sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

TRADUÇÃO: Onde está meu poder? Navegando os limites da apropriação, enquanto mulher negra (Altheria Gaston)


Onde está meu poder? Navegando os limites da apropriação, enquanto mulher Negra [*]
 por Altheria Gaston [1]


Traduzido por Lucas Pamplona
Revisão: Anne Caroline Quiangala



Recentemente viajei de férias ao México, onde comprei dois vestidos que há muito tempo desejava. Esse vestido é conhecido como Chica Poblana. Fui motivada por Frida Kahlo, brilhante artista mexicana e ícone do feminismo, cujos vestidos eram coloridos, elegantes e inspirados pela sua cultura. Seus vestidos e chapéus floridos eram simplesmente fenomenais. Frida foi, inclusive, a musa inspiradora do traje de Halloween de 2014 da Beyoncé. Quando comprei os vestidos no mercado de rua de Cholula, não fui capaz conter minha empolgação.

Contudo, ao chegar aos EUA, relutei em usar os vestidos comprados. Me perguntei se eu, uma mulher negra, poderia ser acusada (e culpada) de apropriação da cultura das mulheres mexicanas. A última coisa que desejo é ofender minhas amigas México-estadunidenses [Mexican-american] e mulheres México-americanas como um todo. Como mulheres de cor (NT: designação étnica genérica para não-caucasianos), travamos a mesma guerra contra o capitalismo imperialista que viabiliza essa apropriação cultural. Sendo instáveis as linhas que diferenciam oprimidos e opressores, e sendo privilégio uma questão de contexto, deliberei se eu, também, poderia apropriar-me de algo de um grupo do qual também sinto fazer parte – mulheres de cor.

Apropriação cultural é algo normalmente chamado à atenção por grupos oprimidos, frente a grupos dominantes e colonizadores, quando esses adotam e praticam de forma não consentida as práticas daqueles. Povos de cor dos hemisférios sul e oeste, assim como povos nativos do continente americano, foram historicamente apropriados e mercantilizados por europeus, tendo sido tratados como um outro exotificado. A fascinação europeia não era uma que compreendia esses povos como sendo de uma humanidade em comum, mas sim como objetos a serem subvertidos, controlados e utilizados para o próprio prazer. Essa subjugação de pessoas de cor estabeleceu as bases para que grupos dominantes usurpassem práticas culturais e delas se apropriassem para benefício próprio.

Um exemplo de apropriação cultural e mercantilização é o rock-and-roll, um gênero musical dominado por pessoas brancas, mas originário do blues e do jazz criado por artistas negros e negras. Músicos brancos cooptaram esses estilos musicais originalmente negros, e os transformaram em um recurso de captação de fama e riqueza. Como é frequentemente o caso com a apropriação cultural, brancos tomaram algo considerado “étnico” e o popularizaram. Essa é a característica que define a apropriação cultural – o uso de poder e privilégio branco para “legitimar” as práticas e tradições culturais dos povos de cor.

A acusação de apropriação cultural também sofre críticas. Com a popularização da viagem transnacional e a imensa diversidade presente nos EUA (NT: E no Brasil!), há quem argumente que já somos frequentemente e intensamente influenciados por outras culturas, e isso ofusca o limiar entre a apropriação e a apreciação, entre o intercâmbio e o extravio cultural. Outros inclusive alegam que uma cultura não pode ser “dona” de um estilo, símbolo, gênero musical, arte, etc., tornando a apropriação, portanto, impossível. Descobri que não há respostas fáceis ou regras comuns ao tentar definir se algo em particular é um ato de apropriação.
Rotular atos específicos como apropriação – ou melhor, desapropriação – é subjetivo e situacional. Se alunos de uma escola, por exemplo, celebrarem o Dia do Índio vestindo roupas características (NT: frequentemente estereotipadas) após terem estudado e aprendido sobre tradições e culturas indígenas, isso pode ser considerado aceitável. Contudo, mesmo quando a apreciação cultural é demonstrada de forma positiva, ainda corremos o risco de que alguém se sinta ofendido.

Conforme refleti mais acerca de estar cometendo apropriação ao usar meu vestido, me fiz as seguintes perguntas, pensando sempre que as consequências são tão – se não mais – importantes do que as intenções.

Reduz? O ato reduz a riqueza da cultura a uma visão estreitada? Frequentemente, atos de apropriação cultural minimizam ou supersimplificam a diversidade ao reduzirem a cultura a alguns poucos símbolos.

Ridiculariza? O ato tira sarro da cultura? Diversas vezes, atos de apropriação cultural exageram ou distorcem as representações visuais da cultura.

Ofende a fé? Se o ato é irreverente frente a práticas e tradições sagradas de um grupo cultural, é um ato ofensivo de (des)apropriação.

É uma falsa caracterização da cultura? O ato é uma verdadeira e precisa representação da cultura, ou o significado real foi distorcido?

Promove estereótipos? Se o ato contribui com estereótipos comuns do grupo em questão, não deve ser feito. Ponto. (NT: tais como blackface e caricaturas)

Desumaniza? Em outras palavras, o ato leva a inferiorização dos membros da cultura representada? Se o ato contribui com qualquer forma de objetificação – a visão das pessoas como objetos de gratificação e prazer, e não como seres humanos dignos de respeito – o ato pode ser apropriador.

Quem se beneficia? Seja através de dinheiro, fama, promoção social ou outras benesses, é importante nos atentarmos se quem veste/atua/demonstra a outra cultura “ganha” ao custo dessa representação.


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Altheria Gaston

[*] Traduzido com a permissão da autora.
Texto originalmente publicado como "Where's My Power?: On Navigating the Boundaries of Appropriation as a Black Woman" no site For Harriet em 8 set. 2015.

[1] Altheria Gaston é professora. Cursa PhD no campo de estudos interdisciplinares na Universidade Cristã do Texas (TCU). Suas áreas de interesse são: estudos de gênero, feminismo negro, interseccionalidade e novas mídias. Contribui  regularmente no site For Harriet.

sábado, 28 de novembro de 2015

APENAS (MAIS) UM PENSAMENTO INOCENTE

Não é que eu
Seja racista...
Mas existem certas
Coisas
Que só os NEGROS
Entendem.
Existe um tipo de amor
Que só os NEGROS
Possuem,
Existe uma marca no
Peito
Que só nos NEGROS
Se vê,
Existe um sol
Cansativo
Que só os NEGROS
Resistem.
Não é que eu
Seja racista...
Mas existe uma
História
Que só os NEGROS
Sabem contar
... Que poucos podem



Entender.
(Ponto Histórico - Luiz Carlos Amaral Gomes - pseudônimo Ele Semog)



* * *



É REPETITIVO, CÍCLICO, COTIDIANO E CORRIQUEIRO

Esses dias eu estava conversando com uma mulher (Negra) sobre a maquiagem de zumbi que eu vira na internet e pretendia testar. A ideia era testá-la pra fantasia de Halloween para uma festa que sempre tenho sido convidada, mas que nunca fora. Nesse instante, uma terceira pessoa, branca, disse:

- Halloween meus ovo!

E mais, a prescrição:

- Quero ver você festejar o dia do Saci Pererê [1]!

Minha primeira reação foi: "Oi?". Daí eu disse: então eu tenho que apoiar a folclorização? Porque, até onde eu sei, o Saci jamais ascendeu ao lugar de mito ou de arquétipo, nacionalmente, no senso comum. O que eu não disse: pra mim, Halloween nunca foi algo que me interessasse. É um aspecto cultural que não me toca. Mas assim, estudar literatura gótica, pra muita gente, pode significar que tenho a "mente colonizada", não é? Tanto que perguntar a minha opinião sobre o tema sequer passa pela cabeça deste alguém.

a)Posto: o enunciador tem testículo e se sente poderoso para impor opinião não solicitada. Homem-cis sempre se sente a vontade para emitir opiniões sobre o que não lhe diz respeito porque, em sua mente, tudo o que se conhece *tudo que foi tocado pelo ímpeto colonizador* lhe pertence.
b)Pressuposto: a interlocutora (eu) é mulher e foi simbolicamente agredida. Ênfase no que "falta" em mim e excede nele. Mas, neste contexto, o que significa não ter testículos? Significa que essa pessoa quis deixar evidente sua leitura de mundo de que o importante, o que prevalece é antes o falo. Quem tem falo, fala.
C)Subentendido: ele sabe que sou capaz de pensar criticamente, mas insiste em exercer poder reafirmando sua localidade e minha absência. Achou que fosse silenciar. Aliás, a fantasia colonial foi essa. Controlar o que eu devo ou não me identificar. O mais letal desse “subentendido” é a afirmação de minha “inabilidade crítica” ou “inocência” para captar o “meu engano”.

Ele não faz ideia do quanto isso foi violento, porque em sua cabeça de “não sou racista”  ele não fez nada, além de “me ajudar a sair da ignorância”. Isso, seu povo (europeu) tem feito há tempos com o meu (africano) há muito mais de quinhentos anos, excluindo nossa humanidade, nossa perspectiva, nossa sabedoria e nos explorando com a sua justificativa que deixa pra trás sua responsabilidade. Certamente há sempre alguém para limpar o que ele deixou atrás. E eu sou apenas uma “raivosa” e “alienada”, veja que surpresa: isso é tão verdade que é preciso meu silêncio para ele provar essa soberania. Ele pensa isso dos seus amigos intelectuais revolucionários? Ele diria que seus amigos devem TODOS se identificar com o Visconde de Sabugosa? TODOS eles reduzidos a um pequeno e caricato milho falante? Acho que não. Suponho que preferem ser um Prestes, afinal: “cavaleiro da esperança” parece mais honroso. Glória do sul, lembremos disso.

A dissociação entre o que ele disse e o que ele acha que disse é um paradoxo paralisante porque impede qualquer diálogo. De forma alegórica, ele me força a optar por:

D) aceitar a domesticação, porque ele tanto está dizendo que “preciso me reafirmar dentro de símbolos que são meus” como está me violentando simbolicamente pela negação da minha capacidade cognitiva. Aceitar porque a associação violenta entre NEGRITUDE - DELINQUÊNCIA - SOLIDÃO - ABANDONO não é explícita e pretende que eu aceite que a violência não existiu. Se eu não aceitar ele pode chorar, gritar e negar até a morte, além de criar o grande mal estar que se instaura quando o racismo é denunciado.


SOBRE OS LADOS DA FORÇA

Curioso pensar que nós, "do lado certo" (mais à esquerda), não temos coesão nenhuma. Que a coesão e inconsistência da direita quase chegam a causar inveja. Mas não, não. É impossível "desver".

"Entre direita e esquerda eu contínuo Preta", disse Sueli Carneiro certa vez, à Caros Amigos. É isso, sou sempre mulher-Preta, as duas características juntas. As pessoas brancas podem não acreditar conscientemente nessa relação, não importa, mas elas ditam regras do que é melhor eu fazer "porque sim". Apenas.

Mulheres (como categoria social) não têm "ovos", "colhões" (não me refiro à biologia, mas ao símbolo) e, portanto, não precisam enfatizar seus órgãos sexuais, o seu poder de colonizar. Sua necessidade de dizer que Hellowen não é o meu lugar. De orientar a minha militância, já que o Saci é negro. É como se eu tivesse sendo barrada numa entrada. Como se tivessem solicitado credenciais.

Ou eu sou obrigada a glorificar aquela figura, se eu não quiser que a minha militância seja questionada. Engraçado que cair no descrédito é fácil. Na perspectiva dele, eu tenho que aceitar o projeto de nação caso eu queira acessar o direito de existir. E, acaso, ele sabe o que eu acho de Halloween e do Dia do Saci? Não, ele não sabe, não se importa e, o pior, automaticamente, seus olhos me leem como não autônoma, não pensante: como Mulher Preta, tal como os predecessores dele, os Iluministas, por exemplo. Ou nossos colegas filósofos.

Olha que tal:

1) Ele acha que preto tem que se reafirmar (+), mas (-)

2) Ele (branco/homem) está sitiando o meu direcionamento político porque sou Preta/mulher (-)

3)Ele tentou me realocar na nação branca "dos híbridos" em nível simbólico. Em absência, ele disse que eu não posso desejar ameaçar o poder. Ele afirmou que não posso pertencer. Afirmar que sou Preta serve pra me excluir duma modalidade de diversão e, ao mesmo tempo, me encarcerar numa lógica colonial. O garoto (o homem infantilizado) mutilado física e psicologicamente é tudo o que o homem-feito da afirmação deseja que eu seja. Só que ele ainda quer mais, quer que eu seja tudo isso, porém mulher, porém calada no lugar que ele deu pra eu me fixar.

Esse modo de estar "mais à esquerda" não se preocupa em questionar as instituições no sentido de Projeto de Modernidade que se estabelece nas Pós Colônias. É só "Brasília é linda" e "Brasília é excludente" e a "crítica" morre aí. Estar do lado "certo" é suficiente para fixar sua política cotidiana passando por cima de subjetividades com o seu trator de privilégios. 

Em vez disso que ele me ofereceu, eu posso encarar a falta de responsabilidade e empatia que ele demonstra. Isso graças à consciência do mecanismo de silenciamento que dá vida ao racismo cotidiano. Eu posso me firmar nas imagens positivas e, assim, ter certeza de que "O que parece errado, geralmente está". Essa disjunção, esse afirmar-negar no mesmo ato, é o tipo de estratégia que não funciona mais quando compreendemos conscientemente. Não existe desver. Não preciso pensar nas razões pelas quais a Shingai Shoniwa me inspira, sua imagem diz muito sobre emancipação das performances de negritude [2] que brancxs tanto gostam e sobre agenciamento, isto é, sobre agir por você mesma. 

Shingai Shoniwa: cantora, compositora e baixista da banda inglesa The Noisettes.

Minha opção é:

E) Você não entendeu, você está errado: eu sou quem eu quiser, eu me identifico com o que eu quiser. Você não tem domínio sobre mim, independente dos muxoxos e de sua carga interdisciplinar. Eu me identifico com a frase de Grada Kilomba (2010):
"Importamos [imagens] porque é empoderador"
(Grada Kilomba)


A esquerda tradicional e nacionalista tem uma vontade de reafirmar a brasilidade de forma romântica, oitocentista, abraçando a bandeira, morrendo pela fraternité. Sem pensar que símbolos como o "Saci", o "Negrinho do Pastoreiro" e o "canto das três raças" só são bons (=neutros) pra ele que ressalta. Nesses mitos, o negro e a Negra não são reconhecidos como escravizados, em vez disso, são eternizados como seres naturalmente escravos. Nós não somos obrigadas/os a nos fixarmos em imagens de resignação, crime, sofrimento e exploração.

Óbvio que temos um contexto, uma língua e uma história que não são intercambiáveis. O ponto é que "Cidade de Deus" não empodera mulher Negra nenhuma. A Globeleza não empodera ninguém. Chica da Silva só aparece como a grande Jezebel. E, alias, Chiquinha Gonzaga é  globalmente a eternamente amedrontada "namoradinha do Brasil"... branca. 

Como vemos, ou embranquece ou banha de crime, pecado e maldade. 
Você quer ser isso? Eu não. 
Então vamos de Dandara, Shonda Rhimes, Beyoncè, Oprah, Shingai Shoniwa, Michelle Obama, Grada Kilomba, Beatriz do Nascimento, Viola Davis, Ava DuVernay, Angela Davis, Patricia Hill Collins, Audre Lorde, Tempestade, Afua Richardson, Nina Simone. E quantas lembrarmos.


CONCLUSÃO

Essa situação de racismo que eu vivi mostra que pessoas próximas, ativistas, atuantes nos violentam de forma sorrateira e diária. Até que se tenha consciência desse tipo de processo,  a investida do/a agressor/a vai fundo na mente de quem sofre e implanta ideias nocivas do que se manifesta como auto-ódio. Este não passa de um engano: uma pessoa negra que perpetua ideias racistas e racialmente engendradas não tem consciência política sobre o seu lugar, porque agir como o opressor NUNCA vai te por em pé de igualdade com ele. Vai apenas te manter abaixo dele, assim como manter o silêncio sobre a violência cometida por ele. O silêncio só salva o agressor, lembrem-se sempre irmãs.


Audre Lorde Via Momentum Ssaga.


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NOTAS

[1] o que está sendo discutido aqui não é a legitimidade ou não do Saci como símbolo de negritude, mas a tentativa de enclausuramento da negritude neste símbolo. Obviamente tenho uma opinião contrária aos símbolos nacionalistas porque nada mais são que a incorporação de fantasias coloniais, quando se trata de pessoas negras. O Saci pra ser um signo de negritude tem que ser muito descolonizado, porque ele não apresenta valores positivos para as crianças. É tão humilhante quanto a Tia Anastácia porque está encarcerado na escravidão como escravo (inerentemente), ou seja, é destituído da historicidade, da violência e a escravização.

[2] Segundo Grace D. Gipson (2012), citando DuBois, a performance de negritude é exatamente o comportamento de um indivíduo negro que se vê sem lugar e, como alternativa de sobrevivência, performa o que os brancos gostariam que performasse (estereótipos): rapper, hipersexualidade, hiperforça, humor, selvageria, não entendimento...Trata-se dum processo de Dupla consciência, ter ciência de si, mas agir pela ideia que o outro faz de você. Em suma: se não performa o "negro que elxs querem" você não pode falar, mas se performar tem alguma chance. É um grande engano, como todo o castelo de cartas racista/sexista/classista, afinal, "agir como se fosse" mostra bem a impossibilidade de "ser igual".


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REFERENCIAS

GIPSON, Grace D. Performance of Blackness/Whiteness and DuBois’ Double-Consciousness in the film Bamboozled. Disponível em: <www.academia.edu/3674715/Performance_of_Blackness_Whiteness_and_DuBois_Double-Consciousness_in_the_film_Bamboozled>. Acesso em 28 nov. 15.

KILOMBA, Grada. Plantation Memories: episodes of everyday racism. Budapeste: Unrast, 2010. 

sábado, 14 de novembro de 2015

TRADUÇÃO: "Branco não é uma cor" (Entrevista com Grada Kilomba)

Grada Kilomba
Escritora, Artista Interdisciplinar, Psicanalista e Teórica Pós Colonial e Descolonial.
Atualmente é Professora convidada o Departamento de Estudos de Gênero na Universidade de Humboldt (Berlin)

"BRANCO NÃO É UMA COR"*


Suas raízes são de São Tomé e Príncipe e Portugal. Sua área de interesse e pesquisa acadêmica é o racismo. O Seminário de Kilomba na Universidade Livre, em Berlin, teve que ser movido para um dos maiores auditórios porque a quantidade de estudantes interessados é imensa.



THE AFRICAN TIMES: Como você explica o grande interesse, especialmente de pessoas brancas, quando você fala sobre racismo?
Grada Kilomba: Antes de tudo, o importante é quem leciona, o que está sendo transmitido e como. Eu procuro combinar o conhecimento acadêmico tradicional com literatura e narrativa criativa.Desse modo, a leitura se torna realmente artística fascinante, tanto para os/as estudantes quanto para mim. Aprendi esse método a partir de autores como Frantz Fanon.

Quando você lê um trabalho dele, você não sabe exatamente onde ou como categorizá-lo, você não sabe o que é. É poesia? É prosa? É ciência política?Eu aprecio essa combinação de disciplinas e perspectivas que convidam a olhar para as coisas de um modo complexo. Também me parece uma forma realmente honesta de refletir sobre política uma vez que você fala desde o seu lugar de fala.

Essa é a perspectiva que vem das margens e é muito nova para a maioria das/dos estudantes. Eu trabalho junto à uma nova geração, completamente nova, que está disposta a curar a sua história, bem como reposicionarem-se e trabalharem o seu próprio racismo.
 
Vergonha é uma reação comum quando pessoas brancas são confrontadas com seu próprio racismo. Como você transforma essa reação em algo produtivo?


Trabalhar o seu próprio racismo é um processo psicológico e não está relacionado com moralidade. Ele começa com a recusa, passa pela culpa que se transforma em vergonha e segue até alcançar o reconhecimento. Uma vez que você tenha alcançado o reconhecimento, você pode começar a reparar estruturas, o estágio da reparação. 

Pessoas brancas, muitas vezes, perguntam a si mesmas "Eu sou racista?". Essa é uma questão moral, que não é produtiva porque a resposta  seria sempre "sim". Nós temos que entender que nós somos educadas/os para pensar a partir de estruturas coloniais e racistas. O questionamento deveria ser "Como posso destruir meu racismo?". Essa pode ser uma questão produtiva já que transpõe o primeiro estágio, a recusa, e inicia o processo psicológico.

Você pode explicar por que você escolheu escrever um livro sobre o racismo diário? O que caracteriza o racismo diário?

A intenção, nos meus escritos, é marcar o vínculo entre passado e presente, fantasia e realidade, memória e trauma, usando relatos e narrativas de escravidão e colonialismo. É interessante como racismo no presente é capaz de te fazer voltar ao passado histórico. Ele re-enquadra a ordem colonial: sempre que uma pessoa é confrontada com o racismo, naquele instante, ele ou ela está sendo tratado como subordinado um "outro" exótico dos tempos coloniais. E devido a essa cadeia desde o passado e o trauma que não tem sido explorado agora, eu decidi escrever esse livro [Plantation Memories: episodes of everyday racism] na perspectiva psicanalítica de episódios de racismo cotidiano

Quando nós falamos sobre racismo, é comum que a perspectiva adotada seja macro-política, mas a realidade das pessoas negras, seus pensamentos, sentimentos e experiências são, muitas vezes, ignorados. Isso é exatamente o que procurei centralizar nesse livro: nosso mundo subjetivo.

Há uma notável diferença entre os países europeus quando se trata de racismo?

Sim e não. Uma visão crítica e reflexiva a respeito da brutalidade do colonialismo não existe na maioria dos países europeus. Na Alemanha, pelo contrário, eu presencio um senso de culpa e vergonha em torno do racismo que é mais produtivo. No entanto, isso acontece unicamente em relação ao Holocausto; quando se trata da história colonial da Alemanha isso é desconhecido até nos livros escolares. 

Acredito que é um processo coletivo que a Europa precisa completar coletivamente. Encarar essa problemática história de racismo que começou com a escravidão, seguiu com a colonização e resultou na fortaleza conjunta de hoje. Racismo tem sido sempre o centro das polítcas européias e isso não mudou até hoje.

Uma frase famosa de Simone de Beauvoir diz "Ninguém nasce mulher, mas torna-se". Você enxerga alguma verdade na variação "ninguem nasce branco, mas torna-se branco" ?

Esta é uma frase muito problemática porque uma das grandes fantasias das pessoas brancas é ter a possibilidade de escapar de sua branquitude, ser capaz de dizer "Eu sou brancx, mas não sou como os demais". O que é importante quando falamos sobre racismo é entender que branquitude é uma identidade política [que] tanto significa [ter] o privilégio de ser e estar ao centro bem como de estar ausente. Isso é ter poder, mas esse poder é encarado como neutro e normal. É exatamente esse privilégio de se manter não marcada, mas de marcar o Outro que caracteriza o racismo.


Então, o que significa exatamente ser branco?

Branco não é uma cor. Branco é uma definição política que representa historicos privilégios sociais e políticos de certo grupo que tem acessos às estruturas dominantes e instiuições da sociedade. Branquitude representa a realidade e historia de certo grupo. Quando nós falamos sobre o que significa ser branco, então falamos sobre políticas e absolutamente não sobre biologia. Assim como Negro corresponde a uma identidade política que se refere à historicidade das relações políticas e sociais, não à biologia.

Como sabemos, há pessoas Negras cujas peles são claras, outras cujas peles são escuras, outras cujos olhos são azuis. É a história política junto às práticas cotidianas** que constroem tais termos.
Como pessoas brancas podem contribuir na luta contra o racismo?

Elas podem trabalhar neles mesmas, começar fazendo seu dever de casa. Isso já é o suficiente para se questionar e comparar ao fato de que pessoas negras vêm pensando sobre isso há mais de 500 anos.

Pessoas brancas podem ser vítimas de racismo, também? 

Esse questionamento é ilógico. Aqueles que propagam o racismo não experienciam o racismo. Pessoas que excluem, nominam e oprimem não podem ser, ao mesmo tempo, vítimas da opressão. Por outro lado, elas certamente podem desenvolver um senso de culpa que, as vezes é confundido com ser vitimizado/a O que ocorre, muitas vezes é que, a culpa é tão intensa que a pessoa que agride transforma ele/ela mesmo/a em vítima e transforma a vítima no/a agressor/a . Isso permite ao/à agressor/a perceber a si mesmo/a como boa pessoa, e, desse modo, autoriza a livrar-se da ansiedade que seu próprio racismo causa. Uma pessoa negra não tem essa opção.

Você acredita num futuro sem racismo?

Não. A história e o racismo vivido diariamente mostram-me o contrário. Muitas transformações têm ocorrido, mas também estagnação, essas posturas co-existem. O fato de Obama ser presidente não significa que o racismo acabou; o fato de Merkel ser uma mulher chanceler não significa que alcançamos o fim do sexismo. E o fato de a maioria da população de Berlin ser homossexual não significa o fim da homofobia. Apesar disso, continuo desejando muito um futuro em que pessoas possam viver juntas com igualdade***.
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NOTAS DA TRADUTORA

*[Tradução Clandestina/Copy Left] Entrevista conduzida por Stefanie Hirsbrunner do African Times (2013). Disponível em: <gradakilomba.com/interviews/interview-1/>. Acesso em: 14 nov. 15.
**Embora a autora tenha usado "realidade", optei por traduzir como "práticas cotidianas" a fim de enfatizar a função do imaginário/ideologia nas nossas práticas cotidianas e como tais práticas assumem caráter indiscutível de verdade.
*** O texto original diz "[...] que as pessoas possam viver juntas e iguais". Para manter o sentido proposto no texto, optei por "igualdade" para ressaltar a equivalência política, de acessos e direitos, o que não significa que as pessoas devam SER iguais. 

terça-feira, 10 de novembro de 2015

O QUE É BRANQUITUDE?

"O Homem Vitruviano"
(Leonado Da Vinci, 34 cm x 26 cm, 1490)

Por que uma introdução do blogue às pessoas não-negras?


Cada vez que surge um tópico de discussão sobre racismo, (nós, negrxs) vemos as mesmas questões serem levantadas. Há uma forte demanda das categorias dominantes por paciência e didatismo de quem sofre opressão diariamente. O repetido esforço em explicar o que, muitas vezes, as pessoas insistem em dizer que "não concordam" antes de lerem/ouvirem. Naturalmente, não sou contra discussões e discordância. O que estou dizendo é que há uma série de pressupostos sobre raça, racismo, injúria, consciência e orgulho negro que as pessoas brancas e não-negras precisam compreender antes de se posicionarem/engajarem nas discussões. E, mesmo após compreender os conceitos, é preciso aprender a ouvir as pessoas desprivilegiadas. É preciso saber calar e dar espaço para que a pessoa negra relate sua história, suas experiências, suas opiniões, seus interesses. Certamente, após compreender os conceitos e ouvir uma pessoa negra falar, você vai se deparar com a sensação de que:

-nunca tinha pensado nisso;
-não faz sentido pra você;
-não entendeu;
-é exagero; a pessoa é impulsiva;
-você não é brancx/você é negrx.  - neste caso, antes de prosseguir ver o conceito de : Colorismo, por Aline Djokic e sobre as políticas envolvidas aqui em "Colorismo, quem decide?" por Consuelo Neves.
-você não é racista.

Isso não faz de você um monstro. Isso não é exatamente personalista. Não sejamos maniqueístas, por favor. Se você continua interessada em compreender é possível que busque em sua vida alguma dor, alguma experiência que possa embasar a sua empatia pelo que me proponho a explicar aqui. Dificilmente, você é uma pessoa completamente privilegiada, tipo: homem-cis, branco, renda-estável, cristão, heterossexual, de meia idade, magro, isto é, aquele padrão de pessoa considerada humana-padrão socialmente. Embora você possa não concordar, e dizer que não tem privilégios, que não é uma pessoa branca e/ou heterossexual, normativa é importante se localizar no diálogo que proponho.

- Você sabe o nome de três países africanos e suas respectivas capitais?[1]
- Se eu tirar o Egito da disputa fica mais difícil?
-E três países europeus e suas capitais?
-Conhece três artistas Negras que são engajadas politicamente?
-Sabe quem foi Beatriz Nacimento?
- Há algum país na África que você chama de "Camarões"?
- O que foi a descolonização da África? 

O privilégio pode ser percebido nos nossos interesses, nas nossas escolhas pessoais de saber, nas ideias que não costumamos questionar. Achar uma pessoa preta "exótica", não é achá-la linda [2]; "cabelo massa" é um juízo de valor que exotiza, mostra espanto com a diferença, mostra sua sensação de transposição da normalidade. Se você acha que "denegrir" é fazer mal, "cinema negro" é filme de terror", que "mulata" é um termo neutro, chama pessoas de "baianos", "ceará" ou "paraíbas" sem se preocupar com seus nomes e usa expressões como "neguinho isso, neguinho aquilo" precisa centralizar suas reflexões no seu lugar social, no espaço que a sociedade lhe dá para expressar suas sensações sem pensar duas vezes. Isso quando não enxerga o problema, mas, sobretudo quando discorda. Discordar/recusar, aliás, é o primeiro estágio pelo qual uma pessoa branca passa, ao lidar com a questão racial. Recusa porque entender que racismo é um problema negro... mas não é. Racismo é um problema branco. Negros não são racistas.

Na maioria das vezes, a discordância é apenas opinativa. Ou construída a partir de falácias, de ideias frágeis, e que tendem a inverter o que está sendo afirmado pela pessoa negra. Se você não para pra escutá-la, acusa de "agressiva"ou "histérica" você está fugindo do problema e a está silenciando. Independente da sua "consciência" ou "vontade", fato é que sua ação foi violenta. Repito, você não é um monstro por isso. Quanto mais automática é essa (re)ação, mas enterrada está em você a naturalização de pensar que "não há problema algum em se expressar", por mais tratora que seja sua ação. Isso chama privilégio.

Outra forma de negar é  elaborar que escravidão e sociedade de classes "são distintas segundo Marx"; que numa sociedade socialista não haverá racismo porque o problema é APENAS o de classe social; daí pode ser que apoie as causas sociais, mas seja contra políticas públicas específicas. Numa sociedade de classes, portanto, (segundo essa lógica) é justo pagar os 10% ao garçom que passou horas servindo sua mesa porque ele serviu a mesa, como se nada tivesse a ver com raça/cor. Você enxerga a disjunção?

Oprimir é violentar o Outro, mostrar o seu poder diante de alguém que não o tem. O que obviamente não é possível quando você está na mesma posição que ele/ela. Outro é uma forma privilegiada de perceber/descrever categorias que são marginalizadas. Desse modo, a opressão que consiste em uma pessoa branca não reconhecer que subordina a negra é racismo. Isso é tão naturalizado historicamente, que você pode até pensar conscientemente que "todos são iguais e humanos", que "todos merecem direitos iguais" mas será que se preocupa que tem  alguém que serve uma bandeja sempre que você vai comer? E que esta pessoa, em geral, é negra? Você acha que elas devem ter ACESSO e OPORTUNIDADE igual? Se você é privilegiada/o, certamente, a sua função não é a de "desvendar" o que subalternizadxs sentem, querem, desejam sem consultá-las/os e sem ouvir o que têm a dizer. Sua função é repensar a sua construção para, então, desconstruí-la. O que é ser branco? Como é sentir-se branco? O que isso lhe permite ser? O que isso influencia nos seus sonhos?Com isso, quero dizer que o fim do racismo tem a ver com a desconstrução da "branquitude", porque são os brancos quem mantém o racismo operando, porque é confortável. Pessoas negras, mulheres, gordas, transsexuais, pobres, idosas que falam contra si mesmas, seja através de piadas, seja expressando opiniões, na verdade, estão REPRODUZINDO o que elas aprendem diariamente, na televisão, nos filmes, nas revistas, nos telejornais, na escola, nas ruas. Essa falta de consciência de si, essa despersonalização, é efeito de um racismo continuado e cotidiano há séculos.Não existe racismo inverso. Essas situações, servem para você imaginar o quanto é dolorido ser agredido em todos os espaços os quais se transita. TODO DIA. TODO DIA. TODO DIA. TODA HORA.

Até aqui, não temos patologização, não temos demonização, não temos culpa. Não se trata de um problema individual, menos ainda de um problema moral. Você foi ensinada/o a entender que, ser branca/o é bom, desejável, positivo, merecedor/a de cuidado, paciência e direitos. Você aprende a vida inteira nos jornais que a sua vida vale muito, que é absurdo ser violentado/a. Você aprende, também, que o lugar da pessoa negra é o contrário. O problema é COMO você vai mudar essa sua realidade de bem-estar.

É a partir dessa aprendizagem que o racismo estrutura as relações. Primeiro você aprende que existe uma diferença "visível" entre as pessoas, a raça, pela cor e estrutura do cabelo, do corpo etc. Você também aprende a dar valor às características físicas de forma subjetiva (bom/mau, bonito/feio, inteligente/devagar) - racialismo - e depois você vai cristalizando o ensinamento, isso fica natural a ponte de virar uma "verdade". Fica natural interromper uma pessoa preta, esperar que seja criminosa,  violenta, interesseira e que seja menos inteligente ou menos sensível - racismo. Se você disser que "nunca percebeu a raça/cor" de alguém isso significa que você é branco e que, na verdade, não percebeu A SUA cor. Essa suposta "não cor" vai te fazer ver o mundo de uma forma específica que não para pra imaginar outras formas de ver, estar e sentir o mundo, 

Tal dificuldade de expandir os horizontes mostra a centralidade de suas percepções em si mesmas. Uma autorreferência, tal como aquele Homem Vitruviano do topo da página, aquele homem que é a medida de tudo, a chave de interpretação do mundo. Lembrando que esse "tudo" é centralizado e deixa muitas categorias "de fora", mas sem esquecer sua opinião sobre elas. O mundo ocidental é isso: branquitude, sexismo, homofobia, classismo, gordofobia, capacitismo.

Não é uma questão moral, você não precisa se perguntar se é racista, sexista, capacitista. Todas nós somos mergulhas nessa lógica. Se você está num lugar social que permite que você violente, mesmo que não perceba as dinâmicas, está caindo nas armadilhas dela. Sua função é desconstruir esse olhar automático e isso só é possível parando para ouvir o que as pessoas subalternizadas têm a dizer. Obviamente, haverá histórias de dor, desconforto, solidão que você reconhecerá de alguma forma, mesmo não tendo sofrido diretamente. Porque, moralmente, você acha que isso é ruim, é injusto. A questão é repensar em quem é você naquelas situações.

O modo cristão como a nossa sociedade se construiu traz arraigada a culpa. Ela emerge sempre quando entendemos que cometemos um erro moral. No caso da experiência de raça/racialismo/racismo, esse segundo estágio consiste em sentir culpa. "É errado não gostar de negros", então vem aquela dor moral, de romper com o ideal de si mesma/o que se idealiza como pessoa boa, justa e nobre. Pessoa independente de "maldade" como "pôr uma pessoa pra apanhar no tronco" pode ser que ache justo não pagar 10% para garçom. Quando você se dá conta da teia que liga sua vida à vida de pessoas marginalizadas aqui-agora e amplia para os séculos de desigualdade, verá que sim, sabe que é confortável ser racista porque a estrutura está pronta. Que é confortável compactuar com o racismo porque não foi você quem criou. Mas perceberá em seu íntimo, que não é justo, que não combina com a ideia de "bondade" que você tem de si mesmo/a.

A questão é que a culpa causa o estágio terceiro: a vergonha. Vergonha é a sensação de que você errou. Sensação que decorre quando percebe que não sabe o nome das pessoas a sua volta. Quando percebe que sua luta política gera sujeira que uma pessoa profissional mulher e Negra terá que limpar. Quando se dá conta de que usa termos pejorativos e reproduz piadas racistas. A sensação de estranhamento ao notar que a África é um continente, que o Egito fica lá, portanto, não há gente branca que nem nos filmes. Quando percebe que Iemanjá não é branca como você. Quando percebe o porquê da representação de tudo o que é positivo ser embranquecida.

Nesse momento, você tem a certeza de que venceu quarto estágioreconheceu que o racismo existe; que ele é sustentando nas relações pessoais, que ele só existe porque há um esforço em fingir que não entendem o que as pessoas negras estão dizendo/denunciando. Entender que a colonização tornou possível o enriquecimento de pessoas brancas e é por isso que você tem acessos diferenciados. Entender que colonizar significa expropriar, espoliar e se apropriar de bens, terras alheias e desumanizar pessoas. Reconhecer o racismo é, também, reconhecer o seu lugar de pessoa branca, sua branquitude, seu direito de ir-e-vir, seu direito de falar mais alto, de interromper...  direitos que ferem outras pessoas, portanto, não direitos, mas uma proteção que a sociedade dá para cada uma das suas práticas de violações dos direitos. Proteção que, inclusive, transforma essa violência em uma ideia de auxílio, de levar o que é bom, levar civilização. Já parou pra pensar nesse conceito?

A solução na qual devem investir é o quinto estágio: a reparação. Quando falamos em reparação podemos nos remeter à reparação financeira, semelhante aquela empreendida pelo Estado alemão pós II Guerra Mundial. No Brasil, porém, essa reparação financeira foi sabotada assim que aboliram a escravidão formalmente: documentos, registros, provas foram todas queimadas. Nesse sentido, verossímil seria aquela peça dirigida por Lázaro Ramos: "Namíbia, Não!" (2013) em que o Estado brasileiro, reconhecendo a injustiça da escravidão, resolve deportar todas as pessoas negras para o seu "lugar de origem" aproximado (determinado pelo fenótipo/etnia predominante). É uma comédia que aponta e cutuca feridas históricas da Nação. Reconhecer não é apenas uma sensação, é o esforço em mudar a realidade que foi entendida, é operar sobre a desigualdade buscando a reparação/igualdade de direitos e acessos.

Outro aspecto relevante sobre a reparação é que, em geral, ela tem sido confundida com vingança. Óbvio que violência sofrida causa ódio, mas a solução do conflito proposta aqui não é essa. Não nesse momento histórico. Com isso não desautorizo movimentos de resistência passados, pois o contexto era outro. No presente, quero trazer uma crítica à violência que tanto tem sido incentivada. Um exemplo disso é a "trilogia da vingança" do Quentin Tarantino. O filme Django Livre (2013) tem propagado essa concepção de violência como solução ao racismo, fora a exaltação do sexismo - principalmente, da masculinidade negra do silenciamento da mulher Negra (racismo engendrado). Interessante que o Tarantino é branco-homem-cis-rico-heterossexual, o que nos leva a perceber que o imaginário dele de "violência como solução" é algo distinto do fim do racismo e do fim do sexismo. A reparação nesse filme não é um tópico de discussão. O objetivo da história não é reparar a desigualdade de forma plena.

O que tem sido feito em âmbito nacional, por exemplo, é a Política de Cotas Raciais nas Universidades públicas, e concursos públicos. Temos também a parceria entre brancos e negros que nos possibilita criar ficção que transmita valores positivos à população negra (para nos identificarmos como sujeitos/nos construir) e à população branca (para se desconstruir). 

Em suma, através desses estágios e da disposição ao diálogo/negociação o horizonte se alarga.Você passa a ter a dimensão das experiencias que desconhecia, desnaturaliza o  seu cotidiano, desnaturaliza a branquitude e demais privilégios. Passa a respeitar o lugar de fala e lutar para que a população negra possa lutar, falar por si e exigir melhorias político-sociais, em suma, representar/expressar a si mesma. Reconhecer-se brancx significa, portanto, abrir mão de querer ser herói/heroína que salva o povo de sua condição, como se não houvesse causa, apenas a consequência.


Especial Thanks
Profa. Cíntia Schwantes
Daniela Razia
David Yuri
Profa. Edileuza Penha de Souza
Flávia Reys
Profa. Grada Kilomba
Lélia de Castro
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NOTAS

[1] Fui introduzida às questões na disciplina Pensamento Negro Contemporâneo (Universidade de Brasília) ministrada pela professora Edileuza Penha de Souza.
[2] MC SOFFIA. Princesa que nada! Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=-pxDBJ_tgmE>. Acesso em 10 nov. 15.

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CARVALHO, José Jorge de. Bases para uma aliança negro-branco-indígena contra a discriminação étnica e racial no Brasil.Disponível em:  <www.ciadejovensgriots.org.br/livros/racismo%20indios%20e%20negros.pdf>.

DAVIS, Angela. A democracia da abolição: para além do império das prisões e da tortura. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.

LORDE, Audre. Textos escolhidos. [s.L]: Difusão Herética: edições lesbofeministas independentes (folheto), 2013

PHILLIPS, Kayla. What do hardcore, ferguson, and the “angry black woman” trope all have in common? Disponível em: <noisey.vice.com/blog/hardcore-ferguson-and-the-angry-black-woman-essay>.

KILOMBA, Grada. Grada Kilomba: Lidando com o racismo na Europa (subtitled in Portuguese).  Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=DdpUFybJddc>. Acesso em 10 nov. 15.

______.Grada Kilomba in "CONAKRY" a film on Amílcar Cabral. Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=J2GeR7k3j44>. Acesso em 10 nov. 15.

______. Grada Kilomba Interview - Part VI. Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=DoTxt3YAlYI>.Acesso em 10 nov. 15.

MC SOFFIA. #EP07 - EMPODERADAS [ MC SOFFIA ]. Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=yEk2-lolkaA>.Acesso em 10 nov. 15.

É importante assistir:

ORI. Documentário. Direção: Raquel Gerber. 1989; Duração: 131 min. País: BRA. Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=qexH85cYfK4>.Acesso em 10 nov. 15.

ATLÂNTICO NEGRO: NA ROTA DOS ORIXAS. Documentário.  Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=FmRrSUesNTY&list=RDFmRrSUesNTY#t=0>.Acesso em 10 nov. 15.

PIERRE VERGER: MENSAGEIRO ENTRE DOIS MUNDOS.  Documentário. Direção: Lula Buarque. 1996. País: BRA. Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=FyS53WkYyYI&list=RDFmRrSUesNTY&index=2>. Acesso em 10 nov. 15.



sábado, 7 de novembro de 2015

TRADUÇÃO: Idade, Raça, Classe e Sexo: Mulheres redefinindo a diferença (Audre Lorde)

Audre Lorde: "Não são as nossas diferenças que nos dividem. É a nossa inabilidade em reconhecer, aceitar e celebrar tais diferenças".


CONSIDERAÇÕES SOBRE A IMPORTÂNCIA DO ENSAIO DE AUDRE LORDE ATUALMENTE
#marchadasmulheresnegras
#mulherpretaquerviver
#consciencianegra

Se você nunca ouviu falar de Audre Lorde (1984) pode ser que me pergunte a importância de ler um texto que fala sobre categorias neste momento em que vive-se em busca de desconstruir ideas, palavras e as categorias em si. Talvez você até pense interiormente que categorias reafirmam diferenças no sentido de manter a desigualdade. 

Acredito que alguns modos de compreender a desconstrução parecem comprometidos em destruir antes o essencialismo político com a desculpa de que não existe homogeneidade. Ora, é óbvio que somos diversas em termos de subjetividade, visão de mundo, compreensão das coisas. O ponto a ser demarcado não é reafirmar ficções, ideologias, que são atribuídas aos corpos. O ponto é que há pessoas que, visivelmente, são brutalizadas, privadas de direitos, impedidas de acessar espaços a fim de falarem por si mesmas. Essas pessoas - nós - temos total legitimidade para nos agruparmos em busca de direitos que a sociedade se recusa a reconhecer/compreender.

Tenho percebido, principalmente em âmbito acadêmico, um contínuo esforço em desconstruir categorias "negro/a", "mulher" e "não heterossexual" (pessoas que têm direitos negados diariamente) com uma força desproporcional ao esforço de desconstrução de "branquitude", "eurocentrismo", "academicismo" e "masculinidade-cis". Trazer indivíduos para o "outro lado", permitir "aburguesar-se" é antes fagocitose (lembra do capitão do mato?) que desconstrução. Isso não muda a condição de ninguém. Preta e preto famosos continuam sendo pessoas pretas. É um problema estrutural, como disse Beatriz Nacimento (1989):

"A questão econômica não é o nosso grande drama. Apesar de ser um grande drama. O grande drama é justamente o reconhecimento da pessoa do homem negro que nunca foi reconhecido no Brasil"
(Beatriz Nacimento in Ori - Direção: Raquel Gerber -1989. 131 min País: BRA Gênero: Documentário)
Quando Nacimento (1989) diz que os negros não foram reconhecidos no Brasil, ela enfatiza o descaso, a invisibilidade sofrida no cotidiano das relações interpessoais e nas políticas. A afirmação da categoria mulher e Negra, por exemplo, vai contra a indiferença que mantém as injustiças. Mantém porque é impossível lutar contra o invisível, o inexistente. Reafirmar que somos mulheres evidencia que a misoginia existe, que o patriarcado-capitalista existe, que isso estrutura todas as relações. Precisamos afirmar politicamente  tendo em vista que são consequências históricas, não essências biológicas. Reafirmarmo-nos mulheres Negras é um movimento ambivalente: nós temos trajetórias históricas que nos aproxima, dificuldades contemporâneas decorrentes da história de violência, saque e exploração; somos diversas? Somos. Diferentes modos de estar no mundo. Mas ainda não é o mundo que queremos viver. Embora o mundo caminhe rumo à igualdade, ainda não é justo e, enquanto não houver equidade de oportunidades, fala e acessos haverá resistência. Enquanto for necessário resistir, esse texto será uma semente, um presente, um convite à reflexão sobre as estratégias de política pessoal...o que é diferente de personalista. 

Deixo vocês com a nossa tradução clandestina
Preta, Nerd & Bruning Hell


IDADE, RAÇA, CLASSE E SEXO: MULHERES REDEFININDO A DIFERENÇA*

(Audre Lorde**)


Boa parte da história europeia/ocidental nos condiciona para que vejamos as diferenças humanas como oposições simplistas: dominante/dominado, bom/mau, cima/baixo, superior/inferior. Em uma sociedade em que o bom se define em função dos benefícios e não das necessidades humanas, sempre deve existir grupos de pessoas que, mediante a opressão sistemática, são produzidas[2] para sentir que excedem, pra ocuparem o lugar de inferiorização e desumanização. Em meio a essa sociedade, aquele grupo é composto por Negrxs[3] e pessoas de países subdesenvolvidos[4], pessoas da classe operária, pessoas idosas e mulheres.
Como uma mulher de quarenta e nove anos de idade, Negra, Lésbica, Feminista, Socialista, mãe de duas crianças, incluindo um garoto, e membro de um casal inter-racial, eu usualmente encontro partes de mim em algum grupo definido como Outro, desviante, inferior, ou apenas algo que deu errado. Tradicionalmente, na sociedade estadunidense, é solicitado a membros de grupos oprimidos e objetificados que se esforcem por salvar o abismo que separa a realidade da nossa vida da consciência do nosso opressor. Com o objetivo de sobreviver, aqueles para quem a opressão é tão genuinamente norteamericana como a torta de maçã, sempre temos sido obrigadxs a ser bons/boas observadores/as e familiarizadxs com a linguagem e as maneiras do opressor, muitas vezes inclusive adotar esses modos por uma ilusão de proteção. Sempre que se planta a necessidade de uma pretensa comunicação, quem se beneficia de nossa opressão nos pede para compartilhemos com eles o nosso conhecimento. Em outras palavras, isso significa que é do oprimido a responsabilidade de ensinar aos opressores seus erros. Eu sou responsável por educar os professores que depreciam a cultura dos meus filhos no colégio. Das pessoas negras e das que habitam países em desenvolvimento, espera-se que sejam responsáveis por educar a população branca afim de que reconheçam a nossa humanidade. Das mulheres, espera-se que eduquem os homens. Das lesbianas e dos gays que eduquem o mundo heterossexual. Os opressores conservam sua posição e ignoram a responsabilidade de seus próprios atos. Isso é uma drenagem de energia constante que, provavelmente, seria melhor usada na redefinição de nosso próprio ser e na construção realista dos meios para modificar o presente e construir o futuro.
A rejeição institucionalizada da diferença é uma necessidade básica para a economia do lucro que necessita da existência de um excedente de pessoas marginalizadas. Essa economia em que vivemos tem programado a todxs nós para que reajamos com medo e ódio ante as diferenças que existem entre nós e as manejemos dessas três maneiras: 1) ignorando isso e, 2) se não for possível, copiar isso se nós pensamos ser dominante, ou 3)destruir se as consideramos subordinadas. Porém, não possuímos modelos de relação igualitários para nos relacionarmos através das diferenças. Como resultado, tais diferenças tem sido invisibilizadas[5] e postas a serviço da segregação e da confusão.
Entre nós existem diferenças bem reais de raça, idade e sexo. Mas não são essas diferenças que nos separam. O que nos separa é, ao contrário, nossa recusa a reconhecer as diferenças e a analisar as distorções que derivam da falsa nomeação tanto a essas diferenças quanto aos seus efeitos na conduta e nas expectativas humanas:
Racismo, a crença em uma superioridade inerente de uma raça em relação às demais e, portanto, em seu direito de dominação. Sexismo, crença na superioridade inerente de um sexo e, por tanto, em seu direito de dominar. Etarismo. Heterossexismo. Elitismo. Classismo.
Deve haver objetivo permanente de cada uma de nós eliminarmos essas distorções de nossa vida e, ao mesmo tempo, reconhecer, reclamar e definir as diferenças que constituem a base sobre a qual essas ditas distorções se impõem. Porque todas nós temos sido educadas numa sociedade onde aquelas distorções são endêmicas e atravessam as maneiras como vivemos nossas vidas. Com excessiva frequência canalizamos as energias necessárias para reconhecer e analisar as diferenças fingindo que as diferenças sejam barreiras inegociáveis ou simplesmente inexistentes. E ela resulta em isolamento voluntário ou mesmo, em conexões danosas e falsas. Em ambos os casos nós não desenvolvemos os meios de usar as diferenças humanas como trampolim que nos empurre através da criativa mudança em nossas vidas. Em lugar de falar de diferenças, falamos de desvios humanos.
Em algum lugar, num canto da consciência, lá há o chamado da norma mítica, cada um de nós em nossos corações, sabe que "isso eu não sou". Nos E.U.A, essa norma é normalmente definida como branca, magra, macho, jovem, heterossexual, cristão e financeiramente seguro. É nessa norma mítica onde residem as armadilhas de poder da nossa sociedade. Para aquelxs de nós que estamos fora do referido poder, muitas vezes identificadxs de uma maneira que nos faz diferentes e pressupomos que tal identificação é a causa básica de toda opressão, porém, esquecemos-nos de outras distorções relativas à referencia, algumas das quais, talvez pratiquemos. No atual movimento de mulheres é comum que as mulheres brancas se centrem em sua opressão enquanto mulheres e ignorem as diferenças de raça, orientação sexual, classe e idade. A palavra sororidade leva a uma suposta homogeneidade de experiências que não existe realmente.
As diferenças de classe não reconhecidas privam as mulheres da energia e da visão criativa que poderiam proporcionar entre nós mutuamente. Há pouco tempo, o coletivo de uma revista de mulheres adotou a decisão de publicar um número que incluía apenas prosa, alegando que a poesia era uma manifestação literária menos "rigorosa" e menos "séria". Pois bem, a maneira em que se materializa a nossa criatividade vem, muitas vezes, determinada por nossa classe social. A poesia é a mais econômica das manifestações artísticas. É a mais oculta, que requer menos esforço físico e menos materiais, e a que pode ser realizada entre turnos de trabalho, em uma despensa de cozinha de hospital ou no metrô, usando qualquer pedaço de papel. Esses últimos anos, em meio à escrita de um romance e com pouco dinheiro, cheguei a compreensão de que há uma enorme diferença entre as exigências materiais de entre poesia e prosa. Já que reivindicamos uma literatura própria, temos observado que a poesia tem sido a principal voz de pessoas pobres, da classe operária e das mulheres de Cor[6]. Pode ser que, para escrever prosa, seja necessário dispor de um teto todo seu ***, porém, também faz falta: as resmas de papel, a máquina de escrever, além de tempo o suficiente. Requisitos de produção de artes visuais também contribuem para determinar em termos de classe a quem pertence cada forma artística. Nesses tempos em que os materiais têm preços abusivos, quem são nossos escultores, pintores e fotógrafos?Quando falamos de uma cultura de mulheres de ampla base, temos que nos conscientizar dos efeitos que tem as diferenças econômicas e de classe na aquisição dos meios necessários para produzir arte.
Tratamos de criar uma sociedade em que todos podemos avançar, porém, a discriminação baseada na idade é outra distorção das relações que interfere em nossa visão. Ao fazer pouco caso do passado, favorecemos a repetição dos erros. O "abismo geracional" é uma arma social importante para qualquer sociedade repressora. Se as pessoas jovens de uma comunidade consideram que pessoas idosas são desprezíveis, supersticiosos ou supérfluos, nunca serão capazes de somar forças com elas para analisar a Memória viva da comunidade, nem tampouco de perguntar "por quê?". Dessa relação deriva uma amnésia histórica que nos mantém ocupadxs com a necessidade de inventar a roda a cada vez que saímos pra comprar pão
Nós vemos na necessidade de repetir e de voltar a aprender as lições que já sabiam nossas mães porque não transmitimos o que aprendemos ou porque somos incapazes de escutar. Quanta vez foi dito "o que estou dizendo agora?". Por outro lado, "Quem poderia ter imaginado que nossas filhas voltariam a atormentar seus corpos modelando com faixas, cintas e salto alto".
Ignorar as diferenças de raça entre mulheres e as implicações dessas diferenças resulta numa ameaça séria para a mobilização conjunta de mulheres.
Se as mulheres brancas esquecem os privilégios inerentes à sua raça e definem a categoria mulher baseando-se exclusivamente em sua experiência, as mulheres Negras se convertem nas "outras", as estranhas cuja experiência e tradição são tão compreensíveis quanto alienígenas. Um sinal disso é o sinal de ausência da experiência de mulheres de Cor nos cursos de Estudos da Mulher. A literatura de mulheres de Cor raramente é incluída nos cursos de literatura de mulheres e, praticamente nunca em outros cursos de literatura ou nos estudos gerais sobre mulheres. A recusa é muitas vezes justificada pelo fato de que "apenas mulheres de Cor" podem ensinar essa literatura, ou que é muito difícil de compreender, ou que não se pode acessar uma experiência "tão diferente". Tenho ouvido esta argumentação de mulheres brancas que, por mais precária que seja a inteligência, não tem problema algum em lecionar e analisar o trabalho oriundo de experiências vastas de Shakeaspere, Molière, Dostoyevky e Aristófanes.  É óbvio que há outra explicação.
Essa é uma questão complexa, mas eu creio que uma das razões para a qual mulheres brancas encontram dificuldade em ler autoras Negras é a relutância em enxergar Negras como mulheres e diferentes delas. A análise da literatura das mulheres Negras requer, de fato, que nos veja como um grupo com todas as nossas complexidades - como indivíduos, como mulheres, como seres humanos em lugar de substituir a verdadeira imagem das mulheres Negras por estereótipos problemáticos, porém familiares que a sociedade proporciona. Na minha opinião, o mesmo pode se dizer a respeito da literatura de outras mulheres de Cor.
A literatura de todas as mulheres de cor recria a textura de nossas vidas e, muitas mulheres brancas estão empenhadas em passar por cima das diferenças autenticas. Pois sim, se elas consideram que a inferioridade de uma das partes é consubstancial à diferença, o reconhecimento disso pode acarretar sentimentos de culpa. Permitir que as mulheres de Cor saiam dos limites dos estereótipos provoca um sentimento de culpa à medida que ameaça a situação cômoda das mulheres que vem a opressão como uma opressão relacionada exclusivamente ao sexo.
Negar a reconhecer as diferenças impede de ver os diversos problemas e perigos os quais enfrentamos todas nós como mulheres.
Na estrutura de poder patriarcal, um dos privilégios pontuais é ter a pele branca, uma vez que o enredo usado para neutralizar Negras e brancas não é o mesmo. Por exemplo: é fácil para a mulher Negra ser usada pelo poder estrutural através do homem negro, não porque eles são homens, mas porque eles são negros. Por outro lado, para mulheres Negras, é necessário o tempo todo separar as necessidades do opressor dos seus próprios conflitos legítimos no interior de suas comunidades. Esse problema não existe para mulheres brancas. Mulheres Negras e homens negros têm compartilhado opressão racista e ainda compartilham isso, porém, de diferentes formas. A opressão compartilhada nos tem feito desenvolver defensas e vulnerabilidades conjuntas que não são duplicadas na comunidade brancas, exceto em relações entre judeus e judias.
Por outro lado, mulheres brancas encaram a armadilha de serem seduzidas a se ligar ao opressor sob pretenso compartilhamento de poder. Essa possibilidade não existe dessa mesma forma para mulheres de Cor. As cotas mínimas de participação que, às vezes, nos oferecem não são um convite a ascendermos; nossa outridade racial é uma realidade visível que torna a armadilha visível. Para mulheres brancas, a disposição delas, há uma série de supostas alternativas e recompensas por identificarem-se com o poder patriarcal e suas armas.
Nestes tempos em que Era**** vem a baixo a economia é abalada e aumenta o conservadorismo, as mulheres brancas são mais propensas que as mulheres Negras a caírem na perigosa arapuca de crer que se elas forem suficientemente boas, belas e doces, se ensinarem aos filhos boas maneiras, a quem deve detestar e que deverá se casar com um bom partido, isso permitirá coexistirem em relativa paz com o patriarcado, ao menos até que um homem necessite de posto de trabalho ou até que cruze com o violador do bairro. É certo que, a não ser que se viva em trincheiras, é difícil recordar que a guerra contra a desumanização jamais cessa.
Nós mulheres Negras e nossas filhas sabemos que a violência e o ódio formam parte inextrincável da trama de nossas vidas e que não há descanso possível. Não apenas enfrentamos a eles nas barricadas ou nos becos escuros, mas também nos lugares onde nos atrevemos a verbalizar nossa resistência. Para nós, a violência está cada vez mais entrelaçada ao nosso cotidiano; a encontramos no supermercado, na sala de aula, no elevador, na clínica, no pátio da escola, do encanador, do padeiro, da vendedora, do motorista de ônibus, do caixa-de-banco, da garçonete que não nos atende.
Alguns problemas nós compartilhamos como mulheres, outros não. Seu medo de seu filho crescer e adentrar o patriarcado e testemunhar contra você, nosso medo de nossas crianças sejam arrastadas por carros e jogadas na rua, e você retomará mais uma vez as razões de morte deles.
Aquele tipo de diferença tem sido menos obliterado para POC. Aquelxs de nós que são Pretas poderiam ver que a realidade de nossas vidas e nossos esforços não nos torna imunes aos erros da invisibilização e não-nomeação da diferença. Na comunidade negra onde o racismo é uma realidade vivida por todxs, diferenças entre nós muitas vezes parecem perigosas e suspeitas. A necessidade de unificação é, muitas vezes, nomeada erroneamente como uma necessidade de homogeneidade, e o Feminismo Negro comete o grande erro de trair sua visão em prol dos interesses gerais. Devido à batalha contínua contra o apagamento racial que pessoas Negras compartilham, algumas mulheres Negras ainda se recusam a elaborar que nós somos também oprimidas porque somos mulheres, e a hostilidade sexual contra mulheres Negras é praticada não apenas pela sociedade branca e racista, mas implementada através de nossas comunidades negras com sucesso. Isso é uma doença que golpeia o coração da nação negra e o silencio não fará com que o problema desapareça. Exasperados pelo racismo e as pressões da falta de poder, violentar a atacar Negras e crianças muitas vezes se torna nossa comunidade um estandarte, uma das quais medidas de virilidade. Em suma, é raro aludir a esses aspectos de ódio contra a mulher quando se fala de crimes cometidos contra as Negras.
O grupo de mulheres de Cor é o pior remunerado nos EUA. Primeiro nós somos submetidas primeiro a abusivas violências como aborto e esterilização aqui e no exterior. Em certas partes da África, garotas pequenas continuam sendo circuncisadas para "manter a docilidade para o prazer dos homens". Esse fato não é um affair cultural (sexualidade agressiva) como inistiu Jomo Kenyatta, isso é um crime contra a mulher Negra.
A literatura de mulheres Negras é permeada de dor de frequentes ataques, não apenas pelo patriarcado racista, mas também por homens negros.  Já a necessidade de uma história de compartilhamento que nos constituiu, mulheres Negras, particularmente vulneráveis à acusação falsa de que o anti-sexismo é anti-negro.  Tal como assinala o escritor negro Kalamu ya Salaam: enquanto houver dominação masculina haverá violação. Apenas a revolta das mulheres e a tomada de consciência de suas responsabilidades na luta contra o sexismo por parte dos homens poderá acabar com essas violências sexuais.
As diferenças existentes entre as mulheres Negras também recebem nomes falsos e se empenham na separação uma das outras. Sendo como eu sou, feminista lesbiana e Negra, que se sente cômoda com os diversos e numerosos ingredientes de sua identidade, assim como uma mulher comprometida com a liberação racial e sexual, me encontro uma vez mais na situação de que se me pede que abandone algum dos aspectos de mim e o apresente como se fosse o todo, eclipsando e negando as demais partes que me compõem. Porém, viver assim é destrutivo e fragmentário. Para concentrar minhas energias necessito integrar todas as partes do que eu sou, sem ocultar nada, permitindo que o poder que emana de minhas distintas fontes de minha existência flua livremente entre meus distintos seres, sem o impedimento de uma definição imposta desde fora. Somente assim posso me por, com todas as minhas energias, a serviço das lutas às quais me entrego e formam parte de minha vida.
O medo das lesbianas, o de ser tachada como tal, tem levado muitas mulheres Negras a testemunhar contra si mesmas. Há algumas de nós que têm se lançado à alianças destrutivas e outras  que tem sido levadas à desesperação e ao isolamento. Nas comunidades de mulheres brancas, o heterossexismo, às vezes, o resultado de uma identificação com  o patriarcado branco e constitui uma recusa a essa independência das mulheres identificadas com as mulheres que permite que sejam elas mesmas em vez de estar a serviço dos homens. Outras vezes reflete a mortal crença na colaboração protetiva de relacionamentos heterossexuais, as vezes o auto-ódio que toda mulher deve lutar contra.
Estas atitudes estão presentes em alguma medida em todas as mulheres, mas em mulheres Negras onde se encontram maiores ressonâncias do heterossexismo e da homofobia. O vínculo entre mulheres tem uma larga e honorável história nas comunidades africanas e afroamericanas e, apesar dos enganos e conhecimentos demonstrados por muitas mulheres Negras identificadas com mulheres, fortes e criativas, que têm destacado nas esferas política, social e cultural, as mulheres Negras heterossexuais tendem a desdenhar ou a serem omissas da existência e a obra de lesbianas Negras. Esta atitude deriva em parte de um compreensível terror contra as represálias masculinas e o estreito ambíguo da sociedade Negra, onde o castigo contra qualquer intento de autoafirmação por parte da mulher segue sendo que te acusem de lesbiana e, em consequência, de não merecer as atenções nem o apoio dos homens Negros que são um bem escasso. Mas a necessidade de estigmatizar ou relegar ao esquecimento as lésbicas Negras também deriva de um medo muito real de que as mulheres negras identificadas com as mulheres, que tem deixado de depender dos homens para definir a si mesmas, possam chegar a reorganizar nosso conceito de reações sociais.
As Mulheres Negras, que insistiam na ideia de que a lesbiandade era um problema de mulheres brancas, se empenharam em propor que as lesbianas Negras são uma ameaça para a nação Negra, uma vez que são aliadas do inimigo e uma negação do que é ser negro. Essas acusações, lançadas por mulheres são as que precisamos buscar uma compreensão real e profunda, tem induzido a muitas lesbianas Negras a manterem-se ocultas, atravessadas entre dois fogos: o do racismo das mulheres brancas e a homofobia de suas irmãs. Muitas vezes, o trabalho delas tem sido ignorado, trivializado ou não-nomeado, tanto trabalhos de Angelina Grimke, Alice Dunbar-Nelson, Lorraine Hansberry. Em sem problemas, as mulheres vinculadas a outras mulheres, já foram nossas tias solteiras ou as amazonas de Daomé, sempre tem contribuído para conformar o poder das comunidades negras.
E, certamente, não são as lesbianas que agridem as mulheres e violam meninas e as avós nas ruas de nossas comunidades.
 Em todo o país, as lesbianas Negras estão na vanguarda dos movimentos contra a violência sofrida pelas mulheres Negras; estiveram, por exemplo, nos protestos que se desencadearam em Boston na primavera de 1979 doze assassinados de mulheres Negras.
Quais aspectos concretos de nossas vidas devemos analisar e modificar com objetivo de contribuir de modo a se produzir mudanças? Como redefinirmos as diferenças? Não são as nossas diferenças as que nos separam e sim a renúncia de reconhecer as diferenças e a desmontar as distorções derivadas de omissões das diferenças ou denominá-las de forma que não apropriada.
Um dos mecanismos de controle social consiste em induzir as mulheres a outorgar legitimidade a uma só área das diferenças humanas, a que existem entre as mulheres e os homens. E todas temos aprendido a enfrentarmos essas diferenças contra com a primeira que caracteriza a atitude de qualquer subalternizado. Todas temos tido que aprender a trabalhar e a coexistir com os homens desde os nossos pais. Temos reconhecido as diferenças e nos temos adaptado a elas, inclusive quando reconhecê-la suporia perpetuar o velho modelo de relações humanas dominante/dominado, segundo o qual o oprimido deve aceitar a diferença do amo se quiser sobreviver.
Porém a nossa sobrevivência futura depende da nossa capacidade para relacionarmos um plano de igualdade. Se as mulheres desejamos enganar a mudança social que não seja sob aspectos meramente superficiais, temos que arrancar a raiz dos modelos de opressão que temos interiorizado. Devemos reconhecer as diferenças que nos distinguem de outras mulheres que são nossas iguais, nem inferiores, nem superiores e desenhar os meios que nos permitam utilizar as diferenças para enriquecer nossa visão e nossas lutas comuns.
O futuro da Terra pode depender da capacidade das mulheres para identificar e desenvolver novas definições do poder e novos modelos de relação entre as diferenças. As velhas definições não tem sido benéficos para nós e nem para a terra que nos sustenta. Os velhos modelos são habilmente retocados para imitar o processo, seguem condensando-nos a incorrer na repetição camuflada das relações de sempre, do sentimento de culpa de sempre, do ódio, a recriminação, os lamentos e a desconfiança.
Pois levamos incorporadas as velhas pautas que nos marcam umas expectativas e umas formas de resposta, as velhas estruturas de opressão e tudo isso tendemos que modifica-lo assim que modificarmos as condições de vida que são consequência de ditas estruturas. Pois as ferramentas do senhor nunca desmontam a casa do amo.
Tal como explica brilhantemente Paulo Freire**** em Pedagogia o Oprimido, o verdadeiro objetivo da troca revolucionária não é apenas a situação de opressão da qual pretendemos nos libertar, mas também é a parte do opressor que foi implantada em nosso interior e que somente conhece tais táticas dos opressores e as relações dos opressores.
Toda mudança comporta um crescimento e o crescimento pode ser doloroso. Mas ao mostrar nosso ser mediante a luta e o trabalho compartilhado com aquelas a quem definimos como diferentes e as que nem tanto, nos unem por objetivos comuns, vamos conseguindo perfilar melhor a definição de nós mesmas. Esta pode ser a via de sobrevivência para todas as mulheres, Negras, brancas, maiores ou jovens, lesbianas ou heterossexuais.

Temos-nos escolhido uma a outra como companheiras
Para compartilhar cada porção de nossas batalhas em comum
A guerra é a mesma
Se nós perdermos
Algum dia o sangue das mulheres
Cobrirá uma vez o planeta morto
Se vencermos
Não há o que contar
Buscaremos atrás da história
For uma melhor e mais possível relação.




Thanks:
Professora Virgínia V. Leal 
Pelo primeiro olhar, questionamentos e sugestões 
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NOTAS


* O título original do texto é Age, Race, Class and Sex: Women Redefining Difference. Paper delivered at the Copeland Colloquium, Amerst College, April 1980. Reproduced in: Sister Outsider Crossing Press, California 1984. Disponível em:
 <www.socialism.com/drupal6.8/sites/all/pdf/class/Lorde-Age Race Class and Sex.pdf>. Acesso em 5 out. 15. Traduzido para a disciplina de Pós Graduação em Literatura e Práticas Sociais da Universidade de Brasília (UnB) ministrada pela professora Virgínia Vasconscelos Leal.

** "Audrey Geraldine Lorde foi uma escritora caribenha-americana, feminista radical, mulherista, lésbica e ativista dos direitos civis. Um dos seus esforços mais notáveis foi o seu trabalho militante com as mulheres afro-alemães na década de 1980" - O artigo completo está aqui na Wikipedia.

*** Referência ao ensaio da escritora inglesa Virginia Woolf, Um teto todo seu publicado em 1929. Apesar do texto clássico de Woolf tenha sido importante por revelar questões sobre escrita de mulheres, a história das mulheres o lugar de fala da autora tem limites que Lorde pontua com propriedade. Tem um pouco do ensaio da Viginia Woolf aqui no google books (em inglês).

**** Paulo Freire: Paulo Reglus Neves Freire foi um educador, pedagogista e filósofo brasileiro. É considerado um dos pensadores mais notáveis na história da Pedagogia mundial, tendo influenciado o movimento chamado pedagogia crítica (Artigo da Wikipedia completo: aqui)


[1] Tradução livre do texto "WHILE I WRITE" de Grada Kilomba. Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=UKUaOwfmA9w>. Acesso em 18 mai. 15.
[2] Embora o texto original use "make" no sentido de "fazer" traduzi por "produzir" tomando ideias pós-coloniais de Grada Kilomba de uma vivência contemporânea de diversas experiências da "plantation" mediada pelo idioma e por símbolos que semeiam profundamente a subjetividade de indivíduos negrxs (KILOMBA, 2010).
[3] Assim como observado na coletânea "The Black Woman: na anthology" (CADE, 1970), um marco para a escrita de mulheres Negras nos Estados Unidos, optei por grafar Negra (ao referir-se à interseção mulher e Negra) para diferenciar de pessoa negra.
[4] Lorde usa Terceiro Mundistas que é um termo usual naquela época, mas que, atualmente, caiu em desuso (ao menos) formalmente.
[5] Partindo da ideia de que o "que não tem nome", o não nomeado não existe, notamos as limitações da língua imposta nos processos de colonização como comprometidamente insuficientes para a expressão de experiências subalternizadas.
[6] Traduzi People of color (POC) como "pessoas de cor"  e não como "pessoas negras" pra evidenciar que o colorismo não é uma questão particularmente brasileira e, também, para deixar a marca temporal do texto original. Afinal de contas: branco é uma cor socialmente codificada como não cor, uma visão localizada no privilégio branco. Quanto ao Estados Unidos, a definição "pessoas de cor" inclui todos os povos (não apenas os indivíduos) não-brancos, não-cristãos (negros, judeus, indianos, chineses, árabes), enquanto, no Brasil, a discriminação contra o indivíduo se dá  pela cor da pele e traços fenotípicos negros e/ou indígenas (raça/cor segundo o IBGE).


REFERÊNCIAS


CADE, Toni (org.). The black woman: an anthology. Canada: A Mentor Book, 1970.
KILOMBA, Grada. While I write. Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=UKUaOwfmA9w>. Acesso em 18 mai. 15.
______. Plantation Memories: episodes of everyday racism. Budapeste: Unrast, 2010.
LORDE, Audre. Sister outsider: essays and speeches. California: The Crossing Press, 1984.