sábado, 29 de agosto de 2015

CIÊNCIA EM FAVOR DE QUEM?

Marie Maynard Daly (1921-2003)
Bioquímica: foi a primeira mulher negra a obter um doutorado em química nos Estados Unidos.

Estava lendo sobre a transformação entrelaçada entre ciência e sociedade [1] e, quanto mais o texto me atravessava, mais eu tentava trazer aquelas exemplificações para perto das minhas vivências. O tema me interessa por três motivos:

a) Sou Negra e estou na academia; Em pleno século XXI professorxs afirmam - na minha cara - que não há contribuição negra nos estudos linguísticos. Convenientemente nunca ouviram falar em Lorenzo Dow Turner [2];
b) Sempre senti a necessidade de compreender as razões da Ciência e o comprometimento dela com "A Verdade" tão excludente;
c) As discussões diárias, em ambiente escolar,  sobre o que é conhecimento e a quem o ideal de erudição, objetividade e abstração serve; Além disso, há pesquisas que são tratadas como "não científicas" e "não importantes", não é?

Como o que parece errado geralmente leva a reflexões produtivas, a desconfiança e a dúvida vão construindo o terreno das acomodações no presente texto. Como esse desconforto não é novo para mim, não pretendo esgotar as questões  tão cedo, o objetivo é apenas pontuar agora. Agora este, que começou com o meu (intrigante) gosto por jogos de estratégia em tempo real, com mapas e campanhas, aqueles bem desenvolvimentistas sobre "construir, descobrir e conquistar mundos" como Rising Lands e Age of Empires. Aos poucos, durante a leitura, uma certa imagem foi tomando lugar:

Age of Empires II (gameplay)
INTRODUÇÃO

O jogo Age of Empires (AoE) coloca a jogadora como a força motriz da maquina desenvolvimentista - o que podemos traduzir, ironicamente, como o inerente destino humano. Positivo? Estamos fora, objetivamente olhando para o mundo desconhecido [losango preto na imagem] e nossa missão é desenvolvê-lo de forma necessariamente progressista. A medida que vamos "descobrindo" o mundo, vamos explorando os recursos naturais para que a progressão social, política e tecnológica seja possível. Precisa dizer que esse desenvolvimento passa por batalhas, invasões e apropriação de bens alheios? Precisa dizer que nessa sociedade comandada pela jogadora cada classe de individuo tem uma atribuição específica?

Cada reino com que nos deparamos deve ser anexado ao nosso e nossa perspectiva religiosa e, sobretudo, tecnológica deverá prevalecer. Por tecnologia, entendo o conjunto de práticas/técnicas de uma sociedade, desde a arquitetura, religiosidade, visão de mundo, interesses, em suma, os saberes acumulados pela experiência e aplicados às demandas da vida em dado tempo e espaço. Embora tudo isso seja um resumo da historiografia escolar, é espantosa a sua aplicação visual/material no jogo de estratégia, pois temos uma interpretação particular do passado em "mágica" linha reta ascendente - uma perspectiva de que é tão inevitável quanto necessário.

Uma grande questão: a visão de mundo racionalista não compreende que os povos autóctones (pré-invasão) constituem sociedades complexas com perspectivas próprias sobre necessidades, conforto e prioridade auto-suficientes. O interesse paternalista de levar progresso (leia-se invadir) com o intuito de trazer benefício geral, saúde, certeza e Verdade não passa de falácia que pode-se traduzir como "colonização". A franquia de jogos como "A Era dos impérios" (AoE) pode ser entendida, portanto, como um exercício prático da hegemonia semelhante àquela que dá combustível à ciência ocidental. 

As palavras-chave são: imutável. ciência. exclusão.


DESCOBERTA DO MUNDO OU A METÁFORA DE ELABORAÇÃO DO SABER


Enquanto nos diverte, o jogo interpreta a realidade da violência e da expropriação histórica como justificável, afinal, o "progresso" deve ser "compartilhado". Enquanto nos diverte, o jogo não possibilita que pensemos a diferença senão esteticamente e "perigoso". O outro só pode ser "o mal atrasado" que nos destruirá se não o destruirmos antes. Em termos práticos o que se aprende é que ciência é o conjunto de conhecimentos formulados metodológica e racionalmente; na cultura ocidental corresponde a uma Verdade sobre o mundo. Aprendemos na escola que biologia, física, matemática são ciência e que literatura não é. Sem tratar de conceitos "difíceis" como epistemologia nos intimidam com pressuposto de que "não compreenderemos a complexidade da Verdade neutra". Quando ingressamos no "Ensino Superior", docentes continuam a nos intimidar com sua "poliglotisse" [3] e interpretação "neutra" que - ao contrário - só enxerga onde seus olhos alcançam. 

"A visão da ciência, erguendo-se com magistral autoridade por cima das batalhas políticas que grassam embaixo, tornou-se algo obscuro para as mulheres e alguns homens. A imparcialidade de seus pronunciamentos tem sido questionada em várias análises realizadas por feministas e outros como um poderoso agente para manter as atuais relações de poder e a subordinação da mulheres"(BERMAN, 1997, p. 241).


Num mundo de complexidades cada vez mais abstratas e menos acessíveis [4], a Universidade, personificada pelo seu corpo docente, direciona tanto os interesses das descobertas e invenções como a produção do saber em si (episteme). Recentemente, numa aula de literatura, a professora (branca) fez a análise dum conto da autora Negra Conceição Evaristo que destoava completamente do que uma mulher Negra leria. Esse foi um desafio epistemológico, isso é, de pressupostos, metodologia de análise e interpretação da realidade que me mobilizou bastante. Primeiro porque eu tinha certeza de que a metodologia que ela usou não tinha cor, gênero e classe social, o que gerava resultados com falta tais como no mapa do AoE. Segundo: ela tentava me convencer de que a minha perspectiva era muito específica (a de que o racismo existe e modula relações e subjetividades), como que entrando no meu reino para substituir minha experiência empírica, o meu saber, por uma neutralidade colonizadora. O terceiro é: está na moda usar textos de feministas Negras para manter a hegemonia; à medida que citam (= apropriam-se de) Audre Lorde, bell hooks e Chimamanda Adichie buscam enfraquecer nossa crítica à dominação. 

À medida que docentes com doutorado são vistos como detentores do (indiscutível) Conhecimento Cientifico eles forçam a entrada num reino a fim de beneficiá-lo com a Era de Ouro livre de crendices e achismos. A questão aqui não é minimizar a importância da Academia, mas observar como as relações hierárquicas da sociedade influenciam a concepção do Conhecimento. Nossas experiências iluminam certas partes do mapa e outras não; alguns são cavaleiros e combatem, outros plantam, outros oram e isso mudará a interpretação dos fatos e, o mais importante: todas elas são comprometidas, seja com a manutenção, seja com a implosão da realidade. Um texto escrito com palavras difíceis, conceitos, períodos longos, fragmentos em outras línguas (sem tradução), termos em latim, abstrações e contradições conceituais é de interesse da categoria cavaleirx,  sacerdotal ou campesina?

A IDEOLOGIA CIENTÍFICA

Nos primeiros minutos do filme O Guia Pervertido da Ideologia [5] o filósofo Slavoj Žižek usa uma marcante analogia para explicar o que é ideologia. Ele diz que a ideologia é uma espécie de óculos que usamos para ver (interpretar) o mundo. A diferença é que não é tão fácil retirar tais óculos, eles são o próprio sentido - a visão - considerando que não podemos nos alienar dos olhos como um Édipo ou mesmo um Shiryu e, o pior, não podemos fugir do local e do tempo onde estamos localizadxs. Nossos olhos trazem em si sonhos, ilusões, certezas, privilégios e tudo o mais que não queremos perder, portanto, é confortável ver como vemos - se estamos naquela pontinha superior da pirâmide social. Se não estamos, é provável que tentem nos convencer a por as lentes deles. Vivemos num mundo muito perigoso porque é paradoxal: para manter a imutabilidade da estrutura social, a opressão (que no fim das contas é uma só) se vê obrigada a se atualizar e ramificar a cada segundo. Então temos negros no século XXI (pasme) acreditando que oprimir negro/a a fim de invisibilizar sua própria condição, ora, se não é o capitão do mato repaginado! O sistema prisional, por exemplo, é a atualização da escravização da população negra [6]. Podemos enumerar exaustivamente antagonismos que resultam no diferente quase igual: dialética (Ex: senhor feudal x burguês = operário). 

Segundo Berman (1997),  a prática social é a base de qualquer sociedade, portanto, é impossível dissociar a Ciência e a organização dos saberes da subjetividade, das interações, privilégios e opressões. Nesse sentido, temos cientistas engajados na manutenção de suas vantagens e dos/das seus/suas; a quem interessa estudar doenças que têm maior incidência em populações marginalizadas que não poderão pagar o alto preço de tratamentos e medicamentos? A quem interessa desenvolver moradias sustentáveis de baixo custo? A quem interessa que toda a humanidade se alimente diariamente? Responder a qualquer pergunta anterior culminará na conclusão de que a tecnologia é enviesada tanto quanto qualquer literatura ou religiosidade. Toda produção de saber, todo ímpeto por saber é ideológico, portanto, comprometido.

QUESTÕES FINAIS

À medida que nos interessa saber, descobrimos uma historiografia diferente daquela "verdadeira" ensinada em salas de aula convencionais. Em literatura, "aceitam" a genialidade dum Cruz e Souza, mas afirmando que sofria de certa desconformidade, que "as formas alvas" nos poemas são desejos e - pior - não aceitação. Ensinam O Bom Criolo de Adolfo Caminha sem questionar a estrutura racializada e homofóbica da sociedade oitocentista. Raramente docentes relacionam o projeto modernista de sociedade ou o sujeito do Iluminismo. O foco é o mérito, o progresso e, sobretudo, a agressiva fome por liberalismo. Aliás, a violenta ordem dos nossos tempos, diz Zizek, é a liberdade. Realmente, hoje "tudo é tudo, ao mesmo tempo nada é nada". Se, por um lado, é conveniente desconstruir, ser brancx e acordar num dia dizendo-se pardx, por outro, é progressivo que o gênero (performance/orientação sexual/sexo) seja mutável. Essa é uma tecnologia dos nossos tempos, a ciência aceita que a mudança é legítima, mas se a cor da pele não muda, apenas a autodeclaração, como fica o racismo no Brasil? Como essa pessoa fará ciência?

"A tecnologia desenfreada não só intensifica as relações sociais exploradoras, mas também define os ideais éticos da nossa sociedade, suas concepções de bem e virtude, seus sonhos de futuro e, especialmente sua ciência, que está impondo à própria vida o molde da máquina de produzir lucros" (BERMAN, 1997, p.271).

A classe dominante, que é a real minoria, impõe um conjunto de mitos que a beneficia de tal modo que a maioria - a pirâmide quase que toda - na ilusão de subir, reproduz como verdade absoluta. É por isso que, não raro, encontramos discentes na educação básica que afirmam equívocos como "a verdadeira arte, a filosofia e sociologia não existe mais!", exemplificam com Latino e buscam ser aquele molde de erudito enciclopedista. Sabedoria, pra elas e eles, passa pela fluência em línguas mortas como latim e grego. Nem têm visão crítica do Iluminismo tampouco sabem que o Romantismo têm uma face conservadora. A maior parte não alcançará o cume da pirâmide, mas ingressará numa Universidade (sobretudo pública), terá aula com "eruditos" que ditarão regras ilógicas, reprovarão turmas inteiras sem motivos e... assim que puderem reproduzir tais opressões, os jovens candidatos à erudição oprimirão.

Eles dirão que feminismo não tem sentido, que racismo não existe e que o mundo é bom como está. Não por culpa de professores/as porque alunxs podem ser autônomxs à medida que aceitem o desafio da inquietude, da dúvida e da incerteza. Do contrário, podem alçar o teto e fechar cursos feministas (como Derrida o fez) e até mesmo cancelar as "práticas sociais" intrínsecas ao conhecimento científico na ilusão de fazer parte da máquina do poder.

Se, de qualquer maneira, a cura, o alimento, a moradia, a educação e o bem-estar sob ótica materialista e igualitária não são prioridades científicas, a Ciência interessa a quem?

Cosima (Orphan Black) 
"Isso!"

REFERÊNCIAS:

[1] BERMAN, Ruth. Do dualismo de Aristóteles à dialética materialista: a transformação feminista da ciência e da sociedade. in JAGGAR, Alison M. ; BORDO, Susan R. Gênero, corpo, conhecimento. Rio de Janeiro: Rosa dos Ventos, 1997. (p. 241-275).
[2] MUSEU AFRO BRASIL (SP)  - “Gullah, Bahia, África”. Local: Museu Afro Brasil (Av. Pedro Álvares Cabral, s/n, Parque Ibirapuera, Portão 10, São Paulo, tel.: (11) 3320-8900. Abertura:18/08/2015 -  Até 18/10/2015.
[3] Em português padrão  diz-se "poliglotismo". Meu neologismo tem como objetivo criticar a hierarquia. Segundo Antônio Houaiss (Dicionário Eletrônico Houaiss de Língua Portuguesa 3.0) sufixo "ice" forma substantivos com valoração negativa tal como em "burrice", "abelhudice", "palermice".
[4] Refiro-me aqui tanto à linguagem "tecnicista" hermética, aos equipamentos e materiais de alto custo como ao ingresso. O modo de ingresso nas universidades públicas e particulares tem se popularizado com o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), Programa de Bolsas Universidade para todos (ProUni) e o Sistema de Cotas (Raciais e Sociais). Depois de egressos o problema é a permanência de estudantes de baixa renda, negros e indígenas nos cursos por uma série de fatores, dentre eles, o valor de materiais específicos, não raro, importados (caros/em língua estrangeira).
[5]O Guia Pervertido da Ideologia (The Pervert's Guide to Ideology, Dirigido por Sophie Fiennes, 2012).
[6] Sobre a discussão ver: DAVIS, Angela. A democracia da abolição: para além do império das prisões e da tortura. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.

sábado, 1 de agosto de 2015

A IMPORTÂNCIA DE SERMOS HEROÍNAS NEGRAS

Raena Lamont (3) fantasiada de Capitã América em Nova Iorque (2012). (via Superheroes are for girls, too!)


"se todas as crianças vêem crianças brancas como centro das histórias, que tipo de mensagem está sendo transmitida a elas?"  


Qual a sua personagem Negra animada (cartoon e videogames) favorita?

 Narrativas violentas não apenas servem para as crianças terem consciência de si, mas para sentirem-se fortes.














Acredito que a pergunta-chave sobre Representação é "Quem você quer ser?". Essa resposta é sempre permeada de valores sociais, físicos e psicológicos que uma criança (e mesmo quando crescemos) reconhece como positivos. Aliás, eu não diria "positivos", mas proporcionais à dialética eu-mundo (o que dizem ser bom/legal e o que queremos/acreditamos/somos) e com as possibilidades oferecidas.

Essas possibilidades são as personagens que aparecem nos jogos, nos desenhos animados e em qualquer outro produto da Cultura de Massa. Primeiro analisamos se há personagens que fogem ao padrão, mas não é suficiente ter negras/os, gorda/o, cigana/o se a forma como essa/e personagem aparece faz você ter raiva. Um clássico exemplo de representação do que crianças normalmente não querem ser é o indígena no desenho Capitão Planeta: ele está associado ao amor (simbolizado pelo coração). Num contexto de luta por "ideais" de justiça, as demais raças se mostram ativas no embate ao fazerem uso de elementos naturais: terra, fogo, água, vento... e o índio é a passividade do amor. Óbvio que esse "não querer ser", vem dum ódio aos valores que são associado ao feminino e às mulheres, mas é impossível separar opressões, elas são como tramas. Podemos enumerar uma série de outras animações que trazem essa mensagem sutil sobre o que é bom ser ou não e, na maioria das vezes, meninas Negras não têm com quem se identificar... ainda mais se são pobres & gordas & LGBTQ. Funciona assim:


(sequência do laser - Fonte: Resident Evil)
É curioso que, no início do filme, há diversidade de gênero e de raça  (este por considerarmos que o padrão brasileiro é basicamente definido por cor). Essa sequência tem tanto a camada literal que é, as 1) pessoas não-brancas adentrarem uma sala inteligentemente mortífera quanto a metafórica 2) normatização que, como lasers, podem mutilar. O interessante dessa passagem é que o primeiro a morrer é mais próximo à norma e apenas uma faixa o atinge; o homem preto resiste tanto que apenas a rede múltipla (simboliza a interseção) incide mortalmente. Alguma criança quer ser esse personagem? Por mais angustiante que seja para a protagonista assistir impotente a morte de sua equipe, ela está viva, ela que tem uma história pra contar.

Normalmente, nas narrativas com múltiplos protagonistas, se a personagem é mulher, ou ela é caucasiana/branca ou amarela/asiática. Negritude, gênero, sexualidade, idade, corporalidade e classe raramente convergem e sabemos o porquê.

Ser forte

Pessoas sempre fogem aos padrões estabelecidos em algum grau e as crianças têm plena noção disso. Além de já terem coordenadas sobre sua identidade e sobre como as pessoas tratam seus "desvios," interesses e escolhas, as crianças estão numa posição de vulnerabilidade (por serem pequenas, dependentes e recém-introduzidas às logicas do mundo) de modo que precisam sentir que são fortes. Elas precisam sentir de alguma maneira, e as narrativas são essenciais tanto para sublimar como como para formar o padrão do que desejam ser.  No livro "Brincando de Matar Monstros" [1] temos uma lista exaustiva de depoimento de crianças e adolescentes sobre a relação que têm com a violência ficcional. Surpreendentemente elas/eles têm plena consciência de suas emoções reprimidas e da necessidade de descobrir seu poder pessoal. (JONES, 2003, p.6).  Uma criança disse ao autor:

"Quando estou lendo 
sobre eles, 
eu sou eles, certo? 
Então... 
eu me sinto
 poderosa" 
(in JONES, 2003, p.6)




Quando criança, algumas perguntas invadiam minha diversão-Disney: por que o mal costuma ter cabelo preto e pele escura? Por que não um filme sobre o Tio Scar ou o mago Jafar? O mal é mau mesmo? Embora eu não tivesse respostas, era importante escolher uma heroína pra ser e representar o que eu achava que deveria atingir: ser forte, agir em grupo, construir laços reais, me divertir e ser feliz. Quando conheci o Tumblr sobre crianças fantasiadas de heroínas, fiquei surpresa com a fusão que elas faziam; meio-hulk/meio princesa, um personagem masculino numa versão feminina e uma série de outras mudanças que eram impensáveis na minha infância. O gênero era uma barreira (naturalizada inclusive) para a escolha performativa assim como a raça/cor. Todas essas reflexões vieram a tona há uns dias atrás numa espécie de brincadeira no twitter.

Negras em animações

A hashtag #animatedblackgirls cavou na memória de muita gente que usa Twitter aquelas poucas personagens Negras que existiram na infância dos anos 1990/2000 e que gostaríamos de ser. Escrevi, no início desse ano, um texto chamado Sobre equiparar ao que não existe que, dentre outros pontos, passa pela infância Preta & nerd num mundo que gerava ansiedade sempre que eu ia buscar uma personagem Negra para me identificar, representar e querer ser. Pra mim, não estar nos jogos, nos filmes, nos desenhos e tudo o mais que fazia parte da minha diversão era um constante apagamento da existência real:
Catarse

As narrativas nas mídias de massa e nos jogos de RPG sempre foram meus centros de interesse desde a infância, porém, as respostas sobre como e por que só foram elaboradas nos primeiros meses da graduação. Minha orientadora de Iniciação Científica sugeriu que eu lesse e fichasse o (já citado) Brincando de matar monstros. Compartilho com vocês uma passagem que explica bastante uma infância fantástica:

Assistir televisão e brincar fazem parte de um mesmo processo: " a catarse exige que as emoções sejam estimuladas, antes de serem liberadas. O simples fato de assistir a um filme geralmente não provoca a liberação de tensão ou de raiva, mas, diversas vezes, eu vi crianças extremamente animadas após assistirem a um episódio de Pokémon, a ponto de pular do sofá e repetir as cenas fisicamente, até ficarem cansadas e relaxadas" (JONES, 2003, p.44)
Pois é, crianças precisam imaginar, brincar, representar e se sentir que existem em todas as potencialidades. Precisam sentir força e emoções que nem sempre a vida cotidiana lhes oferece. Essa absorção do que falta nelas possibilita expressar e aprender valores nobres e de autoconfiança. É gratificante ver mudanças tão drásticas em termos de possibilidades narrativas para meninas Negras. Hoje em dia elas sabem (e não apenas por si mesmas e suas famílias) que podem ser o que elas quiserem, não apenas Diana ou Tempestade:



Referência:

[1] JONES, G. Brincando de matar monstros: porque as crianças precisam de fantasia, videogames e violência de faz-de-conta. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2003.