domingo, 28 de fevereiro de 2016

"VIVENDO OS TEXTOS FORA": PRETA, FEMINISTA E BLOGGER


"As especifidades são minhas, a condição é comum"
(Abena P. A. Busia)


PROBLEMA DE IDENTIDADE


O título do texto é uma referência ao ensaio Living the texts out (1993) da poeta-negra-lésbica-estadunidense Cheryl Clarke. A referencia diz respeito à relação que há entre nossa vida como leitoras em contato com teorias acadêmicas e escritoras que prezam pelo diálogo compreensível "vida afora".  Sabemos que a escrita demanda o complexo processo de leitura de texto, de nós, do mundo que nos cerca. Esse lugar virtual que você está lendo, que denominei Preta, Nerd & Burning Hell, mostra um pouco desse processo contínuo. Nasci "fisicamente" preta e venho me tornando politicamente Preta (nem de forma progressiva tampouco buscando um fim). O que isso quer dizer? Nasci numa família com muitos homens e, socializando com eles, descobri que a diferença existia pra ser contestada. O que isso quer dizer? Era a única garota da classe que, além de Preta, acordava muito cedo pra jogar SNES antes da aula. Ou que não dormia pra assistir Buffy: a caça vampiros. Ou que acompanhava o Disk MTV. O que isso significa?

"Black Feminist Blogger"
(Temporada 1- Season Finale: "Scurvy and Self-care")

Quando nascemos Negras há uma história já traçadas para nós, especialmente no que se refere ao lugar. E, por lugar, me refiro à posição no mundo. Quando nasci, já estava dado que eu deveria ser algum estereótipo, isto é, uma ideia engessada sobre o que significa ser "mulher-Negra-no-Brasil". Os exemplos positivos, em algum momento, desembocavam na certeza de que havia modos de silenciamento, morte ou erotismo diferentes das personagens brancas. Sempre havia um desapontamento. Por mais positivas que pudessem ser (porque estavam lá), as personagens Eurídice (1999), Xica da Silva (1997) e Kendra (1998) não eram as referências que eu entendia como necessárias para me sentir uma criança forte.  Na hora das "brincadeiras de matar monstros" após os filmes, havia regras não ditas que não me autorizavam a ser as personagens femininas nem masculinas, já os meninos sempre podiam tudo. Reconhecer que eu estava sem espaço em todos os lugares foi primeiro passo rumo à consciência de que diferentes agem diferente. Eu simplesmente não sabia como, mas sabia que tinha que procurar sozinha um outro modo de ser eu (self): um jeito de fugir do que eu não era e, ao mesmo tempo, do que eu não poderia ser.


Patricia França em Orfeu (1999)
Taís Araújo em Xica da Silva (1997)
Bianca Lawson em Buffy a caça vampiros (1998)


Essa pequena superfície que acabei de descrever trata da questão de identidade, performance e expressão que partem de enquadramentos conflitantes. O conflito reside no que você  sente como profundo "eu" e o que esperam que você seja. Ele passa por momentos de "amputação", em que você vai tentar se adequar aos contextos das formas específicas que eles exigem: emagrecer, embranquecer, afeminar, fortalecer, calar, gritar, dançar, aguentar. Nesse momento, nós só temos indícios de que há algo errado em sentir tanta dor. Possivelmente, pode parecer que um "pequeno esforço" pode fazer a dor parar, mas não. A verdade é que o lugar da dor não é o nosso lugar, é o lugar que a máquina-racista-misógina-capitalista reservou por querer nos ver confinadas. Essa dor do "não ser" é um dispositivo que fortalece quem tem o Poder e afunda quem não tem poder até que a/o desempoderada/o tome consciência de nomear a si mesma/o.

Negra, feminista, nerd são porções tão caras a mim quanto ouvir heavy metal, porque os aspectos juntos, configuram um bloco que é a profundidade do que eu sou. "Não existe hierarquia de opressão"(Audre Lorde), não é apenas uma frase, é uma teoria prática. "Preta" significa que sou historicamente marcada pela reivindicação dupla por espaço: raça e gênero (interseccionalidade); "Nerd" é um padrão de consumo classe média que tem por objeto de interesse a cultura de massa, tecnologia, novas mídias e o que é envolto por valor simbólico ("tudo que há de bom"); no meu caso, traz também a experiência acadêmica. O "Inferno queimando" é o lugar-comum do racismo que qualquer pessoa Negra, Preta/Parda é forçada a habitar - o mundo em si. Por outro lado, essa parte do título do blog também diz respeito à frase que encontramos nas músicas de Heavy ou Thrash Metal, um mundo aparentemente branco em que, cada vez mais, estamos nós (Pretas) visíveis. Engraçado que negros criaram Jazz, Blues, Rock e quando visto uma roupa que me identifica como consumidora de música "extrema" as pessoas acham que estou traduzindo uma cultura estrangeira. Que estou performando um conflito de interesses entre ser daqui ou não. E, pior, que estou fora do lugar.

Olha, até estive. Estar fora do lugar significa usar o olhar da opressão como referência. E estive nesse não-lugar até encontrar a história das minhas identidades. Até encontrar na virtualidade do espaço da internet, pessoas como eu que mostraram que é possível sim ser fora dos moldes, que ser o que eu sou é um lugar em si mesmo, sim. Nesse sentido, a "autodefinição" (LORDE) é a real tomada do poder de viver sob os nossos próprios termos. Essa experiência de dar nome a si mesma é parte do processo de deslocar a perspectiva sobre de si: você deixa de ser/viver "a falta". Não adianta combater uma opressão ignorando a máquina causadora: quem tem privilégio, oprime. Para Audre Lorde, encontrar a própria voz e defini-la, não como plenitude, mas uma continuidade é viver verdadeiramente:

Eu estou constantemente definindo meus eus, pois eu sou, como todxs nós somos, feitas de tantas partes diferentes. Mas quando esses eus entram em guerra dentro de mim, eu sou imobilizada, e quando eles se movem em harmonia, ou concessão, eu sou enriquecida, tornada forte.
(LORDE, 2009 via trad. tate ann)

Dentro dessa ideia de que nossa identidade é construída por vários aspectos, podemos perceber que:
  1. a nossa voz, quando escapa dos moldes, tanto redesenha a fala, quanto desautoriza a maquinaria pre-estabelecida; É, portanto, um lugar de contestação da violência/hierarquia.
  2. harmonia reside na compreensão da identidade como (a) consciência do comprometimento político e da (b) consciência de que possíveis privilégios não salvarão "o todo" da violência;
  3. o que teóricos geralmente concebem como não-lugar, a gente vive como a desconformidade de não pertencer aos quadros que os locais predefinidos demandam. Somos sim um lugar.
Sendo filha de uma mãe brasileira (preta), pai angolano e, portanto, brasileira-Preta, o conflito do "entre-lugar" que muito se fala pode se manifestar pelo racismo e, mais complexamente, pela não adequação à negritude que se espera (uma origem perfeita e "legítima" desperdiçada). Empiricamente eu percebi logo as diferenças de matrizes de pensamento das origens, desejei que meus pais não fossem cristianizados; desejei ser camuflável em "ambientes negros" e percebi que desejar o que não sou é a mesma coisa que desejar ser o que supremacistas ativos e passivos me ordenam a desejar. Buscar aceitação quando não cabe a diferença mostra certa inabilidade em compreender que não é a semelhança estrita que nos une; se for preciso "caber na forma para estar" se trata de cumplicidade com a matriz das opressões. A questão nunca foi de cultura, (etnia) saberes e técnicas; nunca foi sobre diferença genética. Sempre foi sobre a falsa ideia de que raça existe e molda gênero, classe, idade, amor e inteligência. Isso foi se tornando insuportável até encontrar o lugar que me parecia real desde o início. Black Girl Nerds. Graveyard Shift SistersBlack Girls DangerousWomen Write About Comics
                             
E é desse lugar - concomitante à fundação do Preta, Nerd e Burning Hell - que assisti a primeira temporada da série independente (EUA) Black.Feminist.Blogger (sem tradução).


O PARTICULAR NAS CONDIÇÕES COMUNS

Black Feminist Blogger (BFB) é uma webserie independente criada por Aph Ko e Wes Garrett e acessível no canal do YouTube Aph Ko Productions. "Diferente das séries mainstream que são protagonizadas por mulheres Negras advogadas, ricas, maquiadas vestindo grife ou guerreiras hiper-fortes", BFB nos apresenta uma protagonista que é... como a gente?!

A condição comum de Latoya é ser uma garota Negra, autônoma, inteligente, uma leitora assídua e com afiada consciência política, escuta rock, toca instrumentos e se vira num mundo muito racista, que a empurra pra fora todo o tempo - verdadeiro burning hell.

Além de ser uma personagem que acompanhamos numa perspectiva feminista Negra real, ela precisa sobreviver num mundo mega hostil: negociar com sua chefa branca, fazer trabalhos que não são do seu agrado para poder pagar as próprias contas e lidar com a cegueira (alheia) típica de quem tem privilégio. 

Através do cenário, identificamos aspectos da identidade dela que parece não se encaixar, ao menos com o esperado, tipo: quadro dos Beatles e da Angela Davis na mesma parede. Ela é superconsciente e crítica, mas tem que vender seus textos muito barato, perdendo os direitos autorais, sendo demitida, apagada e enganada sempre que a chefa acha possível. Óbvio que estamos junto com ela quando reage veementemente às opressões. Aliás, embora seja uma série de humor, aquele vácuo, a pausa na respiração para engolir um mal-estar, não tem lugar em BFB. Latoya sabe muito bem das coisas e responde cada "não"; por outro lado, a precariedade é ter o que perder. Essa condição de ter contas a pagar reconfigura algumas falas, jamais a consciência. A chefa não deixa esquecer que é necessário escrever de forma "afável" porque "quanto mais cliques, mais dinheiro e melhor é a sua remuneração". Essa relação acessos/dinheiro/superficialidade que Marie - a chefa - faz nos lembra das condições reais de quem ganha dinheiro aparecendo na internet.

Em Black Feminist Blogger temos uma escritora Negra feminista dos nossos tempos (blogger) que, embora tenha um teto todo dela, ele é mantido pelo seu trabalho (escrita) que obriga a ter contato com a violência epistemológica, simbólica (racializada) da chefa feminista-branca que nega o lugar de Latoya o tempo todo. Existe uma violência aí que é ao bloco, não à feminista, à Negra, à profissional, à jovem. Existe um bloco de impossibilidade de ser (branca, homem, rica) que mostram o quanto não adianta abrir mão de algum aspecto, porque o corpo é um só.

Isso coloca o racismo, identidade pós-colonial e a pluralidade dos feminismos como tópicos de discussão centrais de todos os episódios. Latoya é Preta, Nerd, Feminista, blogueira, ativista, estadunidense, roqueira, blackpower, leitora e pessoa comum que luta pra sobreviver. São identidades conflitantes? Híbridas? Ambivalentes? Deslizantes?


CAMINHOS POSSÍVEIS

A problemática da identificação, que coloca o ser entre "signos forasteiros" e "flutuações", me causou estranhamento desde o início porque minhas experiências formadoras resistiam à compreensão do conceito de hibrido como adaptação cultural (Canclini). Independente dos conflitos raciais que haja na família de Latoya, as pessoas enxergam um ponto específico que é: Negra, "apesar" da "melanina não tão acentuada". E, sendo Negra, por que não encaixar no "padrão de beleza negro"? Na vida a gente pode escolher alguns lugares de privilégio, mas quando a corda arrebenta, o corpo cai inteiro. Já foi dito que "não existe hierarquia de opressão". Quanto a Latoya, uma protagonista que não representa o glamour, muito ao contrário, vive infiltrada:

[...] em espaços mainstream, espaços que, muitas vezes demandam uma negociação desconfortável entre a sua identidade como feminista e sua identidade como blogger no espaço (virtual) mercadológico (GOLDSTEIN via THE DAILY BEAST) - tradução nossa (1).

Tanto o modo como eu me vejo, quanto o modo como me coloco, é, em certa medida, uma escolha performativa aqui-agora, mas que não apaga outros aspectos. No caso de Latoya, não estar tocando guitarra ou bateria, não significa que isso deixa de fazer parte do todo. Também não pode ser lida como um modo comum de consumir certo produto cultural. Um tema recorrente da série é a apropriação cultural que brancos são autorizados (por si mesmos) versus a condição Negra de Latoya que tem consciência da anterioridade, e total ciência de que a adaptação homogeneizante é produto da máquina:
Um exemplo de apropriação cultural e mercantilização é o rock-and-roll, um gênero musical dominado por pessoas brancas, mas originário do blues e do jazz criado por artistas negros e negras. Músicos brancos cooptaram esses estilos musicais originalmente negros, e os transformaram em um recurso de captação de fama e riqueza. Como é frequentemente o caso com a apropriação cultural, brancos tomaram algo considerado “étnico” e o popularizaram. Essa é a característica que define a apropriação cultural – o uso de poder e privilégio branco para “legitimar” as práticas e tradições culturais dos povos de cor (Altheria Gaston via trad. Lucas Pamplona).


Esse suposto não-lugar passa a existir à medida que Latoya se autodeclara e tem sua voz ouvida no meio virtual - apesar das sabotagens de Marie. Ela não está encarcerada no patriarcado porque tem sua própria voz através da escrita: Latoya é sujeito resultado dum choque específico de realidades, mas delineado pela condição comum. Sendo assim, a riqueza da série é explorar em poucos minutos (no geral, entre 3 e 5) situações cotidianas nas quais podemos nos ver e, ao mesmo tempo, não determinar aspectos específicos. Ela poderia ser qualquer guria nerd porque ela mostra esse lugar de contestação dos silêncios históricos aqui-agora no modo de se relacionar com as pessoas e no seu ofício de escrever. 

Ela curte rock, não porque é assimilada, no meio do caminho, incompatível e adaptada à "nova realidade". Ela é resultado de uma história sobre silenciamento que vira cinzas assim que imagens tornam-se visíveis e, portanto, reais.Quantas mulheres Negras no rock extremo são necessárias para quebrar aquelas teorias de que Preta tem lugar e, portanto, quando no rock, ta no meio do caminho?



NO MEIO DO CAMINHO: A PEDRA


Aliás, outro ponto forte da série é o modo de tratar do "entre-lugar".  Latoya é Negra, bissexual, jovem adulta, trabalhadora e representa um conjunto de identificações que são questionadas pelo pessoal da "raça humana" ou "da ordem binária". Não raro, em discussões sobre raça e orientação sexual o lugar que não é entendido como posição extrema ("ou isso ou aquilo"), tende a ser visto como "nem cá, nem lá". Tanto a bissexualidade quanto a negritude considerada incompleta pelo senso comum (parda), a interdisciplinaridade e a androgenia (que socialmente é interpretada como 50%/50%) são posições políticas que, usualmente, são alijadas de seu caráter impassível, categórico, de "Não". Seu caráter (analítico) de SER ambivalente, oposto ao "SÓ" positivo ou "SÓ" negativo, é um lugar em si, que não sofre violência por categoria avulsas; sofre violência pela complexidade simultânea. Dificilmente as discussões englobam esse pressuposto.

Pode parecer um problema insolúvel a ideia de ser "estranha" perante as expectativas, porém, muita gente comum celebra suas identificações não como uma jaula ou problema insolúvel e é essa realidade fora da teoria que o seriado celebra numa espécie de "nossa vida como ela é".

NOTA

[1]Trecho original: "[…] in mainstream online spaces, spaces which many times demand an uncomfortable negotiation between her identity as a feminist and her identity as a blogger in an online marketplace."


REFERENCIAS

TEXTOS CONSULTADOS

BHABHA, Homi K.Interrogando a identidade: - Frantz Fanon e a prerrogativa pós-colonial in O local da cultura.Belo Horizonte: UFMG, 1998
BUSIA, Abena P. A.Performance, transcriptions and the languages if the self: interrogating identity as a "pos colonial" poet. (p. 203-213) In JAMES, Stanlie M.; Busia, Abena P.(org) Theorizing Black Feminisms: the visionary pragmatism of black women.New York: Routledge, 1993.
CLARKE, Cheryl.Living the texts out: Lesbians and the uses of Black women's traditions (p. 214-227) In JAMES, Stanlie M.; Busia, Abena P.(org) Theorizing Black Feminisms: the visionary pragmatism of black women.New York: Routledge, 1993.
LORDE, Audre. Autodefinição e minha poesia. Disponivel em: <traduzidas.wordpress.com/2015/06/08/autodefinicao-e-minha-poesia-audre-lorde/>. Acesso em 21 dez. 15.
ZEIGLER, Maya S. For Black Girls Who Are Trying To Find Their Voices. Disponivel em: <www.blackgirldangerous.org/2015/12/for-black-girls-who-are-trying-to-find-their-voices/>. Acesso em 21 dez. 15.
McClain,Jen .I’m Just an Introvert Girl, Living in a Conformity World. <blackgirlnerds.com/im-just-an-introvert-girl-living-in-a-conformity-world/>. Acesso em 9 fev. 16.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

SOBRE SER MULHER PRETA NO METAL


Imagem 1
Paul Shiakallis, “Debbie Baone Superpower” (2014) via Hyperallergic



"A primeira vez que ouvi rock foi realmente incrível! Eu senti que aquela nova musica e energia era realmente como eu. Lembro de ir dormir e ter sonhos em que eu performava aquelas musicas e visualizava a mim mesma no palco, o que veio depois e está rolando agora. O que sempre me atraiu no rock é a sensação de liberdade que eu poderia - finalmente - ser que eu desejava ser e cantar o que eu sentia no meu coração. Algumas pessoas pretas que eu conheço na indústria da música sentem que nós seríamos mais fortes e mais empoderadxs se estivéssemos numa mesma caixa, mas eu sempre tive em mente o fato de que eu nunca pertenci a nenhum grupo ou cena..." 
— Skin, Skunk Anansie [*]

LUGAR DO NEGRO E DA NEGRA NO METAL
"Recentemente, (re)descobriram que o Phil Anselmo é racista. Ok. O grande problema é que, quem diz "O heavy metal é racista" como frase de efeito, está ignorando que o ocidente é racista e precisa conhecer o site AFROPUNK. Nem passa pela cabeça dessas pessoas conversar com pessoas negras que fazem parte das cenas de rock, porque esperam que o mainstream abarque tudo que existe sob a face da terra."

* * *

As cenas do rock (em especial a do Heavy Metal) se mostram majoritariamente compostas por uma audiência branca. É uma experiência cotidiana para as pessoas negras a sensação de estar "fora do lugar", mas a expulsão simbólica do campo que se autoproclama "alternativo" é uma questão que a maioria das pessoas não compreende como expressão do racismo. Fique evidente que, pra mim, é óbvio que existem maneiras de estar no espaço e, por isso, ser uma pessoa negra no metal por si só não significa fugir dos estereótipos. Com isso, enfatizar a importância de se questionar sempre. A questão que os espaços brancos fazem sobre o que estamos fazendo "ali" define a fronteiras dos paradigmas (as "certezas universais"), o que você deve ou não gostar/fazer/saber e a performance (assim como academicismo e a #nerdiandade). Pense se:

  1. [Fora da cena] Já afirmaram que você deveria estar sambando em vez de tocar guitarra (?), afinal nunca viram uma mulher preta tocando guitarra. Afinal só veem meninos brancos roqueiros passando por aí. [ou seja, "não é som de preto"... Ok, nunca ouviu falar da Sister Rosetta Tharpe].
  2. [Dentro da cena] Já fizeram um quiz sobre bandas, músicas e estilos para testar seu conhecimento e (?) assim, oferecerem (?) uma carteirinha de Oh, Jesus! AGORA VOCÊ PODE SER UMA rock n' roll Black Woman. 


O choque entre aquela sensação enérgica de liberdade que o rock proporciona e a invisibilidade das mulheres Negras neste universo é parte dum processo de construção e fortalecimento da consciência identitária. Esse choque evidencia duas ausências: negros e mulheres, daí as pessoas, curiosamente, acharem apenas algumas mulheres que são ambas as categorias. Como adolescente, provavelmente primeiro chegam as bandas nacionais ou não, compostas por homens brancos, depois mulheres brancas, depois a banda com um negro até chegarmos àquelas que realmente expressam nossas visões de mundo com toda a intensidade que desejávamos encontrar. Essa é a minha trajetória e de muitas outras, a ponto de ter sido o mote do livro da estadunidense Laina Dawes que escreveu o aclamado What Are You Doing Here? (sem tradução). Embora haja uma diferença política, performática e discursiva nas cenas punk, metal, hardcore e gótica, sem dúvidas, podemos considerar que nenhuma delas consiste em lugares de pertencimento e de conforto para pessoas negras, mas estão no balaio da chamada contracultura e desafiam certas regras sociais, políticas e estéticas. Essa estética do desconforto é o que une tais cenas e, portanto, opto por não enfatizar as diferenças. Sem dúvidas, elas são cunhadas sob signos brancos que apagam a história que relaciona os ritmos à "música negra" como o Jazz, Blues e o Country, tanto que chamam de Black Metal ama vertente mais reacionária, conservadora, que fala de temas nórdicos e é usualmente racista; Eles chamam de White Metal o rock cristão, "bonzinho" e "positivo".



A SURPRESA NO BURNING HELL

Contra esses discursos de surpresa sobre sermos Negras e ouvirmos rock, temos artistas Negras que são imagens irrevogáveis da versatilidade e do pertencimento histórico das mulheres Negras nas cenas extremas. Podemos ter em vista que a condição de injustiça social, racismo e preconceitos que são interpretado erroneamente senão silenciados motivam uma raiva constante que precisa ser externalizada por meio da arte, como vemos na imagem 2. Essas mulheres são referências importantes em que podemos nos ver existindo, assim como o ensaio Leather Skins, Unchained Hearts  do fotógrafo Paul Shiakallis (imagem 1) que mostra mulheres do Botsuana com vestes associadas à cena do metal bem como encarnando uma personalidade queer em busca de expressar suas sensações, perspectivas sobre a sociedade em que estão inseridas e o mundo.



Imagem 1
Kayla Phillips (Bleed the pigs) , Tamar Kali, Skye Edwards (Morcheeba)
Skin (Skunk Anansie), Shingai Shoniwa (Noisettes)

Surpreender-se com essa multiplicidade de performances evidencia a total ignorância sobre o poder de expressão nesse mundo hostil. Embora o rock tenha sido criado por negros existe uma demanda conservadora de impedir o acesso, a identificação e a apropriação do som e de certo modo de ser, vestir e se comportar. Mundo do rock, embora "contracultural", é adepto das "credenciais". Isso é tão naturalizado entre nós que nem me surpreendo mais quando uma pessoa negra pergunta o sentido de eu ouvir "isso".

NEGRITUDE, METAL E BURNING HELL

A lista de Samuel Coutinho que contém cinco mulheres Negras do rock consiste em nomes de musicistas metálicas das mais diversas vertentes do rock que misturam suas influencias e experiências pessoais para produzirem um contra imaginário sobre o lugar da mulher no universo de padrões brancos. Abaixo, repetirei a lista de Coutinho acrescentando alguns nomes e ocultando os nomes já citados no nosso post E som de preta é o que?
  • Tamar Kali



  • Militia Vox: (JUDAS PRIESTESS/Swear on Your Life)

  • Alexis Brown (Straight Line Stitch)

  • Diamond Rowe: (Tetrarch) 

  • Yvonne Ducksworth:

  • Brittany Howard (Alabama Shakes)


  • Skye Edwards (Morcheeba)


  • Skin (Skunk Anansie)




NOTAS

[*]  Tradução nossa de trechos VIA http://www.bazillionpoints.com/shop/black-women-in-heavy-metal/?show=slide

trecho 1: 

"The first time I heard rock music it was really exciting. I felt that this new music and vibe was really me. I remember going to bed and having dreams that I was performing this music and visualizing myself on stage, way before it actually happened… What always appealed to me about rock music is the feeling of freedom, that I could finally be who I wanted to be and sing the music that I felt in my heart. Some black people that I met in the music industry felt that we could be stronger and better empowered if we all stayed within in the same box, but I had always relished the fact that I never belonged to any cliques, or any scenes" - Skin, Skunk Anansie

trecho 2:


“I wanted to find other black women like me: metal, hardcore, and punk fans and musicians that were rabid about the music and culture and adamant about asserting their rightful place as black women within those scenes. I wanted to find other women who put aside the cultural baggage that dictates that we must listen to certain musical styles, and simply enjoy the music that influenced us, not just as black women, but as individuals who grew up in an era when, thanks to technology, a large variety of music is accessible and available to everyone. I found many black women and have shared their stories, but I also realize there is still a lot of work to be done.” — Laina Dawes 



TEXTOS CONSULTADOS

COUTINHO, Samuel. Mulheres Negras: confira algumas que sabem fazer rock. Disponível em: <whiplash.net/materias/curiosidades/164185.html>. Acesso em 8 jan. 2016
.
DAWES, Laina. Entrevista concedida ao Vice. What Are You Doing Here? Laina Dawes Talks About Being the Odd Black Girl Out in Metal Disponível em: <www.vice.com/read/what-are-you-doing-here-laina-dawes-talks-about-being-the-odd-black-girl-out-in-metal>. Acesso em 8 jan. 2016.

MIRANDA, Igor.O heavy metal não é apenas racista – é intolerante no geral - <www.geledes.org.br/o-heavy-metal-nao-e-apenas-racista-e-intolerante-no-geral/#ixzz3zWnnn5Hp





Obrigada!
@mechamamdedaria