando discurso politico você foi no filme errado. E se você assistiu e viu um discurso politico, amigo, cê andou extrapolando o texto.

Outro receio que eu tinha era criarem um token da personagem da Leslie Jones. Única negra da equipe, única não cientista. Isso é bem incomodo, negros não podem ser formados com phd e seguirem carreira no campo cientifico? E de fato ela não é formada, ela trabalha no metro, mas ela é inteligentíssima, o conhecimento dela não é puramente o street smart, que seria o que chamamos de malandragem, não ela tem conhecimento histórico sobre a cidade de Nova York. Ela sabe quando, por que e por quem os prédios foram construídos, ela é realmente quem conhece e entende aquela cidade praticamente num sentido acadêmico historiador e isso é fundamental pra que as caça-fantasmas pudessem salvar o dia.



Todas na verdade são fundamentais, todas quatro tiveram sua oportunidade de brilhar e justificar sua presença naquela equipe e naquele filme, ninguém está ali pra fazer "a cota", só pra dizerem que o filme tem diversidade. Não, todas tinha uma função e um por quê de estarem ali.

Quase todos. Kevin, o secretario gostoso e burro, é o único papel que realmente traz um discurso em si. Ele existe para expor o ridículo que o papel das gostosas em filmes blockbuster. Esse papel é geralmente dado a uma mulher que não acrescenta nada a trama, tá ali só por que o protagonista homem a acha gata e por vezes atrapalha mais do que ajuda, por que por vezes tem que ser salva. E literalmente esse é o Kevin, o bônus é ele se comporta como um homem. Então ele acha que ele é líder da equipe, que faz tudo certo, que é um cara genial e espertão. E essa inversão escrachada e cretina que o torna hilário, piada não é ele, mas sim o que ele representa.

Eu não acho que todo mundo tenha que gostar de As Caça-Fantasmas, eu sei que existem pessoas com gostos diferentes do meu, mas se você não gostar desse filme o motivo não foi por serem mulheres protagonizando. Talvez você só não goste desse estilo de filme e se você gosta de Os Caça-Fantasma, deve existir um peso muito maior de nostalgia do que realmente há de qualidade ali.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

GUEST POST: "Caça-Fantasmas (2016): notas pessoais sobre diversidade e representação"




por Anna Bárbara Araújo*

Quinta-feira passada eu fiz uma coisa que não fazia há muito tempo: ir ao cinema ver a estreia de um filme... um blockbuster... em 3D. Veja bem, não é que eu seja o que se chama pejorativamente de “diferentona”, uma dessas pessoas que só sai de casa pra ver festival de filme iraniano. Não é isso. Mas eu tenho que confessar que tenho sérios problemas com filmes blockbusters, porque, retomando o argumento de Wim Wenders no maravilhoso “Janela da Alma”, me incomoda o fato de que alguns filmes da grande indústria cultural (se é que a gente ainda pode falar assim) não deixem espaço pra interpretação. Quer dizer, é como se eles jogassem todos os sentidos na tela e fizessem esse trabalho de interpretação pelo expectador. A identificação é mais imediata, mais direta, menos plural. E a pluralidade, quando existe, muitas vezes se transforma em “mindfuck”. Aí esses filmes viram uma fórmula, altamente reproduzível de comédia + drama + ação e mostram um conjunto de cenas milimetricamente encadeadas de modo a criar reações específicas, emoções específicas, risadas específicas. Enfim, sou chata. Há quem diga que quando a gente pensa em ficção científica é justamente o contrário: o mundo dos vários possíveis, da criação de ciborgues (no sentido pós-estruturalista do termo), mas não vou estender essa discussão aqui.

Também me incomoda como parte desses filmes assume a perspectiva da masculinidade branca, rica ou classe média como produtora, interlocutora e consumidora dessas narrativas. Algo que certamente não me representa. E aí, a possibilidade de criar empatia, de criar essa identificação imediata tão cara aos grandes filmes, não se realiza. Felizmente, podemos identificar pequenas (pequenas mesmo, no passinho da tartaruga) mudanças nesse sentido. Seja porque as demandas por representatividade das minorias estejam finalmente sendo ouvidas, seja porque a indústria do entretenimento percebeu a existência de um nicho consumidor relativamente poderoso, agora a gente tem mais diversidade, em termos étnico-raciais, de gênero e sexualidade nas megaproduções de cinema. A seguir vou discutir melhor essa diversidade e seus limites.

Mas antes disso, volto ao relato do início do texto: foram justamente as ideias de representação e de diversidade que me levaram ao cinema na quinta-feira passada. Foi a promessa de ver uma narrativa menos centrada na masculinidade hegemônica e menos estandardizada que me fizeram colocar os óculos 3D.


Antes mesmo do filme estrear o mundo dos haters estava em polvorosa. “Vão destruir minhas memórias de infância”, “qual o sentido dessas mulheres aí”, “tragam os atores originais de volta”, “lixo”, foram algumas das frases mencionadas. É bizarro ver a comoção causada pela escolha de 4 protagonistas mulheres em um filme. Acho sintomático do quanto essas pequenas mudanças em termos de representatividade são necessárias e do quanto são poderosas, por menores que sejam, pelo menos para gerar debate e causar mal-estar nos machistas de plantão.

Também é sintomático o fato de que a nota dada ao filme foi expressivamente menor por críticos e audiências masculinas[1]. Imagina quão dramático deve ser pra um homem ver um filme onde o único personagem masculino de destaque está lá pra ser admirado por sua beleza e pra gerar risadas em torno de sua burrice descomunal. E de ver mulheres como protagonistas, com agência, como pessoas fortes, inteligentes e engenhosas. Parece que o jogo virou, não é, queridinhos¿



O filme é bom, me entreteve durante suas quase duas horas, me fez rir bastante e principalmente, me fez ficar com um sorriso bobo quase constante por simplesmente ter a possibilidade de assistir mulheres fazendo coisas, por quase 2 horas, não para agradar homens ou para serem sexy. Em um filme blockbuster. Em uma quinta à noite.  Em uma sessão 3D relativamente cheia.

Representatividade importa. Um dos mecanismos mais fortes de dominação é negar legitimidade às experiências e à própria subjetividade dos grupos dominados. Negar que se vejam nos espaços de poder, na mídia, nos trabalhos prestigiosos, fortalecendo a ideia de que se tratam, de fato, de lugares inacessíveis e de que não foram feitos para estas pessoas.

Uma das protagonistas do filme, interpretada pela maravilhosa Leslie Jones, é negra. Recentemente a atriz disse a Whoopi Goldberg que percebeu que poderia ser atriz e comediante ao assisti-la na TV, quando criança[2]. Whoopi Goldberg, por sua vez, comenta sobre sua alegria ao assistir Nichelle Nichols em Star Trek: uma mulher negra, num seriado de TV, que não estava interpretando o papel de empregada.





Representatividade importa. Mas eu sempre fico me lembrando de um texto da Audre Lorde em Sister Outsider[3], onde entre várias outras coisas geniais, ela diz que se ressente com o fato de que os espaços das feministas negras e lésbicas na academia e mais propriamente nos debates acadêmicos do feminismo serem bastante restritos. Elas estão lá, nos painéis que discutem raça e sexualidade. Apenas. Como se não tivessem nada a dizer sobre os outros temas do feminismo. E pior, como se os outros temas do feminismo fossem alheios – ou pudessem ser alheios – a discussões de raça e de sexualidade.

Mas o que isso tem a ver com ghostbusters¿ Me explico. Parece que a crítica da Lorde é a de que as feministas negras e lésbicas estavam (estão¿) sendo convidadas para ocupar lugares bastante específicos e marginais dentro das discussões do feminismo. Mais do que isso, muitas vezes elas estariam sendo convidadas apenas para garantir a falsa sensação de diversidade nesses espaços.
É importante considerar que negros (e outras minorias) podem ser instrumentalizados como tolkens, i.e., como símbolos e prova de que determinado programa, filme, espaço acadêmico, partido político, etc. é de fato diverso. A diversidade – de gênero, de raça e de sexualidade – se torna então um valor cultural e se incorpora à produção capitalista, inclusive dos filmes. O que não garante que a subjetividade e as experiências das minorias sejam representadas, ou que sejam representadas de forma não estereotipada.

É um tema difícil e polêmico e me incomodou o fato de que a única mulher negra do filme é retratada como bonachona, supersticiosa, não cientista (diferentemente das outras). Acho que isso é uma falha do filme, eu gostaria muito mais de ver Leslie Jones como uma cientista talentosa e com PhD. Veja bem, não é que eu ache errado ver uma mulher negra como bonachona, supersticiosa e não cientista. O que incomoda é vê-la apenas nesse papel. E, na minha opinião isso seria facilmente resolvido se houvesse outros personagens negros na história. Porque aí poderiam ser exploradas diferentes identidades, diferentes subjetividades e poderia haver de fato, e no melhor sentido do termo, diversidade.






*Anna Bárbara Araujo: Doutoranda em sociologia e feminista. Brasiliense moradora do Rio de Janeiro. Entusiasta do filmow e da netflix.




[1] www.slate.com/blogs/browbeat/2016/07/12/is_there_a_gender_divide_between_critics_who_love_the_new_ghostbusters_and.html
[2] http://www.brasilpost.com.br/2016/07/15/leslie-jones-representatividade-whoopi-goldberg_n_11022150.html
[3] Lorde, Audre 1984. The Master’s Tools Will never Dismantle the Master’s House (110-113). In Sister Outsider. California: The Crossing Press Feminist Series.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Updates: MLI 2016 – Segunda Semana


Quando fiquei sabendo da maratona fiquei toda empolgada, adoro ler  e sempre invento uma desculpa pra ler mais. Mergulhei de cabeça no primeiro dia e li um livro de 500 páginas em uma madrugada, foi assim em toda a primeira semana e li 5 livros.
A segunda semana já foi complicada, a realidade da vida de universitária me atingiu com suas 29744789 xerox de textos acadêmicos e trabalhos. Minha universidade começou as aulas tarde por conta de uma greve e agora eu estudo enquanto todo mundo já está de férias (música triste tocando ao fundo). Resumindo: não li nem metade do que eu queria.

Eu não estou me atendo muito ao tema da semana mas tento ler ao menos um. O tema dessa 2º semana era hype, aqueles livros que estão na lista dos mais vendidos, e a minha escolha pra esse tema não me orgulha muito. Eu sofro de algo que eu chamo de "CML: Curiosidade Mórbida Literária", sabe quando tem um livro que tá na moda mas o estilo não é o seu e você sabe que não vai gostar mas você tem que ler pra ver porque todo mundo gosta? Então, o meu hype foi [rufem os tambores] Como eu era antes de você. Sobre ele só tenho a dizer que você termina o livro esperando ele de fato começar, mas não quero me aprofundar nas críticas porque realmente não é meu estilo e leitura (e pra ninguém diga que eu sou chata)

Outro livro que eu (re)li foi Lugar Nenhum do Neil Gaiman, que pre mim é simplesmente genial. Ele se encaixara no tema da próxima semana mas como diz o ditado "Não deixe para ler amanhã o que você pode ler hoje". Eu tenho um amor profundo por escritores que constroem todo um novo mundo em suas obras e isso o Gaiman faz muito bem.Richard, o personagem central, acaba num mundo diferente fazendo de tudo pra ter sua vida de volta e isso me fez pensar muito sobre a vida. 
Diálogo de 'Lugar Nenhum' que me representa
Meu terceiro livro da semana foi As Brumas de Avalon Livro 4 - 'O Prisioneiro da Árvore', da Marion Zimmer Bradley. Se você nunca leu esta série, leia! Já tinha lido o primeiro há muito tempo atrás e acho que não dei o devido valor, resolvi ler todos de uma vez, os 3 primeiros na semana passada e fechei com esse (chorando). É uma visão diferente de uma história que já foi contada e recontada, a do Rei Artur e de seus Cavaleiros da Távola Redonda, e é  a perspectivas das mulheres que estavam envolvidas. O livro é narrado por Morgana, a irmã o rei e fala muito sobre religião e o papel esperado da mulher  ̶é̶ ̶u̶m̶ ̶l̶i̶v̶r̶o̶ ̶c̶h̶e̶i̶o̶ ̶d̶e̶ ̶f̶r̶a̶s̶e̶s̶ ̶d̶e̶ ̶e̶f̶e̶i̶t̶o̶ ̶p̶r̶a̶ ̶p̶o̶s̶t̶a̶r̶ ̶n̶o̶ ̶F̶a̶c̶e̶b̶o̶o̶k. Acabei de terminar e claro bateu uma bad, minha vontade é fazer um luto de 3 dias, mas como isso é uma maratona...

Obrigada por existir na minha vida Kindle
A minha leitura atual também é um hype mas esse eu tenho muita curiosidade, A Garota Dinamarquesa. Ainda estou bem no comecinho e ainda não sei dizer se estou gostando, mas as expectativas são bem altas!

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Black-ish – Preto Para Branco Ver


Black-ish é uma série norte-americana que foi lançada há quase 3 anos. Lembro que quando lançou fiquei animada, fazia alguns anos que não tínhamos uma comédia familiar com protagonistas negros na televisão.

Por mil desventuras acabei não acompanhando. De tempos em tempos alguns amigos brancos traziam a série a tona me recomendando e falando como eu iria adorar ver essa representação real da realidade negra. Quando a série entrou no Netflix resolvi dar uma chance e ver. Na época havia acabado de fazer uma maratona de Um Maluco no Pedaço, série do Will Smith e que até hoje é minha comédia favorita.

Um gosto de decepção veio quando terminei a primeira temporada. Apesar da série ter um elenco inteiramente negro e ter um criador negro o que vi foi uma série feita para branco assistir.
Não estou dizendo que Black-ish que não existe realidade no que ali foi retratado. Muito pelo contrario, em muitos momentos vi a realidade onde cresci e identifiquei meu pai naquele protagonista. Entretanto não foi uma identificação elogiosa.

Dre, o protagonista, é um negro conservador que não percebe o quanto do racismo institucionalizado ele absorveu. Ele acredita que negros vem envoltos em um pacote de características e que qualquer um que não reproduza essas características está negando sua negritude. Ele acha que sua esposa que é mix raced, filha de mãe negra e pai branco, não é completamente negra. Que seu filho nerd não está agindo como um verdadeiro negro por causa de seus gostos.



Constantemente temos narrações onde Dre explica como é ser negro, qual a visão do negro sobre assunto X. E essas constantes explicações deixam claro pra quem a série é escrita, eu como negra não preciso de ninguém me explicado como uma pessoa negra se sente tendo um presidente negro, eu já sei. Isso não vai trazer pra mim nenhum senso de humor. Seria engraçado em uma série alguém explicando como é se sentir molhado ao entrar numa piscina?

Um dos grandes méritos de Um Maluco No Pedaço era justamente a diversidade que é ser negro. Carlton não era menos negro que o Will ou que o Tio Phil e os três tinham visões de mundo e vivencias diferentes. E ainda assim todos experienciavam racismo e diferente de Black-ish, não era precisa alguém falando hey isso aqui é racismo.

Além disso, Black-ish usa questões racistas como alivio cômico. Desculpa, mas não existe nada de engraçado em racismo. Não existe nada de engraçado quando Dre exagera estereótipos negros para provar a um chefe branco que ele é um verdadeiro homem negro.

Nem toda representatividade é uma boa representatividade. Não necessariamente por que um negro, no caso o criador da série, passou por algo que isso é universal. Infelizmente, a primeira temporada de Black-ish falha miseravelmente exatamente por ficar a impressão de que ser negro de classe media é somente o que foi exibido, quando a nossa realidade é bem mais plural que aquilo. Além de que a série ainda se prende a estereótipos machistas e LGBTfobicos.


Em um período aonde o debate racial e necessidade de mais representação negra de forma consciente vem sendo feita a série parece um passo para traz. Uma pena, pois existe um elenco bom de atores negros ali que está sendo desperdiçado por um roteiro preso ao lugar comum.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

UPDATES: MLI 2016 - Primeira semana (2)

O "encalhado" Epilético vol.2 e duas revistas de extra.

Faz uns bons anos que herdei a coleção de quadrinhos dum amigo querido, pois ele precisava de abrir espaço em todo canto do apartamento que estava cheio de álbuns, mangás e gibis. Dentre eles havia os dois volumes que compõem a obra de David B. Epilético. Confesso que já ouvira falar dessa "banda desenhada" ao participar das Jornadas de Romances Gráficos da Universidade de Brasília, quando tomei nota de vários outros como O Chinês Americano, Maus. Não me interessei de primeira.

Tentei ler duas vezes e acabou ficando de lado por uma questão estilistica: narrativa entrecortada por outras narrativas e o Epilético representado desde um estranhamento. Ele não é exatamente o protagonista como eu esperava que fosse. Assim, as 163 páginas do primeiro volume se arrastaram entre subtramas que me fizeram perder a noção do tema central; eram histórias que particularmente não me cativavam e que apareciam e sumiam na mesma surpresa.

Para ter certeza de que não desistiria dessa vez, escolhi essa narrativa gráfica para compor o corpus do artigo final da disciplina que cursei esse semestre - 75% de nota é bastante convincente!

Na virada de 02/07 para 03/07 eu terminei o que faltava do primeiro volume a fim de começar bem, e fui narrando pelo instragram a peleja, os post-it... e a paixão subta pelo jogo Remember me (Capcom, 2013 - Xbox 360).



Como podem conferir, o segundo volume foi o oposto! Comecei a ler sexta à noite e, sábado à tarde eu já havia devorado as 205 páginas! O que houve ?

Bom, enquanto o primeiro volume priorizou as tentativas de tratar da "doença" do irmão de David (aquela altura Pierre François) ramificando pelas historietas de cada líder, familiar, livro e influências, o segundo se propõe a discutir o ponto de vista do narrador e fica mais transparente "o porquê" e o "como" da obra. Encontramos uma linearidade e uma motivação no segundo volume que me interessa mais e, posso dizer que gostei.






Já essa empolgação me levou a ler Ultimate Marvel #11 (junho) de uma vez só. Não preciso repetir que estou adorando acompanhar essa revista (mix) protagonizada pelo Miles Morales, o Homem Aranha criado por Brian Michael Bendis (Alias, Vingadores a queda...). Essa edição apresenta continuidade de acontecimentos que não explicarei para não dar spoiler!!

Por fim, temos a Mundo dos super heróis n°75 - fev/2016, que eu não lia desde a edição que contava com uma lista de heróis negros (e que motivou minha pesquisa academica). Ela não é lá muito recente, mas chamou a atenção porque prometia uma linha do tempo do Homem Aranha Ultimate, uma matéria sobre as heroinas mainstream, um dossie de 75 anos do Capitão América e entrevista com Kelley Jones. O poster dos Lanternas Verdes não me interessou muito, aliás. Cabe salientar que a "super equipe" editorial de Mundo dos Super-herois é composta por 20 pessoas/equipes dentre as quais...UMA é mulher.

A sessão "recebemos" e "peneira pop", assim como as oito paginas finais de anúncios, dão uma certa desanimada, embora a edição seja interessante em termos de layout e conteúdo.

Em suma, já começamos a segunda semana e, desde já, agradecemos a companhia de vocês que têm interagido pelas redes sociais. Quais os seus planos para essa semana? Estão cumprindo as metas? O que têm achado desse desafio?


Curta e compartilhe pelas redes sociais:

Instragram: @pretanerdburning
Twitter: @pretaenerd
Facebook: /pretaenerd





sexta-feira, 8 de julho de 2016

Updates: MLI 2016 – Primeira Semana


A Maratona Literária de Inverno, organizada pelo Victor Almeida do canal Geek Freak, teve inicio na virada do dia 2 para o dia 3 de julho. Portanto estamos encerrando a primeira semana de maratona e chegou a hora de fazer uma pequena atualização em como foram as leituras nessa primeira semana.

Havia me proposto ler os dois volumes finais de Scott Pilgrim Contra O Mundo. Como a temática da semana era livros encalhados e eu estava há um ano com esses dois intocados na minha estante resolvi que era hora de finalmente desencalha-los.

Meu interesse por Scott Pilgrim se deu depois de ter visto o filme em 2010, era uma Camila diferente. Quem eu sou hoje não ficou muito feliz com o HQ, adorei a estética de vídeo game e achei as personagens, especialmente a Kim e a Ramona muito interessantes. O grande problema é que o Scott é um grande babaca que se acha um bom rapaz e não se dá conta que tá sendo mega escroto com as pessoas ao seu redor.



Ainda assim foram leituras bem rápidas mesmo cada volume tendo 408 e 432 páginas respectivamente, no domingo já havia terminado ambas. Por isso resolvi adicionar um livro extra na semana. O escolhido foi Hibisco Roxo da Chimamanda Ngozi Adichie.

Havia lido esse livro no mesmo período ano passado, mas em ebook. Dessa vez comprei uma versão física e a experiência de relê-lo foi tão prazerosa quanto à primeira vez. É um livro dolorido que fala sobre abuso e racismo internalizado, mas que de alguma forma deixa uma ideia de esperança, de que existe um futuro melhor para Kambili, sua protagonista.

Como foi outra leitura rápida, terminei o livro em três dias, acabei já iniciando a leitura do livro escolhido para segunda semana. A próxima temática é Hype, aqueles livros que todo mundo anda comentando e você ainda não leu. Minha escolha foi Sobre a Escrita do Stephen King. O livro é muito interessante e inspirador para quem quer seguir a carreira de escritor. A edição que estou lendo é em inglês o que reduz um pouco minha velocidade de leitura, por isso resolvi alterna sua leitura junto com a leitura de A Cor Púrpura de Alicie Walker.


Até o momento li 50 paginas de Sobre a Escrita e 40 de A Cor Púrpura. Espero terminar ambos até próxima semana. E como anda as leituras de vocês? Estão participando da MLI? Estão lendo que livros e quais já terminaram? Comenta aqui.