quinta-feira, 16 de abril de 2015

SOBRE O(S) FEMINISMO(S) POLITICAMENTE CORRETOS


Márcia Tiburi

Em certo dia de 2012, minha amiga H* me apresentou J* e C* e, do lugar em que estávamos, seguimos na carona de J* que desejava - bem como H* - dar uma passada numa balada - sim, numa balada. Eu e C* nos entreolhamos e fomos porque "carona é carona". Quando lá chegamos, sentamos no meio-fio (enquanto H* e J* sensualizavam na night) e ficamos trocando ideia sobre um gosto em comum: textos da Márcia Tiburi  desde a época da Vida Simples!. Ora, e o que essa "síndrome de Rory Gilmore" tem a ver com o post de hoje? Tem a ver que, bem, compartilhar gostos literários é essencial nesta vida (na minha mesmo) e, assim sendo, ser amiga de C* alimentou bastante meu interesse pela filosofia da Tiburi. Formamos caravanas para cada quarta mensal do Filosofia do Rock (CCBB-DF), compramos e autografamos "livros bem lidos" (cheio de post it) como a Tiburi disse pra mim, formamos amizades metafísicas (como Tiburi disse à C*).  Saímos  depois a todas as quartas para termos discussões apaixonadas discordando ou concordando com o que a filósofa (esta palavra tem um sublinhado vermelho na tela de edição ¬¬') e quem ela convidava pensavam, achavam, diziam. Àquela altura, algumas provocações me atravessavam plenamente.
Tudo isso pra justificar o porquê de eu não ter resistido à capa da revista Cult [1] do presente mês. Esse texto foi inspirado pela leitura da entrevista da Tiburi (p 16-27).  e do ensaio "Os Novos feminismos e os desafios para o século 21" (p.52-55), da  cientista social Carla Cristina Garcia . 

Três elementos trouxeram-me aqui: 

1) A resposta incisiva da filósofa sobre a necessidade de lutas plurais e pra além da esquerda tradicional;2) A titubeação noutra resposta sobre ter tido ajuda na educação da filha (sendo uma mulher inserida no espaço público); 3) A imagem de Carolina Maria de Jesus em meio à reflexão de Garcia.

obs: generalizações para fim específico.
obs2: não é resenha da revista
***

Talvez um dos grandes efeitos da "Marcha das Vadias" tenha sido a generalização do receio e resiliência de feministas não-Negras em parecerem racistas. Erros de percalço (que não discutirei aqui) levaram à relativa centralidade a questão das opressões que pessoas oprimidas exercem (ex: mulher Branca que é racista), pois "de privilégio, ninguém quer abrir mão". Certo. E o que chamo aqui de  "feminismo politicamente correto" é aquele que abarca tudo e todxs, partindo das intersecções APENAS à nível de discurso, teoria, academia e imaterialidade. O velho terror da "casa grande tão democrática" se volta, até mesmo, às mulheres. Percebam a ironia: esses dias, uma amiga branca  me perguntou "Uai, mas X falou contigo? te cumprimentou?" e respondi: "Ora, mas é óbvio... Eu sou Negra!". Notando o desconforto da interlocutora, continuei: "E ela vai dar brecha à possibilidade de parecer racista?". Foi obviamente retórico, e a resposta é "não", ninguém quer ser a feminista imperfeita. Minha proposição aqui não é nenhuma apologia torta, o que eu quero destacar é que feminismo também é prática, é cotidiano, é carne. Noutras palavras: feminismo não é APENAS caneta, retórica e citar Audre Lorde. Aliás, adoro a citação de outra amiga: "deixem a Audre Lorde em paz! Ela tá morta!". Apoderando-me de uma apropriação de Judith Butler [2], digo: E rir de qualquer estrutura opressiva de poder, ainda que ela seja mutável, é essencial pra sobreviver.


Cartaz de convocação da Marcha das Vadias

SENSOR DE CERTO E ERRADO [2]

A disjunção entre teoria e prática, ou mesmo, do "feministês da boa retórica" (colchas de citação sem nomear) e práticas discriminatórias, é uma estratégia indireta de manutenção do status quo. Isso porque os avanços dependem de enfrentamentos práticos, de materialização das utopias. Há certo tempo, tenho observado certa "mea culpa" da esquerda tradicional e de tendências feministas em relação ao racismo, o "cuidado", o pedido de licença, a reiteração de elementos da cultura negra e outras práticas que, na realidade, são vazias. No Brasil, é feio ser racista, então existe racismo, mas não racistas. Pra mim, a base de todo engajamento político é praticar o que você prega. Uso intencionalmente a palavra que tem o sentido religioso pra evidenciar um caráter de culpa e simplesmente centrada na moralidade. Não estou interessada em dívidas morais que não têm corpo, mas estrelas de ouro. Não é uma forma de incentivar a exclusão da teoria-em-si-mesma, mas de propor ampliação pro mundo real, aplicação. Pra mim, ser feminista não é ser mainstream, tampouco ganhar estrela dourada (sequer existe essa possibilidade). Minha experiência de vida e as leituras levam-me a pontuar a prática feminista como estratégia diária de sobrevivência; então, o meu sensor de "certo" (ser fosse o caso) está em consonância com a resposta de Tiburi [3]:


"[...]Penso que o feminismo não é apenas um movimento, 
mas uma ética e uma política. O feminismo é uma 
visão de mundo que parte da crítica da dominação e da opressão
 masculina que é a mesma opressão capitalista.
 Mas o feminismo é, mais ainda, outra forma de trabalhar
 o poder na direção do que hoje em dia denominamos de "potências". 
A meu ver, democracia hoje é sinônimo de feminismo [...]" 


Em suma: pra mim, certa é a luta real contra as desigualdades. Essa luta também se trava no dialogo entre as diferentes perspectivas/lugares no mundo, mas compartilhando a convicção de que 1) não são as pessoas subalternizadas que devem estar disponíveis a ensinar e ter paciência eterna e 2) a tentativa das categorias hegemônicas  despejarem pena, benevolência e concelhos são dispensáveis. Solidariedade unicamente discursiva não adianta. Dizer que é Negrx se você não é, também não. Eu sei, Olivia Pope também sabe, que é ótimo consertar problemas alheios, mas se você está socialmente numa categoria privilegiada, em vez de propor que eu faça o certo, você deve compreender o funcionamento do SEU privilégio antes de (continuar) ordenando. O mundo ainda é desigual sim e chamar a empregada doméstica, que você trata ou como mucama ou como quase-da-família, de secretária não muda nem o destino dela nem dos filhos que ela tem ou poderá ter. Ter até umx amigx ou se re relacionar com negro/a não muda o destino dessa pessoa, sobretudo porque esse discurso invisibiliza o conflito de interesses. Esse senso de "certo" corresponde a um giro de 360°.


"UM POUCO MAIS DE RESPEITO" [4]

Uma feminista radical branca logocêntrica veio questionar, certa vez, quais as feministas que eu lia já que eu não tratava a bell hooks com toda a centralidade que ela e suas amigas de "adoração ao logos" tratavam. Audácia real dessa "tirada antropológica" lançou minha atenção ao senso de certo dessa galera. Se por um lado as futuras teóricas destilavam críticas ferozes às feministas brancas na estrutura mais acadêmica possível, por outro, ignoravam questões na única feminista Negra que conhecem além de Lorde. Era quase um "baby talk", um "café com leite", um debate "à brinca", ou o cumprimento. Aquela pessoa deixou transparecer a hierarquia, seu profundo desrespeito, e como não leva pessoas negras a sério. O melhor é que ela" é super antirracista", nos dizeres dela mesma. Como vocês entenderam o tom, não é preciso narrar como ela defendeu - sem qualquer problematização - o uso de turbantes por pessoas brancas, até porque ela usa indiscriminadamente. Ela pode.

Respeito tem a ver com a compreensão histórica das trajetórias de grupos sociais tendo em vista a reconstrução da consciência e do empoderamento. Quem cultiva o certo e para por aí, não está interessadx em estimular mudanças profundas na estrutura social. Entenda: a contribuição daquela pessoa não seria no processo de nos empoderar, mas de desconstruir a hierarquia nela mesma! Repensar o que leva à audácia de tentar reproduzir um discurso opressor ao mesmo tempo afagando e empalando. Fazer uso de discursos de mulheres Negras também é mainstream, mas não existe homenagem alguma em desgastar imagens, trechos e ideias para fins interesseiros. Trata-se apenas de demarcar um lugar de fala, um posicionamento que reforça violências.

Por outro lado, há sensores de certo quebrados ou em consonância com equívocos (pra não dizer fascismo). Na época daquele inflamado debate sobre a Marcha, decidi definitivamente deixar de ler o blog da Lola, pois o post dela de apoio, ignorava/deslegitimava o epicentro do repúdio (a junção "sutil" de sexismo e racismo no interior da manifestação feminista contemporânea). A aderência dela foi tão explicitamente descompromissada conosco, quanto a do pronunciamento no evento da Faculdade de Direito da UnB, chamado "Gênero e direito" - mas o artigo foi decisivo. Óbvio que abstrair qualidades é, muitas vezes, um exercício vital, mas a disjunção escancarada merece rechaçamento pleno.

Com isso, meu senso crítico aponta para a importância da luta por justiça social ser mais interessada que interesseira. Mais preocupada em resoluções e respeito reais que em aparências, retóricas e afins. Pensamento, voz, subjetividade, tudo isso é corpo, mas não pode encerrar-se aí, é necessário sinergia enquanto prática política. É certo ser de esquerda, é certo gostar de livros, é certo se manifestar... mas qual o sentido pra você? É preciso ter alianças, solidariedades, mas reais. Não precisamos das migalhas da sua ética, mas do pensamento e da vida entrelaçados com políticas de equivalência.


A IMPORTÂNCIA DO NÃO DIZER

Embora eu tenha observado engajamento consciente de lugar e interesses,  senti que era importante escrever esse post quando li o trecho em que ela foi questionada da seguinte maneira: "E como você conciliou o trabalho e as viagens com a criação de sua filha?". A resposta a isso, bem como a outras vivências são capciosas e ela não desenvolve muito. Acredito que, no trecho "Tive ajuda de todo mundo", há grande chance de ter uma mulher Negra suprimida do discurso. Compreendi essa supressão como uma posição intrigante.

"Penso em feminismo 
como política de colaboração,
 de transformação, 
de defesa e garantia
 de direitos básicos" 
(Márcia Tiburi)

Primeiro pensei que, uma leitura rápida me levaria a pensar na força extrema duma negação debilitante,  do tipo que catapulta pra depois da fronteira. Seria conveniente para alguém como ela não se pronunciar sobre essa experiência pessoal. Ocultar o que é político no social pode ser realmente reconfortante pra pessoas privilegiadas, traz benesses mil. Lembrando, no entanto, do estilo provocativo, procurei desmontar melhor a estratégia. Ora, a construção da ideia de função e prática feminista dela nas páginas anteriores leva em conta a inclusão plena, não pela falaciosa ode à diferença, mas na radicalidade concreta, na utopia de destruição da estrutura opressora que desliza em várias direções. Depois do raciocínio sobre "senso de correto", seria muita ingenuidade crer que esse belo discurso escrito, proferido por alguém privilegiada assim pode ser corpo no sentido de prática. Seria, mas 1) se ela se posiciona sobre as especificidades de mulheres Negras, 2)  nessa resposta não encontramos deslegitimação nem falar pelo Outro e 3) não há mea culpa, nem performance de não querer parecer racista. Talvez.

Talvez  esse não dizer configure uma alternativa para ela. Mas acredito que esse não dizer (que se estende ao não usar turbante) como práticas de não apropriação da fala e protagonismo.
Talvez seja logro, também.

Fique espertx galera feminista, pois estamos de olho!



Preta, Nerd & Burning Hell


REFERENCIAS


[1] Cult - Revista Brasileira de cultura, São Paulo, nº 199, março 2015. 
[2] BUTLER, Judith. Problemas de gênero. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
[4] “The book argues convincingly that black feminists be given, in the words immortalized by Aretha Franklin, a little more R-E-S-P-E-C-T....Those with an appetite for
scholarese will find the book delicious.”—Black Enterprise. (in COLLINS, 2000).
COLLINS, Patricia Hill.  Black feminist thought : knowledge, consciousness, and the politics of empowerment,  New York: Routledge, 2000. 2. ed. 



PS1: Não é um post sobre querer ser dona de feminismo nenhum ;)

sábado, 11 de abril de 2015

MIXTAPE Nº1


Aina More 
Ambience




Laura Mvula 
Green Garden



Tamar-kali 
Warrior Bones



Jill Scott
When I Wake Up


Lianne La Havas 
Tease Me



Afua Richardson
 Tuesday Ride



Nina Simone 
Blackbird


Akua Naru
Poetry, How Does It Feel



Noisettes
 Never Forget You



Anthony Hamilton & Elayna Boynton 
in "Django Unchained"
Freedom



Erykah Badu 

Drama



Alicia Keys  ft. Nicki Minaj

Girl on fire (inferno version)



quinta-feira, 2 de abril de 2015

COMENTÁRIO SOBRE "NÃO EXISTE DESVER", "VIVENDO DE AMOR" E OUTROS PROBLEMAS.


Essa semana reflexões sobre amor e relações afetivas permearam as conversas com várias amigas. A saúde mental é um dos pontos de relevância. Uma delas, ao ler o clássico "Vivendo de amor" da bell hooks, perguntou o que eu achava do que transformei em seções abaixo. Outra falou que o problema pra quem tenta estabelecer relações abusivas com alguém que já se recuperou de outra "tá no sal", pois uma vez que "vemos, é impossível desver". Isso tem muito a ver com autoestima, construções sociais e outras complexidades. Como diz uma outra amiga, parafraseando outrem: ...superficial, louca e outros problemas".  Só sei de uma coisa: "A melhor forma de ter alguém do seu lado", diz a cultura, "é mutilar a autoestima, enlouquecer e evidenciar a fraqueza, o equívoco, a vulnerabilidade e a histeria". 
Uai. Mas isso aí não é o século XIX?



(bell hooks)

(Audre Lorde)


 * * *


MINHA PERSPECTIVA (NERD) FEMINISTA NEGRA

Acredito que a bell hooks é, se não a única, uma das poucas feministas heterossexuais que fazem parte das minhas leituras preferenciais[1]. Eu curto muito as reflexões feministas Negras lésbicas escritoras e/ou acadêmicas estadunidenses das décadas de 70 e 80. A razão central disso é que a heterossexualidade em textos de hooks é pontuada sem problematização e com grande e positiva ênfase à norma. Entendo o momento histórico, a imensa contribuição das reflexões (em relação à mídia, por exemplo) e o foco relacionado aos próprios interesses, ok. A questão é que, eu procuro outras perspectivas que perpassam Angela Davis, Audre Lorde, Abena Busia, Toni Cade, Cheryl Clarke. Mais recentemente: Patricia Hill Collins, Sheena C. Howard e Grace Gipson. Com isso, quero evidenciar que a minha percepção política diverge em aspectos de gênero, performance e sexualidade da autora da reflexão comentada aqui.


MULHERIDADE NEGRA E O IMPACTO AFETIVO

Antes de pensar a afetividade da mulher Negra, é preciso saber o que exatamente somos. Óbvio que, sendo eu uma adepta da política de identidade, pontuo que somos diversas, mas que temos trajetórias históricas semelhantes nas pós-colônias. Trajetórias essas ligadas sim ao sexo, mas não resumidas a ele. Para bell hooks, o conceito de "mulher" não é problemático e, de modo geral, está associado à heterossexualidade e à conformação de sexo biológico (cis) e gênero (como performance e expectativas). Também notamos isso no termo cunhado por Alice Walker em meados dos anos 80: mulherismo (Womanism). Não me identifico com nenhum desses pontos de vista, pois acredito que há uma série de mulheridades possíveis e que elas não estão associadas necessariamente a um "sagrado feminino" e a forças místicas do universo panteísta.
Acredito na célebre ideia de Beauvoir de que não se nasce mulher, mas torna-se. Bem como Negra. Bem como a miríade de construções sociais que incidem sobre nossa subjetividade e, sendo assim, nos localizam. Em se tratando de mulher, é importante pontuar a diferença entre sexos (macho e fêmea) e gênero (performance, orientação sexual e sexo) e, chegar a um ponto: a hegemonia diz através dos símbolos que Negras não são mulheres. E aí, o que nos faz mulheres?
Por um lado, nossa experiência de não-mulheridade é evidente, pois quanto mais branca, mas frágil e mais feminina[2]·, observa-se, na verdade uma invisibilização da mulher Negra. Num discurso célebre chamado "E não sou uma mulher", Sojouner Truth questionou: se mulher corresponde a uma categoria preferencialmente protegida, sensível, incapaz de trabalhar, ela, que fora escravizada, e, portanto, considerada forte braçal e emocionalmente, não poderia ser uma mulher. Somos o que Audre Lorde traduz como "mulher inaceitável", no sentido de que nossa existência, guarda o juízo de valor empreendido pelo olhar do "um". Entram aí questões de duplo-vínculo.
Acrescento que os estereótipos abrem duas possibilidades: a mulher Negra que é masculinizada ou a que é objeto sexual. Vamos ao primeiro. Segundo Lisa Couvignon, e a nossa vida diária, racismo e sexismo incidem com uma força tão grande sobre garotas Negras que não é raro desenvolver modos de resiliência em relação a uma das identidades para reduzir os danos da marginalização. Por masculinização, para o fim desse texto, entende-se (generalizantemente binário) a performance e internalização de valores convencionalmente (normativamente) entendidos como "de homens": força, coragem, agência, independência, ação, objetividade, domínio e não expressão de emoções. Em suma, se nós somos masculinizadas, nossa contraparte é taxada como "castrada por nós". Somos, portanto, fortes demais, porque superamos o (estereotipadamente) masculino mais masculino.
O outro lado, nem um milímetro menos cruel, é do objeto, da propriedade violável e que, ainda assim, cuida, nutre e protege:

Figura 1 "O filho bastardo" (Adriana Varejão)


Essa pintura da Adriana Varejão sintetiza a gênese da nossa "democracia racial" instaurada no Brasil colonial. Numa das camadas de análise, é observável que a Negra, à esquerda, está sendo violada por um sacerdote branco. Se engravidar, obviamente, a criança será lançada ao mundo como refugo somado à sua mãe. Essa criança e essa mãe, somos todas nós: relações familiares brutalizadas em algum nível. Ainda que ícones como a Globeleza estandartizem a fêmea preta, ela fetichiza a trajetória histórica dum pedaço de carne que é aberto ao sexo, à exploração, à violação. O traço no centro da pintura evidencia esse caráter de carne-tão-somente e de vagina simplesmente. Cavidade. Nada de "intimidade, compromisso e paixão" (citando hooks), nada de continuidade. Na música "Mucama" Gabriel, o Pensador diz: "Na quarta feira é a volta pra realidade" e "Não é a quarta feira que é de cinzas, é a semana inteira". A foto abaixo mostra uma relativização do entendimento dessa realidade, senão a acomodação dele (eu chamaria de desserviço):


Figura 2 A atriz Sheron Menezes como apresentadora do concurso de Globeleza


Nenhum desses aspectos fêmeos é sujeito de si, saudável emocional e psicologicamente. Não tem como ser. Se autoestima fosse um prédio, o nosso seria aquele proscrito: ruínas em chamas. Em consonância com hooks, concordo que a mulheridade Negra, em suma, é aquela que deve se reconstruir, sobretudo, através do autoamor (não o narcísico, pois esse é pra Eles), pois a sobrevivência à escravidão foi exatamente a partir do enrijecimento das emoções. Não precisamos ser mais reativas daquela maneira. Sobrevivemos e os desafios são outros. Agora, amar é um gesto político, tanto amar a nós mesmas como a nossa comunidade.


AFETIVIDADE

AFETO. s.m. (sXV) 1  sentimento terno de afeição por pessoa ou animal; amizade <seu a. por nós era patente>  2  p.met. o objeto dessa afeição <seu a. eram as filhas>  3  psic sentimento ou emoção em diferentes graus de complexidade, p.ex., amizade, amor, paixão etc. 4  psic um dos três tipos de função mental [As funções mentais se dividem em afeto, cognição e volição.] 5  psicn expressão qualitativa da quantidade de energia das pulsões e das suas variações [Para Freud, seriam reproduções de antigos acontecimentos de importância vital e, eventualmente, pré-individuais.] ¤ etim subst. lat. affectus,us 'estado psíquico ou moral (bom ou mau), afeição etc.' ¤ sin/var ver sinonímia de meiguice e antonímia de desprezo e repulsão ¤ ant ver sinonímia de desprezo e repulsão ¤ hom afeto(fl.afetar) (HOUAISS Eletrônico)

Quando penso em "afeto" vem à mente a relação que desencadeia a arte contemporânea, como aquela pintura de Varejão. Noutras palavras: é a mobilização subjetiva que pode ser positiva (gostei) ou negativa (não gostei), mas que toca, afeta, mesmo que pela indiferença (não tocar é uma forma de toque).
Em que medida aqueles estereótipos que incidem taxando-nos como não-mulheres minam nossa capacidade de nos afetarmos, de amarmos? Como diz hooks: reprimir emoções possibilita a solidificação do "eu", uma resistência à vulnerabilidade, o que eu adolescente chamava de "autossuficiência". Precisar de outra pessoa, bem como qualquer fragilidade, é perigoso. Mesmo que o perigo não seja iminentemente de recurso material. Então, nossa afetividade está no âmbito da falsa consciência e da baixa-autoestima, da falta de cuidado consigo mesma, reflexos do olhar do outro para nós. E como pode alguém que não se ama, saber amar?
Numa cultura que despreza a Saúde emocional, que ainda se constrói a partir de ideais de amor oitocentistas, em que predomina o conto de fadas (alvas), o amor romântico do rapaz pela donzela (alva), o morrer de amor, o sofrer por amor, a perda (ser amadx como objeto que é possuído), o ciúme (ser amadx como propriedade), a conquista (ser amadx como território), a hierarquia e papeis de gênero yin/Yang. A corrente cultural burguesa vai em direção unívoca a patologias disfarçadas de afetividade, pois alguém domina e alguém é dominadA, porque é geralmente uma função social ligada ao feminino (arquetipicamente, óbvio). Esse aspecto de dominação é binário sim, mas se aplica plenamente às relações homoafetivas, uma vez que o modelo de relacionamento do século XIX, tão em voga, pressupõe um par yin/Yang, macho/fêmea, branco/preto, forte/fraco, quente/frio, dar/receber...
Embora bell hooks sublinhe que nós, Negras, devido a trajetória histórica de violência, tenhamos nos tornados reativas a ela, não problematiza o ideal de amor que nos engasga. Não acredito que a nossa maneira de amar tenha que se adequar ao padrão europeu, adoecedor, principalmente porque ele nos repele de diversas maneiras. Tanto politicamente, quanto a partir da individualidade, é essencial para nós, Negras, sermos generosas, cuidadosas conosco mesmas. Primeiro: olhar para as instabilidades, feridas, necessidades e reconhecer nossas fendas, nossas mutilações emocionais. A partir desse encontro consigo, desse fortalecimento interior (como a dança consigo mesma de Alice Walker) é que nos sentimos plenamente merecedoras de afetos alheios e que aprendemos a enxergar como possíveis e, assim, recebê-los. Com uma subjetividade saudável, podemos clamar:



É o amor interior, como usa hooks pra diferenciar de amor próprio, que impede relações doentias, de dominação, de duplo-vínculo, de manutenção de violência simbólica ou física. A falta de confiança faz crer que é merecedora de rudezas e afins; que ninguém mais te quer e que não há horizonte de perspectiva além dos ciclos de dor. Acredito, como mulher Negra, que a construção duma forma saudável de afetividade só é plena sem hierarquias relacionais e que isso é rompimento com lógicas que engendram todas as discriminações oriundas do capitalismo. Em suma, o nosso desafio é imenso: ter uma vida interior valorizada e a não submissão aos critérios afetivos da sociedade pós-Romântica e ainda tão romântica.

INTER-RACIAIS
Mucama na cama do patrão
Me chama, me chama de negão
(Cidade Negra)

É uma figura bem comum em filmes brasileiros aquela mulher Negra pobre que trabalha para uma família branca nuclear. Na trama ela sempre despreza os homens do seu contexto (em sua maioria negros) chamando-os de "folgados" e outras coisas. Há uma relativização quando o preto é rico, mas é apenas nesse caso que ele é considerado "de valor". Neste caso, ele busca sua "cara-metade" branca que funciona como um troféu muito comum no meio futebolístico. Não basta brancura, mas a "loirice", o estandarte feminino, o corpo escultural. Enfim. Valor agregado. "Negro, MAAAS". Como a matriz de poder irradia de valores masculinos, é permitido ao homem isso:


Figura 4 O jogador Ronaldinho Gaúcho mostrando que riqueza junto com masculinidade é poder, até mesmo sendo preto. Aliás,  perguntando: "dinheiro embranquece?"


Quanto à mulher Negra, bem, usualmente não somos consideradas troféus. Muito pelo contrário. O que se nota com frequência é um homem branco 1) disfuncional, ou seja, num nível considerado próximo a ponto de estar com uma Negra ou 2) dominador, aquele que esposa o espólio, que domina sua "coisa". Favor não usar "esposa" no lugar de companheira, porque não é pra "desposar" = assumir como sua. Essas relações de assimetria, geralmente, são vistas como positivas, como um imensurável favor. Veja bem.
Certamente, esses padrões são observados de forma semelhante em relações homoafetivas, pois essas são infelizmente ainda muito tributárias da heteronormatividade. Como disse acima, a hierarquia yin/Yang é um aspecto da afetividade comprometida com as violências.
Figura 5: Presidente Fitz e Olivia Pope da série "Scandal"
Apesar disso tudo que parece desmoronar sobre nossas almas e corpos, existem parcerias não contratuais e o amor. O senso comum foi o que citei, mas há uma infinidade de relações em que a branquitude é repensada (quase toda pessoa branca é racista) bem como os privilégios. É uma questão de negociação, de acomodações por uma razão maior. O amor inter-racial é possível, mas é necessária maturidade de ambas as partes. A altivez e o amor interior da mulher Negra são essenciais em qualquer experiência de amor.



PARCEIRIA AFETIVA



Embora o trecho acima do "Cartão de Visitas" seja escrito usando pronomes masculinos
Figura 5: Kordale e Kaleb
ele problematiza as relações desiguais e, indiretamente, contrapõe o amor ao duplo-vínculo inerente às relações afetivas contratuais (namoros, noivados, casamentos). Uma vez feminista não tem como "desver" que o texto é bem excludente, que é preciso torcer bastante pra reencontrar o sentido dele. O que eu acho relevante é a problematização do egoísmo, do cortejo amoroso e tudo que fundamenta relações desiguais/violentas. É como violência simbólica: se já viu não existe "desver". Óbvio que relações livres podem (e tendem) a certas assimetrias ligadas aquela já citada construção social do amor e do 
romance.








HOMEM E MULHER NEGRXS


Figura 6: Isleana e Ramires.
O jogador Ramires é um dos poucos de destaque casado com uma mulher Negra.

Homens negros são historicamente flagelados porque são negros. Foram linchados, castrados e colocados como animais e objetos sexuais. Há um mito sobre o pênis negro que é de um racismo tão naturalizado que é comum que eles gostem de reproduzir, lembrando que isso significa ser mais homem, mais dominante... mas esquecendo que isso significou muito recentemente "violador". É inegável que isso junto ao sexismo que torna as emoções ainda menos possíveis a eles faz com que sejam náufragos. Uma vez que eles também não se amam como indivíduos negros, quando se relacionam conosco, vivenciam isso.  Já quando procuram na mulher branca um troféu que ofusque sua negritude, na realidade estão se segurando no primeiro bote e deixando suas mães, irmãs e filhas sem pensar duas vezes. E, se podem pisar nas cabeças delas/nós, não hesitam, porque podem. O que normalmente observamos é a rejeição de homens negros. Quando digo rejeição me refiro à construção de relações duradouras, o que não exclui a exploração do corpo feminino (Entendo que privilégio é algo que se trabalha para abrir mão, sempre. Quem tem privilégio tem, simultaneamente, a chance de oprimir e o contrário).
Patrícia H. Collins fala de "novo racismo" (new racism) como uma discriminação que conjuga raça e gênero/sexo simultaneamente: um contorno do racismo especificado pelo gênero. Isso torna as relações afetivas com Negras quase sempre opressivas. Negritude feminina e masculina têm expectativas sociais distintas, mas as mulheres estão sozinhas num dos lados da linha de fogo.



Esse vídeo da Aina More mostra uma forte interação e afeto cotidiano entre pessoas negras.
Imagem poderosíssima. #MORE


HOMOAFETIVIDADE DA MULHER NEGRA


Figura 7:O amor entre mulheres Negras é militância
Na segunda onda do feminismo, nos EUA, observa-se um grande engajamento das mulheres Negras lésbicas tanto no âmbito da ação política quanto no engajamento teórico. A mais conhecida é, sem dúvidas, a Audre Lorde. Ela escreveu muito sobre visibilidade. Uma questão levantada por Monique Wittig foi que lésbicas não são mulheres e é um argumento aceito em meios feministas radicais. Eu já considero mais interessante "mulher identificada" ou "lesbiana" tanto pela carga histórica ressignificada como pela afirmação de mulheridade. Como afirmei acima, sempre foi negada a mulheridade negra devido ao racismo. Por essa razão, nomear a mulheridade preta é essencial pra nos situar politicamente: mulheres Negras. Sim, existimos. Sim, estamos aqui. Essa mulheridade não é meramente essencialista ou biologizante: Larvene Cox é uma mulher. E por que, não seria?
Partindo da ideia de que lesbiandade é um tipo de infração de regras da sociedade que se estabelece a partir do mito fundacional cristão o comum é o silenciamento dessa experiência quando relacionado a mulheres brancas de classe-média. bell hooks não aborda possiblidade homoafetiva exceto amor entre mãe e filha e, ao citar tanto a bíblia, evidencia o tabu edipiano.
Audre Lorde, por sua vez, trata da lesbiandade como uma espécie de sororidade. Em vez do caráter messiânico de hooks, ela opta pela via transgressora: o erótico que, pra ela é:




Nessa ótica, lesbiandade ou a mulher-identificada-com-mulher é uma forma de empoderamento da mulheridade, é a partilha, o gozo, a segurança é o uso da própria força criativa autônoma em relação ao racismo, sexismo, patriarcalismo. Sabe quando uma pessoa não aceita que a participação dela em espaço X não é permitida...?


CONCLUSÃO

Mulheridade Negra pressupõe uma sobreposição de estratégias de sobrevivência. Ele deve se fundamentar no "Amor íntimo" que hooks cita como o cuidado consigo mesma em todos os âmbitos da vida (alimentação, aparência, organização do próprio espaço). Apenas a apropriação de si mesma possibilita autonomia de agência e de vazão à força do erótico. Esses elementos-chave sustentam o entendimento de merecimento/recebimento de amor/ estima/atenção/olhar/desejo de um ou uma outrem também saudável. Com "saudável" não desejo criar um paradigma que joga pra fora da república quem não tem uma construção favorável a si, mas destacar novas possibilidades.  Após a consolidação duma autoestima saudável é possível a construção de pontes, de relação com outras pessoas, inclusive sem que haja hierarquia de qualquer natureza. Utopia, mas por que, não?


Preta, Nerd & Burning Hell



REFERENCIAS


BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: Lendas e fatos. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1980. 3.ed.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Editora Civilização. Brasileira, 2003.
CADE, Toni (org.) The black woman: an anthology. Canada: A Mentor Book,1970.
COUVIGNON, Lisa. All the girls are white, all the blacks are male: experiences of young black women on the east coast (Tese). Faculty of San Diego State University, 2010.
DAVIS, Angela. A democracia da abolição: para além do império das prisões e da tortura. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.
hooks, bell. Vivendo de amor. in:  WERNECK, Jurema; MENDONÇA, Maísa; WHITE, Evelyn C. (org). O livro da saúde das mulheres negras: nossos passos vêm de longe. Rio de Janeiro: Pallas/Criola, 2000.
______. Linguagem: Ensinar novas paisagens/ linguagens. in: Estudos
Feministas: Florianópolis, setembro/dezembro 2008. Tradução: GONÇALVES,
Carliane Paiva; PINTO, Joana Plaza; SILVA, Paula de Almeida.
______. Intelectuais Negras. in:  Estudos feministas: Dossiê mulheres negras.
Ano 3, semestral, 1995 - Tradução de Marcos Santarrita.
LORDE, Audre. Textos escolhidos. Difusão Herética: edições lesbofeministas independentes (folheto).
Cartão de visitas:<vocetemquedesistir.noblogs.org/post/2010/06/06/cart-o-de-visita/>.





[1] Recentemente percebi que ando lendo judias lésbicas acadêmicas estadunidenses também. São brancas, mas no contexto dos E.U.A são identificadas como pessoas de cor (People of color = not normal), então elas focam aspectos de diferença numa perspectiva afim.
[2] Segundo a ética inglesa do século XVIII (Era Vitoriana). Isso também é observado no Brasil oitocentista. Por exemplo, no romance naturalista "O bom crioulo" de Adolfo Caminha há a descrição duma relação homossexual entre um negro que é posto como forte, brutal, animalesco e um branco que é "afeminado", frágil, dependente, indefeso. Embora inicialmente a explicação seja de diferenciar quem está no espaço privado de quem está na esfera pública, isto é, mulheres e homens da burguesia em ascensão, a lógica da diferença racial bebe diretamente desse discurso.