quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

5 COISAS MAIS DITAS PARA PESSOAS NEGRAS


Que nosso cotidiano nerd de mulher negra é descentrado (isso é, fora do eixo/padrão) o mundo não nos deixa esquecer um dia. E essa experiencia é absurdamente comum na antigas colonias a tal ponto que não se pode ignorar que somos ainda Pós Colonias. Não outra coisa. Não ainda.

Apesar de sermos marcadas pela malha cotidiana do racismo em todos os continentes, é através de situações bem específicas que o racismo "à brasileira" se dá, aquele que não se aceita racista, que acredita que a democracia racial é verdadeira, que Casagrande e Senzala se equiparam ",mas".

... se a gente não rir, não (sobre)vive. Não existe um dia sequer que não perguntam o porque de deixar o cabelo PROPOSITALMENTE pra cima (han...chama black power. O cabelo É assim).

É através dessa experiencia comum, que a Lorena Monique teve a sacada de gravar o video " 5 COISAS MAIS DITAS ÀS PESSOAS NEGRAS". Através de ironia, ela descreve as situações rotineiras de comentários e duvidas de pessoas brancas para pessoas negras. As frases fazem a gente se identificar na hora, é bem isso e, o melhor: o racismo tá ali tao naturalizado que o exagero do humor torna didatico (para brancos racistas) e recreativo para Negras e negros que se identificam: sé ppssivel sentir a sensação de comunidade nesse video.

É importante ressaltar a qualidade do video. Uma boa apropriação dos meios para trazer a tona o que é de nosso interesse, mas é inviabilizado pelo Mainstream (hegemônica). Uma proposta de mídia negra pescando sua audiência negra. Iniciativa louvável, irmã.

O roteiro é bem sagaz, pois cavucou a fundo as 5 violências "subterrâneas" e trouxe a tona de forma leve, empoderada. A edição, ficou incrivelmente dinâmica, sagaz, bonita. Falar em bonita, se liguem nas dicas de visual nerd que o video trás naquelas mudanças todas. Curti demais! Quero mais videos como esse! E você? Que tal uma temporada?

Siga a Lorena no instagram: @NEGGATA
Comenta no video que você quer uma temporada inteira:  #continuelorena

Preta, Nerd & Burning Hell.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

TRUE BLOOD E O RACISMO 1: Panorama




*cuidado: spoiler*
é bom ter visto as 7 temporadas pra ler 


“É importante entender que racismo não é algo pontual, uma biografia particular, algo que acontece uma ou duas vezes, mas sim a acumulação de eventos violentos que estão presentes em todas as esferas do cotidiano e que continuidade ao passado devido a repetição de um abuso paternalista histórico
(Grada Kilomba)


Como disse no post sobre #nerdiandade, sempre gostei muito de seriados de ficção, em especial, os vampirescos. Neles - assim como nos filmes de terror trash - nunca havia uma razão identitária compatível com a minha realidade, mas eu gostava assim mesmo, tanto que vim parar nesse blog nerd

Invariavelmente, as mulheres com relevância para a trama (isso é, a sucessão de acontecimentos que constituem a ação de uma obra de ficção (1) ) nunca eram Negras em Buffy e Angel da "Terça Vampiros" na FOX e, mesmo que não fossem as primeiras a morrerem, morriam. A maioria das Negras em filmes vampirescos, quando "do bem" pode ser reduzida a uma existência sem relevo, com a família desestruturada (quando há) e com atributos "masculinos" (2), ou seja: força, racionalidade, controle de si, independência, agressividade, dominância. Atributos femininos são apenas os negativos: histeria, intuição, submissão, cooperação (5). Esse é o padrão, mas, em 2008, tive uma surpresa agradável ao assistir a série True Blood. Vamos por partes:

1) Ficção Especulativa

Podemos por os estilos de narrativa (que não são gêneros literários) como Ficção Científica, Fantasia, Horror, Terror, Gótico num grande guarda-chuvas denominado Ficção Especulativa. Ela é um comentário (em forma de metáfora ou metonímia) sobre algum desconforto social (6). Em relação as lutas por representação, temos como exemplo os quadrinhos de Stan Lee e Jack Kirby: X-Men.  Estes que são "os adolescentes mais estranhos do mundo" são a forma afável de mostrar aos privilegiados que a diferença é múltipla e a perseguição sanguinária. Noutras palavras, uma aula lúdica sobre inequidade (desigualdade). Não porque os dois rapazes eram "muito legais", mas porque o mercado precisava dar resposta às lutas por Direitos Civis para negros (e uso masculino propositalmente) como os Panteras Negras. Caso se interesse, há análises que, dentre outras coisas, comparam Magneto ao Malcom X e  Charles Xavier ao Martin Luther King.

2)Metodologia

Para fazer a análise panorâmica sobre o comentário social, usarei a técnica de Leitura Retórica rápida que consiste em focar a ação para compreender os comentários sociais, e em que nível se dá a luta contra as discriminações. 

3) Plot

Tru Blood é uma série televisiva estadunidense que foi transmitida, no Brasil, pelo canal HBO entre 2008 e 2014, baseada livremente na série de livros de Charlaine Harris: Mortos até o amanhecer. Além disso, foi adaptada para os quadrinhos pelo roteirista da série pra TV: Alan Ball. Segundo nossa amiga Wikipédia "True Blood fala sobre a co-existência de vampiros e humanos em "Bon Temps", uma pequena cidade fictícia localizada em Louisiana. A série é focada em Sookie Stackhouse (Anna Paquin), uma garçonete telepata que se apaixona pelo vampiro Bill Compton (Stephen Moyer)"., 

Pra quem não assistiu a série, Sookie é a moça loura no centro da primeira imagem ( a Vampira dos X-Men); Bill o único homem à esquerda. Das sete pessoas, duas são negras e o mais interessante: são primos! Mas estou pulando etapas. Vamos por camadas.

4) Metáfora Anti-racista

Desde o século XIX, notamos que a literatura vampiresca está relacionada ao "medo de contaminação", a invasão da sua individualidade, propriedade e pureza por algo grotesco, destoante do padrão. Embora não se fale especificamente de raça ou classe, é exatamente  de hierarquização social que se trata a relação do vampiro com a sua vítima: os dentes rasgam e sugam para si a essência (sangue) a medida que contamina com o gérmen vampírico.Os clássicos "Drácula" e "Karmilla" são sobre pessoas caucasianas com título de nobreza que se apoderam de vítimas socialmente inferiorizadas. Bon Temps, como releitura daqueles góticos oitocentistas, não é diferente. Usa dessa imagem para compor uma crítica às relações raciais nos Estados Unidos. Assim como X-Men, teremos uma quantia ínfima de negros e Negras em histórias que falam sobre racismo. À saber de pessoas negras com falas e que estão em mais de uma temporada de TB temos: Lettie Mae, Tara Mae, Lafayette e o Pastor Daniels (marido da primeira). Todos eles formam uma única família de subtramas muito (muito mesmo) secundárias.

Desde o primeiro episódio, notamos que a história é sobre pessoas brancas: os Stackhouse e os vampiros Bill, Eric e Pam. Uma vez que os japoneses criaram o sangue sintético, os vampiros puderam "sair do caixão" a fim de conviverem pacificamente com humanos. Nesse ínterim, muitos movimentos fundamentalistas (principalmente) cristãos protestantes, brancos, "classe A" atacam os vampiros com comentários racistas. Dentre eles, reina o "eles não são humanos" e são "violentos, irracionais". Como resposta a isso, Nan Flaganan, representante da Liga Americana de Vampiros, responde numa entrevista:

Somos cidadãos e pagamos nossos impostos, merecemos os direitos civis Três pontos. Primeiro: mostrem-me documentos. Não existem. Segundo: sua raça nunca explorou ninguém? Nunca tivemos escravos, Bill, ou detonamos bombas nucleares. E mais importante, terceiro: agora que os japoneses desenvolveram o sangue sintético que satisfaz nossas necessidades nutricionais não há razão alguma para que alguém nos tema (TB T1, E1)

Temos um comentário explícito sobre como "o padrão de humanidade" se comportou ao longo da história, o quanto isso é verificável historicamente e, implicitamente, a busca por direitos civis como a transmissão de herança (drama vivido por Bill, quando se vê próximo da "Morte verdadeira" e, quer deixar seus bens para a cria Jessica).

5) "Negro Racista"

Assim como não existe "negro racista" e nem "mulher machista", pois a discriminação se dá pela diferença, pelo "não ser", não faz sentido que você discrimine a si mesmo. Pode haver problemas de identificação e reprodução da violência que foi interiorizada, porque sim, a gente lida com isso o tempo todo. Tomando esse argumento como verdade, é bastante irônico que não são poucas as cenas em que negros se comportam de forma absolutamente discriminatória com vampiros, absorvendo a ideologia que é usada contra si mesmo. Lettie Mae, mãe da Tara, é uma mulher Negra, alcoolista, desfuncional, agressiva, obcecada,  que absorve esse discurso contra a coexistência como se fosse branca falando de negros. Curioso que é exatamente a vivência em meio violento e de desamor a causa, dentro da trama, para ela agir dessa maneira, isto é, o racismo e a misoginia juntos, agindo como força violenta que deforma a psique. O álcool é a fuga e, posteriormente, o "V" (sangue vampírico) para essa realidade terrível. A mãe louca, "que esquece de alimentar a filha" tanto emocionalmente quanto no sentido óbvio, é um estereótipo muito comum e serve como forma de minimizar a história da filha e dar um horizonte de expectativa para suas ações. Um bom momento da série para mostrar que é importante se repensar, muito embora as forças deformantes jorrem pra cima de nós. Óbvio que o problema do mundo, da iniquidade, não é um problema negro, mas as pessoas negras tem responsabilidades

6) Raça humana e Raça vampírica

A certeza científica de que não existem raças, mas sim etnias humanas, é um elemento ambivalente que trespassa todas as temporadas da série. Embora haja uma tensão social e, muitas vezes, verbalizada entre negros e brancos, isso não é problematizado diretamente. Como nos X-Men, é como se o racismo como ele é, fosse um problema já resolvido no mundo, que é bobagem falar sobre

Quanto a aos brancos-mortos-vivos, embora sejam vampiros e tenham desvantagens burocráticas, perceberemos que há a certeza de seu lugar, direitos e o conforto para transitar em qualquer lugar como seres que têm privilégios. Assim, observamos que aquela construção identitária que negros tem (seja do apagamento e negação, seja da incompatibilidade com padrões) destoa da altivez dos vampiros que vem da vivência branca.

7) Conclusão

True Blood é uma série vampiresca que, através da ironia, trata de questões raciais nos Estados Unidos. Embora o racismo se dê de forma diferente nos E.U.A, é possível identificar as semelhanças também, porque o foco é a metáfora do racismo. Não a coisa em si. É uma quase discussão, portanto.

Temos personagens progressistas e outros nem tanto. Devido a essa complexidade, vou dedicar o próximo post a elas. Hasta!

Preta, Nerd & Burning Hell





(1) HOUAISS, Antônio.  Dicionário Eletrônico de Língua Portuguesa 3.0.
(2) Vou dar uma pausa pra quem não está familiarizada com idéias/discussões feministas e Negras. Se você já manja, pode pular tranquilamente! Primeiro: nossa organização social separa seres humanos a partir da sua genitália e de outros aspectos biológicos, como macho e fêmea. Como consequência dessa divisão essencialista yin-yang, pra ser mais ilustrativa (3), os valores opostos de dominância (preto) e passividade (branco)  foram atribuídos respectivamente ao que se convencionou chamar de homem e mulher, que são as "funções sociais". Então, nessa perspectiva, o corpo é o sexo (macho/fêmea) e o "como você existe, como se veste, se comporta e o que pode fazer" é o gênero (homem/mulher). Essa é a lógica binária que exclui a pluralidade, um ponto importante na história do(s) feminismo(s). Porém,  essas duplas podem se recombinar de forma "inadequada" socialmente, então, a partir dos anos 70, essa discussão tomou forma até chegarmos a uma pluralidade que está fora desse arranjo: o queer. Segundo: quanto à raça (4), temos a interseção de duas experiências sociais discriminadas: mulher e Negra. Como a nossa sociedade foi fundada a partir da relação colonial, a lógica de mundo que prevaleceu foi ética vitoriana: a de que pessoas negras são mais fortes, não sentem dor e são animalizadas; que as mulheres são seres frágeis, pálidas, magras...delicadas. Ou seja: a cultura dominante, além de inserir as mulheres Negras na base da pirâmide social, reafirma todo o empo que nós não somos mulheres. Terceiro: nosso plano é empoderamento: vencer todos os obstáculos, sermos saudáveis, felizes, complexas, bem sucedidas de forma plena. Mais sobre isso, ler: COVINGTON, Lisa Danielle. All the girls are white, All the blacks are male: experiences of young black woman on the the west coast . San Diego University, 2010.(Dissertação)
(3) BEAUVOIR, Simone de. O Segundo sexo Vol. 1.
(4) Estou me referindo ao conceito social de raça, não biológico. Lembrando que ninguém, no Brasil, é discriminada porque pertence à cultura/biotipo X, mas pela cor da pele e traços distintivos como cabelo crespo. Nesse sentido, todas as etnias negras são dissolvidas e vira "negro", que é uma experiência social, não biologicamente determinista.
(6)HOWARD, Sheena C.; JACKSON II, Ronald L. Black Comics: Politics of Race and Representation. New York : Bloomsbury Academic, 2013. Disponível em: <books.google.com.br/books?hl=ptBR&lr=&id=RexLAQAAQBAJ&oi=fnd&pg=PA133&
dq=black+comics&ots=7uqfjaOSSl&sig=v6g7D5uVpJvZnN36I8aDSuKstuU#v=onepage&q&f=false>. Acesso em: 9 dez. 13.





sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

MÍDIA E RACISMO 2

A propaganda tem como objetivo estimular a consumo de certo produto e, quanto mais amplo o gama dessa massa (diversidade), mais rentável eficaz é a campanha. Devido a nossa trajetória histórica (exploração, expropriação, abusos), durante muito tempo a presença de pessoas negras nos comerciais era nula. Esse vazio tanto serve para apagar a possibilidade de identificação com aspectos positivos, de sucesso, beleza  e, assim, tentar nos programar para a servidão. Cada vez mais, o público negro tem saído da invisibilidade nas propagandas, o que significa ser visto também como consumidores. Apesar desse holofote, precisamos olhar com desconfiança porque ele não se deu porque a hegemonia é "massa", muito pelo contrário: tem a ver com lutas dos movimentos negros e de mulheres que exigiram e exigem até hoje a presença não estereotipada; e com o capitalismo, que necessita não da igualdade entre as pessoas, mas que essas consumam.

1) Alegadamente racista

O a imagem de outdoor abaixo (propaganda do Playstation One, manjada, eu sei...) é uma associação evidente entre produto e ideologia. Primeiro: há um contraste entre preto e branco.  A cor associada à raça está reforçada nas roupas das duas mulheres e, como roupa também é produto, há uma associação entre "você é o que você consome!". Mais do que isso: o que consumimos define a nossa sociabilização: a esquerda está em posição de inferioridade "o invisível", a fragilidade, a fraqueza, a certeza de que está sendo ameaçada de aniquilação. A mulher à direita (lado pra onde o olhar se dirige primeiramente), branca, destaca-se do fundo negro e distingue-se de tudo; segura o rosto com expressão ofensiva. Pra completar há o texto que reforça "Playstation Branco portátil está vindo". Vindo em breve pra quê? No mínimo desbancar. Mas eu sugiro que seja EXTERMINAR mesmo.



Nesse caso, a mensagem ostensivamente discriminatória não está em camadas profundas de análise, o que possibilita combate direto, sem dispersar com a galera "deixa disso".  


2) Escorregadia:

>>>Encontre seu penteado e #vaiqvai
>>>Crespo

Essa campanha do creme de pentear da Seda já começa bem ao dar nome aos tipos de cabelo. Clicando em crespo e, em seguida, curto temos quatro vídeos, cada um com  uma atriz negra usando o produto ao mesmo tempo que ensina a fazer penteados simples e eficazes para o dia-a-dia. Os doze vídeos de cabelos crespos (curtos, médios e longos). É muito positiva essa presença de modelos com blackpower que se mostram conscientes do seu valor a ponto de inspirarem essa tal confiança. Valores como auto-estima, descontração e alegria são destacados nos vídeos o que justifica muito a enorme aceitação do público-alvo.  Eu também achei bem divertido e útil. 
Embora tenha gostado muito dos vídeos, notei um jogo um tanto escorregadio porque há simultaneamente o estereótipo num vídeo e depois a quebra  no outro! Tem a Negra que vai para o samba e a que vai para o rock, mas todas na sessão "crespo" são muito magras e com sinais de "feminilidade" que são reforçados pelo #vaiqvai conquistar aquele gato. 
Temos aí um impasse muito comum: pessoas negras empoderadas (ex: blackpower) são normalmente justapostas a pessoas brancas que fogem aos padrões, geralmente entrelaçados, como se a negritude em si fosse uma disfunção. Ser negra, portanto, impossibilita a ocorrência simultânea de outros "desvios" físicos e de gênero (interseccionalidade). Esse ponto é crucial, pois quando formos observar as personagens, notaremos que, além de um lugar (função)  especifico, a pessoa negra tem que ser magra, heterossexual, cis, com visual "clean", ao passo que são justapostas por pessoas brancas que podem ser o contrário e a junção de vários desses contrários ao padrão hegemônico.


Em suma: apreciei muito a propaganda #vaiqvai da Seda, pois está repleta de valores positivos para mulheres Negras. Por outro lado, muitos estereótipos permanecem em camadas menos evidentes.



Preta, Nerd & Burning Hell

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

MÍDIA E RACISMO 1

Quando falamos de mídia hegemônica, estamos nos referindo aquela que domina o mercado, a que chega pra todo mundo[1] e, consequentemente, tem mais força de influencia. Aquela que diz que negro só pode ser vilão e Negra só pode ser empregada - nada mais. A esta imobilidade e lugar definido previamente, chamamos de estereótipos. A luta é basicamente contra a reprodução de estereótipos, pois a realidade é diversa e dinâmica. A arte tem que mostrar isso. Blagh.

A Mídia Hegemônica não apenas direciona para a ideologia dominante como influencia a nossa sociabilidade nas relações públicas e privadas. Os filmes, as séries, as canções tudo isso tem uma função pedagógica (aspecto que abordarei noutro post), que, através dos exemplos, nos diz o que podemos e devemos ser. No caso das novelas da Globo: as mulheres Negras jovens (aliás, Taís Araújo e Sheron Menezes!) não podem ser protagonistas felizes e lindas e amadas e com família estruturada. Ou vem um apelo do público para substituir pela Aline Morais ou de mocinha vira vilã e por aí vai.  Por isso que é importante olhar de forma crítica para todo o conteúdo que nos envolve: outdoor, jingle, filme, novela, seriado, HQ, blog, jornal. Tão querendo nos fazer viver como ELES querem: ficar confinadas na "essência" e no "dado físico" ou morrer tentando ser o que não poderá ser NUNCA.

Preocupada em divulgar ideias de quem tem privilégios sociais[2], a mídia usa de diversas estratégias pra fazer "passar batido" o racismo e outras discriminações. 

Observamos abaixo , na fala da escritora Grada Kilomba (clique no nome dela), muito do que é perceptível no cotidiano de sermos pessoas negras e vivermos nesse mundo.



Preta, Nerd & Burning Hell



[1] "Todo mundo é gente demais", mas não tem como evitar essa generalização. O conteúdo que atinge a grande maioria como os personagens da DC e da Marvel (Superman, Batman, X-Men, Mulher Maravilha, Hulk) então nos sitiando o tempo todo nas roupas, materiais escolares, suingueiras, arrochas. Não precisa consumir o quadrinho diretamente, pra saber quem é o Coringa, certo?
[2] Resumindo: Pessoas que transitam com facilidade e comandam as instituições

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

INTRODUZINDO A MINHA #NERDIANDADE

A origem da minha identificação como mulher Negra e nerd parece ser uma boa forma de iniciar as postagens nesse blog e, mais do que isso, identificar a minha proposta.

Escrever sobre o passado é um exercício de ficção que faço com frequência. Então é natural que eu tenha respostas articuladas sobre o porquê disso ou daquilo, principalmente das gêneses de cunho nerd. Vamos lá.

Já me convenci que o ponto exato da minha iniciação ao mundo Nerd (e, posteriormente, Blerd ou Anti_Nerd - veremos!) é certa tarde, aos seis ou sete anos de idade, quando assisti pela primeira vez Buffy: a caça vampiros. Foi a primeira personagem mulher e empoderada que eu vi. Daí pensei: "wooahh, ser garota é legal!" e senti o baque... "mas ela não parece NADA comigo". Aí fui percebendo que, nos jogos e nos quadrinhos, ou as personagens eram "garotas-brancas-fortes", "garotas-negras-sem-emoções" ou eram homens-negros-fortes. Exemplos dos anos noventa como a Lara Croft (Tomb Raider), Jax (Mortal Kombat), Kendra (Buffy a Caça Vampiros) deixavam-me estarrecida. Nesse momento já podia me identificar com a Diana (Caverna do Dragão) ou mesmo a Tempestade (X-Men), mas elas não me convenciam completamente por algo que eu não sabia o porquê. Mas era nada menos que a generalização ou, estereótipo.

Como cresci numa família negra em que eu era a única guria, natural que (também) tivesse acesso aos brinquedos "mais legais", videogames, faz-de-conta-de-matar-monstros, séries e desenhos fantásticos e violentos. Foram neles que comecei a me espelhar, sempre buscando uma personagem adequada a ser nas brincadeiras. Era tão fácil para os meninos... mas aquilo: "nem branca, nem homem eu sou: alternativas a isso?". O RPG (GURPS, 3D&T) é um bom degrau, porque possibilitou ser o que eu queria ser. Talvez também a paixão pelos jogos de corrida, será?

Certamente, até chegar onde estou agora, foi um processo de pensar, repensar e, academicamente, perceber que essa reflexão é viável. Talvez, mais do que a mídia em si, o que me levou a ampliar as camadas dessa discussão sobre ser Preta &Nerd foi a convivência em meios feministas, femininos, negros, classe média e não-média e suas demandas pela MINHA ADEQUAÇÃO a qualquer estereótipo de raça, sobrenome, filiação:

"Como assim, não sabe sambar???"
"Não quer ser rainha de bateria?"
"Como você não conhece funk ?"
"Você não é superfã da Beyoncé???"
"Qual o seu problema? Você é estranha!"

Esses questionamentos (longe de estarem aqui por "ai como sofro") me fizeram redimencionar o estar neste universo masculino e branco. E por aí vai. Encontrar uma comunidade, não tem a ver com identificação total, já sabemos. Mas tem a ver com conforto pleno na diferença múltipla. Tem a ver com politizar as relações, e, sobretudo, pensar que, entre pessoas negras, o afeto é político. Viver é político. Pensar é Político.

Assim, #nerdiandade, como costumo me referir à identidade nerd, é (dentre várias coisas) um tipo de posicionamento político, uma estratégia contradiscursiva prática que significa:

1)Resistir ao mundo infiltrando-se na hegemonia midiática como autoras/es, consumidoras/as e críticas
 2) Exibir uma complexidade gestual que não é adequável aos estereótipos
3) Adotar a hibridez de forma consciente a fim de demarcar o pós-colonialismo e tudo o que nos foi expropriado.

Então esse blog é sobre a mulher Negra nerd que você quiser ser.

Bora?

Preta, Nerd & Burning Hell

PROPOSTA

O que me levou a criar esse blog foi a invisibilidade do diálogo entre garotas Negras nerds no Brasil. Sei que é uma frase que soa equivocada, mas foi a sensação que tive após o 1º Encontro Ladys Comics (o evento foi ótimo, mas como sou Feminista Negra,  é esse o meu óculos de ver o mundo). Muito confortável visitar diariamente o Black Girls Nerds (BGN) ou o Graveyard Shift Sisters, mas onde estão as irmãs Nerds aqui perto, falando português?

Eu sei, em muitos lugares. Disso não tenho dúvidas.

Alice Walker autografando seu livro pra mim ;D
Bom, quando troquei email com a Jamie Broadnax (criadora do BGN) e ela me disse que criou o site porque não conseguia acreditar que era a única senti que poderia ter uma iniciativa desse tipo. Então, motivada por essas ações (e pela minha mania de opinar sobre tudo) decidi criar esse blog e escrever sobre:

* Representação das Personagens Negras em Ficção Especulativa
* Bandas, musicistas, temas, personagens, nos quadrinhos, filmes, seriados.
* #nerdiandade: a partir de uma ótica política.
Não quer dizer que vou falar unicamente sobre séries negras, mas que lançarei esse olhar sobre o que amamos (a história lá dos óculos).

Preta, Nerd & Burning Hell